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domingo, 25 de janeiro de 2026

"Jogo" e "Pouco é um Homem" - Poemas de Armindo José Rodrigues



William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete, 1881–1941),
The Young Polo Player, 1920, Blackburn Museum and Art Gallery.


Jogo

 
Estão as cartas dadas.
O jogo está feito.
Não é por respeito
que me dão pedradas.

Peço à igualdade
que haverá um dia,
mesmo que tardia,
que me sempre agrade.

Riquezas não espero.
De glórias motejo.
Nem outro desejo
menor considero.

Se invejas provoco
por dons naturais
não preciso mais.
Chega-me o meu pouco.

Não sendo agressão,
pois me nem abala,
a mim que me rala
outra opinião?

Todo o meu anseio
se cifra em querer
a sorte vencer,
sem sentir receio.

Se o posso ou o nego
não posso sabê-lo,
senão a sofrê-lo
com desassossego. 
in, "Ocasional a Vida"
 

 
William Bruce Ellis Ranken, Pipe Practice, 1918.
Dundee Art Galleries and Museums


Pouco é um Homem 

 
Pouco é um homem e, no entanto, nele
cabe tudo o que existe e fica ainda
espaço bastante para poder negá-lo. 
in 'Beleza Prometida (XC)'
 
 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

"Elegia por antecipação à minha morte tranquila" - Poema de Armindo Rodrigues


Winslow Homer (American, 1836-1910), The Hudson River, 1892
 


Elegia por antecipação à minha morte tranquila


Vem, morte, quando vieres.
Onde as leis são vis, ou tontas,
não és tu que me amedrontas.
Troquei por penas prazeres.
Troquei por confiança afrontas.
Tenho sempre as contas prontas.
Vem, morte, quando quiseres.


(1904-1993)


Winslow Homer (American, 1836-1910), The Life Line, 1884


"Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida."

sexta-feira, 17 de abril de 2015

"O sol na água pousa" - Poema de Armindo Rodrigues


Phil Beck, 'Horses', Óleo sobre tela
 

O sol na água pousa

 
Alado, o sol na água pousa
e dele treme a água amedrontada,
que a ardente imagem lhe devolve em rosa
e em si própria um distante sonho ousa
de céu amargo, que não sonha nada.


in 'Sabor do Tempo (XVIII)'


Phil Beck, 'Horses', Óleo sobre tela


"Um homem pode muito bem levar um cavalo até a água, mas ele não pode obrigá-lo a bebê-la."

"A man may well bring a horse to water, But he cannot make him drink without he will."
Proverbs (1546); Pt. II, ch. 1


sábado, 31 de março de 2012

"Cavalgada" - Poema de Armindo Rodrigues


Franz Marc (German painter and printmaker, 1880–1916), Blaues Pferd I,
 
 
Cavalgada


Já rebentei de correr
Sete cavalos a fio.
O primeiro era cinzento
Com sonhos de água sem fundo
E cor do norte o segundo
Com ferraduras de prata.
O terceiro era um mistério
E o quarto cor de agonia.
O quinto, de olhos em brasa,
Era só prata e espanto.
O sexto não se sabia
Se era cavalo, se vento.
Corria o sétimo tanto
Que nem a cor se lhe via.
Quanto mais ando mais meço
As distâncias que há em mim
Cada desejo é um fim
E cada fim um começo.

Retrato de Franz Marc  por August Macke


[August Macke (Meschede, 3 de janeiro de 1887 - Perthes-lès-Hurlus, Marne, 26 de setembro de 1914) foi um pintor expressionista alemão.]
***

Franz Moritz Wilhelm Marc (Munique, 8 de fevereiro de 1880 - Gussainville, 4 de março de 1916), pintor alemão, foi um dos mais influentes representantes do movimento expressionista na Alemanha. 
Filho de Wilhelm Marc, um pintor profissional de paisagens e de Sophie Marc, uma estrita calvinista, descendente dos huguenotes que se estabeleceram na Alsácia, decidiu iniciar seus estudos na Academia de Belas Artes de Munique, em 1900, depois de passar pela filosofia e pela teologia.

Suas primeiras criações foram paisagens, de estilo naturalista. Graças ao seu excelente domínio do francês, que lhe fora transmitido pela mãe, durante duas temporadas que passou em Paris (1903 e 1907), descobriu o impressionismo e sobretudo uma grande afinidade com a obra de Vincent Van Gogh. Em 1910, fez amizade com os pintores August Macke, Gabriele Münter e Wassily Kandinsky. Com eles e outros pintores dissidentes do movimento Neue Künstlervereinigung, fundou o grupo Der Blaue Reiter ("O cavaleiro azul"), em 1911. 

