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terça-feira, 17 de março de 2026

"Canção do negrinho do pastoreio" - Poema de Augusto Meyer



Aldo Locatelli (Pintor ítalo-brasileiro, 1915-1962), Mural do Ciclo do "Negrinho do Pastoreio",
1951-1955, Palácio Piratini.



Canção do negrinho do pastoreio


Negrinho do Pastoreio,
Venho acender a velinha
que palpita em teu louvor.
A luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.

A luz da vela me mostre
onde está Nosso Senhor.

Eu quero ver outra luz
clarão santo, clarão grande
como a verdade e o caminho
na falação de Jesus.

Negrinho do Pastoreio
diz que Você acha tudo
se a gente acender um lume
de velinha em seu louvor.

Vou levando esta luzinha
treme, treme, protegida
contra o vento, contra a noite...
É uma esperança queimando
na palma da minha mão.

Que não se apague este lume!
Há sempre um novo clarão.
Quem espera acha o caminho
pela voz do coração.

Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que Você acha tudo).
Ando tão longe, perdido...
Eu quero achar-me, Negrinho:
a luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.

Negrinho, Você que achou
pela mão da sua Madrinha
os trinta tordilhos negros
e varou a noite toda
de vela acesa na mão,
(piava a coruja rouca
no arrepio da escuridão,
manhãzinha, a estrela d'alva
na luz do galo cantava,
mas quando a vela pingava,
cada pingo era um clarão).
Negrinho, Você que achou,
me leve à estrada batida
que vai dar no coração.
(Ah! os caminhos da vida
ninguém sabe onde é que estão!)

Negrinho, Você que foi
amarrado num palanque,
rebenqueado a sangue
pelo rebenque do seu patrão,
e depois foi enterrado
na cova de um formigueiro
pra ser comido inteirinho
sem a luz da extrema-unção,
se levantou saradinho,
se levantou inteirinho.
Seu riso ficou mais branco
de enxergar Nossa Senhora
com seu Filho pela mão.

Negrinho santo, Negrinho,
Negrinho do Pastoreio,
Você me ensine o caminho,
pra chegar à devoção,
pra sangrar na cruz bendita
pelo cravos da Paixão.
Negrinho santo, Negrinho,
Quero aprender a não ser!
Quero ser como a semente
Na falação de Jesus,
semente que só vivia
e dava fruto enterrada,
apodrecendo no chão.


 
 
 
Jakared (Ilustrador e caricaturista),
"Negrinho do Pastoreio em seu Cavalo Baio"
 

A Lenda do Negrinho do Pastoreio


O Negrinho do Pastoreio é um personagem do folclore brasileiro conhecido na região sul do Brasil. De origem africana e cristã, a lenda surgiu em meados do século 19 e conta a história de um menino escravo que recebeu um milagre de Nossa Senhora por ser um inocente que sofre com castigos de um fazendeiro.

Como boa parte das histórias populares, apresenta várias versões. Uma delas conta que o Negrinho, ao perder uma corrida apostada pelo estanceiro, recebeu um castigo: ficar pastoreando durante trinta dias uma tropilha de 30 tordilhos negros. Por duas vezes os cavalos se dispersaram, mas, após acender uma vela para Nossa Senhora, o Negrinho reencontrou os cavalos perdidos.

Em outra versão da lenda, um determinado dia o fazendeiro ordenou ao Negrinho que cuidasse de alguns cavalos, porém um deles fugiu. Quando retornou, o senhor sentiu falta do cavalo baio e mandou o Negrinho procurar o animal. Ele chegou a encontrá-lo, mas não conseguiu capturá-lo. Dessa maneira, o senhor resolveu castigar o escravo com muitas chibatadas e lançá-lo num formigueiro. O fazendeiro resolveu deixar o Negrinho lá, certo de que já estava morto. Mas, no dia seguinte, ficou perplexo ao deparar com o Negrinho ileso, montado no cavalo perdido, e ao seu lado estava a Virgem Maria, padroeira do pequeno escravo. Arrependido, o fazendeiro pediu perdão, mas o Negrinho saiu galopando feliz e livre no cavalo baio.

Negrinho do Pastoreio é considerado santo das causas perdidas. Por isso, conforme a tradição popular, quem perde algo e tem dificuldade de encontrar acende uma vela e pede ajuda ao Negrinho para encontrar o que perdeu. (daqui)
 

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

"São Jorge na Penumbra" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


 Raphael (Italian painter and architect of the High Renaissance, 1483 – 1520),
Saint George and the Dragon
, 1505, National Gallery of Art, Washington, D.C.




