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sábado, 16 de novembro de 2024

"Sonetinho infantil" - Poema de Carlos Pena Filho



Gustave Doyen
(French painter, 1836–1923), Little girl with her doll  
(Petite fille et sa poupée), s.d.
 
 

Sonetinho infantil
 
 
Era clara a menina, longe ou perto,
mesmo entre os seus alvíssimos lençóis.
Ria, como se visse caracóis
cantando uma opereta no deserto.

Logo piscou um olho para o coelho
que - diziam - não era bom da bola
e mágicos tirava da cartola
pois vivia ao contrário, atrás do espelho.

Depois ficou olhando uns elefantes
que mantinham conversa acalorada
sobre a lista dos dez mais elegantes.

Mas, depressa fechou seus olhos pretos
e adormeceu, para não ser trancada
com a chave de ouro de fechar sonetos. 


Carlos Pena Filho
 

sábado, 2 de novembro de 2024

"A solidão e sua porta" - Poema de Carlos Pena Filho


Georg Scholz (German painter, member of the New Objectivity movement, 1890 –1945),
Self-Portrait in front of an Advertising Column, 1926.
 


A solidão e sua porta

A Francisco Brennand

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.


 Carlos Pena Filho, in "Livro Geral", 1959.
 
 
Georg Scholz, Newspaper Carriers (Work Disgraces), 1921.
 

"Considero como uma das felicidades da minha vida não escrever nos jornais; isto prejudica a minha bolsa, mas faz bem à minha consciência - que é o principal".


Gustave Flaubert
- Lettres inédites à la Princesse Mathilde - Página 15,
Louis Conard, 1927 - 236 páginas.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

"Soneto Oco" - Poema de Carlos Pena Filho



Pedro Weingärtner (Pintor, desenhista e gravurista brasileiro, 1853 –1929),
 "O notário", 1892. Coleção particular.



Soneto Oco


Neste papel levanta-se um soneto,
de lembranças antigas sustentado,
pássaro de museu, bicho empalhado,
madeira apodrecida de coreto.

De tempo e tempo e tempo alimentado,
sendo em fraco metal, agora é preto.
E talvez seja apenas um soneto
de si mesmo nascido e organizado.

Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,
pois não sei como foi arquitetado
e nem me lembro quando apareceu.

Lembranças são lembranças, mesmo pobres,
olha pois este jogo de exilado
e vê se entre as lembranças te descobres.


Carlos Pena Filho, "Livro Geral", 1959
 
 
Pedro Weingärtner, "Remorso", 1902

 
"Remorso" (1902) é uma pintura de Pedro Weingärtner inserida no conjunto elaborado pelo artista acerca da Revolução Federalista
O pintor mostra um descampado onde se levantam várias cruzes, num ambiente que devia ter impressionado pela desolação e o que de factos dolorosos evocava.
Ali devia ter havido um sangrento recontro e após a peleja várias cruzes ficaram a assinalar as sepulturas dos vencidos. O homem de cabelo revolto que está ali, ajoelhado diante de uma sepultura, sobre a qual acendeu várias velas, veio trazido pelo remorso. Sobrevivente da luta, despojara dos valores que trazia o cadáver de um combatente que sucumbira e retornou ao antigo campo de batalha pedir perdão a Deus."
 
 Fonte: Pedro Weingärtner 1853-1929: Um Artista Entre o Velho e o Novo Mundo

sábado, 28 de setembro de 2024

"Soneto do Desmantelo Azul" - Poema de Carlos Pena Filho


Felice Casorati (Italian painter, sculptor, and printmaker, 1883–1963), Marina, 1931


Soneto do Desmantelo Azul


Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


Carlos Pena Filho, in "Livro Geral", 1959

 

domingo, 8 de setembro de 2024

"Retrato na Praia" - Poema de Carlos Pena Filho



Edward Cucuel (German-american Impressionist painter, 1875–1954),
Summer Dreaming, c. 1911-12.
 


