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sábado, 3 de fevereiro de 2024

"Poema à Janela" - Cruzeiro Seixas



Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920-2020), "Finalidade sem fim", 2004.

 

Poema à Janela

 
Tentemos ainda a inocência.

Gritem os de cima
destes raios negros
tensos no espaço
que somos realmente uns ladrões
tão ricos de pobreza
como os pássaros.

Eu digo que roubei o amor
como roubo agora
todas as riquezas dos outros
e também todas as misérias,
agora a minha própria insónia.

Guardo tudo dentro de mim
a sete chaves
e o meu esqueleto
é feito de todos os objetos
roubados.
 

Cruzeiro Seixas, Obra poética, 
 Edições Quasi
 
 
Cruzeiro Seixas, Personagem estudando o cometa Halley, 1957.
Grafite e tinta da China sobre papel. 
 

Noturno
 

Na cidade, a lua:
a joia branca que boia
na lama da rua. 
 
 
Guilherme de Almeida,
Haicai do Brasil. Org. de Adriana Calcanhotto.
Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

"Quando o homem atinge" - Poema de Cruzeiro Seixas


Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920-2020),  
"Tu e Eu em Tamanho Natural", 2007
 
 
 
Quando o homem atinge

 
Quando o homem atinge
aproximadamente a sua medida
rebentam as lágrimas nas mais altas serranias
e assim nasce
algures um povo
um espelho de prata
na vastidão de um leito.

Uma espécie de descoberta
inútil
mas que sempre será celebrada
como uma imensa revoada de pombos.

Nada a fazer
o palhaço
está caído entre os seus símbolos
a gritar para além do vidro
à chuva
sobre a evidência da terra empapada.

Um homem
um fruto
ou melhor
um minúsculo som
engaiolado na janela
aberta
na tua carne fremente.
 
 
Cruzeiro Seixas, Obra poética, 
 Edições Quasi
 

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

"Logo que te deixo" - Poema de Cruzeiro Seixas


Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920-2020), "A fábrica dos Espelhos", 2009.


 
Logo que te deixo
 

Logo que te deixo
há um rio que corre ao teu lado veemente
e da outra margem
os diabos com as suas lanternas
falam da infância submersa
no além.

Daqui até à linha do horizonte
as marés embalam maternalmente os mortos
e o seu canto
arrasta as góticas catedrais até ao mar
onde flutuam e vão
com cornos de ouro
e hélices que espadanam mil diamantes.

Por toda a parte há sonhos
a empurrar outros sonhos
para o abismo.

A magia do espelho quebrado
é uma longuíssima viagem
sem regresso. 


Cruzeiro Seixas, Obra poética
Edições Quasi
 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

"Um cão é isto de sermos gente" - Poema de Artur do Cruzeiro Seixas


Cruzeiro Seixas, Nº I da Destruição às 4,35, 1959


Um cão é isto de sermos gente


Um cão 
é isto de sermos gente. 

Se temos só duas pernas 
temos em contrapartida 
uma complicação escura 
dentro do peito. 

Qualquer coisa como 
os fundos desconhecidos 
da água 
só conhecidos 
dos náufragos. 

Para matar 
é preciso uma arma 
e para voar 
como búzios 
precisamos papel e lápis 
— e assim viajamos 
dentro de vegetais malas de viagens 
procurando o destino sufocante 
de todas as paragens.


Cruzeiro Seixas
in 'Homenagem à Realidade'


Cruzeiro Seixas


Artur do Cruzeiro Seixas, nasceu em 1920, na Amadora. No seu percurso artístico, conta com uma fase expressionistaneorrealista e, a partir de 1948 – quando tomou parte da atividade dos surrealistas Mário CesarinyCarlos CalvetAntónio Maria Lisboa ou Mário Henrique Leiria – de uma via surrealista que não mais abandonará. 

É autor de um vasto trabalho no campo do desenho e pintura, mas também da poesia e escultura (objetos). Em 1952 foi viver para Angola, onde realizou várias exposições individuais e projectos na área da museologia. Partiu em 1964, fugindo da guerra colonial que se vivia e decidiu empreender uma viagem pela Europa. 

