Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Bukowski. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Bukowski. Mostrar todas as mensagens

domingo, 12 de janeiro de 2020

"Confissão" - Poema de Charles Bukowski


Joseph Caraud (French painter, 1821-1905), Ball of Yarn, 1863



Confissão


Esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo. 


(Tradução: Jorge Wanderley, 1938-1999) 



Joseph Caraud, La réussité, 1896



EPITÁFIO


Chegar já foi a partida.
De onde estive até nascer.
Viver só custou a vida.
Não custa nada morrer.


Jorge Wanderley
(1938-1999)


Jorge Wanderley nasceu no Recife, Pernambuco, em 1938. Médico, poeta e tradutor, começou a escrever aos 16 anos de idade, publicando seu primeiro livro Gesta e outros poemas, em 1960. Ainda em sua cidade natal, formou-se em Medicina, com especialização em Neurocirurgia, carreira que abandonaria alguns anos após sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1976. Na capital carioca, concluiu mestrado e doutorado em Letras, pela PUC. Nesta universidade e na UFF foi professor de Literatura Brasileira e Teoria da Literatura nos anos 1980.

Conhecido sobretudo como tradutor e crítico literário, não menor foi sua obra própria, que se estendeu ao longo de quatro décadas, resultando em um fazer poético que permaneceu sempre em constante contrução, grande parte reunido hoje em sua Antologia Poética, livro publicado postumamente em 2001. Jorge Wanderley  publicou inúmeras crônicas e ensaios literários em revistas e jornais, além de uma dezena de traduções, tanto de clássicos da literatura, de Dante (de quem traduziu todos os poemas esparsos e também os poemas de Vita nuova) a Shakespeare, como de autores contemporâneos, entre os quais Bukowski, com quem muito se identificava, por ver no bardo americano uma reprodução de si mesmo.

Em 1998, finalizou a primeira parte de seu projeto que compreendia a tradução integral d' A Divina Comédia — com a tradução anotada do Inferno, de Dante. Também escreveu ensaios e prólogos acerca de suas traduções, sendo laureado postumamente com o Prêmio Jabuti de Tradução Literária, em 2004, pela sua tradução do Inferno.

Jorge Wanderley faleceu no Rio de Janeiro, em 11 dezembro de 1999. (Daqui)


domingo, 22 de setembro de 2019

"O Pássaro Azul" - Poema de Charles Bukowski


O Pássaro Azul


há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?


Charles Bukowski,
emTextos autobiográficos, de Charles Bukowski”
[tradução de Pedro Gonzaga; edição de John Martin].
Porto Alegre: L&PM Editores, 2009.
(Daqui)


 
Marc Chagall, L'oiseau bleu (The Blue Bird), 1952



Bluebird


there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,

I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.

then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die

and we sleep together like
that
with our
secret pact

and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?
 in “The Last Night of the Earth Poems”
Santa Rosa CA: Black Sparrow, 1992.
(Daqui)


Animação baseada no poema "O pássaro azul" de Charles Bukowski. 
“Bluebird” inspirou a designer Monica Umba, estudante de Cambrigde School of Art a fazer uma releitura
 do poema em forma de animação gráfica.


"Eu não sei porque comecei a escrever poesia. É uma questão de sobrevivência. O pássaro sabe porque voa? Não. Então também não sei [porque escrevo]."


 Deborah Brennand, em "Letras verdes", 2002.



terça-feira, 19 de março de 2019

"Quatro e meia da manhã" - Poema de Charles Bukowski


Everett Shinn, Fifth Avenue, circa 1899 



Quatro e meia da manhã


Os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos
do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro e dirão:
“ele tá bêbado de novo”,
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo e
como algo esfaqueado
e cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.


Charles Bukowski

Tradução: Jorge Wanderley

.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

"Revelando a mágica" - Poema de Charles Bukowski


Robert Panitzsch (Dinamarquês, 1879-1949)



Revelando a mágica


um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está a fim
um bom poema é como um misto
quente quando você está
faminto,
um bom poema é uma arma quando
a multidão te cerca,
um bom poema é algo que
te permite atravessar as ruas da morte,
um bom poema pode fazer a morte derreter como
manteiga quente,
um bom poema pode emoldurar a agonia e 
pendura-la na parede,
um bom poema permite teus pés tocarem
a China,
um bom poema pode fazer uma mente despedaçada 
voar,
um bom poema te permite cumprimentar
Mozart,
um bom poema te permite jogar dados
com o diabo
e ganhar,
um bom poema pode fazer quase qualquer coisa, 
e o mais importante
um bom poema sabe quando
acabar.


Poema de Charles Bukowski
Tradução de Fernando Koproski
do livro "Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém" 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...