segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

"Os trabalhos e os dias" - Poema de Jorge de Sena

 


Frédéric Bazille (French Impressionist painter, 1841 – 1870),
"Portrait of Edmond Maître" (French writer, musician,
and art collector, 1840 – 1898), 1869.



Os trabalhos e os dias


Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.

À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.

Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.


Jorge de Sena, in "Coroa da Terra", 1946.
In "Não leiam delicados este livro – 100 poemas de Jorge de Sena",
Editora Bazar do Tempo, 2019.
 


"Não leiam delicados este livro: 100 poemas de Jorge de Sena",
(Organizado por Gilda Santos, contribuição de Eduardo Lourenço)
Editora Bazar do Tempo, 2019.
 
 
RESUMO

Poeta aclamado e um dos mais importantes intelectuais portugueses do século XX, Jorge de Sena ganha esta alentada antologia poética no ano de celebração de seu centenário de nascimento. Autor de uma obra vastíssima, incluindo ainda ficção, teatro ensaios, Jorge de Sena teve na poesia seu campo de experimentação, provocação e renovação. “Sena promove, na sinuosidade erógena dos versos, a fertilização de uma linguagem sempre à beira do desgaste e sempre pronta a incessante renovação.”, aponta Gilda Santos, professora de literatura portuguesa da UFRJ e organizadora da antologia.

A edição reúne, além de 100 poemas do autor, uma série de notas explicativas e imagens que fazem parte do rico universo de Jorge de Sena. Um ensaio do filósofo, crítico e ensaísta português Eduardo Lourenço oferece uma análise aprofundada de sua produção poética. Para Lourenço, que destaca o papel fundamental de Jorge de Sena como um dos primeiros e mais lúcidos comentadores e críticos do Modernismo em geral, há na obra do poeta uma “desconfiança em relação ao poético enquanto lírico, canto por demais encantador e, por isso mesmo esquecido de sua função, tão mais necessária, de arma contra a mentira da imagem aceitável e aceita da condição humana.”

Essa suspeita em relação à própria poesia é possivelmente o traço mais original da obra de Jorge de Sena, e toma proporções cada vez maiores à medida que sua aventura pessoal se torna mais complexa e mais dolorosa, confrontada não somente com o mundo confinado de Portugal em um regime ditatorial, assim como com os vastos horizontes de sua errância voluntária pelo Brasil e pelos Estados Unidos. (daqui)
  

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