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quarta-feira, 6 de maio de 2026

"As nuvens" - Poema de João Cabral de Melo Neto

 


Auguste-Émile Pinchart (French painter and designer, 1842–1920),
'A young girl with a parasol', Unknown date.



As nuvens


As nuvens são cabelos
crescendo como rios;
são os gestos brancos
da cantora muda;

são estátuas em voo
à beira de um mar;
a flora e a fauna leves
de países de vento;

são o olho pintado
escorrendo imóvel;
a mulher que se debruça
nas varandas do sono;

são a morte (a espera da)
atrás dos olhos fechados;
a medicina, branca!
nossos dias brancos.


João Cabral de Melo Neto, in "O Engenheiro", 1945;
in "Poesia Completa", Editora Alfaguara, 2020.
 
 

João Cabral de Melo Neto - Poesia Completa
Organização: Antonio Carlos Secchin
Capa: Gustavo Soares. Páginas: 896
Editora: Alfaguara, 2020
 

RESUMO

Esta edição comemora os cem anos do escritor, poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto, ícone da poesia brasileira. 
 
Um dos maiores poetas de língua portuguesa do século XX, João Cabral de Melo Neto ficou conhecido pelo estilo conciso, rigor formal e apurada crítica social — numa comparação feita por ele mesmo, o poeta seria como um escultor, que incessantemente corta a pedra até que a escultura surja de dentro dela.
 
Sua produção foi reunida nesta Poesia completa, que traz seus primeiros poemas e depois seu primeiro livro, Pedra do sono, lançado no início dos anos 1940, passando por textos que já se tornaram clássicos da nossa literatura como O cão sem plumas, Morte e vida Severina, A educação pela pedra, Museu de tudo, Auto do frade, até Sevilha andando, seu derradeiro livro.
 
O autor faleceu em 1999, deixando uma obra de força descomunal. Para comemorar seu centenário, esta Poesia completa traz ainda textos póstumos, dispersos e inéditos, organizados por Antônio Carlos Secchin com a colaboração de Edneia Ribeiro. 
 
“Mudou profundamente não só a poesia, mas a cultura brasileira.” — João Alexandre Barbosa
 
“Na sua geração, não tem quem o iguale, mesmo em dimensão universal.” — Augusto de Campos
 
“Cortava a poesia com a faca só lâmina de sua extraordinária força vocabular, criando impactos ao mesmo tempo plásticos e fundamentais. Nunca usava o enfeite como complemento da essência, tudo nele era inaugural, primeiro, único.” — Carlos Heitor Cony
 
“Ela [a poesia de João Cabral] trata as palavras como se fossem coisas e organiza essas coisas de tal maneira como se fossem conceitos.” — Antonio Candido



Auguste-Émile Pinchart (French painter and designer, 1842–1920),
'At the quayside', Unknown date.


"Os sonhos são verdadeiros enquanto duram, e não vivemos nos sonhos?"

Alfred Tennyson, in "The Higher Pantheism", 1867.

 
 
“Os sonhos são verdadeiros enquanto duram, e não vivemos nos sonhos?”

Fonte: https://citacoes.in/autores/alfred-tennyson/
“Os sonhos são verdadeiros enquanto duram, e não vivemos nos sonhos?” Alfred Tennyson De sonhos

Fonte: https://citacoes.in/autores/alfred-tennyson/

terça-feira, 21 de abril de 2026

"Uma Luz existe na Primavera" - Poema de Emily Dickinson



Auguste-Émile Pinchart (French painter and designer, 1842–1924),
 "Allegory of Spring", n.d.
 

Uma Luz existe na Primavera


Uma Luz existe na Primavera
Não presente no ano
Em qualquer outra estação –
Quando Março já chegando

Uma Cor se firma
Campos Solitários afora
Que a Ciência não alcança
Mas a Natureza Humana elabora.

Ela aguarda sobre a Relva,
A Árvore mais longínqua ela revela
E na mais remota Encosta, tu sabes,
Ela quase contigo fala.

Então quando Horizontes se movem
Ou meios-dias já longe ecoam
Sem a Fórmula do som
Ela se despede e nós ficamos –

Uma qualidade de perda
Que afeta nosso Contentamento
Como se Vendilhões subitamente
Houvessem usurpado um Templo.


Emily Dickinson
, in 'Duzentos Poemas'
 Tradução de Ana Luísa Amaral
 
 
 
'Duzentos Poemas' de Emily Dickinson
Tradução de Ana Luísa Amaral
Editor: Relógio D'Água, 2014 
 
 
Em vida, Emily Dickinson publicou menos de dez poemas. Após a sua morte, a 15 de Maio de 1886, Lavinia, a irmã, encontrou fechados numa caixa quase mil poemas.
 
 

Auguste-Émile Pinchart, Young woman with bouquet of flowers, 1901.



A Light exists in Spring
(Original)

A Light exists in Spring
Not present on the Year
At any other period –
When March is scarcely here

A Color stands abroad
On Solitary Fields
That Science cannot overtake
But Human Nature feels.