Influenciado pelo uso da cor de Robert Delaunay, gradativamente sua obra se aproxima do futurismo e do cubismo e para a crescente abstração, até culminar na abstração expressiva. O tema é a força vital da natureza, o bem, a beleza e a verdade do animal, que o autor não vê no homem. Marc sentia-se intimamente ligado aos animais e tentou representar o mundo tal como o animal o vê, mediante a simplificação formal e cromática das coisas. Usa cada cor para denotar um significado: azul para a austeridade masculina e o espiritual; amarelo para a alegria feminina; vermelho, para a violência.

Na Primeira Guerra Mundial, Franz Marc apresentou-se como voluntário. Em 1916, em Gussainville, nas proximidades de Verdun, foi abatido por um obus, quando realizava missão de reconhecimento. Morreu aos 36 anos.


Galeria de Franz Marc

Franz Marc, Die großen blauen Pferde, The Large Blue Horses, 1911
 
 

Franz Marc, Horse in a Landscape, 1910-1911, Museum Folkwang
 
 

Franz Marc, Die gelbe Kuh, The Yellow Cow, 1911, 
Solomon R. Guggenheim Museum, New York
 
 

Franz Marc, Piggies, 2013
 


Franz Marc, Tyrol, 1914, Pinakothek der Moderne
 


Franz Marc, Stables, 1913, Solomon R. Guggenheim Museum
 


Franz Marc, Monkey frieze, 1911, Kunsthalle Hamburg
 

Franz Marc, Gazelles, 1913
 

Franz Marc, Tierschicksale, Fate of the Animals, 1913,
Kunstmuseum Basel in Basel


 
Franz Marc, Der Traum, The Dream, 1912,
 

Kelly Clarkson - Because of You



"Usamos os espelhos para ver o rosto e a arte para ver a alma."

(George Bernard Shaw)

George Bernard Shaw (Dublin, 26 de julho de 1856 — Ayot Saint Lawrence, 2 de novembro de 1950) foi um dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista irlandês. É autor de comédias satíricas que o tornaram espírito irreverente e inconformista.

domingo, 18 de março de 2012

"Em que consiste a liberdade?" - Poema de Armindo Rodrigues


Peder Mørk Mønsted (Danish painter, 1859-1941), Spring in Sæby



Em que consiste a liberdade? 


Homem, se homem queres ser 
E não uma sombra triste, 
Olha para tudo o que existe 
Com olhos de bem o ver. 

Nada receies saber. 
Ao que não amas, resiste. 
Mesmo vencido, persiste 
E acabarás por vencer. 

Quer e poderás poder. 
Vai por onde decidiste. 
A liberdade consiste 
No que a razão te impuser. 





Peder Mork Monsted


terça-feira, 13 de março de 2012

"Liberdade" - Poema de Armindo Rodrigues


Winslow Homer (American pinter, 1836-1910), After the Hurricane, Bahamas, 1899



Liberdade


Ser livre é querer ir e ter um rumo 
e ir sem medo, 
mesmo que sejam vãos os passos. 

É pensar e logo 
transformar o fumo 
do pensamento em braços. 

É não ter pão nem vinho, 
só ver portas fechadas e pessoas hostis 
e arrancar teimosamente do caminho 
sonhos de sol 
com fúrias de raiz. 

É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto 
e, mesmo assim, 
só de pensar gritar 
gritar 
e só de pensar ir 
ir e chegar ao fim. 




Winslow Homer, The Adirondack guide, 1894 


"(...) É preciso tirar proveito da idade; escapa-nos rapidamente e, por muito feliz que seja, nunca é como a anterior." - Ovídeo



Enya - Only Time


domingo, 11 de março de 2012

"Os sobreiros sonham" - Poema de Armindo Rodrigues





Sobreiro (Cortiça)


Os sobreiros sonham 


Os sobreiros sonham 
sonhos desvairados, 
que só os pastores 
e as pedras suspeitam. 

Sonham que são livres 
e vão pelo mundo, 
com raízes de água 
e cabelos soltos. 

No céu para lavrar, 
as nuvens são cardos 
e o sol um milhafre 
que esvazia os olhos. 

Dos sonhos só resta 
a angústia que os ousa. 
A angústia é concreta. 
Os sonhos são sombras. 

Seguros à terra 
com garras de bronze, 
os sobreiros sonham 
impossíveis rumos. 


