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quarta-feira, 12 de março de 2025

"O ar da minha dama" - Poema de Dante Alighieri


 
Georg Pauli (Swedish painter, 1855-1935), Lady in a Landau Carriage, Paris, 1881-83.
  Nationalmuseum. 


O ar da minha dama 

 
Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha dama, quando aos mais saúda,
que toda a língua de tremor é muda,
e os olhos não se atrevem de a fitar.

E ela perpassa, ouvindo-se louvar,
vestida de humildade e tão sisuda,
que se diria que, do céu transmuda,
à terra veio milagres comprovar.

E é graciosa tanto a quem na mira
que dá dos olhos tal ternura ao seio,
que entendê-la não pode o que a não sente.

E é como se em seus lábios fora ardente
um espírito suave e de amor cheio
que, sem dizê-lo, às almas diz: — Suspira. 
in 'Poesia de 26 Séculos" de Jorge de Sena.

domingo, 25 de setembro de 2022

"O limpa-palavras" - Poema de Álvaro Magalhães


Georg Pauli (Swedish painter, 1855-1935), 'Göran in the Green Grass, 1897,
 Watercolor on paper.
 


O limpa-palavras


Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não para de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papeis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.

Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes a mão para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.


Álvaro Magalhães
,
"O limpa-palavras e outros poemas"


Álvaro Magalhães nasceu no Porto, em 1951, e publicou o seu primeiro livro em 1982.
A sua obra para crianças e jovens, que integra poesia, conto, ficção e textos dramáticos, repartindo-se por mais de 120 títulos, caracteriza-se pela originalidade e invenção, quer na escolha dos temas quer no seu tratamento.
Foi várias vezes premiado pela Associação Portuguesa de Escritores e pelo Ministério da Cultura. Em 2002, "O limpa-palavras e outros poemas" foi integrado na Honour List do Prémio Hans Christian Andersen, em 2004, "Hipopóptimos – Uma história de amor" foi distinguido com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian e, em 2014, "O senhor Pina" recebeu o prémio Autores, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores ao melhor livro infantojuvenil publicado nesse ano.
Várias das suas publicações integram o Plano Nacional de Leitura e constam da lista e obras das Aprendizagens Essenciais de Português.
Parte da sua obra está publicada em Espanha, França, Brasil, Coreia do Sul e Itália. (Daqui)

 
Livro recomendado PNL2027 dos 9-11 anos - leitura mediana,
de  Álvaro Magalhães
 

"O limpa-palavras e outros poemas" (Edições Asa, 2000) é uma nova coletânea de poemas do autor de "O Reino Perdido" (Edições Asa, 1986) para leitores de todas as idades. Um homem que recolhe palavras durante a noite e trata delas durante o dia: o limpa-palavras. A palavra obrigado agradece-lhe. A palavras brisa refresca-o. A palavra solidão faz-lhe companhia. Um guarda-redes míope que confunde a realidade com a sua imaginação. Não vê o jogo, mas pode imaginá-lo. Melhor do que saber o que está a acontecer é saber o que poderia ter acontecido? Uma série de portas sem as quais nada acontecia. Um sorriso abre-as. Uma palavra também, se for uma palavra-chave. E mais, muito mais...(Daqui)

 

quinta-feira, 20 de junho de 2019

"Cala-te" - Poema de José Gomes Ferreira


Hanna Hirsch-Pauli, Portrait of  Georg Pauli, c. 1910



Cala-te


Cala-te, voz que duvida
e me adormece
a dizer-me que a vida
nunca vale o sonho que se esquece.

Cala-te, voz que assevera
e insinua
que a primavera,
a pintar-se de lua
nos telhados,
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.

Cala-te, sedução
desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.

Cala-te, voz maldita
que me grita
que o sol, a luz e o vento
são apenas o meu pensamento
enlouquecido…

(E sem a minha sombra
o chão tem lá sentido!)

Mas canta tu, voz desesperada
que me excede.
E ilumina o Nada
com a minha sede.


José Gomes Ferreira
 (1900-1985)



Georg Pauli, Portrait of his wife Hanna, 1896


Depois 

Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.

Helena Kolody
(Haicai)