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sábado, 22 de junho de 2024

"Toponímia" - Poema de Inês Lourenço

 
Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Porto, s.d., óleo sobre tela.
 
 
Toponímia


Mudam-se os tempos. Já
não sabemos as matinais canções
nem habitamos vilas morenas.
Toleramos serventes de pedreiro louros,
de preferência não legalizados. Queremos
um grande apartamento em condomínio
fechado, um ferrari, uma piscina, um topo
de gama de uma coisa qualquer.

Temos ruas, temos praças e pontes
com nome de revolução. Como todos
os países temos hino - nação valente
imortal. Tivemos canela e diamantes,
santos, barregãs e dinastias de
tiranos e servos. Andámos muito
no mar, trocando rotas e poderes,
escravos, inquisições e cruzes.

Agora, neste estreito
quadrilátero, de onde saímos
e mal regressámos, sem índias nem
quinto império - salvou-se o manuscrito do
Luís Vaz a nado - restam-nos a sardinha
e a conquilha - ao que consta cercadas
de barcos espanhóis - o bacalhau
que já não vem da Terra Nova, a memória
dos pescadores de baleias, esgotada a captura
nas ilhas.

Também temos o treze
de Maio, o negócio clandestino
das abortadeiras, a broa de Avintes,
os tintos, por enquanto de marca e
o leitão da Bairrada e o Benfica e
o Sporting e o Futebol
Clube do Porto.

Temos ruas, temos praças e
pontes com nome de revolução,
topónimos nebulosos que a distância
apagará. Apenas aquela rua
chamada Cantor Zeca Afonso
poderá surpreender o transeunte
se acrescentarem o aviso:

nunca quis uma rua
só para si.


Inês Lourenço, in Logros Consentidos, 
Editor: & etc, 2005.
 
 

Armando Aguiar
, Porto, s.d., óleo sobre tela.
 
 
Porto

 
"Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto dependurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha."

Há como que seteiras, fendas, passadiços e bocais de pontes diante dos nossos olhos assestados sobre essa tremenda presença de rocha, caliça e betão armado. Uma ravina profunda marca o entalhe do rio, cujas águas verdes da primavera refletem o crescente da sombra dos rabelos de velas enfunadas.

O sol parece baixo sobre a cidade segregada da pedreira; uma transcendência de melancolia paira e comove-nos. A muralha infunde em nós essa doce tristeza europeia, um orgulho de atividade, um desenho de pompas escravas, um sonho económico e uma impraticável fé de liberdade.

A muralha cresce com os seus pequenos palácios da beira-mar, os seus bairros insubstituíveis de lata e de papel, as suas casa bancárias, os crimes de venalidade e de injúria, e os alegres pais de família com uma mulher em cada braço.

Atrás das suas pedras há a nobreza mourisca, há o judeu caviloso e astuto, o fenício do grande comércio, o homem da Lusitânia criticador e inerte. Ela é a muralha povoada de funcionários e mestres de obras, de colegiais, de artistas ingleses colonialistas – e pelo capital.

A sua alma é funda e profética, os seus costumes rigorosos mas não severos – e há mais espírito na sua gente de ilha, na sua gente crua de sentimento e afeiçoada à desgraça, que nos altos patíbulos da raça onde se convertem os grandes a um passatempo de serões.

Ela é a muralha, com a cintura rodeada de nevoeiros, generosa e tímida, com a sua coroa provinciana e a luva suja na mão descalça.”

Agustina Bessa-Luís, no livro A Muralha, 1957
 

segunda-feira, 11 de março de 2024

"A Bucólica Margem" - Poema de Egipto Gonçalves

 
 
Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Rio Douro, Porto e Vila Nova de Gaia, s.d.


A Bucólica Margem


Sento-me então a olhar o rio,
os pensamentos formam cardumes
que contra a corrente se insurgem
mas as águas são inexoráveis;
olhando-as, a superfície cintila,
propaga-se como se fossem notas
de um piano na garupa de um cavalo
que se dirige para o mar.

