Mostrar mensagens com a etiqueta Fiama Hasse Pais Brandão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fiama Hasse Pais Brandão. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 25 de março de 2026

"Fui criança, indo por um carreiro" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926),
'By the Sea', 1864.

Fui criança, indo por um carreiro


Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insetos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insetos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "Cenas Vivas",
Relógio d’Água, 2000.


 
Claude Monet, 'On the Coast at Trouville', 1881.



"Os grandes artistas não têm pátria." 

Alfred de Musset
[Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857]
 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Sumário Lírico" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

 
Henri Lebasque (French Post-Impressionist painter, 1865–1937),
 "In Front of the Window, Ile d'Yeu", 1919.
 
 
 Sumário Lírico 


Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes consubstancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspetiva, ponto.


Fiama Hasse Pais Brandão
 
 
 
Henri Lebasque, "The Quay at St Pierre in Cannes" 
(
also known as "Open Window in Antibes"), Unknown date.



"Uma boa recordação talvez seja cá na Terra mais autêntica do que a felicidade."
 
Alfred de Musset
[Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857]


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"Os amigos que morrem" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926),
"Vue de Vétheuil", 1880, Alte Nationalgalerie.

Os amigos que morrem 


Os amigos que morrem são arbóreos,
plantados e memoráveis como freixos.
Um freixo, que vejo entre árvores
como a aura, o tronco novo
sulcado de rasgões, a raiz curta
comparável à memória viva enterrada.
Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol,
que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos.


Fiama Hasse Pais Brandão



Claude Monet, "The Church at Varengeville, Grey Weather", 1882, Speed Art Museum.

 
"Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado."


Gabriel García Márquez
, em O Amor nos tempos de cólera, 1985.



terça-feira, 16 de dezembro de 2025

"Às vezes as coisas dentro de nós" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão



Louise Catherine Breslau (Peintre allemande naturalisée suisse, 1856 - 1927),
Portrait des amies, 1881; l'artiste, avec Sophie Schaeppi (Peintre suisse, 1852 - 1921)
et Maria Feller (Musicienne et actrice italienne de la fin du XIXe siècle), MAH, Genève.



Às vezes as coisas dentro de nós


O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "As fábulas",
Quasi Edições, 2002.

terça-feira, 1 de julho de 2025

"Foz do Tejo, um país" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


 
Thomas Buttersworth (English seaman of the Napoleonic wars period who became a marine
painter, 1768–1842), Mouth of the Tagus (Foz do Tejo - Lisboa ), s.d.


Foz do Tejo, um país


O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.

São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as varinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós.
Glórias, misérias, que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma. 


Fiama Hasse Pais Brandão
, in "Obra Breve", 1991.



"Obra Breve" - Poesia Reunida de Fiama Hasse Pais Brandão
Edição/reimpressão: 04-2017
Editor: Assírio & Alvim


SINOPSE 

«Ninguém entra na hermética paisagem de Fiama como em casa. Nem sequer como quem se perde, entre pânico e delícia, na floresta de um enigma levando na mão as pedras brancas do herói de Grimm. A poesia de Fiama é tão clara e obscura como o mundo onde se descobre como olhar misteriosamente instruído pelo percurso que o solicita. Um mundo ao mesmo tempo anterior ao olhar e esperando por ele para ser decifrado. Esse mundo não é um cosmos pleonasticamente harmonioso, desde sempre votado à contemplação e a um óbvio sentido. É só um mundo escrito em hieróglifos, finito e inesgotável na sua minúcia. O poema não vem elucidar o mistério da realidade sem cessar bifurcante onde a atenção de Fiama desembarca como no mais desconhecido dos mundos: vem reconhecê-la. Um mundo anterior ao verbo que o descreve e convoca, que nunca foi nomeado fora da voz que no-lo diz. Melhor seria dizer, do poema que o cria pela sua própria respiração.» - Eduardo Lourenço, no prefácio a esta edição. (daqui)
 

 
Thomas Buttersworth, An English frigate and an armed naval cutter becalmed
in the 
Tagus off the Belém Tower.


"Pelo Tejo vai-se para o mundo."

Alberto Caeiro
, in "O Guardador de Rebanhos, Poema XX"
 

 
Thomas Buttersworth, HMS ‘Warrior’ off the mouth of the River Tagus, c. 1781–1842.
National Maritime Museum

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

"A voz das coisas" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


Léon Spilliaert (Belgian symbolist painter and graphic artist, 1881 - 1946),
The Gust of Wind, 1904. Mu.ZEE - Kunstmuseum aan Zee. 
 


