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sexta-feira, 18 de julho de 2014

"No Meu País" - Poema de Sebastião Alba





No Meu País



No meu país
dardejado de sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
à flor da possível
geografia
um frémito cinde
as estações do ano.
 in 'O Ritmo do Presságio'


Conjunto azulejar azul e branco composto por motivo de dezasseis peças.
 Igreja Matriz de Argoncilhe.
 

O Azulejo em Portugal
 
Painel de azulejos da autoria de Jorge Colaço (1922) ilustrando uma cena da Batalha de Aljubarrota
  que em 1385 opôs os exércitos Português e Castelhano
Em exposição no Parque Eduardo VII, em Lisboa.
 
 
A partir dos finais do século XV, princípios do XVI, quando a decoração ornamental muçulmana teve um papel importante na arte portuguesa, foi estimulado o desenvolvimento do azulejo. Eram feitas encomendas de azulejos às cerâmicas mouriscas de Sevilha e então dominava o gosto por superfícies completamente cobertas com azulejos, que permitiam uma melhor compreensão da organização geométrica das formas. 
 
Na segunda metade do século XVI chegam a Portugal azulejos vindos das oficinas flamengas e espanholas de Talavera e Sevilha. Por influência destes centros, Portugal aprendeu o método de fabrico e pintura de faianças (de origem italiana), o uso de composições figuradas e a divulgação da última decoração renascentista que exerceu a sua influência durante o século XVII. 
 
Do Oriente chegou o sentido do brilho, exuberância e fantasia de motivos ornamentais, especialmente através dos tecidos, e o uso das cores intensas. 
 
Da China veio o azul da porcelana, que na segunda metade do século XVII deu ao azulejo composições já sem caráter repetitivo, cheias de dinamismo, de formas em movimento. 
 
Nos finais do século XVII, princípios do século XVIII, Portugal importou da Holanda grandes quantidades de azulejo, absorvendo a pureza e o refinamento dos materiais, assim como a ideia de especialização de pintores.
 
 No reinado de D. João V (1706-1750), os azulejos sofrem a influência da talha, utilizando os mesmos motivos numa tendência para que as superfícies inteiras de parede fossem revestidas, criando assim um impacto espetacular característico do Barroco. Por seu lado, as gravuras estrangeiras que circulavam no país inspiraram as composições dos painéis figurativos.
 
Após o terramoto de 1755, a frágil situação económica e a necessidade de reconstruir Lisboa levou a uma conceção utilitária e prática do azulejo, usado como um complemento de fatores estéticos. Assim continuou até finais do século XVIII, o que conduziu a uma grande quebra ao nível da ornamentação.
 
Com o regresso do Brasil, após as invasões francesas, a corte portuguesa oitocentista trouxe consigo a ideia de usar o azulejo como material de revestimento das fachadas dos edifícios, dada a dualidade deste material. Por outro lado, a Revolução Industrial implicou uma certa industrialização do azulejo. 
 
Contudo, o azulejo não se limita em si mesmo a receber influências. O azulejo impõe-se pela sua força como um elemento complementar de uma estrutura arquitetónica. Portugal, ao utilizar azulejos estrangeiros, deu-lhes sempre uma utilização completamente diferente daquela que era tradicional nos países de origem.

As formas variadas de combinar os padrões e frisos hispano-mouriscos foram alcançadas de forma a assegurar ritmos e movimentos inesperados. Os azulejos feitos na segunda metade do século XVI, segundo as técnicas de pintura italiana e flamenga, mostram principalmente uma preocupação com os elementos estéticos e pictóricos.

Até ao fim do século XVII, padrões multicolores foram usados como uma decoração a sugerir linhas diagonais, desempenhando um papel importante e dinâmico na arquitetura. Os ritmos de diagonal não se harmonizavam bem com as linhas predominantemente verticais e horizontais da arquitetura. Deste modo, o azulejo altera de certa forma o caráter dos espaços fechados. É ainda neste período que as composições figuradas se desenvolvem e rapidamente cobrem as superfícies das paredes. É também nesta altura que se adota o azul feito do cobalto. 
 