O Douro bebe as cores da cidade,
sobre elas eu abro o coração
em que te encontras, as colinas
emolduram as raízes que à terra
nos ligam. Para os meus olhos
é momento de pausa: as coisas
que interrogo não resistem à maré,
não dão respostas; perdem-se no mar
como tudo o que a memória não reteve.

Mas este rio
já foi longamente folheado, nele
escrevemos
o romance que nos deu uma casa,
nos cortou o cabelo, nos afastou
das rugas, nos entregou o azul
(tecido, nuvem, divã, janela...)
o voo das artérias, lugar do corpo,
portas que amanhecem, espelho
onde fazemos fluir a vida.
Acordes
da guitarra que forja o horizonte,
que guia o sinuoso voo das gaivotas
e acaricia a pele que rasga atalhos
no interior dos sonhos. Estarei
vivo enquanto assim me guardar
teu coração. E no seu lucilar,
esta água imita o fogo
que devora sombras e escombros,
libertando a asa que no sangue
respira. A foz está próxima,
mas o horizonte é o teu olhar.
No leitor do carro, a guitarra flexível
sublinha o que divago; os acordes
disparam,
encontram-me na trajetória do seu alvo.


Egito Gonçalves, A Ferida Amável,
Campo das Letras, 2000.

 

 
Armando Aguiar, Rio Douro, Porto e Vila Nova de Gaia, s.d.

«Uma ida ao Porto é sempre uma lição de portuguesismo, tanto mais rica quanto mais raramente lá se vai. É indispensável – claro! – um mínimo de contacto reiterado com esse lar da nação para nele vermos algumas das significações latentes que enriquecem a nossa consciência de práticas.» — Vitorino Nemésio
 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

"Metamorfose" - Poema de Jorge de Sena


Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Rua e Igreja e Torre dos Clérigos, Porto
 
 
 
Metamorfose


Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se refletem na água.

E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter…
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.
 
25/10/42

Jorge de Sena
, in Coroa da terra. 
Porto: Lello & Irmão, 1946
 
 

 
Jorge de Sena, Coroa da terra.
Edição/reimpressão: 05-2021
Editor: Assírio & Alvim
 
 
SINOPSE
 
É com certo arrepio que se lê a crueza de Jorge de Sena nas páginas de Coroa da Terra (1946), o seu segundo livro de poesia, dedicado à Cidade do Porto, o palco da sua errância. Mostra-se assim a visão de Sena, nas palavras de Francisco Cota Fagundes, como «uma poesia por vezes intencionalmente rude e nunca de bibelot d’inatité sonore […] que se fosse música, seria um longo e persistente réquiem dilacerante […] poemas em que a criança é um dos temas dominantes, como dominante e marcante é o seu carácter de poesia de resistência e de empenho».
 
 “Para a minha alma eu queria uma torre como esta, /assim alta, /assim de névoa acompanhando o rio […]”. Estes versos de Jorge de Sena em Metamorfose conduzem-nos até à Torre dos Clérigos, um dos elementos mais emblemáticos da cidade, cuja imponência inspirou o poeta. O autor estudou no Porto e, durante esse período, escreveu Coroa da Terra (1946), obra da qual faz parte Metamorfose e onde faz uma dedicatória “à cidade onde este livro foi, na sua maior parte, vivido e escrito […]”. (daqui)
 
 

Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Clérigos, Porto, Portugal
 
 
[O conjunto arquitetónico dos Clérigos, que integra a Torre, a Igreja e um Museu, é, de facto, local de passagem obrigatória para todos os que visitam a cidade do Porto. A Igreja e a Torre integram uma edificação do século XVIII, de inspiração barroca, que marcou a configuração urbana da cidade e, em 1910, foi classificada como Monumento Nacional. Nicolau Nasoni projetou-a com genialidade, criando numa rua desnivelada um edifício de referência, que pode ver-se de quase toda a cidade.
Igreja e Torre estão unidas pela Casa da Irmandade que, desde 2014, está aberta ao público como Museu, com uma exposição que convida a uma viagem pelo tempo e pelo espaço, pela imagem e pela devoção.(daqui)]
 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

"Balada do Rio Douro" - Poema de Pedro Homem de Mello



Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Ribeira do Porto, s.d.

