quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

"Fábula de um Arquiteto" - Poema de João Cabral de Melo Neto



Juan de Pareja (Pintor barroco español de origen morisco y esclavo de Velázquez,
en cuyo taller se formó, 1608/10-1670), Retrato del arquitecto José Ratés Dalmau,
c.1660-1670, Museo de Bellas Artes de Valencia.


 
Fábula de um Arquiteto


A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.


João Cabral de Melo Neto
,
in "A educação pela pedra", 1966.
 
 


Juan de Pareja, o ex-escravo que virou artista reconhecido

Em 1971, o Museu Metropolitano de Arte (Met) de Nova York desembolsou 5,5 milhões de dólares por uma das obras mais célebres do pintor Diego Velázquez (1599-1660): o retrato de Juan de Pareja (c.1608-1670), tido como o quadro que alçou o espanhol ao patamar dos grandes artistas barrocos. A aquisição foi notícia nos jornais da época, mas pouco se falava sobre o homem retratado na pintura.
 
Cinquenta anos depois, o modelo da obra, enfim, assume o protagonismo no mesmo museu: em cartaz, a mostra Juan de Pareja, pintor Afro-Hispânico celebra a vida e a obra  do ex-escravo que ousou perseguir uma carreira artística — e, liberto, despontou como um nome respeitado do século XVII. 
 
Nascido em Antequera, em Málaga, a origem de Pareja é nebulosa — provavelmente era filho de uma mulher escravizada e de um espanhol branco. Não se sabe também como se tornou propriedade de Velázquez — ele pode ter sido herdado ou comprado, e até ofertado como presente. A certeza, porém, é que seu caso não era exceção no meio. “Juan de Pareja é o exemplo mais bem documentado desse tipo de trabalho escravizado em oficinas, que se estende por toda a história da pintura e da escultura”, explica o curador David Pullins.
 
Os primeiros casos remontam ao período medieval e incluem o escultor Jaume Cascalls e o pintor Lluís Borrassà no século XIV, que escravizaram, respetivamente, homens de origem grega e tártara. À medida que o tráfico negreiro se intensificou na África ocidental, a partir do século XVI, o número de cativos nas oficinas de artistas e artesãos europeus cresceu. Montañés, o escultor de maior sucesso de Sevilha no século XVII, apelidado de “deus da madeira”, também usou trabalho escravo para aumentar a produtividade. “Era algo comum naquela época. Mas, na maioria das vezes, não sabemos nem o nome dessas pessoas”, explica a também curadora Vanessa K. Valdés. 
 
Além do status de propriedade, que por si só já relegava os homens às sombras, o anonimato da maioria deles tem outra explicação prática: via de regra,  essas pessoas eram incumbidas de funções mecanizadas como a preparação de telas e a limpeza de pincéis, sem grandes chances de se aprofundar artisticamente e ganhar reconhecimento. Era o caso de Pareja. Velázquez nunca permitiu que ele se ocupasse com pinturas ou desenhos, ficando encarregado de “polir cores, preparar telas e outras ministrações à sua arte e ao lar”, relatou o pintor e bió­grafo do artista, Antonio Palomino. O aspirante a artista, portanto, se desenvolveu como pintor à revelia de seu dono. Talvez por isso, mesmo imerso no ateliê do pintor, investiu em um estilo distinto. “Ele é muito diferente de Velázquez. Pareja é inspirado pelo renascimento veneziano e pela pintura flamenga”, explica Pullins. 
 
Assim como há dúvidas sobre a origem do artista, informações sobre sua libertação também não são unanimidade: em 1649, Pareja viajou para a Itália com Velázquez, onde foi pintado seu retrato célebre. 
Com a repercussão da obra, Pareja e suas pinturas ganharam notoriedade. Palomino relata que o rei Filipe IV da Espanha teria ficado impressionado com uma obra de Pareja e intercedeu por sua alforria declarando que: “Um homem com tal talento não poderia ser um escravo”
 
Velázquez, então, teria assinado sua libertação, que passaria a valer quatro anos depois. Mas o documento não tem menções ao monarca.  “É difícil saber qual foi a motivação da alforria, mas isso permitiu que Pareja atuas­se como pintor no fim da vida”, diz Pullins. Foi uma verdadeira libertação artística, que ganha agora o devido reparo histórico. (daqui)
 

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