São Jorge na Penumbra 


 
São Jorge imenso espera o cavalo
que ainda não foi arreado,
ainda não foi raspado,
ainda não foi escolhido
entre os vinte melhores da redondeza.

São Jorge fora de altar
(não cabe nele)
espera o dia da procissão
em canto discreto da Matriz.

São Jorge é meu espanto.
Ainda não vi santo montado.
Santos naturalmente andam a pé,
atravessam rios a vau e a pé,
fazem milagres a pé.
Usam sandálias
de luz e poeira como os deuses
da gravura.
São Jorge usa botas como os fazendeiros
de minha terra.

E não é fazendeiro. São botas de guerra.
São Jorge mata o dragão. Mata os inimigos
de Deus na bacia do Rio Doce?
Fica longamente na penumbra
esperando cavalo e procissão
só um dia no ano: ele é São Jorge
mesmo.
No mais, uma espera colossal.
 

Carlos Drummond de Andrade, Boitempo II. 4.ed.
Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 102.



Gustave Moreau (French artist and an important figure in the Symbolist movement,
 1826–1898), Saint George and the Dragon, c. 1889-1890, National Gallery.
 
 
S. Jorge e o Dragão

 
A história mais conhecida de S. Jorge (Jorge da Capadócia) tem a ver com a morte de um dragão terrível que existia em Silene, na Líbia. Para acalmar a fúria do dragão, os habitantes ofereciam ao monstro duas ovelhas por dia. A certa altura, o dragão tornou-se mais exigente e reclamou um sacrifício humano. A escolha aleatória recaiu sobre a filha única do rei da Líbia.
Nesse momento trágico, S. Jorge apareceu, oferecendo-se para lutar com o dragão e libertar a cidade daquele terrível jugo. Montou o seu cavalo e com uma lança feriu o dragão. Trazendo-o preso para a cidade, matou-o perante todos os habitantes, depois de exigir em troca a sua conversão ao cristianismo.

Existe outra versão da lenda, reclamada pelos habitantes de S. Jorge, perto de Aljubarrota, que conta que S. Jorge era um oficial romano que estava aquartelado naquela região. Tinha por costume mandar os seus soldados dar de beber aos cavalos na "Fonte dos Vales", no ribeiro da mata. Porém, no momento em que os cavalos bebiam, por vezes surgia da fonte um dragão que os devorava. Os soldados, com medo de serem também mortos, recusavam-se a lá voltar. Para acabar com este martírio, S. Jorge dirigiu-se à fonte, deu de beber ao seu cavalo e quando o dragão surgiu, matou-o com a sua lança. (daqui)
 

Gustave Moreau, Self-portrait, 1850. Oil on canvas, 41 x 32 cm,
Musée National Gustave-Moreau, Paris.


Gustave Moreau
 
Gustave Moreau, pintor francês, filho de um arquiteto nasceu no ano de 1826, em Paris. Estudou na École de Beaux Arts da mesma cidade, tendo sido aluno de Picot e de Théodore Chassériau. 
Lecionou posteriormente na dita escola, entre 1892 e 1898, devido à morte do seu amigo Élie Delaunay, procurando enquanto mestre incentivar a originalidade dos alunos. Entre estes últimos contam-se figuras tão relevantes como Georges Rouault e Henri Matisse. 
O seu estilo é marcado pelo misticismo, por uma preferência por temas relacionados com a Antiguidade e por obras renascentistas italianas (que não é estranha à sua estadia em Itália enquanto estudante, mais propriamente na cidade de Roma, entre 1857 e 1859 e na companhia de Degas e Puvis de Chavannes), temas estes dotados de potencial emocional, expressivo e narrativo. É também patente na sua obra a influência do tratamento de paisagem de Leonardo da Vinci e das figuras de Ingres. 
A envolvência presente nos seus quadros, conseguida através da ocupação intensa da superfície por técnicas pictóricas tão variadas como o empastamento e o arranhar, aliada à liberdade imaginativa que proporcionavam temas como Hércules e a Hidra (1876), Édipo e a Esfinge (1864) e Salomé (c. 1876). 
As suas obras foram expostas em eventos como o Salon de 1876 e, em 1886, na Goupil Gallery, em Paris. Esta foi a última exposição dos seus trabalhos, onde apresentou sessenta e cinco ilustrações das fábulas de La Fontaine. 
Pela fuga aos temas quotidianos preferidos pelos impressionistas, por exemplo, e pelo intenso apelo à imaginação, à emoção e aos sentidos presente nas suas pinturas, tornou-se uma das figuras de inspiração para os simbolistas, juntamente com Mallarmé e Odilon Redon, chegando inclusivamente a fazer parte de alguns grupos desta tendência enquanto membro honorífico.
Grande parte do acervo das suas obras e dos objetos que lhe pertenceram encontram-se no Musée Gustave Moreau, em Paris. (daqui)
 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