 
Balada do Rio Douro

 
Que diz além, além entre montanhas,
O rio Douro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!...
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?...
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira...
Que triste e rouca a voz dos mercadores!...
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores...
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade...
Que diz o rio além? Por que não há de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas...
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!...
 

Pedro Homem de Melo
, Poesias Escolhidas 
 
 

Manuel Cardoso Lima (Pintor português, n. 1949), Porto - Ribeira, s.d., 
 óleo sobre tela, 80x130 cm.
 

A cidade e a Poesia

As cidades são como as pessoas, têm os seus se­gredos, e às vezes guardam-nos bem guardados. Há quem goste muito do Porto e há quem o deteste. Queria falar desta cidade "tão masculina" sem nenhum peso de erudição, que é coisa tão inimiga da poesia, que só Borges, que eu saiba, lhe conseguiu arrancar alguns versos dignos da sua prosa. Também não me parece leal contrapor-lhe outras cidades, e menos ainda Ve­neza. Toda a gente sabe que se Veneza não cheirasse a água podre seria incomparável, mas cheiro por cheiro antes o de Marraquexe; Marraquexe cheira a cavalos, que é cheiro de homem. Há quem goste do Porto, dizia eu; Marguerite Yourcenar — ninguém sabe, porque foi a mim que o disse — andou por aqui dois dias fascinada com a Ribeira e as encostas da Sé. Isto de gostar não tem explicação fácil. O mais simples é, se nos pedem razões, dizê-lo com as palavras de Montaigne: Parce que c'était lui, parce que c'était moi. Mas não só o amor tem estranhos mecanismos, os do ódio não lhe ficam atrás.

Há anos li muita coisa sobre o Porto, não tive outro remédio, fiz sobre ele uma antologia que circula por aí. Nessa altura deparei com coisas tão acintosas que fui levado a pensar em ressentimentos. Algumas daquelas coisas eram escritas com dor de corno. Camilo, Eça, Antero, Nobre, Pascoaes detestavam-no. "A sentina é aqui", dizia Camilo num vómito. "Pançudo e pesado", é o Eça a falar, enquanto entala o monóculo. "O Porco", afirma Antero que lhe chamava Oliveira Martins. "Tão carregado de província que nem os arredores de Braga", diz, já mais perto de nós, Pascoaes em 'O Peni­tente'. E sigo, que o meu destino é outro. Mas o burgo também tem quem lhe faça a corte: Jaime Cortezão, Rodrigues Miguéis, Miguel Torga, Jorge de Sena, Agustina Bessa-Luís gostam dele, como testemunharam de muitos modos. Agustina é no nosso tempo o seu cro­nista, e cronista admirável, nunca é demais repeti-lo, pois há sempre quem o não saiba; quanto ao seu poeta, ainda não lhe disse o nome, e vai sendo tempo: Pedro Homem de Mello. Caiu sobre ele, desde que morreu, um estranhíssimo silêncio. Eu estou pouco a par dessa coisas, há muitos anos que não leio jornais, mas creio que não há um beco ou uma viela com o seu nome. Nem sequer uma escola ou um jardim de infância. Qual foi o agravo que fez à cidade onde nas­ceu? Não era um grande poeta? Pois não, mas os grandes poetas são tão raros! Na geração que foi a dele — a do Segundo Modernismo, como se lhe vem cha­mando — quem, além de Vitorino Nemésio, é grande poeta? A sua poesia era muito irregular? Sem dúvida, mas irregular, que poeta o não foi neste país? Veja-se o Gomes Leal, com quem o Pedro tem afinidades, ou até poetas de outras dimensões, o Nobre, o Pascoaes, o Sena. Estamos pois de acordo: nem grande poeta nem espírito crítico capaz de corrigir as emoções – mas era um poeta, e também não há tantos como isso, ao contrário do que se diz. O que há muito entre nós é literatos, gente em que sobra espírito e falta alma. Ocorre-me Flaubert: Ah! Ah! les gens d'esprit, quels pauvres gens cela fait! Como principiei por afirmar — e ele tinha consciência e orgulho disso — Pedro Homem de Mello é, como nenhum outro, o poeta do Porto, das suas ruas escuras, dos seus jardins "de má fama", dos seus palácios em ruína, das suas torres de face encardida, das grades frias dos seus aljubes, do luto entranhado dos seus habitantes, e também da sua estreiteza conservadora, do seu grosseiro espírito de ganância; de tudo isto ele era o poeta, como era também aquele de quem os juízes e tabeliães e bem pensantes faziam troça, os políticos malevolamente se aproveitavam, e a gente anónima respeitava, porque, apesar do brasão ostensivo no dedo e algum snobismo, tinha sempre um sorriso ou uma palavra afável para o cobrador do elétrico ou para o engraxador; pois apesar de ser um senhorito da televisão, visitava os amigos com moços sem eira nem beira, que levava para os seus versos, e que, à semelhança de Kavafís, são os melhores que escreveu.

