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segunda-feira, 13 de maio de 2024

“Como um vento na floresta” - Poema de Fernando Pessoa


Victor Westerholm (Finnish landscape painter, 1860 - 1919),
 Cows in a Birch Forest, 1886, Önningeby.
 


Como um vento na floresta


Como um vento na floresta,
Minha emoção não tem fim.
Nada sou, nada me resta.
Não sei quem sou para mim.

E como entre os arvoredos
Há grandes sons de folhagem,
Também agito segredos
No fundo da minha imagem.

E o grande ruído do vento
Que as folhas cobrem de som
Despe-me do pensamento:
Sou ninguém, temo ser bom.

30-9-1930

Fernando Pessoa
, Poesias Inéditas (1919-1930).
(Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.)
 Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 192.
 

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

"As Mães?" - Poema de José Agostinho Baptista


 
Victor Westerholm (Finnish landscape painter, 1860-1919), Drying Laundry in the Sun, 1900s 



As Mães?


Fossem estes dias uma fonte que
brotasse.
Manchas de azul, um rasto de neve em pleno céu,
colmeias,
mel, uma exaltação de asas.

Mas é assim:
metais que revestem a pele e as armaduras,
bronze, ferro, formas que perduram, malhas, ameaçados
tecidos que nos moldam —
quem borda ainda,
quem se atreve à minúcia das rendas?

As mães?
elas vinham cedo, eram como um rumor de levadas,
atravessando as terras.
Eram as mesmas mãos trabalhando sedas, afagos e
uma conspiração de cores e agulhas frias,
mães de silêncio bordando a treva e o sono, a longa
noite dos filhos.

Herdei uma beleza amarga,
o temor das sombras, dos relâmpagos que embatiam
na infância,
no dorso das colinas,
no coração mais triste.

Um estrondo de muralhas, diques, batalhas que
deflagram,
uma ciência aterradora:
não quero outra véspera de espadas, a coroação do
sangue,
patíbulos onde a cabeça se expande,
rolando como a poeira e os astros,
repercutindo como um sino no choro das mães.

Não quero um bordado de horas antigas,
uma prece no tear das suas mãos —
eu sei como se fundem as teias,
as lágrimas de quando se morre —

eu sei que chove.


José Agostinho Baptista
in 'Antologia Poética'
 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

"As três palavras mais estranhas" - Poema de Wisława Szymborska


Werner Holmberg (Finnish painter, 1830–1860), Landscape from Kuru in Morning Light, 1858,
 
 

As três palavras mais estranhas


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.


Wisława Szymborska
, "Instante".

In Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien.
São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
 
 
Wisława Szymborska
(Photo credit: Polish News Agency PAP)
 

Poetisa e mulher de letras polaca, Wisława Szymborska nasceu a 2 de julho de 1923 em Bnin, nas cercanias de Kórnik. Acompanhou a família na sua mudança para Cracóvia em 1931.
Após um período difícil para a Polónia, invadida pelos alemães em 1939, a paz trouxe um novo alento a Szymborska, que, em 1945, não só pôde ingressar na Universidade de Jagelão, em Cracóvia, como estudante de Literatura Polaca e Sociologia, como também se estreou como poetisa, ao publicar o seu trecho "Szukam Slowa" num jornal proeminente.
Concluiu o seu primeiro livro em 1948, uma coletânea de poemas que não chegou a ser publicada, já que o regime comunista caracterizou o trabalho como demasiadamente burguês. Alterando o seu discurso, politizando-o, conseguiu dedilhar as tramas da censura, e publicou Dlagtego Zyjemy (1952, Por Isso Vivemos).
Contribuindo regularmente para a imprensa, Szymborska foi editora de poesia e colunista no semanário literário de Cracóvia, o Zycle Literackie, entre 1953 e 1981. Traduziu também várias obras de poesia francesa, mas continuou no entanto a compor poesia, aparecendo com obras como Wolanie Do Yeti (1957, Apelo ao Yeti), em que se demarca dos ideais socialistas, e que lhe garante renome a nível internacional, e Sól (1962, Sal), em que exprime um certo pessimismo quanto ao futuro da humanidade, aliado a uma certa esperança nos poderes da imaginação, único meio para atingir uma parte da felicidade. De mencionar também as obras Wiersze Wybrane (1964), Sto Pociech (1967), Ludzie Na Moscie (1986) e Koniec I Poczatec (1993). Chwila surgiu em 2002, quando a poetisa contava já setenta e nove anos de idade. Alguns dos seus artigos periódicos foram compilados em Lektury Nadobowiazkowe (1973-81).
Laureada com inúmeros prémios literários, entre os quais se destacam o Goethe, em 1991, o Herder, em 1995 e, de maior relevo, o Prémio Nobel da Literatura em 1996, Szymborska recebeu um doutoramento em Honoris Causa pela Universidade de Poznán em 1995. (Daqui)
 
