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terça-feira, 1 de abril de 2025

"Manhã de Abril" - Poema de Joaquim Namorado


Viggo Johansen (Danish painter and active member of the group of Skagen Painters, 1851-1935),
View of Tibirke Church, 1886.
 


Manhã de Abril


Olho o céu nas poças da rua
que a chuva de ontem deixou,
como pássaros verdes as primeiras folhas
empoleiram-se nos ramos enegrecidos a do inverno
e o sol entorna sobre o casario miserável
uma chuva de falso oiro.
Que raiva me dá...
Foi hoje a enterrar aquela miúda loura
que via brincar na rua
com as tranças apertadas nos laços vermelhos
— morressem antes os velhos
que da vida nada esperam,
já sem amor, já sem esperança,
roídos de chagas e da lepra dos dias.
que não morresse ninguém, valá!
mas ela...
levaram-lhe flores os outros meninos da rua,
iam contentes como para uma festa,
e a mãe atrás do caixão chorando,
e as folhas verdes
e as flores nos canteiros e nas janelas
como se florir fosse uma coisa natural e inevitável
e o velho mendigo cego estendendo a mão,
e a gente educada tirando o chapéu por hábito...

Que raiva me dá a Primavera sobre a dor do Mundo!

Joaquim Namorado
(1914–1986)


Viggo Johansen, Near Skagen Østerby after a Storm, 1885. Oil on canvas, 95 x 147 cm.
Skagens Museum, Skagen.
 

"Abril, frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado."

(Provérbio)

domingo, 1 de setembro de 2024

"Setembro" - Poema de Vasco Graça Moura

 


Damião Martins
(Pintor cubista brasileiro desde 1978), Colheita de uva, s.d.


Setembro


agora o outono chega, nos seus plácidos
meneios pelas vinhas, um dos vizinhos passa
um cabaz de maçãs por sobre a vedação:
redondas, verdes, o seu perfume vai
dentro de quinze dias ser mais forte.

a noite cai mais cedo e apetece
guardar certos vermelhos da folhagem
e amarelos e castanhos nas ladeiras
de setembro. a rádio fala no tempo variável
que vem aí dentro de dias. talvez caia

uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo
os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas.
aproveita-se o outono no macio
enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo.
devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele. 


Vasco Graça Moura
, in "Poesia 2001/2005",
Quetzal Editores, 2006.


Damião Martins, Vindimas, s.d.
 
 
Vindimas

 
As vindimas consistem na colheita dos cachos de uvas, destinados à produção de vinho, quando estas atingem o grau indicado de amadurecimento. Os cachos são então enviados para os lagares, onde começa a produção de diversos tipos de vinhos. Para obter uma boa qualidade de vinho é necessário escolher a data exata em que se deve iniciar as vindimas.

As vindimas têm lugar, habitualmente, em setembro, após uma decisão nesse sentido tomada pelos enólogos, que desde o final de agosto anterior analisam amostragens para controlar a maturação das uvas, assim como a acidez, peso e cor. É necessário encontrar o grau de acidez indicado porque com o passar do tempo os ácidos transformam-se em açúcares, o que leva a um aumento do álcool.

Cabe aos produtores, em função da casta, determinar a relação que mais lhes convém em função do tipo de vinho que pretendem produzir. Posteriormente, deve ser feito o transporte dos cachos nas melhores condições, já que, devido ao calor próprio da época, as uvas amassadas começam a fermentar antes do tempo.

Também é possível prever a melhor altura para as vindimas através de um método popular que consiste em verificar quando murcham os pés das uvas e as peles dos bagos começam a contrair.

Marcada a data da vindima, a cada propriedade onde há cultivo de uvas acorrem então dezenas de trabalhadores sazonais, normalmente oriundos das terras vizinhas, e é iniciado um dos mais característicos momentos da etnografia portuguesa. Muitas vezes são famílias completas que se deslocam para as vindimas, numa tradição que atravessa gerações: as mulheres, auxiliadas pelas crianças, cortam os cachos, que são colocados em cestas de vime. Cabe então aos homens transportar estes cestos para os lagares. Antigamente eram grupos de homens que pisavam as uvas, sistema que gradualmente foi sendo substituído por métodos mecânicos.