Apesar de Pedro Homem de Mello ter feito tanto frete ao SNI, e escrever versos que eram uma merda pedindo o voto em Salazar, e outros igualmente excrementícios para o Menino Jesus dos Correios todos os anos pelo Natal, ele nunca tinha cheta, nem sabia de usura, nem atraiçoava os amigos — amava a poesia de Verlaine e António Nobre, o nosso Romanceiro e o de Lorca, de que herdou ritmos e segredos; dançava o vira, ou lá o que era, como ninguém; gostava daquela gente da Serra d'Arga e da Nazaré, que lhe pagava na mesma moeda; e os versos que escreveu, às vezes, também têm a ver com o movimento soberbo daque­les braços erguidos e daquelas cinturas queimando os dedos de quem as tocava, ou então com os olhos turvos que se cruzavam com os seus na Cordoaria, e lhe arrepiavam a pele ou paralisavam os passos — porque a sua poesia, não vale a pena ocultá-lo, partia dali, de todos os sentidos despertos, que nele deviam ser mais de cinco. E quando os seus versos não têm essa origem o melhor é ignorá-los, porque então raramente ultra­passam a mais convencional e rasteira prosa metrifi­cada. 
 
— "Quando penso que tenho que pensar fico com dores de cabeça", disse-me ele um dia — e devia dizer a verdade. 
O Pedro, apesar dos universos divergentes, e não apenas mentais, a que eu e ele pertencíamos, foi meu amigo. Imaginem: amigo de quem é tão distraído e distante para as coisas literárias e, ainda por cima, sem paciência nenhuma para aquele exibicionismo pueril de poemas lidos na rua ou à mesa do café, e por ele, que os lia tão mal, tão mal... Mas era gentil e generoso e bem educado, coisas em que minha mãe reparou logo quando o conheceu, numa das suas vindas ao Porto. Ocorre-me agora que, um ou dois dias depois, o Pedro passou pelos Serviços onde eu trabalhava só para me dizer:
— A tua mãe é linda! 
Era a primeira vez que estava inteiramente de acordo com ele.
 