A voz das coisas


Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "As Fábulas"
Edições Quasi, 2002.
 
[Poemas escritos por Fiama Hasse Pais Brandão durante os anos 90 integram "As Fábulas". Conjunto de poemas onde a autora mostra a sensibilidade que a tornou uma figura de destaque na literatura deste país. Referem-se a uma realidade visualmente assumida, a qual fica a oscilar entre um lugar campestre, rural, e outro que é citadino (há várias referências a Lisboa), fazendo com que haja em tais poemas um sentido especial.]
 

Léon Spilliaert
 
Léon Spilliaert, Self-Portrait, 1907, Metropolitan Museum of Art.

[León Spilliaert (Oostende, 1882 - Bruxelas, 1946) foi um pintor simbolista belga e um artista gráfico.
Seu estilo se caracterizava pelo tenebrismo e simplicidade das formas, junto à expressão amargurada e misteriosa dos personagens e paisagens presentes nas obras.]
 
 
 
Léon Spilliaert, The Window of-the Studio on the Visserskaai, 1908–09.
 
 
Léon Spilliaert, Untitled (3 dark figures)
 
 
Léon Spilliaert, Attente, c. 1902-03.
 
 
Léon Spilliaert, The Absinthe Drinker (La Buveuse d’Absinthe), 1907.


Léon Spilliaert, Dike at night. Reflected lights, 1908, Musee d 'Orsay.
 
 
Léon Spilliaert, Vertigo, 1908, Mu.ZEE - Kunstmuseum aan Zee.
 
 
Léon Spilliaert, Young man with red scarf, 1908.
 

"A grandeza de uma obra de arte está fundamentalmente no seu caráter ambíguo, que deixa ao espectador decidir sobre o seu significado."

(Theodor W. Adorno)

domingo, 13 de agosto de 2023

"Nada tão silencioso como o tempo" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão



Eva Gonzalès (French Impressionist painter, 1849 –1883), Le petit lever, 1875
 


Nada tão silencioso como o tempo


Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve. 

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.

Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos diletos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida. 
 
 

 Eva Gonzalès, L'Indolence, 1871–72


"O segredo para ser infeliz é ter tempo livre para se preocupar se se é feliz ou não."

George Bernard Shaw
, em "Misalliance", 1910.
(Nobel de Literatura em 1925)
 
 

terça-feira, 19 de maio de 2020

"O Canto da Chávena de Chá" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão



Patrick William Adam (Scottish painter, 1854–1929), 
'The breakfast room, Ardilea', 1912


O Canto da Chávena de Chá


Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.


Fiama Hasse Pais Brandão


Patrick William Adam, 'The Study, Ardilea, North Berwick', 1917


Flecha de sol


A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.


Helena Kolody
(Haicai)

sábado, 2 de julho de 2016

"O Verão estala por todos os poros" - Poema de João José Cochofel



Émile Munier (French academic artist, 1840–1895),
'Girl with Basket of Cherries', 1877.


O Verão estala por todos os poros


O Verão estala por todos os poros
da casca das árvores,
da língua dos cães,
das asas das cigarras,
do bico do peito das mulheres
tão acerado
que rasga o céu de calor
com um golpe preciso
de lanceta.


João José Cochofel, in 'Quatro Andamentos', 1964;
in 'Obra Poética',  Lisboa, Caminho, 1988.



Émile Munier, 'May I Have One Too', 1880.



«Não posso ver, hoje, a fome crescente e a chacina entre nações sem comoção. E a emoção pelos seres, pelos outros, pela natureza, pelo Cosmos, gera o poema.»

Fiama Hasse Pais Brandão

segunda-feira, 27 de junho de 2016

"A folha viva" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910),
The Four Leaf Clover, 1873


A folha viva


Mantêm-se o ramo vivo
da verdura. A folha
cai, repõe-se, a copa reverdece,
o seu volume sobe.
Nada é efémero
sob o tom da luz. Tudo
retoma a folha, tem recorte,
o seu pecíolo verde ou outra forma.

Cai a folhagem, tinge todo o chão.
Ou, possuída a terra, ela persiste
e é perene a queda
de uma árvore,
depois o surto,
e tudo convergente, se mantém.


Fiama Hasse Pais Brandão, 
in Obra breve - Poesia reunida,
 Assírio & Alvim, 2017.
 
 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

"Em Galafura" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


Galafura, Peso da Régua, Portugal - Panorâmica geral da paisagem do monte de S. Leonardo,
  foto de A. Pimenta


Em Galafura


Os povoadores da beira Douro
conhecem o pó e as pedras.
E sabem que o Universo
concebe cerejais e parras.
Vivem como vermes magníficos,
iluminados por dias soalheiros,
obscurecidos pelas invernias. 