Na época das vindimas são organizadas nas diferentes terras ou regiões onde existe esta atividade as chamadas Festas das Vindimas, uma tradição histórica que atrai imensos turistas, como acontece, por exemplo, na região do Douro, a mais antiga região demarcada de vinho do mundo. (daqui)
 
 
Damião Martins, Vindima, s.d.
 

Provérbios do Mês de Setembro
 
  • Trinta dias tem Novembro, Abril, Junho e Setembro; de vinte e oito, só há um, e os mais têm trinta e um.
  • Em Setembro, ardem os montes e secam as fontes.
  • Em Setembro, planta, colhe e cava que é mês para tudo.
  • Setembro a comer e a colher.
  • Setembro molhado, figo estragado.
  • Setembro ou seca as fontes ou leva as pontes.
  • Agosto, debulhar, Setembro, vindimar.
  • Corra o ano como for, haja em Agosto e Setembro calor.
  • Arranja bom Setembro, com a burra fico eu.
  • Chuvas verdadeiras, em Setembro as primeiras.
  • Em Setembro palha no palheiro e meninas ao candeeiro.
  • Em Setembro ramo curto, vindima longa.
  • Em Setembro secam as fontes e as chuvas lavam as pontes.
  • Em Setembro semeia o teu pão.
  • No pó semeia, que Setembro to pagará.
  • Se em Setembro a cigarra cantar, não compres trigo para guardar.
  • Setembro cara de poucos amigos, cara de figos.
  • Setembro é o Maio do Outono.
  • Setembro que enche o celeiro dá triunfo ao rendeiro.
  • Agosto tem a culpa, e Setembro leva a fruta.
  • Nuvens em Setembro: chuva em Novembro e neve em Dezembro.
  • Agosto madura, Setembro vindima.
  • Em Setembro tem Deus a mesa posta.
  • Para vindimar deixa o Setembro acabar.
  • Vindima molhada, pipa depressa despejada.
  • Agosto arder, Setembro beber.
  • Em Agosto secam os montes e em Setembro as fontes.

terça-feira, 30 de julho de 2024

"Monólogo da Noite" - Poema de Ribeiro Couto



Jacob van Ruisdael (Dutch painter, draughtsman, and etcher, c. 1629 –1682),
Windmill at Wijk bij Duurstede, c. 1670. Rijksmuseum, Amsterdam.


Monólogo da Noite 


Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...

A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "António, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.

Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.


Ribeiro Couto
, Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1924.
  In Poesias reunidas, Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960.


 
 
 "Não tenho medo das tempestades porque sei como guiar meu navio". 

Louisa May Alcott,  in "As Mulherzinhas" (Little Women), 1868. 



Jacob van Ruisdael, Stormy Sea with Sailing Vessels, 1668, Thyssen-Bornemisza Museum.
 

Provérbios sobre o Mar

 
"Quem é do Mar, não enjoa."

"Grande nau, grande tormenta."

"Quem vai ao Mar, perde o lugar."

"Gaivotas em terra, tempestade no Mar."

"Não se afoga no Mar, o que lá não entrar."

"Os Mares mais calmos, são os mais profundos."

"O Mar aproxima, as terras que ele separa."

"Antes o Mar por vizinho, do que, cavaleiro mesquinho."

"O Mar que, é Mar, nem sempre dá, hoje não dá, amanhã haverá."

"Quando o Mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão."

"Alto Mar e não de vento, não promete seguro tempo."

"Sem razão se queixa do Mar, quem outra vez navega."

"Quem anda no Mar, não faz do vento o que quer."

"Não pude passar o Mar, sem de fortuna me queixar."

"Enquanto o Mar bonança, todos são bons pilotos."

"Quem não entrar no Mar, nele não se afogará."

"Nem com o Mar contar, nem a muitos fiar."

"Vista bela é ver o Mar e morar em terra."

"Quem o Mar gaba, não tem visto a praia."

"Nem muito ao Mar, nem muito à terra."

"Quem vai ao Mar, avia-se em terra."

"Não há Mar bravo, que não amanse."

"Repartiu-se o Mar e fez-se sal."