 
Eugénio de Andrade (1923—2005), "À Sombra da Memória", 1993
 

Eugénio de Andrade, "À Sombra da Memória",
Editor: Assírio & Alvim

Edição/reimpressão: 06-2018
 

«Este livro, 'À Sombra da Memória' (1993), continua 'Os Afluentes do Silêncio' (1950) — são coisas ocasionais: falas em raras ocasiões públicas, prefácios a dois ou três livros em colaboração com amigos, palavras de amizade ou admiração em catálogos de exposições ou plaquetes de homenagem. Coisas assim, esparsas, uma vez mais, no correr dos dias. Terei de reconhecer que falo de mim mais do que devia mas, em prosa, ninguém me voltará a encontrar noutro sítio — prometo.» — Eugénio de Andrade (daqui)
 
 
 
Eugénio de Andrade, "Os Afluentes do Silêncio",
Editor: Assírio & Alvim
Edição/reimpressão: 12-2013

 
«As crónicas de 'Os Afluentes do Silêncio' (1950) constituem uma prova plena dessa capacidade de assimilar e transformar, com imaginação, pessoas, ideias e espaços. São também águas vivas onde se reflete o rosto de um poeta maior, ao longo de décadas. Sempre fiel às amizades fraternas, mas sensível a beliscaduras; desapegado do poder político, porém interventivo; indiferente a bens materiais, contudo grato pela partilha de poemas, pinturas e canções; cidadão do mundo, sem deixar de ser de Póvoa de Atalaia ou do Porto - Eugénio é tão singular e autêntico quanto a sua obra. O tempo saberá recordar este homem com coração de pássaro.» (daqui)

segunda-feira, 31 de julho de 2023

"Vila do Conde" - Poema de Ruy Belo

 

Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Vila do Conde, Portugal
 

Vila do Conde


O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja para casar.

O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio.

O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino.

O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu.

O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida para o liceu.

Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?

O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem luz na fronte
fica no norte e é Vila do Conde.


Ruy Belo
, in Homem de Palavra(s), 1969 
 
 
Ruy Belo - "Vila do Conde"
Voz: Luís Miguel Cintra



“Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas, porque a gente não esquece. 
O que a memória ama fica eterno.”

Rubem Alves, "O Retorno e Terno", Editora Papirus.
 


Rubem Alves, "O Retorno e Terno",
Papirus Editora, 1ª Edição em 2013
 

Sinopse

A ideia para uma crónica me vem sempre como uma experiência de alegria, mesmo que o assunto seja triste. Ela aparece repentinamente, nos momentos mais inesperados, como a visão de uma imagem. O que tento fazer é simplesmente pintar com palavras a cena que se configurou na minha imaginação.
Sou psicanalista. Meu trabalho se baseia na escuta. Cada cliente fala e, ao fazer isso, me permite andar nas paisagens da sua alma. Ao escrever uma crónica faço o contrário: sou eu que ofereço as paisagens da minha alma aos olhos dos meus leitores. E eles, sem o saber, são os meus psicanalistas...
O escritor não é alguém que vê coisas que ninguém mais vê. O que ele faz é simplesmente iluminar com os seus olhos aquilo que todos vêem sem se dar conta disso. E o que se espera é que as pessoas tenham aquela experiência a que os filósofos Zen dão o nome de "satori": a abertura de um terceiro olho, para que o mundo já conhecido seja de novo conhecido como nunca o foi. (daqui)
 