Cruzeiro Seixas é, hoje, considerado um dos precursores portugueses do surrealismo fantástico, inspirado em De Chirico. As suas obras caracterizam-se pela conjugação de personagens híbridas e subvertidas, assentes em planos de profundidade que seguem normas de perspectiva, luz e sombra próximas da representação da realidade. Do surrealismo proposto por Breton, interessou-lhe sobretudo a liberdade de criação: “Direi ainda quanto me admiro de que as pessoas se manifestem diante do ilógico de uma pintura surrealista, e se mostrem passivas diante do ilógico que lhes é imposto no dia-a-dia“. (Daqui)


Cruzeiro Seixas, Navegantes especiais (colaboração de Courbet), 1975
 

"A pintura é cada vez menos pintura, mas sim poesia."

(Artur do Cruzeiro Seixas)


domingo, 23 de junho de 2013

"Era um pássaro alto como um mapa" - Poema de Cruzeiro Seixas


Obra de Cruzeiro Seixas



Era um pássaro alto como um mapa


Era um pássaro alto como um mapa
e que devorava o azul
como nós devoramos o nosso amor.

Era a sombra de uma mão sozinha
num espaço impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão.

Era a chegada de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal
dentro de um pequeno diamante.

Era um arranha-céus
regressado do fundo do mar.

Era um mar em forma de serpente
dentro da sombra de um lírio.

Era a areia e o vento
como escravos
atados por dentro ao azul do luar.


Cruzeiro Seixas
em "Áfricas", 1950



Vida e Obra de Cruzeiro Seixas
Cruzeiro Seixas, Autorretrato, 1975, Serigrafia, 38 x 56 cm


Cruzeiro Seixas, de nome completo, Artur Manuel Rodrigues do Cruzeiro Seixas (Amadora, 3 de Dezembro de 1920) é um pintor e poeta português.
Frequentou a Escola António Arroio, onde fez amizade com Mário Cesariny, Marcelino Vespeira, Júlio Pomar e Fernando Azevedo.
Em meados da década de 1940 aproxima-se do neorrealismo, de que se afasta quando adere aos princípios do surrealismo. Juntamente com Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Carlos Calvet, Pedro Oom e Mário-Henrique Leiria, entre outros, integra o grupo Os Surrealistas, resultante da cisão do recém formado movimento surrealista português. Participa na exposição desse grupo em 1949 (1ª exposição dos Surrealistas, Lisboa).
Em 1950 alista-se na Marinha Mercante e viaja até África, Índia e Ásia. Em 1951 fixa-se em Angola, desenvolvendo atividade no Museu de Luanda. Data desse tempo o início da sua produção poética. Realiza as primeiras exposições individuais, que levantam um acalorado movimento de opinião (a primeira de desenhos sobre a evocação de Aimé Cesaire, em 1953; a segunda principalmente de «objectos» e «colagens», 1957).
Regressa a Portugal em 1964. Recebe uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian em 1967. Nesse mesmo ano realiza uma pequena retrospetiva na Galeria Buchholz (com folha volante de Pedro Oom e prefácio de Rui Mário Gonçalves) e expõe na Galeria Divulgação, Porto. Em 1970 expõe individualmente na Galeria de S. Mamede, Lisboa, um conjunto de desenhos "de uma imagética cruel, ilustrações possíveis de Lautréamont".
Trabalha como programador nas Galerias 111 e S. Mamede, Lisboa. Viaja pela Europa; entra em contacto com membros do surrealismo internacional. Radica-se no Algarve na década de 1980, trabalhando como programador de diversas galerias. Colabora em revistas internacionais ligadas ao surrealismo, a que sempre se manteve fiel.
O traço certeiro de Cruzeiro Seixas, "de limites apurados e atmosferas de vertigem […] edifica um mundo desolador em que a face onírica e literária não esconde a violência do conjunto, destruindo toda a possibilidade de quietude". Mas essa noite primordial e inquietante "soube coexistir com paisagens mais ligeiras e felizes, como algumas das pintadas nos anos de Angola, e com citações plásticas da história da arte, num jogo de grande prazer plástico, bem como com objetos dotados de flagrante poética, na sua simplicidade de materiais, de técnicas e no sobressalto imaginativo."
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Cruzeiro Seixas, No dia a seguir ao nosso casamento, 1967, Acrílico sobre papel, 28 x 37 cms.


Tela de Cruzeiro Seixas


Tela de Cruzeiro Seixas


Cruzeiro Seixas, sem titulo, 1961


 Tela de Cruzeiro Seixas 


Cruzeiro Seixas, Projeto para um Tejo à nossa medida, 1966, Serigrafia, 15 x 20,5 cm


Cruzeiro Seixas, Recordação de Lisboa em forma de postal, 1970.


"Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem."

(Marcel Proust)