terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

"Pesa o decreto atroz do fim certeiro" - Poema de Ricardo Reis


 
Charles Jalabert
(French painter, 1818
1901), Souvenir de Carnaval, 1861,
Oil on panel, 29 x 18,5 cm, Private collection.



Pesa o decreto atroz do fim certeiro


Pesa o decreto atroz do fim certeiro. 
Pesa a sentença igual do juiz ignoto 
Em cada cerviz néscia. É entrudo e riem. 
Felizes, porque neles pensa e sente 
A vida, que não eles!

Se a ciência é vida, sábio é só o néscio. 
Quão pouca diferença a mente interna 
Do homem da dos brutos! Sus! Deixai 
Brincar os moribundos!

De rosas, inda que de falsas teçam 
Capelas veras. Breve e vão é o tempo 
Que lhes é dado, e por misericórdia 
Breve nem vão sentido. 

20-2-1928

Ricardo Reis, in "Odes"Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 111.
 

Sem comentários: