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domingo, 19 de fevereiro de 2023

"Orgulho da serenidade" - Poema de Jorge Luis Borges

 
Charles Demuth (American, 1883–1935), Chimney and Water Tower, 1931,
 
 

Orgulho da serenidade


Escritas de luz investem pela sombra, mais prodigiosas do que meteoros.
A alta cidade irreconhecível cresce sobre o campo.
Certo da minha vida e da minha morte, olho os ambiciosos e queria
entendê-los.
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, rápido ao atacar.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes da mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um ganido de guitarra, alguns retratos e uma velha espada,
a clara prece do salgueiral nos entardeceres.
O tempo está a viver-me.
Mais silencioso do que a minha sombra, cruzo o tropel da sua excitada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã.
O meu nome é alguém e qualquer um.
Passo com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera chegar.


Jorge Luis Borges
,

Obras Completas
 1923-1949, vol. 1. Lua Defronte (1925)
Editorial Teorema, 1998

quarta-feira, 17 de julho de 2019

"A um gato" - Poema de Jorge Luis Borges


Wilhelm Friedrich Johann Schwar (German painter, 1860-1943), Good friends


A um gato


Os espelhos não são mais silenciosos
Nem mais furtiva a alba aventureira;
Tu és, sob o luar, essa pantera
Que só vemos de longe, receosos.
Por obra indecifrável de um decreto
De Deus, te procuramos futilmente;
Mais remoto que o Ganges e o poente,
É teu o isolamento mais secreto.
O teu dorso condescende com a morosa
Carícia desta mão. Admitiste,
Desde essa eternidade que é o triste
Esquecimento, o amor da mão medrosa.
Existes noutro tempo. E és o dono
De um domínio fechado como um sono.


Jorge Luis Borges (1899-1986),
in "O Ouro dos Tigres", 1972.
Tradução de
Fernando Pinto do Amaral


Jorge Luis Borges em sua casa com seu gato Beppo. (daqui)


"Não fales a não ser que possas melhorar o silêncio."

(Jorge Luis Borges, O Imortal)


Jorge Luis Borges e o seu gato Beppo (daqui)


"Quem contempla desapaixonadamente, não contempla."

(Jorge Luis Borges)


Jorge Luis Borges e o gato Beppo (daqui)


"Não há prazer mais complexo que o do pensamento."

(Jorge Luis Borges)


Wilhelm  Schwar, Three kittens


"A única coisa sem mistério é a felicidade porque ela se justifica por si só."

(Jorge Luis Borges) 


Wilhelm Schwar, Grey and White Cat


"A natureza é esse belo mistério que nem a psicologia nem a retórica decifram."

(Jorge Luis Borges)


Wilhelm Schwar, Mother with her three kittens
 
 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

"Relâmpago" - Poema de Fernando Pinto do Amaral


Franz von Lenbach, Self-Portrait with his wife and daughters, 1903



Relâmpago


Rompe-se a escuridão quando ao olhar 
para uma face o mundo se ilumina 
com uma claridade repentina 
capaz de, só por si, fazer brilhar 

a substância tão irregular 
de tudo o que se acende na retina 
e através da luz se dissemina 
por entre imagens vãs, até formar 

um fluido movimento, uma paisagem 
a que estes olhos quase não reagem 
salvo se nesse instante o rosto for 

transfigurado pela fantasia. 
E às vezes é só isso que anuncia 
aquilo a que chamamos o amor. 


Fernando Pinto do Amaral, in 'Às Cegas' 


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Sombras" - Poema de Fernando Pinto do Amaral





Sombras


A meio desta vida continua a ser 
difícil, tão difícil 
atravessar o medo, olhar de frente 
a cegueira dos rostos debitando 
palavras destinadas a morrer 
no lume impaciente de outras bocas 
anunciando o mel ou o vinho ou 
o fel. 

Calmamente sentado num sofá, 
começas a entender, de vez em quando, 
os condenados a prisão perpétua 
entre as quatro paredes do espírito 
e um esquife negro onde vão desfilando 
imagens, só imagens 
de canal em canal, sintonizadas 
com toda a angústia e estupidez do mundo. 

As pessoas - tu sabes - as pessoas são feitas 
de vento 
e deixam-se arrastar pela mais bela 
respiração das sombras, 
pela morte que repete os mesmos gestos 
quando o crepúsculo fica a sós connosco 
e a noite se redime com uma estrela 
a prometer salvar-nos. 

A meio desta vida os versos abrem 
paisagens virtuais onde se perdem 
as intenções que alguma vez tivemos, 
o recorte obscuro de perfis 
desenhados a fogo há muitos anos 
numa alma forrada de espelhos 
mas sempre tão vazia, sem abrigo 
para corpo nenhum. 


in 'Pena Suspensa'


domingo, 7 de agosto de 2016

"Século XXI" - Poema de Fernando Pinto do Amaral


George Grosz, Café, 1918-1919. Coleção particular



Século XXI


Falam de tudo como se a razão 
lhes ensinasse desesperadamente 
a mentir, a lançar 
sem remorso nem asco um novo isco 
à espera que alguém morda 
e acredite nessa liturgia 
cujos deuses são fáceis de adorar 
e obedecem às leis do mercado. 

Falam desse ludíbrio a que chamam 
o futuro 
como se ele existisse 
e as suas palavras ecoam 
em flatulentas frases 
sempre a favor do vento que as agita 
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas 
em que tudo se vende 
por um preço acessível: emoções 
& sexo & fama & outros prometidos 
paraísos terrestres em horário nobre 
- matéria reciclável 
alimentando o altar do esquecimento. 

O poder não existe, como sabes 
demasiado bem - apenas uma 
inútil recidiva biológica 
de hormonas apressadas que procuram 
ser fiéis aos comércio 
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo 
sedutoras metástases do nada 
nos códigos de barras ou nos cromossomas 
de quem já pouco espera dos seus genes. 


in 'A Luz da Madrugada'