 
 

"De vez em quando a eternidade sai do teu interior e a contingência substitui-a com o seu pânico. São os amigos e conhecidos que vão desaparecendo e deixam um vazio irrespirável. Não é a sua 'falta' que falta, é o desmentido de que tu não morres." 

Vergílio Ferreira, em "Escrever" (póstumo), 2001



"Escrever" - Edição de Helder Godinho
Bertrand Editora / Lisboa, 2001
. (daqui)


Resumo 
 
 
"Escrever" é o último livro que Vergílio Ferreira (1916-1996) escreveu, e a segunda obra póstuma do autor de "Aparição". A sua edição, crítica, esteve a cargo de Helder Godinho (1947-2020), professor e estudioso da obra do escritor, e coordenador da equipa responsável pelo seu espólio.
Vergílio Ferreira trabalhou neste livro até ao dia que antecedeu a sua morte, e nele repensa os seus grandes temas de sempre, atualizando-os: a matéria da escrita e da arte, o corpo, a velhice e a doença, a morte, o abismo para onde, na sua opinião, a civilização caminha (não deixando de lado uma matéria que ultimamente tanto se discute: o poder perverso da televisão). São fragmentos, pensamentos, reflexões, por vezes escritos quase como um poema em prosa, ou mais filosóficos e mais próximos daqueles que desenvolveu em "Espaço Invisível V".
Sobre o livro, no qual trabalhou dois anos, Helder Godinho disse ao jornal Público: "Este livro é o retomar de alguma problemática [dos seus grandes temas] mas atualizada, na relação direta que ele mantém com o que vai acontecendo, com a contemporaneidade. "Escrever" é o retomar de velhas preocupações, mas adaptadas ao que se está a viver e, por outro lado, o reforço do drama da morte que se aproxima. É um homem que está doente e que sabe que está velho - e isso aparece em "Escrever" com uma força que não aparece em mais nenhum livro. As entradas sobre a velhice são imensas e algumas já são escritas com algum distanciamento." (Daqui)
 
 

Werner Holmberg, Autumn Morning, 1856, Turku Museum of Art, Turku, Finland.

 
“Que é que me diz à evocação a montanha onde nasci? Os uivos do vento numa noite de tempestade, a neve do início genesíaco. Mas o mar diz-me da constante inquietação e só a montanha me lembra o estável e o eterno. Massa enorme, nascida do ventre da Terra, está ali repousada sobre o seu ser, feita da substância da eternidade. Assim ao contemplá-la eu próprio repouso sobre mim, esvaziado do que me oprime ou inquieta, transmudando-me ao que nela há de estável e denso e alastrado aos poderes cósmicos. Como tudo o que é imenso dissolve-me a pequenez ou equilibra-a no que a transcende como se transposta à sua grandeza que me reabsorve em si e me dissipa a minha própria individualidade. Que é que me fala à evocação da montanha que perdi? Não sei. Talvez apenas a humildade do meu ser que se desvanece.”
 
