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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

"Canto místico" - Poema de Helena Kolody

 


Vittorio Matteo Corcos (Italian painter, 1859–1933), 
Conversation in the Jardin du Luxembourg, Paris, 1892.
 
 
Canto místico

 
Aqui estou, Senhor, no meio desta nave
Para cantar em teu louvor.
Minha voz é prisioneira da garganta:
Conhece a gama dos sons e não pode cantar.

Há vibrações sonoras em meus nervos.
Mas a voz ausentou-se de meu ser.

Teu mundo é uma ciclópica poesia
Que brilha no céu e brota no chão
E ruge e ri, e canta e chora.
Não encontro, porém, as palavras exatas
Dessa canção.

Se eu pudesse, ao menos,
Cantar a plenitude singela
De um momento feliz.
Dizer a inocência de uns olhos de criança,
Olhando serenos nos olhos da mãe...

A música das esferas
Sinto fremir, ouço vibrar
E não posso cantar.

Aqui estou, prisioneira de minha mudez,
Aflita em pranto, no silêncio grave
Da iluminada imensidão de tua nave.


Helena Kolody
in "Paisagem interior", 1949.
 

domingo, 4 de janeiro de 2026

"Ilhas" e "Hora plena" - Poemas de Helena Kolody


 
Charles Conder (English-born painter, lithographer and designer, 1868-1909),
"Gibraltar from Algeciras", 1905.


Ilhas


Somos ilhas no mar desconhecido.
O grande mar nos une e nos separa.

Fala de longe o aceno leve das palmeiras.
Mensagens se alongam nas líquidas veredas.

Cada penhasco é tão sozinho e diferente!
Ninguém consegue partilhar a solidão.

Ilhas no grande mar, aprisionadas,
Apenas o perfil das outras ilhas vemos.

Só Deus conhece nossa exata dimensão.


Helena Kolody
in "Vida breve", 1965 .



Charles Conder (English-born painter, lithographer and designer, 1868-1909),
"On the Beach, Swanage", 1901.



Hora plena


Hora plena, a do meio dia.
As figuras não projetam sombras.
A luz incide, vertical, nas criaturas.

Hora total em que o ser atinge
a plenitude.


Helena Kolody
in "Poesia mínima", 1986 .

sábado, 21 de junho de 2025

"Chega o verão" - Poema de Cecília Meireles

 


Gustavo Dall'Ara (Pintor e desenhista italiano que imigrou para o Brasil, 1865-1923),
"Praia do Flamengo", 1917, Coleção José Carlos Bruzzi Castello.
 

Chega o verão


Vamos abrir as janelas ao vento salgado do mar.
Chega o verão, vagarosa nau, de um trémulo horizonte,
com seu andar de floresta e seus odores enevoados
de resinas espessas e tormentas no alto da tarde.

Nuvens de cupins jorram da sombra, girando em cegueira.
Asas sem peso chovem o arco-íris, semeiam nácar pelos meus dedos.
Oh, por que serão feitas estas mínimas vidas
com tanta perfeição para instantâneas se desfazerem?

Vamos fechar as janelas sobre a noite, com seu vento de fogo.
Aqui vêm, despojados, os cupins pelas mesas,
arrastando-se por entre as próprias asas caídas.
Aqui vêm, num cortejo de desvalidos, de sentenciados...

Oh, dizei-me, dizei-me, que anjos, que santos, que potências
se ocupam desse silêncio movediço, do apressado
itinerário dos moribundos frágeis que passam! 


Cecília Meireles

in Poesia Completa - Dispersos (1918-1964)




Gustavo Dall'Ara, Cais do mercado, Rio de Janeiro, 1901.


A poesia impossível


Inquietação de marinheiro
Que sente o mar e seu chamado...
Não poder embarcar!

Prisioneiro do nada,
Pássaro mutilado
Que a distância fascina...


Helena Kolody, in "Vida breve", 1964.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

"Leilão de Jardim" - Poema de Cecília Meireles


Wolfram Onslow Ford (British painter, 1879-1956), Mother’s Garden, 1912


Leilão de Jardim



Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?

Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?

(Este é o meu leilão) 



William Brymner, A wreath of flowers, 1884


Alegria 

Trémula gota de orvalho
presa na teia de aranha,
rebrilhando como estrela.

Helena Kolody
(Haicai) 


 
William Stott, Girl in a Meadow, 1880


Pereira em Flor

De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
A pereira sonha.