As Fábulas, Famalicão, Quasi Edições, 2002 


Douro visto de São Leonardo de Galafura - Peso da Régua, Portugal, foto de João Paulo Coutinho.


"O Douro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a refletir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta".

Miguel Torga in “Diário XII”

sábado, 16 de abril de 2016

"Do Mar" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


João Vaz (Pintor e professor português, 1859-1931), Rochedos, Peniche, s.d.

 
Do Mar


Aqueles de um país costeiro, há séculos,
contêm no tórax a grandeza
sonora das marés vivas.
Em simples forma de barco, 
as palmas das mãos. 
Os cabelos são banais
como algas finas. O mar
está em suas vidas de tal modo
que os embebe dos vapores do sal.

Não é fácil amá-los
de um amor igual à
benignidade do mar.


Fiama Hasse Pais Brandão



José de Campos Contente, Dunas na Costa da Caparica, 1935


"O mar é o habilidoso desenhador de ausências."

Venenos de Deus, Remédios do Diabo 


sexta-feira, 8 de março de 2013

"Viver na Beira-Mar" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


 
António da Silva Porto (Pintor português, 1850–1893), A Moliceira, 1881
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves (ou Casa de Malhoa), São Sebastião da Pedreira



Viver na Beira-Mar


Nunca o mar foi tão ávido
quanto a minha boca. Era eu
quem o bebia. Quando o mar
no horizonte desaparecia e a areia férvida
não tinha fim sob as passadas,
e o caos se harmonizava enfim
com a ordem, eu
havia convulsamente
e tão serena bebido o mar.


Fiama Hasse Pais Brandão,
in "Três Rostos - Ecos"


Fiama Hasse Pais Brandão


Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15 de Agosto de 1938 — Lisboa, 19 de Janeiro de 2007) foi uma escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa.
A sua infância foi passada entre uma quinta em Carcavelos e o St. Julian's School. Foi estudante de Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo sido uma dos fundadores do Grupo de Teatro de Letras. Foi casada com Gastão Cruz.
Estreou-se como autora com Em Cada Pedra Um Voo Imóvel (1957), obra que lhe valeu o Prémio Adolfo Casais Monteiro. Ganha notoriedade no meio literário com a revista/movimento Poesia 61, em que publica o texto «Morfismos». É considerada como uma das mais importantes escritoras do movimento que revolucionou a poesia nos anos 60. Foi premiada em 1996 com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. O seu livro Cenas Vivas foi distinguido em 2001 com o prémio literário do P.E.N. Clube Português.
A sua atividade no teatro iniciou-se com um estágio, em 1964, no Teatro Experimental do Porto e com a frequência de um seminário de teatro de Adolfo Gutkin na Fundação Calouste Gulbenkian, em 1970. Em 1974, foi uma dos fundadores do Grupo Teatro Hoje, sendo a sua primeira encenação com Marina Pineda, de Federico García Lorca. Em 1961 recebeu o Prémio Revelação de Teatro, pela obra Os Chapéus de Chuva. É autora de várias peças de teatro.
Traduziu obras de língua alemã, de língua inglesa e de língua francesa, de John Updike, Bertold Brecht, Antonin Artaud, Novalis e Anton Tchekov, entre outros.
Colaborou em publicações como Seara Nova, Cadernos do Meio-Dia, Brotéria, Vértice, Plano, Colóquio-Letras, Hífen, Relâmpago e A Phala.



Silva Porto, Charneca de Belas ao Pôr-do-Sol, 1879


"É triste pensar que a natureza fala e que o género humano não a ouve." 

Victor Hugo
[Escritor, poeta, ensaísta, dramaturgo, ativista e político francês, 1802–1885]



Silva Porto, Bairro dos pescadores, 1884
 

Silva Porto, pintor português (1850–1893) nasceu no Porto e faleceu em Lisboa. Depois de terminar o curso na Academia Portuense de Belas Artes, partiu para Paris onde continuou a estudar e, posteriormente, para Roma. Embora a sua obra se encontre dispersa, é extremamente numerosa e engloba telas como Pequena Fiandeira Napolitana (1877), Charneca de Belas ao Pôr-do-Sol (1879), No Areinho, Douro (1880), A Ceifa (1884), A Volta do mercado (1886), A Salmeja (1884), Os Campinos, À Porta da venda, Moinho do Gregório, Colheita - Ceifeiras (1893) e Guardando o Rebanho (1893).