"No Mar bravo, às vezes há bonança."

"No Mar anda, para quem nós ganha."

"Jornada de Mar, não se pode taxar."

"Homem do Mar, cabeça no ar."

"Há Mar e Mar, há ir e voltar."

"Nau grande, pede Mar fundo."

"É inútil levar água ao Mar."
(daqui)
 
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” — Isaac Newton físico e filósofo inglês 1643–1727 Em 1687, Explicando a sua Terceira Lei de Newton - Ação e Reação

Fonte: https://citacoes.in/topicos/mar/
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” — Isaac Newton físico e filósofo inglês 1643–1727 Em 1687, Explicando a sua Terceira Lei de Newton - Ação e Reação

Fonte: https://citacoes.in/topicos/mar/
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” — Isaac Newton físico e filósofo inglês 1643–1727 Em 1687, Explicando a sua Terceira Lei de Newton - Ação e Reação

Fonte: https://citacoes.in/topicos/mar/
 
 
 
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” — Isaac Newton físico e filósofo inglês 1643–1727 Em 1687, Explicando a sua Terceira Lei de Newton - Ação e Reação

Fonte: https://citacoes.in/topicos/mar/
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” — Isaac Newton físico e filósofo inglês 1643–1727 Em 1687, Explicando a sua Terceira Lei de Newton - Ação e Reação

Fonte: https://citacoes.in/topicos/mar/

segunda-feira, 3 de junho de 2024

"Um Ninho" - Poema de Afonso Simões



Charles Joshua Chaplin (French painter, 1825 - 1891), 
 Young Girl with a Nest, 1869, Museum of Fine Arts of Lyon.

 

Um Ninho


Sabeis o que é um ninho, esse pequeno lar
Onde a ventura mora em noites de luar,
Onde a brisa suspira e canta a cotovia
Desde o romper da aurora ao declinar do dia?

Sabeis o que é um ninho em dias estivais,
Perdido no rumor dos bastos salgueirais,
À borda dum riacho alegre, saltitante,
Que vai de pedra em pedra até morrer, distante?

Sabeis o que é um ninho inundado de sol,
Onde desperta o melro e dorme o rouxinol?
Não, não sabeis! Pois bem. Juntai toda a ventura
Do vosso lar ditoso: os beijos, a ternura

Duma extremosa mãe, os cuidados dum pai,
Os risos duma irmã que tanto vos distrai,
Um doce olhar de avó, vaidosa no carinho,
E ficareis sabendo o que se chama um ninho.


Afonso Simões (1866-1947), em “Folhas em Branco”, 1914
Imprensa Libanio da Silva
 

Charles Joshua Chaplin, The Bird's Nest, 1860, Private collection.


"Uma imagem vale mais que mil palavras."

"A mulher e o passarinho, com Sol ao ninho."

"Cada passarinho gosta do seu ninho."



(Provérbios portugueses)


Charles Joshua Chaplin, Feeding Doves, Private collection.


"A natureza dá a vida, mas a vida ensina a viver."

"Quem passarinhos receia, milho não semeia."

"Aves da mesma pena andam juntas."


 
 
Charles Joshua Chaplin, Young Girl with a Dove, 1850,
 Private collection.
 
 
Pomba branca, pomba branca


Pomba branca, pomba branca
Já perdi o teu voar
Naquela terra distante
Toda coberta pelo mar

Fui criança, andei descalço
Porque a terra me aquecia
Eram longos os meus sonhos
Quando a noite adormecia

Vinham barcos dos países
Eu sorria, de os sonhar
Traziam roupas, felizes
As crianças dos países
Nesses barcos a chegar

Depois mais tarde ao perder-me
Por ruas de outras cidades
Cantei meu amor ao vento
Porque sentia saudades

Saudades do meu lugar
Do primeiro amor da vida
Desse instante a aproximar
Dos campos, do meu lugar
À chegada e à partida
  (Poeta, ator, encenador, declamador e radialista português, 1924 - 1980) 