 
Rubem Alves
 
Rubem Alves, pedagogo, educador, professor, psicanalista e escritor brasileiro, nasceu a 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, no estado de Minas Gerais e faleceu em Campinas a 19 de julho de 2014.
Aos doze anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Estudou Teologia num seminário presbiteriano entre 1953 e 1957 e, no ano seguinte, tornou-se pastor em Lavras, no interior de Minas Gerais.
Com trinta anos, foi estudar para Nova Iorque, onde fez um mestrado em Teologia. Regressou ao Brasil em 1964 e, quatro anos mais tarde, foi considerado subversivo pela Igreja Presbiteriana. Decidiu abandonar esta igreja e ir viver para os Estados Unidos da América, onde continuou a estudar, concluindo um doutoramento em Filosofia. Já neste país publicou, em 1969, a sua tese A Theology of Human Hope, que entende ser um dos primeiros documentos da Teoria da Libertação.
Regressou, entretanto, ao Brasil para dar aulas de Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, em São Paulo, e, mais tarde, na Universidade Estadual de Campinas, onde viria também a ocupar ao longo dos anos diversos cargos de relevo.
Já na década de 80, tornou-se psicanalista ao fazer o curso na Sociedade Paulista de Psicanálise. Paralelamente, foi docente convidado na Universidade de Birmingham, em Inglaterra, e no Bellagio Study Center, em Itália.
Passou posteriormente, ainda nos anos 80, por uma fase difícil na sua vida pessoal e resolveu começar a escrever para recuperar a alegria de viver, dividindo-se entre poesia, contos, romances, histórias para crianças e ensaios.
Várias das obras de Rubem Alves foram editadas em Portugal, nomeadamente A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir, A Alegria de ensinar, As Cores do Crepúsculo - A Estética do Envelhecer, Conversas com quem gosta de ensinar, As Mais Belas Histórias de Rubem Alves (para crianças) e Se Eu Pudesse Viver a Minha Vida Novamente...
A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir é uma obra sobre a Escola da Ponte, em Vila das Aves, em Portugal, onde o autor encontrou, no ano 2000, o modelo de ensino que considera ideal.
Quando deixou de lecionar, abriu um restaurante em Campinas onde pôde exercer o seu gosto pela culinária. No mesmo espaço, organizou cursos de cinema, pintura e literatura.
A cidade de Campinas reconheceu o mérito do trabalho de Rubem Alves fazendo-o membro da Academia Campinense de Letras, cidadão-honorário, e entregando-lhe a medalha Carlos Gomes pela sua contribuição para a cultura. (daqui)
 

segunda-feira, 10 de julho de 2023

"Sobre a minha cidade" - Poema de Vasco Graça Moura


Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Ribeira do Porto, s.d.



Sobre a minha cidade

Sobre a minha cidade, falei-te ontem mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre

a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi

violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,

maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do Barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.

que percorreste as pontes que da minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela.


Vasco Graça Moura
, in “Os Rostos Comunicantes”,
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984;
“Poesia 1963/1995”, Lisboa: Quetzal Editores, 2007


 
Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Cheia em Miragaia (Porto), s.d.


"Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é Ribeira. A encosta cobre-se de casas, as casas desenham ruas, e, como todo o chão é granito sobre granito, cuida o viajante que está percorrendo veredas de montanha."
 


"Viagem a Portugal" de José Saramago,
Edição/reimpressão: 10-2021,
Editor: Porto Editora 


Resumo

Entre outubro de 1979 e julho de 1980, José Saramago percorreu o país lés a lés a convite do Círculo de Leitores, que comemorava o décimo aniversário da sua implantação em Portugal. Disse o autor após essa deambulação, misto de crónica, narrativa e recordações, que «o fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite... É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos». 
Este é um livro decisivo para José Saramago, na medida em que se constituiu como um marco que ofereceu ao autor condições materiais para se dedicar à escrita a tempo inteiro. Esta edição especial de Viagem a Portugal inclui todas as fotografias que Saramago fez ao longo da sua viagem — quase todas inéditas —, a par de fotografias de Duarte Belo, e a sua publicação coincide com o início das comemorações do Centenário de José Saramago. (daqui)
 
Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é Ribeira. A encosta cobre-se de casas, as casas desenham ruas, e, como todo o chão é granito sobre granito, cuida o viajante que está percorrendo veredas de montanha.“ — José Saramago, livro Viagem a Portugal Viagens. Contos. Romances, José Saramago, Lello & Irmão, 1991,

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2029990-jose-saramago-afinal-o-porto-para-verdadeiramente-honrar-o-nom/?utm_content=cmp-true
Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é Ribeira. A encosta cobre-se de casas, as casas desenham ruas, e, como todo o chão é granito sobre granito, cuida o viajante que está percorrendo veredas de montanha.“ — José Saramago, livro Viagem a Portugal Viagens. Contos. Romances, José Saramago, Lello & Irmão, 1991,

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2029990-jose-saramago-afinal-o-porto-para-verdadeiramente-honrar-o-nom/?utm_content=cmp-true