"Tristão e Isolda" - Lenda Medieval de origem Céltica


Edmund Leighton, Tristan, Isolde and King Mark in The End of the Song, 1902


Tristão e Isolda


Tristão e Isolda é uma lenda medieval de origem céltica, que constitui uma das mais belas histórias de amor alguma vez concebidas. As primeiras versões escritas datam do século X. Os trovadores anglo-normandos de língua francesa e a rainha Leonor da Aquitânia contribuíram para a sua difusão na Europa.

Conta-se que Tristão ficou órfão, despojado injustamente da sua herança por vassalos de seu pai. Foi recolhido pelo tio, o rei Marco, da Cornualha, que o ajudou a tornar-se num Cavaleiro da Távola Redonda.


Évrard d'Espinques, Tristan and Isolde on their way to Cornwall, (15th century)


Tristão venceu a batalha contra o gigante Morolt, mas ficou gravemente ferido. Os seus ferimentos só poderiam ser curados pela magia da Rainha da Irlanda, grande inimiga do seu tio. Antes de se dirigir ao castelo da Rainha, Tristão disfarçou-se de músico, tomou o nome de Tãotris e tornou-se professor de música da princesa Isolda, a Loura. Tristão, já curado, matou um cruel dragão, em Weisefort, na Irlanda, e voltou para o castelo de seu tio Marco, a quem descreveu a beleza de Isolda com a qual o jovem tinha ficado impressionado.

 
John William Waterhouse, Tristan and Isolde with the Potion, c. 1916


O rei Marco ficou contente com as palavras do sobrinho, que o inspiraram a encontrar uma solução para acabar com a velha inimizade entre os dois reinos. Mandou, então, um emissário ao reino da Irlanda para que pedisse, em seu nome, a mão de Isolda. A Rainha da Irlanda concordou com o casamento e organizou um banquete. Para que nascesse uma paixão forte e duradoura entre Marco e Isolda, a Rainha mandou fabricar uma poção mágica do amor para lhes servir.

John Duncan, Tristan and Isolde, 1912


Durante o banquete, por descuido, os copos que tinham a poção mágica foram trocados e servidos a Tristão e Isolda, que se apaixonaram imediatamente. No entanto, a cerimónia do casamento entre Marco e Isolda prosseguiu.


Edward Burne-Jones (préraphaélite), Le roi Marc et la belle Iseult, 1862
Birmingham Museum and Art Gallery


Tristão e Isolda, vivendo uma paixão incontrolável, decidiram encontrar-se às escondidas para viver o seu amor.

 
Hugues Merle, Tristan and Isolde, c. 1870

Um dia, foram surpreendidos pelo rei Marco, que, magoado com a traição, os expulsou do castelo.


Ferdinand Leeke, Tristan and Isolde

Os enamorados vaguearam durante muito tempo, sem qualquer ajuda, até que chegaram a um ponto de grande pobreza e debilidade física.

Rogelio de Egusquiza, Tristan and Isolde, 1912


Compadecido, Marco recolheu Isolda no castelo e enviou Tristão para bem longe, em França, onde este chegou a casar-se com uma outra jovem, filha do Duque da Bretanha, também chamada Isolda. A jovem, que era conhecida como Isolda, a das Mãos Brancas, nunca conseguiu ver retribuído o amor que sentia por Tristão e este nunca consumou o casamento, dado que continuava fiel ao seu primeiro amor.


Giovanni dal Ponte (1385 – ca. 1438, Florence), Two couples - Paris and Helen, Tristan and Isolde, 1410s


Passado algum tempo, Tristão ficou ferido noutra batalha e pediu à sua amada Isolda, a Loura, que tinha herdado os dotes mágicos de cura da Rainha da Irlanda, que viesse socorrê-lo. Combinaram então que, se o navio, que tinha enviado com o emissário, voltasse com velas brancas, a resposta de Isolda, a Loura, seria afirmativa; mas, se as velas fossem negras, ela não poderia vir. Isolda, a das Mãos Brancas, com ciúmes, resolveu vingar-se da indiferença do marido, dizendo-lhe que o navio tinha chegado com as velas negras porque Isolda tinha falecido durante a viagem.