Helena Kolody
(Haicai)

sábado, 15 de agosto de 2020

"Cantar de Ceifa" - Poema de Félix Lope de Vega


Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859–1935), Harvesters, 1905
 


Cantar de Ceifa


Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifar;
deu-me o sol, fiquei morena.

Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.


Félix Lope de Vega
(1562-1635)
Tradução de Jorge de Sena 



Achille Beltrame (Italian painter, illustrator and commercial artist, 1871-1945), Untitled


Indiscrição


 O vento contou:
uma rosa floresceu
no jardim vizinho.

Helena Kolody
(Haicai)

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

"As raparigas amam muito" - Poema de Maria do Rosário Pedreira


Harold Knight (English, 1874-1961), Sewing, c. 1924


As raparigas amam muito


As raparigas amam muito. Riem
atrás das mãos uma manhã inteira
para esconder o vermelho dos
beijos que alguém lhes roubou e
um nome que vão deixar escapar
entre as primeiras palavras que
disserem. Vestem do avesso os

aventais de chita e fazem o leite
sobrar do fervedor e o caldo ser
mais salgado do que o mar. Mas

é bonito vê-las caminhar descalças
ao longo do corredor, como se
pedissem um par para dançar. As

raparigas amam tanto. Sentam-se
em rodas de segredos uma tarde
inteira e esquecem no tanque os
colarinhos sujos das camisas, e os
cueiros, e uma barra de sabão a
derreter-se como o seu coração.

Mas é bonito vê-las beijar a boca
ao espelho no quarto das traseiras
e também a outra boca no retrato
que a seguir escondem amordaçado
na algibeira, não lhes cobice alguém
o que não tem. As raparigas amam

de mais. Deixam-se ficar sem dizer
nada uma noite inteira, bordando
no linho dos enxovais letras secretas
ao calor do fogão. E picam os dedos

distraídos nas agulhas que usaram
para descobrir o sexo de cada filho
que terão num jogo que jogaram
entre elas à tardinha. Mas é bonito

vê-las ao serão, quando o vento as
chama atrevido da cozinha e dão
um pulo seco na cadeira, e largam o

bordado e a lareira, e correm até à
porta a colher beijos que lhes deixam
risos nos lábios tão vermelhos como
as mais doces cerejas deste verão.


Maria do Rosário Pedreira,

Nenhum Nome Depois
gótica, 2004



 
Harold Knight, A young seamstress, 1907


No mundo da lua

Não ando na rua.
Ando no mundo da lua,
falando às estrelas.

Helena Kolody
(Haicai) 


segunda-feira, 27 de julho de 2020

A Ceifeira solitária - Poema de William Wordsworth


Charles Sprague Pearce (Americano, 1851-1914), A Ceifeira 
 

A Ceifeira solitária 


Só ela no campo vi:
solitária de altas serras,
ceifa e canta para si.
Não digas nada, que a aterras!
Sozinha ceifa no mundo
e canta melancolia.
Escuta: o vale profundo
transborda já de harmonia.

Nunca um rouxinol cantou
em sombras da Arábia ardente
ao que exausto repousou
mais grata canção dolente;
ou gorjeio tão extremado
se escutou na Primavera,
cortando o Oceano calado
entre ilhas de Além-Quimera.

Quem me dirá do que canta?
Será que o que ela deplora
é antigo, triste e distante,
como batalhas de outrora?
Ou coisas simples são
do quotidiano viver?
Essas dores de coração,
que já foram e hão de ser?

Seja o que for que cantara
é como infindo cantar,
que a vi cantando na seara,
no trabalho de ceifar.
Sem falar, quieto, eu escutava.
E, quando o monte subia,
no coração transportava
o canto que não se ouvia.


William Wordsworth
Tradução de Jorge de Sena 



Charles Sprague Pearce, Returning from the Fields
 

Desafio

A via bloqueada
instiga o teimoso viajante
a abrir nova estrada

Helena Kolody
(Haicai) 


terça-feira, 21 de julho de 2020

"Poema cansado de certos momentos" - Poema de Fernando Namora



Hugues Merle (French, 1823-1881), Maternal Affection, 1867



Poema cansado de certos momentos


Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar distâncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo
para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando. 

Mãe! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e não olhaste os pegos nem as cobras,
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
— e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.

Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?


Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"


Hugues Merle, Maternal Love, 1880, High Museum of Art
 

Voz da noite

O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.
A voz da noite,
diz baixinho:
esquece… esquece…


Helena Kolody
Voz da Noite, in Viagem no Espelho, 1988 


quinta-feira, 16 de julho de 2020

"Alegria de Viver" - Poema de Helena Kolody



William Shih-Chieh Hung (1928 – 2011)



Alegria de Viver


Amo a vida.
Fascina-me o mistério de existir.

Quero viver a magia
de cada instante,
embriagar-me de alegria.

Que importa a nuvem no horizonte,
chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia.


Helena Kolody


William Shih-Chieh Hung, Back


Areia

Da estátua de areia,
nada restará,
depois da maré cheia.

 Helena Kolody
(Haicai)


William Shih-Chieh Hung, Lying Down


Devaneio

Vejo melhor
quando sonho
de olhos fechados.

Helena Kolody
(Haicai) 


William Shih-Chieh Hung, Three Girls in the Valley


segunda-feira, 22 de junho de 2020

"Fim de Jornada" - Poema de Helena Kolody


Charles Sprague Pearce (American, 1851-1914), Home from the fields 



Fim de Jornada


Caminhar ao encontro da noite.
Como o camponês regressa ao lar.
Após um longo dia de verão.

Sem pressa ou cuidado.
Na tarde ouro e cinza.
Sozinho entre os campos lavrados.
E as colinas distantes.

Caminhar, ao encontro da noite.
Sem pressa ou cuidado.
A noite é somente uma pausa de sombra.
Entre um dia e outro dia.


Helena Kolody,
de Vida Breve, 1964



Charles Sprague Pearce (American, 1851–1914), Lunch break in the fields


Sabedoria



Tudo o tempo leva.
A própria vida não dura.
Com sabedoria,
colhe a alegria de agora
para a saudade futura.

Helena Kolody
Tanka

Helena Kolody (1912-2004), a consagrada poetisa do Paraná, inaugurou em 1941 a série de mulheres haicaístas do país. Dona de uma enorme coleção de adjetivos-virtudes, palavras-emblemas, atribuídos a ela pelo povo paranaense, Helena deixou uma obra, que na qualidade lembra outra grande poeta: Cecília Meirelles. O amor que ela conquistou pelos poemas, pelos livros, juntou-se à lira de sua poesia feita de canções à vida, da solidariedade, da natureza e a inquietude da condição humana. Pode-se brincar dizendo que as letras iniciais do nome da poeta, HK, são as mesmas de quando se grafa hai-kai, como ela o fazia. (Daqui)


quarta-feira, 17 de junho de 2020

"A Ceifeira" - Poema de Luís Augusto Palmeirim


Filippo Palizzi (Italian painter, 1818 – 1899), "Florence", 1872 



A Ceifeira


Há quem diga por inveja
Que és feia por ser trigueira;
Dizem as damas da corte,
Deixai-as dizer ceifeira.

Quisera que elas te vissem
Feita senhora festeira,
Que me dissessem depois,
Se eras ou não feiticeira!

Que vissem com que requebros
Tu vais a mercar na feira,
Que vissem como inocente
Vais depois pular na eira.

Mariquinhas de olhos pretos,
Mimosa — gentil ceifeira,
És bela por caprichosa,
És linda por ser trigueira.

Hei de ir à festa e de longe
Ver-te na dança ligeira,
A ver se coras na dança,
A ver se tens quem te queira.

Hei de ir depois alcançar-te
No atalho, mesmo à beira,
E dizer-te que na dança
Eras gentil, a primeira.

A dizer-te que eras linda
Como aurora prazenteira;
A contar-te que na festa
Eras só, sem companheira.

A contar-te que não perdes
Por te chamarem trigueira,
A ti, rainha da festa
Mimosa - gentil ceifeira.

A ti que eu vi assentada
Ontem à noite à lareira,
Crendo deveras num conto,
Num conto de feiticeira.

A ti que vergas a cinta,
Como se verga a palmeira,
Que tens escrita no rosto
Inspiração verdadeira.

A ti que dormes com o Cristo
Pendente da cabeceira;
Que só choraste na vida,
Uma vez — por brincadeira!

A quem chamam, por inveja,
A Mariquinhas trigueira;
Porque sabem que és de todas
A mais mimosa ceifeira!

Porque tens nos olhos negros
O condão de dar cegueira,
A quem os fita de perto,
Com atenção verdadeira.

Só te falta alva capela,
Das flores da laranjeira,
Que a todos diga que a noiva
Era ainda há pouco a festeira.