Max
- Pomba Branca, Pomba Branca


Max
 
Fadista, ator e músico popular, Maximiano de Sousa nasceu a 20 de janeiro de 1918, no Funchal, faleceu a 29 de março de 1980, em Lisboa. É o mais famoso músico madeirense a nível nacional e internacional.
Apaixonou-se pelo fado logo em criança. Alimentava o sonho de ser barbeiro, numa altura em que os salões por vezes se transformavam em autênticas tertúlias fadistas. A morte do pai, aos 14 anos, forçou-o a começar cedo a trabalhar. Seguiu o ofício de alfaiate, nunca deixando, de forma amadora, de se dedicar ao fado. Aos 16 anos, foi para os Açores, com um grupo de amadores, e ali permanece dois anos a cantar. De regresso à Madeira, começou a atuar aos fins de semana em clubes locais e boites, não só o fado, mas sobretudo êxitos da música ligeira internacional, em locais como o Hotel Bela Vista. Aos 25 anos integrou o Conjunto Tony Amaral, desempenhando as funções de vocalista e baterista.
Em 1946, partiu para Lisboa onde cimentou a sua carreira. Inicialmente, com o Conjunto Tony Amaral, em locais como o Clube Americano e o Nina. Foi com este grupo que gravou o seu primeiro disco, em 1949. Depois, ganhou notoriedade a solo, e construiu uma carreira muito profícua e aplaudida, dividindo-se entre o fado e canções populares e humorísticas. A sua popularidade levou-o também ao teatro de revista, a partir de 1952, tendo participado em peças como Saias Curtas, Cala o Bico, Peço a Palavra, Mão à Obra e Mulheres à vista.
Teve uma longa carreira internacional, com concertos na Alemanha, Brasil, Canadá, Austrália, Argentina, Venezuela, Espanha e Áustria. Mas com principal destaque nos Estados Unidos, onde viveu mais de dois anos, e chegou a participar no programa de Gourucho Marx na NBC.
Para o seu reportório de música popular, escreveu temas com tal fama que hoje se confundem com a música tradicional madeirense, como é o caso do "Bailinho da Madeira" e da "Mula da Cooperativa". No fado, também escreveu vários temas, que marcam a história da canção de Lisboa. Entre outros, "Vielas de Alfama" (com Artur Ribeiro), "Nem às Paredes Confesso" (com Artur Ribeiro e Ferrer Trindade), "Fiz Leilão de Mim" (com Artur Ribeiro) ou "Lamentos" (com Domingues Gonçalves Costa). E destacou-se na interpretação de outros temas como "A Rosinha dos Limões" (Artur Ribeiro), "A Júlia Florista" (Joaquim Pimentel/Leonor Vilar) ou "Carta de um Soldado" (José Galhardo/Raul Ferrão). Era regularmente acompanhado pelo Conjunto de Guitarras de Raul Nery.
Tem uma extensa discografia, com dezenas de EP, como era hábito na época. Destacam-se as coletâneas, editadas em CD, O Melhor de Max vol. 1 e 2, Biografias do Fado, Pomba Branca, Saudade e Bailinho da Madeira, todas com edição da Emi-Valentim de Carvalho.
Em 1979, o Governo Regional da Madeira homenageou-o num espetáculo que decorreu no Funchal. Max, que sofria do coração, morreu, de forma súbita, no ano seguinte, quando saía de um restaurante, em Lisboa. (daqui)

quinta-feira, 6 de julho de 2023

"Amizade" - Poema de Paulo Leminski


Eugene de Blaas (Italian painter, 1843–1931), Two Venetian Women, 1898



Amizade


Meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa

presença
olhar
lembrança, calor.

Meus amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão.
 

Paulo Leminski, in Caprichos e relaxos,
São Paulo, Brasiliense, 1983. p.86.
 

Vozes: Marisa Liz e Áurea 


"Nunca foi um bom amigo quem por pouco quebrou a amizade."
 
(Provérbio popular)
 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

"Chuva de pedra" - Poema de Menotti Del Picchia


Wassily Kandinsky (1866-1944), Landscape with Rain, January, 1913 – óleo sobre tela, 
70,2 x 78,1 cm,  Solomon R. Guggenheim Museum - New York, USA (Abstract art)
 

 
Chuva de pedra


O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de fruta dos pomares...

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes...

Fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pelos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura a dinamite dos coriscos.

Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos
correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas. No terreiro,
as roupas penduradas nos varais
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados! 


Menotti Del Picchia
, Chuva de pedra, 1925

 

Maurice Prendergast (American (born in Canada), 1858–1924), Umbrellas in the Rain,
 

"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."

8-11-1915  
 

“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro
(Heterónimo de  Fernando Pessoa)

 
Claude Monet (French, 1840-1926), Morning on the Seine in the Rain, 1897-1898, 
óleo sobre tela. National Museum of Western Art, Toquio, Japão (Impressionism)



Provérbios portugueses (daqui)
 
 
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
 
[Significa que «a tenacidade vence todas as dificuldades» (in Dicionário Prático de Locuções e Expressões Correntes, de Emanuel de Moura Correia e Persília de Melim Teixeira, Papiro Editora).]


“Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.”

[Significa que «é difícil ter, ao mesmo tempo, duas coisas opostas.»]

segunda-feira, 9 de maio de 2022

"Ouve vou dizer-te" - Poema de Abel Neves

 
 
Guillaume Seignac (French painter, 1870-1929), The cherry girl 
 

Ouve vou dizer-te


Ouve vou dizer-te
abre com os dedos uma cereja
daquelas de fazer brinco quando a brisa é boa
tira-lhe o caroço
verás como isso é arrancar o coração do tempo
o carmesim do suco
é o choro e o riso
dos que se amam impacientes e belos


Abel Neves
,
In “Resumo - a poesia em 2012”  
Documenta/Fnac - 2013
 
 
Livro: "Resumo - a poesia em 2012"
(daqui)


"Quero fazer contigo o que a Primavera faz com as cerejeiras." 
 
Pablo Neruda,
em final do Poema 14 do livro:
"Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada", 1924  (daqui)
 
 
William Frederick Yeames (British painter, 1835-1918), Ripe Cherry


"As palavras são como as cerejas, atrás de umas vêm as outras."


Provérbio
(Provérbios portugueses)


Hans Zatzka (Austrian painter, 1859-1945/9), Roses and Cherries
 
 
 Poema

A vida é uma cereja
A morte um caroço
O amor uma cerejeira.

Poemas. São Paulo: Nova Fronteira, 2000, p. 65.
 
 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

"A Carolina" - Poema de Machado de Assis



Elaine Searle - Contemporary botanical painter
 
 

A Carolina

 
Querida, ao pé do leito derradeiro,
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro...

Trago-te flores, — restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos. 
 
1906
 
Machado de Assis
 

[Em 1868, Machado de Assis (1839-1908) casou com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais (1835- 1904), irmã de seu amigo e poeta Faustino Xavier de Novaes (1820-1869). A morte da mulher, em 20 de outubro de 1904, depois de 35 anos de convivência, inspirou-lhe o antológico soneto "A Carolina".
O soneto é considerado a melhor peça de sua obra poética. Manuel Bandeira afirmara, anos mais tarde, que é uma das peças mais comoventes da literatura brasileira.] 


Elaine Searle
 
 

Saudade 
 
A palavra “saudade”, genuinamente portuguesa “é um sentimento muito presente como consequência do distanciamento físico e, também, da rutura em relação às rotinas mais simples e banais.” (Porto Editora) 
 
 
Definição: 
(na Infopédia, dicionário da Porto Editora)
 
1. Saudade - Sentimento de mágoa, nostalgia e incompletude, causado pela ausência, desaparecimento, distância ou privação de pessoas, épocas, lugares ou coisas a que se esteve afetiva e ditosamente ligado e que se desejaria voltar a ter presentes;

2. Saudade e Saudades - Lembrança afetuosa de algo ou alguém ausente;

3. Saudades - Cumprimentos a uma pessoa ausente; lembranças;

4. SaudadesBotânica: designação comum, extensiva a diferentes plantas, de diferentes famílias, sobretudo da família das Dipsacáceas e da família das Compostas (Asteráceas), e às suas respetivas flores

Morrer de saudades 
- Sentir muito a falta (de)
 
 
Elaine Searle
 
 
Provérbios

  • O adeus é o fim da esperança e o começo da saudade. 
  • Um coração que tem saudade é um que não tem o que deseja.
  • A saudade é a companheira dos que não têm companhia.
  • A saudade não mata, mas sepulta o coração em vida.
  • Amor que volta é doçura; amor que parte é saudade.
  • A saudade torna presente o passado.
  • Saudade não mata, mas maltrata.
  • Saudade é a memória do coração.


