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sábado, 28 de dezembro de 2024

"A uma criança longe" - Poema de Rui Knopfli



George Goodwin Kilburne (English painter, 1839–1924), Mother and child, 1864.


A uma criança longe


Escrevo-te estas palavras
sabendo que as não lerás.
Entanto, o desejo de comunicar
é maior do que essa certeza.
Estamos irremediavelmente longe
de todos os contactos possíveis,
mas tu aconteceste,
encheste
o frio de nossas vidas
com o calor do teu sorriso
e a graça de teus gestos.
Breve,
como breve paira
a leve folha outoniça,
ou a humilde gota de chuva
que se desprende do beiral,
foi a tua presença entre nós.
Sua lembrança persistente
está no gosto amargo do sorriso,
marcada na fronte,
no brilho empalidecido de nossos olhos.
Intimamente, no mais íntimo
de mim
esquadrinhei todos os ângulos
do improvável. Nunca mais
nos encontraremos. Jamais.
A morte é isso, é acabar
simplesmente, não acontecer mais
jamais.
Nada me auxiliam as lágrimas
que me salgam a face
e o muito que tenho blasfemado
de borco, rente ao teu silêncio gelado.
Esta a lógica prosaica dos factos:
Continuamos a viver, dolorida
a consciência
da tua cada vez maior ausência.
E teu pequeno corpo moreno,
que nem todo o amor aquece,
é um palmo de ternura
que apodrece. 


Rui Knopfli
, Obra Poética, 2003


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

"Velhas Árvores" - Poema de Olavo Bilac



George Goodwin Kilburne (English painter, 1839–1924), The Picnic, c. 1900 (watercolour)


Velhas Árvores


Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

 
Olavo Bilac, in “Poesias”
Editora Martin Claret, S.P., 2003, p. 138.


 
George Goodwin Kilburne, The family picnic (watercolour)


"Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos
 em papel para registar todo o nosso vazio."

Khalil Gibran 
 
Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar todo nosso vazio.

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/602952-khalil-gibran-arvores-sao-poemas-que-a-terra-escreve-para-o-ceu/

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

"Aniversário" - Poema de Ana Luísa Amaral


 
George Goodwin Kilburne (English painter, 1839–1924), A Tender Moment
(Interior with Mother and Daughter at the Breakfast Table)
, c. 1880.
 

Aniversário


Sentei-me com um copo em restos de
champanhe a olhar o nada.
Entre crianças e adultos sérios
Tive trinta em casa.

Será comovedor os quatro anos
e a festa colorida
as velas mal sopradas entre um rissol
no chão e os parabéns:
quatro anos de vida.

Serão comovedores os sumos de
laranja concentrados (proporções
por defeito) e os gostos tão
diversos, o bolo de ananás,
os pés inchados.

Será soberbamente comovente
toda a gente cantando,
o mau comportamento dos adultos
conversas-gelatinas e os anos
só pretexto.

Mas eu gostei. E contra mim gostei
mesmo no resto:
este prazer pequeno do silêncio
um sapato apertando descalçado
guardanapo e rissol por arrumar
no chão e um copo

olhando o nada
em restos de champanhe


Ana Luísa Amaral 


 
George Goodwin Kilburne, Mother and Daughter


"As crianças, atentas ao presente, agora-agora, conseguem transformar tempo comum em férias. 
Eu, ao deixar de saber como fazê-lo, ganhei a capacidade de observá-lo."

 
José Luís Peixoto, em "Abraço"

 

George Goodwin Kilburne, Memories 
(Pencil and watercolor with gum arabic and with scratching out on paper)


"Tenho medo que os meus filhos nunca cheguem a entender aquilo que lhes conto quando ficamos em silêncio, quando o tempo passa e estamos juntos, no mesmo lugar, eu a conduzir em viagens longas com horizonte e eles, ao meu lado, a olharem pela janela, ou quando é fim da tarde, também com horizonte, em silêncio." 


José Luís Peixoto, em "Dentro do Segredo"


domingo, 20 de novembro de 2011

"O Segredo é Amar" - Poema de Fernanda de Castro



George Goodwin Kilburne (English painter, 1839–1924),
 Watering the flowers, c. 1924


O Segredo é Amar


O segredo é amar. Amar a Vida 
com tudo o que há de bom e mau em nós. 
Amar a hora breve e apetecida, 
ouvir os sons em cada voz 
e ver todos os céus em cada olhar. 

Amar por mil razões e sem razão. 
Amar, só por amar, 
com os nervos, o sangue, o coração. 
Viver em cada instante a eternidade 
e ver, na própria sombra, claridade. 

O segredo é amar, mas amar com prazer, 
sem limites, fronteiras, horizonte. 
Beber em cada fonte, 
florir em cada flor, 
nascer em cada ninho, 
sorver a terra inteira como o vinho. 

Amar o ramo em flor que há de nascer, 
de cada obscura, tímida raiz. 
Amar em cada pedra, em cada ser, 
S. Francisco de Assis. 

Amar o tronco, a folha verde, 
amar cada alegria, cada mágoa, 
pois um beijo de amor jamais se perde 
e cedo refloresce em pão, em água! 


Fernanda de Castro
,
in "Trinta e Nove Poemas" , 1942
 
 

  
Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro (1900-1994), romancista, poeta e conferencista portuguesa, conhecida pelo seu nome de solteira, com vasta e diversificada obra, escreveu poesia, literatura infantil, romance e memórias. Filha de um oficial da Marinha ficou órfã de mãe aos doze anos. Estudou em Portimão, Figueira da Foz e Lisboa, tendo frequentado, nesta cidade, os Liceus D. Maria Pia e Passos Manuel. Começou por escrever livros infantis com sucesso nomeadamente "Mariazinha em África", 1926; "A Princesa dos Sete Castelos" e "As Novas Aventuras de Mariazinha", 1935. Conheceu África que transmitiu com talento nos seus livros. Casada com António Ferro, jornalista e homem forte do regime de Salazar, promoveu a cultura no país e estrangeiro em importantes exposições. Criou e desenvolveu, nos anos trinta, a Associação Nacional dos Parques Infantis, dadas as suas excelentes relações com as mais altas instâncias governamentais. A sua poesia é francamente inspirada e está de novo a ser divulgada. Destacam-se "Asa no Espaço", 1955; "Poesia I e II", 1969, "Urgente", 1989. David Mourão-Ferreira elogia vivamente a sensualidade feminina dessa poesia. Fernanda de Castro recebeu, em 1969 o Prémio Nacional de Poesia e recebera em 1945 o Prémio Ricardo Malheiros pelo romance "Maria da Lua". Escreveu até praticamente ao fim da vida, embora nos últimos anos a doença a retivesse na cama. Foi mãe do escritor António Quadros e avó da escritora Rita Ferro. Escreveu “Ao Fim da Memória: Memórias (1906-1986)”, 1986. (Daqui)
 


George Goodwin Kilburne, Maiden meditation, 1866 (watercolour)
 

Herdei uns olhos claros, sem pecado,
toda uma tradição, todo um passado,
de inocência, de amor e de perdão.
Um desejo de paz, de vida calma,
uma alma capaz de só ser alma,
E um doloroso, humano coração.


Fernanda de Castro