Que nos dê a triste nova,
Que pela vez derradeira,
Vemos de perto tão perto
Aquela fronte fagueira.

A quem as mais, por despique,
Vendo a formosa ceifeira,
Diziam — coitada dela
Sendo assim morre solteira!


Luís Augusto Palmeirim
(1825-1893)



Filippo Palizzi, Beyond the Wall, 1870


Poesia mínima

Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.


Helena Kolody
(Haicai)

segunda-feira, 8 de junho de 2020

"Cantiga" - Poema de Bernardim Ribeiro



Jules Breton, Paysanne au Repos, 1873


Cantiga 


Não sou casado, senhora,
que ainda não dei a mão,
não casei o coração.

Antes que vos conhecesse,
sem errar contra vós nada,
uma só mão fiz casada,
sem que mais nisso metesse.
Dou-lhe que ela se perdesse!
solteiros e vossos são
os olhos e o coração.

Dizem que o bom casamento
se há de fazer de vontade.
Eu, a vós, a liberdade
vos dei, e o pensamento.
Nisto só me achei contento:
que, se a outrem dei a mão,
dei a vós o coração.

Como, senhora, vos vi,
sem palavras de presente
na alma vos recebi,
onde estareis para sempre,
não de palavra somente;
nem fiz mais que dar a mão,
guardando-vos o coração.

Casei-me com meu cuidado
e com vosso desejar.
Senhora, não sou casado,
não mo queirais acuitar!
que servir-vos e amar
me nasceu do coração
que tendes em vossa mão.

O casar não fez mudança
em meu antigo cuidado,
nem me negou a esperança
do galardão esperado.
Não me engeiteis por casado,
que, se a outra dei a mão,
a vós dei o coração.


Bernardim Ribeiro
Antologia Poesia de Amor,
organizada por José Régio e Alberto de Serpa


Jules Breton, The Song of the Lark, Oil on canvas, 1884


Felicidade


Os olhos do amado
Esqueceram-se nos teus,
Perdidos em sonho.

Helena Kolody
(Haicai)



Bernardim Ribeiro, marble sculpture by António Alberto Nunes, 1891
Museu de Évora, Portugal

 

Pouco se sabe com exatidão sobre a vida de Bernardim Ribeiro, poeta e novelista português. Colaborou no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, pertenceu à roda dos poetas palacianos como Sá de Miranda, Garcia de Resende e Gil Vicente. Esteve algum tempo em Itália, onde tomou contacto com as inovações literárias. 

Não se conseguiu ainda provar que este poeta Bernardim Ribeiro e um provável seu homónimo que frequentou, entre 1507 e 1511, a Universidade de Lisboa, e que em 1524 foi nomeado escrivão da câmara, fossem a mesma pessoa. Pela leitura da écloga Basto, de Sá de Miranda e escrita antes de 1544, verificamos que este autor se refere ao seu "bom Ribeiro amigo" como já falecido.

Considerando especulativas todas as referências sobre as datas e locais de nascimento, período de vida e morte de Bernardim Ribeiro, algumas alusões autobiográficas à "aldeia que chamam Torrão" e a um "monte" podem levar-nos a considerar que o autor era oriundo do Alto Alentejo, Vila do Torrão.

A sua obra resume-se a doze composições, insertas no Cancioneiro Geral, quatro éclogas, a sextina Ontem pôs-se o Sol e a novela Menina e Moça.

António José Saraiva e Óscar Lopes afirmam em História da Literatura Portuguesa: "Nesta parte versificada da obra de Bernardim Ribeiro - tanto as líricas do Cancioneiro Geral, como as Éclogas - encontramos alguns temas e lugares-comuns característicos daquele Cancioneiro.

Bernardim coisifica a Esperança, o Cuidado, a Mudança, o Tempo, o próprio eu convertido em objeto, ou mim. Combina-os, opõe-nos num jogo de extrema subtileza e de denso significado. A emoção como que se desentranha do sujeito, se objetifica em relação a ele, num desdobramento múltiplo da personalidade, que fica como que assistindo a esse jogo das coisas no qual se converte. O Eu contempla o Mim, o Cuidado, a Esperança, a Mudança que ele próprio foi ou está sendo. Na finura com que se exprime uma tal alienação psíquica, há uma dialética precursora da de Fernando Pessoa. (...) Outro aspeto que salta à vista nestas composições é um certo apego narcísico à dor, ou talvez melhor, uma vontade de viver a dor até ao fim, de a transcender, explorando-a".

