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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

"Inventário de razões para se ser gato" - Poema de Eugénio Lisboa



Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 1832–1918),
Visiting Time, oil on canvas, 76.8 x 64.8 cm.
 

 Inventário de razões para se ser gato


Os gatos nunca sonham com impérios,
não trocam nunca uma boa soneca
pela honra de dirigir ministérios
ou pelo direito a usar beca.

Os gatos não cambiam um petisco
por um Rolls-Royce ou por um Ferrari.
Se pretendem estender-lhes um isco,
mostrem-lhes um prato de calamari.

Os gatos têm ambições modestas:
cama, mesa e roupa bem lavada,
de vez em quando, umas lindas festas,

e, de preferência, não fazer nada!
Se o gato em qualquer nicho cabe,
o gato, acima de tudo, sabe!

31.12.2023

Eugénio Lisboa

[Ensaísta e crítico literário português, 1930–2024]

 

Horatio Henry Couldery, Curiosity, 1893. Oil on canvas, 60 x 83 cm. 
 

Olhos oblíquos


De onde vieram
com seus olhos oblíquos
seus olhos de seda e luz?
Vieram de um misterioso país
oblíquo
onde só podem entrar
os poetas com seus veleiros
e os homens que amam os gatos.


Roseana Murray
,
"Falando de Pássaros e Gatos", 1990.
 
 
“Gatos são poemas ambulantes.”

Fonte: https://citacoes.in/autores/roseana-murray/

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

"Descobrir a leitura" - Poema de Eugénio Lisboa

 

Raimundo de Madrazo y Garreta (Spanish painter, 1841–1920),

Descobrir a leitura


Os livros que lemos na adolescência
marcam-nos para toda a vida:
devoramo-los com grande envolvência,
com fome saciada e repetida.

A magia de Wilde e de Voltaire,
a ferina ironia de France,
a paixão atrevida de Jane Eyre
e Stendhal, esse mago do romance!

Tantas e tão duráveis descobertas!
O fundo, fundo da tragédia grega
e o O’Neill que, escancarava, abertas,

as paisagens da humana refrega!
Foi um mergulho intenso e muito fundo
no que constitui este nosso mundo!


Eugénio Lisboa

 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

"Perplexidades do gato perante o conceito de ano novo" - Poema de Eugénio Lisboa


 
Carl Kahler (Austrian genre and animal painter, 1856–1906), My Wife's Lovers, 1891.
 


Perplexidades do gato
perante o conceito de ano novo


O que é esta coisa de novo ano?
Que diferença faz o hoje do ontem?
Questões que põe, perplexo, o bichano,
por mais historietas que lhe contem.

Diz: “o que ontem comi, hoje, como
e o que ontem dormi, hoje, durmo;
banho, hoje como ontem, tomo
e a cauda, hoje e ontem, a prumo!

Digam-me, então, onde está a diferença!”
Justas perplexidades do gato!
Cada vez mais a treva se adensa,

perante esse “novo ano” abstrato.
Tratar-se-á apenas de boato?
Disso, anda a desconfiar o gato! 


Eugénio Lisboa

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

"Que Natal?" - Poema de Eugénio Lisboa

 

 
Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista e 
tradutora brasileira, 1886-1973), Natal, 1940.


Que Natal?



Natal não tive. Ou tive
só o Natal que tiveram
minhas filhas. Esse vive
como as coisas que viveram
mas já não são. Que Natal
tenho hoje? Que alegria,
que festa, neste final,
nesta descida sombria?
Diz Natal quem diz começo,
ou chegada, ou descoberta...
Onde estou, só há tropeço,
terra fria e deserta.

Se, no fim, recomeçasse!
Se, descendo, eu subisse!
Se, parando, não parasse!
Ressuscitar... quem o disse?


Eugénio Lisboa
 

domingo, 15 de dezembro de 2024

"Cartinha Natalina" - Texto de Eugénio Lisboa



Lovis Corinth (German painter, sculptor, university teacher, graphic artist, drawer 
and lithographer, 1858–1925), Christmas Eve, 1913, Lentos Art Museum. 