Armindo Rodrigues
(1904-1993), 
in Obra Poética, vol. III 


Armindo José Rodrigues (Lisboa, 1904 – Lisboa, 8 de Agosto de 1993), foi um médico, tradutor e poeta português. Formou-se em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e é considerado um escritor do movimento neo-realista português. Grande parte da sua infância foi passada no Alentejo. Colaborou em diversas revistas como a Colóquio-Letras (da Fundação Calouste Gulbenkian), a Seara Nova, a Vértice e em jornais como O Diabo e Notícias do Bloqueio. Tendo vivido durante o regime salazarista, e tendo ideias contrárias ao regime vigente, foi por diversas vezes preso. Na sua luta contra o fascismo, pertenceu a diversas organizações clandestinas. Participou nas campanhas eleitorais de Arlindo Vicente e de Norton de Matos, nos anos 1945, 1949 e 1958. Armindo Rodrigues fez parte do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Foi um dos fundadores do PEN Club Português, juntamente com outros escritores portugueses de renome, tendo sido nomeado vogal. 
Fez traduções de autores como André Malraux, Alain-Fournier, Mikhail Cholokov e Oscar Wilde.





O sobreiro

O sobreiro, sobro, sobreira ou chaparro (Quercus suber) é uma árvore da família do carvalho, cultivada no sul da Europa e a partir da qual se extrai a cortiça. O sobreiro é, juntamente com o Pinheiro-bravo, a espécie de árvores mais predominante em Portugal, sendo mais comum no Alentejo litoral e serras Algarvias. 
É devido à cortiça que o sobreiro tem sido cultivado desde tempos remotos. A extração da cortiça não é (em termos gerais) prejudicial à árvore, uma vez que esta volta a produzir nova camada de "casca" (súber) com idêntica espessura a cada 9 - 10 anos, período após o qual é submetida a novo descortiçamento. O sobreiro também fazia parte da vegetação natural da Península Ibérica, sendo espontâneo em muitos locais de Portugal e Espanha, onde constituía, antes da acção do Homem, frondosas florestas em associação com outras espécies, nomeadamente do género Quercus. 
A finalidade da cortiça é o fabrico de isolantes térmicos e sonoros de aplicação variada, mas especialmente na produção de rolhas para engarrafamento de vinhos e outros líquidos. Portugal é o maior produtor mundial de cortiça. 
As folhas do sobreiro medem 2,5 a 10 cm por 1,2 a 6,5 cm, e são de cor verde escura e sem pelos. Têm forma denticular, uma nervura principal algo sinuosa e 5 a 8 pares de nervuras secundárias. 
O fruto, como em outros carvalhos é a bolota, também conhecida por lande ou ainda (mais corretamente) glande. 
Distribui-se essencialmente pela Península Ibérica e por alguns locais mais húmidos do norte de África. Em Portugal predomina a sul do rio Tejo, surgindo naturalmente associado: ao pinheiro-bravo nos terrenos arenosos da Península de Setúbal, Vale do Sado e no barlavento algarvio; à azinheira (Quercus ilex) nalgumas regiões do interior alentejano, zona nascente da serra algarvia, Tejo Internacional e Douro Internacional; ao carvalho-cerquinho (Quercus faginea) na Estremadura, Alentejo Litoral e Monchique; ao carvalho-das-canárias (Quercus canariensis) na região de Odemira-Monchique; ao carvalho-negral (Quercus pyrenaica) em alguns pontos da Beira Interior e Alto Alentejo, como as Serras da Malcata, São Mamede e Ossa. Surge ainda em alguns pontos de clima atlântico com pluviosidades extremamente elevadas, como na Serra do Gerês, onde predomina nas encostas mais soalheiras.
O sobreiro é uma espécie que requer humidade e solos relativamente profundos e férteis, embora também tolere temperaturas altas e períodos secos de três a quatro meses, típicos do clima do sul de Portugal. Nas regiões a sul do Tejo o sobreiro comporta-se como uma espécie de folhagem persistente e possui folhas mais pequenas, rijas e escuras; quando surge nas regiões do norte do país, onde é menos frequente, tem um comportamento ligeiramente marcescente, e folhas maiores, mais finas e claras. 
De uma forma geral, em Portugal o sobreiro predomina no Alentejo litoral, Península de Setúbal, Baixa Estremadura, serras algarvias (com excepção das regiões próximas do Guadiana) e parte do Ribatejo, tendo núcleos dispersos no resto do país.


Documentário: "Forest in a Bottle"
Espetacular documentário sobre a vida selvagem dos montados de sobreiros em Portugal. Defenda um dos ecossistemas mais ricos da Europa preferindo rolhas de cortiça. Se quiser saber mais sobre o assunto visite www.ecologicalcork.com


Sobreiro


“A cortiça em Junho, sai a punho; em Agosto, a mascoto.”

(Provérbio)




Esta reportagem inclui uma entrevista ao produtor Mike Salisbury onde ele fala da importância deste ecossistema, único na Europa. Refere ainda as grandes audiências que este documentário teve aquando da sua transmissão no Reino Unido.