Sob o título Trovas de dous pastores, foi feita, em 1536, a primeira impressão de uma écloga (a de Silvestre e Amador). Em 1554, na oficina do hebreu emigrado Abraão Usque, em Ferrara, são editadas as suas obras. Mais tarde, em 1557, conheceu-se uma nova edição, em Évora, da Menina e Moça, a qual terá sido continuada por outro autor que lhe deu nova redação e acrescentou novos capítulos.

Segundo o investigador Teixeira Rego, não é de recusar liminarmente a hipótese de que Bernardim Ribeiro fosse de origem hebraica. Na verdade, e ainda segundo o referido investigador, o estilo de queixume e lamentoso, mesmo algo bíblico, que encontramos nos primeiros capítulos da Menina e Moça, alguns termos utilizados pelo autor na obra referida, nomeadamente "transmatação" ou "transmigração" e algumas alusões a perseguições e cisões do povo hebraico, implícitas nas falas de uma personagem, podem ser indicadores positivos e atestantes desta hipótese.

 Por outro lado, e de acordo com a afirmação de Hélder Macedo, os textos benardinianos encerram "uma meditação mística pessimista... em torno do amor humano e da saudade". Analisando o seu conteúdo, podemos considerar que Menina e Moça tem um fundo autobiográfico e é, em certa medida, um "roman à clef", definições sugeridas pela recorrência de anagramas (palavras ou frases formadas com a transposição das letras de outras. Exemplo: "Natércia" é anagrama de "Caterina"), tal como Binmarder é de Bernardim, Aónia de Joana, Avalor de Álvaro, Arima de Maria e Donanfer de Fernando. (Daqui)


domingo, 7 de junho de 2020

"Uma sombra" - Poema de Manuel António Pina



Patrick William Adam, The Studio of FCB Cadell, 1912



Uma sombra


Ouves os meus passos nas escadas?
Quando eu bater à porta
não me reconheceremos.

Voltarei de um dia de trabalho,
subirei as escadas
e perder-me-ei para sempre
em qualquer sítio fora de qualquer sítio.

Não foi o caminho de casa que perdi?
Não ficou alguém em qualquer sítio,
uma sombra passando diante de nós,
e principalmente fora de nós?

Agora quem sente
isto fora de mim,
quem é esse ausente?


Manuel António Pina

Todas as Palavras – Poesia Reunida,
Assírio&Alvim (Porto Editora), 3.ª ed., 2013


Patrick William Adam, Studio Gleams


Retrato Antigo



Quem é essa que
me olha de tão longe
com olhos que foram meus?

Helena Kolody

quarta-feira, 20 de maio de 2020

"Identificação" - Poema de Helena Kolody


Olga Antonova Lagoda-Shishkina (Russian, 1850–1881), Girl among the wild flowers, 1880



Identificação



Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.
Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
E percorri o espaço no sopro do vento;
Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
Penetrei a mudez milenária das montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
Circulei na seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n’alma do homem bom
E desprezível no coração do mesquinho;
Inebriei-me da alegria do venturoso;
E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.
Nada encontrei mais doloroso,
Mais eloquente,
Mais glorioso
Do que a tragédia cotidiana
Escrita em cada vida humana.


Helena Kolody



Ivan Shishkin (marido de Olga Antonova Lagoda-Shishkina), Paisagem, 1861


Fio d’água


Não quero ser o grande rio caudaloso
Que figura nos mapas.
Quero ser o cristalino fio d’água
Que canta e murmura na mata silenciosa.


 Helena Kolody



terça-feira, 19 de maio de 2020

"O Canto da Chávena de Chá" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


Patrick William Adam, The breakfast room, Ardilea, 1912



O Canto da Chávena de Chá


Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.


Fiama Hasse Pais Brandão



Patrick William Adam, The Study, Ardilea, North Berwick, 1917



Flecha de sol


A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.


Helena Kolody
(Haicai)


sábado, 19 de outubro de 2019

"Os Limões" - Poema de Eugenio Montale





Os Limões


Escuta-me, os poetas laureados
circulam apenas entre plantas
de nomes pouco usados: buxeiros alienas ou acantos.
Eu, por mim, prefiro os caminhos que levam às valas
cheias de mato onde em lamaçais
já meio secos meninos apanham
alguma esquálida enguia:
as trilhas que bordejam os taludes descem por entre os tufos de caniços
e se metem nas hortas, entre os pés de limão.