A especificidade pictórica dos azulejos sugerem a dimensão de um espaço maior através da perspetiva. A ligeira variação na cor (provocada pelo fogo, segundo as técnicas artesanais), a cintilação, o ligeiro reflexo e o volume resultante da ondulação da superfície dos azulejos são elementos que faltam aos azulejos industriais. Estes adaptam-se melhor aos revestimentos de edifícios, onde o mais relevante é a luminosidade das cores.

O azulejo serviu também a Contrarreforma, que o utilizou para dar forma a um programa estético e religioso, influenciando o espírito dos crentes por meio de um espetáculo persuasivo. Com a ocupação espanhola e durante as guerras da Restauração, o azulejo viu o seu uso restringido aos edifícios religiosos. No entanto, com o governo do Conde da Ericeira e a construção de sumptuosas arquiteturas, assistiu-se a uma fase de expansão e modernização do azulejo no século XVII. Nesta altura surge uma renovação de padrões, técnicas e estilos. 
 
Durante o reinado de D. João V, o azulejo é largamente utilizado nas igrejas, palácios e casas pertencentes à burguesia, quer no interior, quer nos jardins. Esta grande utilização do azulejo contribuiu também para uma diminuição da qualidade e criatividade dos pintores. 
 
Com a implantação do regime liberal em 1834, o azulejo foi um acessório importante para o revestimento dos frontispícios e entradas de edifícios e, igualmente, de algumas lojas comerciais (padarias, tabernas).

Na primeira metade do século XX, o azulejo caracterizou-se, por um lado, pela exuberância e grande intensidade de cor dos seus frisos, composições e painéis de Arte Nova. Por outro lado, havia uma produção de azulejos de tendência nacionalista.
 
A implantação do Estado Novo e a definição do estilo de arquitetura de Salazar, por volta de 1946, levou à criação de um estilo nacionalista que rejeitou o azulejo. Nessa altura, ele é substituído pelo mármore. O azulejo voltaria a conquistar a sua dignidade pela mão dos artistas plásticos ligados à oposição a Salazar.

azulejo. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-18].

 
 
Painel rococó no jardim do Palácio Nacional de Queluz.
 

"Os azulejos relatam um mundo fabuloso que se oferece aos nossos olhos: um macaco a tocar flauta, uma mulher comendo uvas, (...), amantes namorando, um leão domado, uma moreia com pintas de leopardo." - John Berger


[John Peter Berger (5 de novembro de 1926, Highams Park, Londres) é um crítico de arte, romancista, pintor e escritor inglês. Entre suas obras mais conhecidas estão o romance G., vencedor do Booker Prize de 1972 e o ensaio introdutório em crítica de arte Ways of Seeing, escrito como acompanhamento da significativa série homónima da BBC, e frequentemente usado como texto universitário.]


 

sábado, 5 de julho de 2014

"Aqui louvo os Animais" - Poema de Sebastião Alba


Joaquín Sorolla, Portrait of a Jack Russell, 1909, Private Collection


Aqui louvo os Animais


Súbdito só de quem não reina, 
aqui louvo os animais. 
Há, entre mim e eles, uma funda 
relação de videntes: 
as paisagens que fendem 
e a minha, sepulta, 
perfazem um mesmo habitat. 
Desde que os não sondo, 
fez-se luz em nosso convívio. 
O ar inicial 
que ensaiava, icárico, 
nas bolas de sabão, 
mas não atina com o vácuo 
da cidade, vem-me 
dos seus pulmões arborescentes. 
Alheios à sua pele 
na osmose dos textos, 
ignoram que nas águas 
por correr, desta página, 
cruzam, saudando-se, 
o «Beagle» e a Arca de Noé. 