 
Werner Holmberg, Finnish Lake Landscape, 1854, Finnish National Gallery
 
 
“Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe-na lá.” 
 
 
 
Werner Holmberg, German Landscape, 1855, Pori Art Museum
 
 
 "Sê alegre apenas depois de dares a volta à vida toda. E regressares então a uma flor, ao sol num muro, a um verme no chão. A profunda alegria não é a do começo mas a do fim."
 
Vergílio Ferreira, em "Escrever"
 
 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

"Como quem num dia de Verão abre a porta de casa" - Poema de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa


  Victor Westerholm (Finnish landscape painter, 1860-1919), Scene from Hirvensalo, 1903. 
 


   Como quem num dia de Verão abre a porta de casa

 
Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo... 

s.d. 
 
Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos".
 In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. 
 (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luís de Montalvor.) 
Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 48.
 
 
Portrait of Victor Westerholm (Finnish landscape painter, 1860-1919), 1901,
by Raffaello Gambogi (Italian painter, 1874-1943).


"If I could say it in words there would be no reason to paint."

Edward Hopper 
 (American realist painter and printmaker, 1882-1967)
 
 
 
 
"Eu vou para a natureza para ser acalmado e curado, e para colocar meus pensamentos em ordem."

 
[John Burroughs (1837 - 1921) foi um naturalista norte-americano e ensaísta da natureza, ativo no movimento conservacionista  nos Estados Unidos. A primeira de suas coleções de ensaios foi Wake-Robin em 1871.] 
 
 
Victor Westerholm, Kymi River, 1902 (Landscape Art), Lappeenranta Art Museum.
 

Naturalismo
 
Movimento estético-literário da segunda metade do século XIX, estreitamente relacionado com o Realismo, de que retoma a necessidade da observação objetiva da realidade e as preocupações socioculturais, acentuando, contudo, os seus pressupostos ideológicos e científicos. 
O Naturalismo relaciona-se intimamente com as transformações sociais e as novas correntes filosóficas e científicas do século XIX: o positivismo de Augusto Comte (1798-1857), teoria sociológica que defendia a necessidade da tomada de consciência das relações entre o indivíduo e a sociedade como condição para o progresso civilizacional; o determinismo de Hippolyte Taine (1828-1893), segundo o qual a obra era produto das influências da raça, do meio e do momento histórico; o experimentalismo de Claude Bernard (1813-1878). Estas doutrinas foram aplicadas à literatura pelo romancista francês Émile Zola (1840-1902), que expôs, na coletânea de artigos Le Roman expérimental (1880), a teoria do romance naturalista, concretizando-a nos vinte volumes da série Les Rougon-Macquart. Segundo Zola, o romance deveria explicar a decadência social mediante a demonstração de teses científicas.
A receção crítica da teoria naturalista de Zola fez-se em Portugal por intermédio de autores como Júlio Lourenço Pinto (1842-1907), José António dos Reis Dâmaso (1850-1895), António José da Silva Pinto (1848-1911) e Alexandre da Conceição (1842-1889). Esses, e outros como Teixeira de Queirós (1848-1919), autor das séries Comédia do Campo e Comédia Burguesa, Abel Botelho (1854-1917), criador do políptico Patologia Social, ou Carlos Malheiro Dias (1875-1941) tentariam a aplicação do Naturalismo ao conto e ao romance. Mais complexo é o caso de Eça de Queirós (1845-1900), que em 1871 profere a conferência "O Realismo como nova expressão da Arte", com claras influências da doutrina de Zola e sobretudo do determinismo de Taine, e a dado momento se aproxima do autor de Le Roman expérimental ao orientar o romance para uma atitude científica e objetiva, mas acaba por se demarcar do Realismo-Naturalismo, constituindo um caso único na nossa literatura. (daqui)