Tanto melhor se a algazarra dos pássaros
se dissipa engolida pelo azul:
mais claro se escuta o sussurro
dos galhos amigos no ar que mal se move,
e as sensações deste cheiro
que não se larga da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta.
Aqui se cala por milagre
a guerra das desencontradas paixões,
aqui até a nós, os pobres, toca uma parcela de riqueza
e é o cheiro dos limões.

Vê, neste silêncio no qual as coisas
se entregam e parecem prestes
a trair o seu último segredo,
às vezes esperamos
descobrir um defeito da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não prende,
o fio a desenredar que enfim nos leve
ao centro de uma verdade.
O olhar perscruta em volta,
a mente indaga concerta desune
em meio ao perfume que se espalha
enquanto o dia enlanguesce.
São os silêncios em que se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma Divindade surpreendida.

Mas a ilusão se desfaz e o tempo nos devolve
à cidade ruidosa onde o azul mostra-se
apenas por retalhos, no alto, entre as cimalhas.
Castiga a chuva a terra, então; se espessa
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz torna-se avara — a alma, amarga.
Quando um dia de um portão malfechado
entre as árvores de um pátio
nos surge o amarelo dos limões;
e no coração o gelo se dissolve,
e no peito estalam
suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.


Eugenio Montale
(Tradução: Geraldo H. Cavalcanti)



Edward Seago, A Calm Summer Day (Alkmaar, Late Afternoon)



Avesso


Seu olhar profundo
olha na poça d’água
e enxerga estrelas no fundo.


Helena Kolody
(Haicai)


Edward Seago, North Holland Canal, Alkmaar 


Acaso


A inspiração
irmã do vento
sopra onde quer.


Helena Kolody
(Haicai)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

"Nós" - Poemas de Guilherme de Almeida


Lasar Segall, Encontro, 1924


Nós


I

Fico - deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
- "Que é feito dela?" - indagarão - coitados!
E os amigos dirão: - "Que é feito dela?"

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

II

Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, e eu sei que esse canto te consola.

E, lá na rua, o povo tumultuário
ouvindo o canto que daqui se evola
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente,
que todo mundo pensará que eu canto.

III

Mas não passou sem nuvem de tristeza
esse amor que era toda a tua vida,
em que eu tinha a existência resumida
e a viva chama de minha alma, acesa.

Nem lemos sem vislumbre de incerteza
a página do amor, lida e relida,
mas pouquíssimas vezes entendida,
sempre cheia de engano e de surpresa,

Não. Quantas vezes ocultei a minha
dor num sorriso! Quanta vez sentiste
parar, medroso, o coração de gelo!

- É que nossa alma às vezes adivinha
que perder um amor não é tão triste
como pensar que havemos de perdê-lo.

IV

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
-" Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos...


Guilherme de Almeida
(1890-1969)


A casa da colina de Guilherme de Almeida (Daqui)


A Casa Guilherme de Almeida é um museu biográfico-literário localizado na cidade de São Paulo, no Brasil. Fundado em 1979, é um museu público estadual, subordinado à Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, administrado em parceria com uma organização privada, com recursos provenientes do erário. O museu está instalado na residência onde Guilherme de Almeida viveu de 1946 até o ano de sua morte (1969), conhecida como Casa da Colina, situada no bairro do Pacaembu.

O museu tem por objetivo conservar, organizar e expor o acervo bibliográfico, histórico, artístico e documental que pertenceu ao poeta e tradutor Guilherme de Almeida, bem como estimular e realizar pesquisas e estudos críticos sobre sua obra e divulgar a literatura e os autores nacionais em geral. Também mantém o Centro de Estudos de Tradução Literária, responsável por organizar e ministrar cursos e outras atividades relacionadas à teoria e à prática da tradução.

A Casa Guilherme de Almeida possui um acervo com aproximadamente 15.300 peças, em que se destaca sua ampla e diversificada biblioteca, bem como uma significativa coleção de obras de arte de grandes expoentes do modernismo brasileiro (como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Lasar Segall e Victor Brecheret), muitas das quais oferecidas ao poeta pelos próprios autores. A coleção também abarca objetos decorativos, indumentária, têxteis, comendas, numismática, jóias, discos e outros objetos que pertenceram a Guilherme e sua esposa, Belkiss Barrozo de Almeida (Baby de Almeida). (Daqui)


Lasar Segall, Retrato da jovem Baby de Almeida, 1927 



Mergulho


Almejo mergulhar
na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
seja a minha plenitude.


Helena Kolody