Rogelio de Egusquiza, Tristan and Isolde, 1910


Tristão não suportou a perda de Isolda e morreu de desgosto. Quando Isolda, a Loura, encontrou Tristão sem vida, sentiu uma grande dor e morreu também de desgosto, abraçada ao corpo de Tristão. Foram enterrados lado a lado. Diz a lenda que das sepulturas nasceram duas árvores que cresceram entrelaçadas para que nunca fossem separadas.

Eugénie Servières, Geneviève and Lancelot at the Tombs of Isolde and Tristan, c. 1814


Tristão e Isolda, é também um drama lírico em três atos, com texto e música da autoria do compositor alemão  Richard Wagner (1813-1883), publicado em 1865. O assunto é o da lenda medieval, acima referida.
A música obedece a uma estrutura surpreendente que, através de um cromatismo muito vincado, dá expressão admirável à paixão, à ternura e à dor, sentimentos que dominam o desenrolar da ação. (Daqui)


Wagner's composition of Tristan und Isolde

Prelude & Liebstod from Tristan und Isolde
 Leonard Bernstein (conductor)
Boston Symphony Orchestra
Herbert James Draper, Tristan und Isolde, 1901


 "Não sei se a vida é maior que a morte, mas o amor é maior que ambas." 

(Frase de Tristão no 'Romance de Tristão e Isolda' )
Joseph Bédier, in "Le Roman de Tristan et Isolde", Paris, Henri Piazza éditeur d'art, 1900, 
illustré de compositions de Robert Engels


sábado, 25 de fevereiro de 2012

"O Lobo de S. Francisco de Assis" - Poema de Afonso Lopes Vieira

















O Lobo de S. Francisco de Assis
(Lenda)


Andava o povo assustado
A fazer a montaria
Ao grande lobo esfaimado,
Que tanto mal lhe fazia.

Ele levava nos dentes,
Agudos e carniceiros,
Os meninos inocentes
Que são os alvos cordeiros.

E as pessoas assaltando,
Vinha de noite, em segredo,
Com seus olhos chamejando,
Encher a gente de medo.

Ora S. Francisco, era
Incapaz de querer mal
Mesmo que fosse a uma fera,
Até ao tigre real.

Tinha tão bom coração
Que homens e bichos o amavam,
E as andorinhas poisavam
Na palma da sua mão...

E como ele desejava
Que tudo vivesse em paz,
Enquanto o povo caçava,
O Santo, o Poeta, que faz?

Procura o lobo cruel,
E, tendo-o encontrado enfim,
Chamou-o, foi para ele
Sorriu-lhe e falou assim:

- «Eu sei porque fazes mal,
«Eu sei o que te consome:
«Tu és tão mau afinal,
«Tu és mau porque tens fome...

«Pois bons amigos seremos,
«Para nosso e teu descanso;
«E de comer te daremos
«Para poderes ser manso.

«Promete que hás-de mudar
«De vida, neste momento;
E em sinal de juramento,
Alevanta a pata no ar
«E põe-na na minha mão!

Jurou o lobo. E cumpriu...
Depois, toda a gente o viu
Tão mansinho como um cão. 







"Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência." 

(Arthur Schopenhauer)


Madredeus - Destino



"Em geral, chamamos de destino às asneiras que cometemos." 

(Arthur Schopenhauer)

Arthur Schopenhauer (Danzig, 22 de Fevereiro 1788 — Frankfurt, 21 de Setembro 1860) foi um filósofo alemão do século XIX. 
Seu pensamento é caracterizado por não se encaixar em nenhum dos grandes sistemas de sua época. Sua obra principal é 'O mundo como vontade e representação' (1819), embora o seu livro 'Parerga e Paralipomena' (1851) seja o mais conhecido. Schopenhauer foi o filósofo que introduziu o Budismo e o pensamento indiano na metafísica alemã. Ficou vulgarmente conhecido por seu pessimismo e entendia o Budismo (e a essência da mensagem cristã, bem como o essencial da maior parte das culturas religiosas de todos os povos em todos os tempos) como uma confirmação dessa visão realista-pessimista. 
Schopenhauer também combateu fortemente a filosofia hegeliana e influenciou fortemente o pensamento de Eduard von Hartmann e Friedrich Nietzsche.