segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

"Canto místico" - Poema de Helena Kolody

 


Vittorio Matteo Corcos (Italian painter, 1859–1933), 
Conversation in the Jardin du Luxembourg, Paris, 1892.
 
 
Canto místico

 
Aqui estou, Senhor, no meio desta nave
Para cantar em teu louvor.
Minha voz é prisioneira da garganta:
Conhece a gama dos sons e não pode cantar.

Há vibrações sonoras em meus nervos.
Mas a voz ausentou-se de meu ser.

Teu mundo é uma ciclópica poesia
Que brilha no céu e brota no chão
E ruge e ri, e canta e chora.
Não encontro, porém, as palavras exatas
Dessa canção.

Se eu pudesse, ao menos,
Cantar a plenitude singela
De um momento feliz.
Dizer a inocência de uns olhos de criança,
Olhando serenos nos olhos da mãe...

A música das esferas
Sinto fremir, ouço vibrar
E não posso cantar.

Aqui estou, prisioneira de minha mudez,
Aflita em pranto, no silêncio grave
Da iluminada imensidão de tua nave.


Helena Kolody
in "Paisagem interior", 1949.
 

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