Elaine Searle 


"Saudade é a lembrança de se haver gozado em tempos passados, que não voltam mais; a pena de não gozar no presente, ou de só gozar na lembrança; e o desejo e a esperança de no futuro tornar ao estado antigo de felicidade."

Carolina Michaëlis, "A Saudade Portuguesa"
 
 
saudade | n. f. | n. f. pl.

sau·da·de |au| ou |a-u|


(latim solitas, -atis, solidão)
nome feminino

1. Lembrança grata de pessoa ausente, de um momento passado, ou de alguma coisa de que alguém se privado.

2. Pesar, mágoa que essa privação causa.

3. [Botânica]  Planta (Scabiosa atropurpurea) da família das dipsacáceas. (Mais usado no plural.) = ESCABIOSA, SUSPIRO

4. [Botânica]  Nome de várias espécies de plantas com flores de cores variadas. (Mais usado no plural.)

5. [Botânica]  Flor de uma dessas plantas. (Mais usado no plural.)


saudades
nome feminino plural

6. Boas lembranças ou recordações (ex.: a antiga chefe não deixou saudades).

7. Cumprimentos a alguém (ex.: mande-lhe saudades minhas).


"saudade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/saudade [consultado em 21-02-2021].

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

"A velhice" - Poema de Olavo Bilac


Ferdinand Georg Waldmüller (Austrian painter and writer, 1793–1865),
Grandma's Birthday, 1856.




A velhice


O neto:
Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?
Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apoia a um bordão?
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?
Por que é tão triste o seu rosto?
Tão trémula a sua voz?
Vovó, qual é seu desgosto?
Por que não ri como nós? 


A Avó:
Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer…
E eu, tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!
Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!
O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma bênção de Deus!


Olavo Bilac



Gaetano Bellei (Italian painter, 1857–1922)


"Uma velhice ditosa é o fruto de uma mocidade regrada."

(Provérbio)

terça-feira, 15 de setembro de 2020

"Torpor" - Poema de Luís Adriano Carlos


Ado Malagoli, O gato preto, 1954


Torpor


Perturba-me a harmonia dos perfumes
no meu corpo entorpecido pelo torpor do tropo
subitamente absorto em torpe poliptoto.

Eu sou apenas um poeta triste
que se entristece para não entristecer,
tendo na melancolia a sua maior alegria;
mas é sempre triste a tristeza que não sabe entristecer
sem que se abrigue na mentira da poesia,
essa milenar tristeza que arde no lume dos perfumes
para incendiar o tropo do torpor e os costumes.

Se não minto, se não faço humor,
sinto-me faminto de um ator, nesse lugar
onde a tristeza fica a repousar como um trapo abandonado,
com aquele desprezo que tanto se preza quando
toda a tristeza adoece e por fim se esquece.

Triste é perder o espanto e o recanto.
Essa perdição esvaziou-me o pensamento,
e nada mais lamento além do coração cheio de ardor e conceito
que me prensou o peito.

Sinto algures, longe de mim, mas mesmo assim
adentro em mim, esse coração pulsando a minha arritmia
da vida falida numa infinita glosa, que toda se me goza
com o claro dia mas que na folia me destroça
como quem falta e não volta, como quem morre e por fim se solta,
em todo o caso sentida, em todo o caso perdida.
Ado Malagoli, Autorretrato, 1941


"A melancolia alucina e destrói."

"O Andaime" - Poema de Fernando Pessoa


Frederick Walker (1840-1875), The Bathers, 1866–67


O Andaime


O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.

A esperança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que a minha esperança.
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha;
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só as lembranças,
Mas as mortas esperanças —
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.
 in "Cancioneiro"



Frederick Walker, Marlow Ferry

"Em pintura e poesia, não se admite mediania."


(Provérbio)