Sebastião Alba,
 in 'O Limite Diáfano'


Sebastião Alba


Sebastião Alba, pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves (11 de Março de 1940 / 14 de Outubro de 2000, nasceu na freguesia da CividadeBraga. Filho de Albano Moaz dos Santos Gonçalves, professor primário, e Adelaide Sebastiana Peixoto de Oliveira Carneiro, doméstica, partiu em 1949, com nove anos, para a colónia de Moçambique, passando a viver em Tete com os seus pais e irmãos. 
No início da década de 50, após passar no exame de admissão ao Liceu Salazar de Lourenço Marques, frequentou o Colégio Camões e também o Instituto Liceal na Beira. Em finais dos anos 50, a família passou a viver em Quelimane
Após ter sido incorporado no Contingente Geral em Boane aos 21 anos, desertou no segundo dia. Acabou detido e acusado de extravio de bens militares: cinto e bivaque. Ficou detido por dois anos e meio, sem julgamento e sob tortura, no isolamento. No entanto, ainda se ausentou quatro vezes da Casa de Reclusão. Cumpriu os quinze meses de pena a que foi condenado pelo Tribunal Militar na 23ª Enfermaria do Hospital Miguel Bombarda. Acompanhou sempre o conflito armado entre o Exército Português e a FRELIMO. Tendo manifestado o seu apoio à FRELIMO após a independência, e após frequentar um curso de formação em Inhanbane, foi convidado para assumir o cargo de administrador da província da Zambézia. No entanto, desanimado, acabou por abandonar o cargo passados alguns meses sem sequer pedir demissão.
Acabou por se fixar em Maputo com a família, entrando em contacto com intelectuais e figuras políticas, tais como Marcelino dos SantosRui NogarSérgio VieiraHonwana, etc. 
Em Outubro de 1974, Sebastião Alba vê publicado O Ritmo do Presságio, acompanhado de uma nota de apresentação por José Craveirinha, na colecção O Som e o Sentido da Livraria Académica de Lourenço Marques. Em 1981 e 1982 são publicados, respectivamente, O Ritmo do Presságio e A Noite Dividida pelas Edições 70.
A desilusão com a situação política em Moçambique e a preocupação com as filhas fez com que, relutantemente, voltasse a Portugal em 1983. 
Após um período atribulado por várias desilusões, (divórcio dos pais, morte da mãe, morte do pai, divórcio da sua esposa) acaba por voltar a Braga, passando a habitar quartos de aluguer. O problema com o álcool e tabaco agravam-se. Toma vida de andarilho, acabando por viver na rua, por escolha própria.
Em 1996, é publicada pela Editora Assírio e Alvim, através da colaboração do poeta Herberto Hélder, A Noite Dividida, que tenta recuperar o conjunto da sua obra poética, embora incompleta.
Na manhã 14 de Outubro de 2000, foi atropelado mortalmente por um condutor que se pôs em fuga, em Braga. A 7 de Outubro, num bilhete quase premonitório ao amigo Vergílio Alberto Vieira escrevia: «Se um dia encontrarem morto "o teu irmão Dinis", o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá.»
A título póstumo, foi publicada em 2000 a antologia Uma Pedra Ao Lado Da Evidência, cujas provas ainda foram revistas por Sebastião Alba.

Obras de Sebastião Alba:

1 - Poesias, Quelimane, Edição do Autor, 1965.
2 - O Ritmo do Presságio, Maputo, Livraria Académica, 1974.
3 - O Ritmo do Presságio, Lisboa, Edições 70, 1981.
4 - A Noite Dividida, Lisboa, Edições 70, 1982.
5 - A Noite Dividida (O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano), Lisboa, Assírio e Alvim, 1996.
6 - Uma Pedra Ao Lado Da Evidência (Antologia: O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano + inédito), Porto, Campo das Letras, 2000.

DaquiSebastião Alba - Projecto Vercial - Universidade do Minho


Galeria de Joaquín Sorolla y Bastida
Joaquín Sorolla y Bastida, The Gardens at the Sorolla Family House, 1920


"Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria."

(Dante Alighieri)


Joaquín Sorolla y Bastida, My Family, 1901


"A fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a direção de onde sopra."

(Dante Alighieri)


Joaquín Sorolla y Bastida, Clotidle sitting on the sofa, 1910


"A razão vos é dada para discernir o bem do mal."

(Dante Alighieri)


Joaquín Sorolla y Bastida, Clothilde at the Beach, 1904


"Abre a mente ao que eu te revelo e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência ouvir sem reter o que se escuta."

(Dante Alighieri)


Dante Alighieri, Afresco na Capela Bargello,