Retrato na Praia

 
Ei-la ao sol, como um claro desafio 
ao tenuíssimo azul predominante. 
Debruçada na areia e assim, diante
 do mar, é um animal rude e bravio. 
 
Bem perto, há um comentário sobre estio, 
mormaço e sonolência. Lá, distante,
 muitos vagos indícios de um navio 
que ela talvez contemple nesse instante. 
 
Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza 
por seu corpo salgado, enxuto e belo, 
como se nuvem fosse, ou quase brisa. 
 
E desce por seus braços, e rodeia 
seu brevíssimo e branco tornozelo,
 onde se aquece e cresce, e se incendeia. 
 

Carlos Pena Filho
, "Livro Geral", 1959
 
 
Edward Cucuel, The bather, s.d.
 
 
Edward Cucuel, The bathers, s.d.
 
 
Edward Cucuel, On the shore, s.d.
 
 
Edward Cucuel, On the dock, s.d.
 
 
Edward Cucuel, Her Favourite Spot, s.d.
 
 
Edward Cucuel, Girl in a boat, s.d.
 
 
Edward Cucuel, An elegant lady by a lake, s.d.
 
 

Edward Cucuel

 
Edward Alfred Cucuel (1875-1954) was a newspaper illustrator turned Impressionist, known especially for his vibrant palettes and portraits of women in dappled landscapes.
Born in San Francisco, Cucuel began his training at the San Francisco School of Design in the late 1880s; his father was a newspaper publisher, and the young Cucuel worked for several newspaper art departments in his teenage years.
Cucuel moved to Paris in 1892 to continue his artistic studies at the Academy Julian and the Ecole des Beaux-Arts. He returned to the United States in 1896, working for half a year as an illustrator in New York, then left once more for Paris. After a couple of years spent painting in that city, Cucuel struck out to travel through France, Italy, and Germany to study the old masterworks in person.
In 1907 he moved to Munich to establish a more permanent residence, training with Leo Putz to more seriously develop his Impressionist painting practice.
Cucuel remained in Germany until 1939, gradually gaining recognition, with his works being shown in Paris salons and at the Art Institute of Chicago.
The outbreak of World War II forced Cucuel to come back to the United States; he lived in Pasadena for the remainder of his life. (daqui)

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

"Elegia para a Adolescência" - Poema de Carlos Pena Filho


Johannes Vermeer also known as Jan Vermeer (Dutch painter, 1632–1675),
Girl with a Pearl Earring, c. 1665, Mauritshuis, The Hague, Netherlands.



Elegia para a Adolescência 

 
E enfim descansaremos sob a verde
resistência dos campos escondidos.
Nem pensaremos mais no que há de ser de
nós que então seremos definidos.

No mar que nos chamou, no mar ausente,
simples e prolongado que supomos
seremos atirados de repente,
puros e inúteis como sempre fomos.

Veremos que as vogais e as consoantes
não são mais que ornamentos coloridos,
fruto de nossas bocas inconstantes.

E em silêncio seremos transformados,
quando formos, serenos e perdidos,
além das coisas vãs precipitados.


Carlos Pena Filho
, in 'Livro Geral', 1959

segunda-feira, 5 de junho de 2017

"Testamento do homem sensato" - Poema de Carlos Pena Filho




Testamento do homem sensato


Quando eu morrer, não faças disparates 
nem fiques a pensar: «Ele era assim...» 
mas senta-te num banco de jardim, 
calmamente comendo chocolates. 

Aceita o que te deixo, o quase nada 
destas palavras que te digo aqui: 
foi mais que longa a vida que eu vivi, 
para ser em lembranças prolongada. 

Porém, se, um dia, só, na tarde em queda, 
surgir uma lembrança desgarrada, 
ave que nasce e em voo se arremeda, 

deixa-a pousar em teu silêncio, leve 
como se apenas fosse imaginada, 
com uma luz, mais que distante, breve. 


Carlos Pena Filho, in 'Livro Geral', 1959