 
Cartinha Natalina 

 
Nesta época, escreve-se muito. O Natal permeia e incentiva a escrita. Aparecem lindos textos apelando ao que pode haver de melhor no coração dos homens. Desde poemas simples, frases soltas, elaboradas reflexões a longas epístolas de bem-aventurança. Todos eles trazem mensagens que acabam por nos tocar. Estamos abertos à celebração, embora nem sempre seja o nascimento de uma criança que esteja a ser festejado. Nascida há dois mil anos é ela o motor desta celebração. O Natal é assim a festa de toda a criança que se fez e fará Homem. Repetir, em cada ano, esse acontecimento é a necessidade que todos nós encontrámos para dar forma à solidariedade que se perde ou negligencia durante o ano. Tomamos a família e fazemos dela o encontro que foi, por vezes, adiado. Que Natal pode ser todos os dias é uma frase que se perde nas pregas das intenções. Basta olhar as imagens que, dia a dia, enchem os écrans televisivos para encontrar a legenda exata para esta verdade. Ferem e agridem, mas não deixam de se repetir. E são tantas as imagens de crianças de todas as idades. Perdidas em campos de refugiados ou em marcha por esse mundo fora. Sujas, desgrenhadas, famintas, perdidas, abandonadas rasgam o coração, sem que a piedade do Natal as alcance.

Não. Não pretendo aumentar a resma das lindas mensagens. Quero apenas dar fôlego ao sonho: Que este nosso mundo, que se muralha entre pandémicos vírus, acorde e renasça jubiloso em verdadeiro Natal. (daqui)


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

"O tal prazer da escrita" - Texto de Eugénio Lisboa

 

Nikolai Ge (Russian painter, 1831–1894), Leo Tolstoy, 1882.
 

O tal prazer da escrita

 
A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores.

E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.

A escrita é a melhor arma de defesa e de ataque de que dispomos. Nenhuma nos defende tão bem de uma ferida ou faz, nos outros, uma ferida tão perene.

A escrita foi inventada por alguém que precisava muito dela, para registar informações. Assim, começou por ser útil e passou a ser agonicamente necessária.

Escrevo, logo existo.
Mas também: escrevo, logo não sofro.

Quando escrevo, falo de um sofrimento que já foi, mas que deixa de o ser, no momento em que o escrevo. A funda alegria de o escrever mata o sofrimento que já se sentiu, mas se apaga ante o fulgor da escrita.

Como dizia Montherlant, o escritor é aquele ser peculiar, que sofre, não sofrendo.

O Camões que escreveu o “Alma minha” não sentia, no momento em que a invocava, saudades da morta, sua amada. O que ele sentia, no momento da escrita, era a alegria de escrever uma saudade, que sentira, antes de a escrever, mas que não podia sentir, no momento em que a escrevia.

O escritor é um monstro que mata, sem escrúpulos, no momento de o celebrar, o mais profundo sentimento que antes o afligira, para melhor o poder glosar, com os utensílios da sua arte.

A alegria de escrever, o tal prazer da escrita tem muito de inumano.

O grande escritor é, na sociedade em que vive, um suspeito a vigiar, porque pode ser perigoso. Por isso, o escritor Tonio Kröger, da famosa novela de Thomas Mann, ao regressar um dia, no tarde da sua vida, coberto de glória, à sua terra natal, torna-se suspeito, aos olhos da polícia local, que o toma por um malfeitor…

Não nos esqueçamos de que o grande William Faulkner declarou um dia que seria capaz de matar meia dúzia de velhinhas, se isso lhe permitisse escrever a belíssima ODE A UMA URNA GREGA, do poeta John Keats.

Um poeta é capaz de tudo, mesmo de vender a alma ao diabo, para acertar um verso ou colocar uma vírgula no lugar certo.

Quem não compreende isto não compreende nada deste ofício nem dos seus oficiantes.

 
 
Eugénio Lisboa (daqui)
 

Eugénio Lisboa, escritor e engenheiro português nasceu a 25 de maio de 1930, em Lourenço Marques (atual Maputo), e morreu a 9 de abril de 2024 vítima de doença oncológica.