It waits upon the Lawn,
It shows the furthest Tree
Upon the furthest Slope you know
It almost speaks to me.

Then as Horizons step
Or Noons report away
Without the Formula of sound
It passes and we stay –

A quality of loss
Affecting our Content
As Trade had suddenly encroached
Upon a Sacrament.
 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

"A beleza paradisíaca" - Texto de Rubem Alves


 
Auguste-Émile Pinchart
(French painter and designer, 1842–1920),
Gathering flowers, Unknown date.



A beleza paradisíaca


Conhece-se a beleza dádiva dos deuses por aquilo que ela produz na alma dos homens. Quem é possuído por ela entra em êxtase: cessa o riso, cessa o choro, o pensamento para, a fala emudece. É mística. A alma está tomada pela felicidade da tranquilidade absoluta. Era assim que se sentia o Criador ao contemplar, ao final de cada dia de trabalho, o resultado da sua obra:
“Está muito bom! Do jeito que deveria ser! Nada há de ser modificado! Amém!”


Rubem Alves (1933–2014), in "Um céu numa flor silvestre: A beleza em todas as coisas"


 
"Um céu numa flor silvestre" de Rubem Alves.
Verus Editora, 12/12/2011 - 260 páginas.
 
 
SINOPSE 

Tendo como inspiração a poesia de William Blake, Rubem Alves nos surpreende mais uma vez com esta coletânea de crónicas inéditas.
Esta obra leva o leitor a uma viagem pelas mais diversas formas de beleza presentes no dia a dia, as quais, muitas vezes, passam despercebidas ao observador menos atento – a beleza que pode ser revelada pelo divino, exaltada pelas artes, enaltecida pela natureza, ou criada, descoberta e compartilhada pelos homens. O autor também nos mostra como o belo pode ser visto de forma diferente, dependendo do olhar que o contempla e do momento especial em que é visto. 
"Um céu numa flor silvestre" vai transportar o leitor para o reino da beleza, enchendo sua alma de poesia, de esperança, de sonhos. E, para embarcar nessa viagem, só uma coisa é necessária: ter o olhar transformado. (daqui)
 
 
Ver um Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor silvestre,
Ter o Infinito na palma da sua mão
E a Eternidade numa hora. 



William Blake
[Poeta, pintor e tipógrafo inglês, 1757–1827]

 
Auguste-Émile Pinchart, Collecting Wildflowers, ca. 1890.


"A mulher é a mais bela das aves que existe na terra."


Alfred de Musset
[Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857]
 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

"Outono" - Poema de Miguel Torga


 
Auguste-Émile Pinchart (French painter and designer, 1842–1924),
"La Libellule" ("The Dragonfly").



Outono

 
Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas. 

1966

Miguel Torga, do livro: "Diário X", 
 Gráfica de Coimbra, 1968.
1.ª edição, 198 páginas. 
 

sábado, 4 de março de 2023

 "Não quero amar mais ninguém" - Poema de Maria Firmina dos Reis


Auguste-Émile Pinchart (French painter, 1842-1920), Autumn fantasy, 1874


Não quero amar mais ninguém

 
Quereis que eu cante na lira
Os meus amores? Pois bem;
Os meus amores são sonhos,
Eu nunca amei a ninguém.

Temi que, amando na terra,
De amor me viesse algum mal.
Criei no céu meus amores,
Amei ao meu ideal.

Oh! nem sabeis quanto é belo
Um ideal de mulher!
É belo como arcanjos,
Aos pés do Supremo Ser.

É grato, belo, é deleite,
Encanta, enleia, seduz,
Como nas trevas da noite
Se brilha ao longe uma luz.

Fala... sua voz é saltério;
São gratos hinos a Deus;
São acentos misteriosos;
Que sobem puros aos céus.

Se nos sorri, — seu sorriso,
São ternos votos de amor;
São como gota de orvalho
De leve beijando a flor.

P’ra que amores na terra,
Se amo ao meu ideal?
Amores que cavam prantos,
Amores que fazem mal!...

E teço-lhe grinalda de poesia,
Singela, e odorosa;
E dos anjos escuto a melodia
A voz harmoniosa.

E um doce ambiente se respira,
E mais doce langor;
Expande-se meu peito — a alma suspira
Ofegante de amor.

E a música celeste recomeça
Ao som de nosso amor:
Mistério! A lua é pura... a flor começa
A vestir-se de odor.

É tudo belo... toda a relva é flor,
Todo o ar poesia!
O prazer é do céu... aí o amor
É hino de harmonia.

Que importa que sejam sonhos
Os meus amores? Pois bem,
Eu quero amores sonhando,
Não quero amar mais ninguém.


Maria Firmina dos Reis, in "Cantos à beira-mar",
São Luís do Maranhão, 1871
 
 
Auguste-Émile Pinchart, The water carrier
 

“Se você ama, sofre. Se não ama, adoece.”