Colaborou em diversos jornais e revistas e foi autor de programas radiofónicos de divulgação de teatro.

Dedicou-se ao estudo da literatura portuguesa e particularmente do Neorrealismo, tendo publicado, entre outros títulos, José Régio - A Obra e o Homem (1976), O Segundo Modernismo em Portugal (1977) e Poesia Portuguesa: do "Orpheu" ao Neorrealismo (1980).

Ocupou ainda o cargo de adido cultural da Embaixada de Portugal em Londres durante dezassete anos seguidos, entre 1978 e 1995.

Usou os pseudónimos literários Armando Vieira de Sá, John Land e Lapiro da Fonseca devido à censura do Estado Novo. (daqui)

segunda-feira, 1 de julho de 2024

"A Música das Cores" - Poema de Eugénio Lisboa


Ângelo de Sousa (Escultor, pintor, professor e desenhador
 português, 1938 - 2011), S/título, s.d.


A Música das Cores

                                                          Ao Ângelo

A pintura; às vezes, sabe ser
uma forma de música: sugere,
no fluxo imparável do acontecer,
que a vida pode não acabar. Fere
o centro de nós mesmos. Amacia
e dissolve tensões que a vida impura,
em tantos momentos, cega, nos cria.
Como a música, é boa a pintura.


Eugénio Lisboa
, Matéria Intensa
Lisboa, Instituto Camões, 1999.
 
 
Ângelo de Sousa, S/título, 2009.
 


Ângelo de Sousa, Um ocre, 2006.
 
 
Ângelo de Sousa, S/título, s.d. (Estilo: Hard-edge painting).
 
 
Hard-edge painting
 
Hard-edge painting é um estilo de pintura em que há transições abruptas de cor entre as áreas coloridas, as quais geralmente são de uma única cor. É um estilo relacionado a Op art.

O Hard Edge Painting (pintura com contorno marcado) surgiu em Nova York, adotando o rigor do controle da técnica em função da liberdade sugerida pelo Expressionismo Abstrato. A pintura Hard Edge usa formas simples e contornos rígidos. Os quadros são precisos e frios, como se feitos à máquina. Foi neste estilo de arte que os artistas passaram a usar telas em que seus formatos de triângulos, círculos e outras formas irregulares passaram a tornar-se parte da composição.

O Hard-edge é a pintura em que as transições bruscas são encontradas entre as áreas de cor. Áreas de cor são muitas vezes de uma invariável cor. Transições de cor, muitas vezes ocorrem ao longo de linhas retas, porém as bordas curvilíneas de áreas de cores também são comuns.

O termo foi inventado pelo escritor Jules Langsner em 1959 para descrever o trabalho dos pintores da Califórnia, que, em sua reação às formas ou pintura gestual do expressionismo abstrato, aprovou uma aplicação de pintura impessoal e conscientemente áreas delimitadas de cor com particular nitidez e clareza. Esta abordagem à pintura abstrata se generalizou na década de 1960, embora a Califórnia fosse o centro criativo. (daqui)
 

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

"O poder das palavras em tempo de peste" - Poema de Eugénio Lisboa


Juan Manuel Blanes (Pintor uruguaio, 1830-1901), Un episodio de la fiebre amarilla
 en Buenos Aires, 1871, óleo sobre tela,  Museo Nacional de Artes Visuales.



O poder das palavras em tempo de peste


 
As palavras o que podem? Se pesam
demais e vão além do que é preciso,
ofendem a subtileza e lesam
o valor do que deve ser conciso.

Se ficam aquém do que é necessário
e dizem menos do que foi sentido,
se o pensamento dito sai precário,
todo o esforço de dizer foi perdido.

Face a uma grande calamidade,
dilúvio, peste, fome ou guerra,
as palavras perdem vitalidade
e tremem do mal que assola a terra.

As palavras podem só o que podem
e sugerem, das nossas emoções,
uma leve sombra – e mal acodem
ao tumulto das nossas aflições.

Porém, as palavras são o que temos
e só com elas ao nosso dispor
iremos fazer o que podemos:
dar ao nosso mundo alguma cor.


Eugénio Lisboa, in “Poemas em Tempo de Peste”