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José Malhoa (Pintor, desenhador e professor português, 1855–1933),
"O Emigrante" (Partida para o Brasil - Último olhar à aldeia), 1918.
Coleção particular. (daqui)
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Eu vou-me embora para além do Tejo,
não posso mais ficar!
Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
– Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!
Abro os olhos e não vejo
já não ando, já não oiço...
Não posso mais.
Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.
Passa a ave no céu bebendo azul e diz: – Vem!
O vento envolve-me numa carícia,
envolve-me e murmura: – Vem!
As ondas estalam nas praias e vão mar fora,
as mãos de espuma a prender-me os sentidos
chamam do fundo dos meus olhos: – Vem!
– Camaradas, eu vou, esperai um pouco...
Ai, mas a vida nunca espera por ninguém.
E a noite chega vingadora;
O vento rasga-me o fato,
as ondas molham-me a carne
e a ave pia misticamente no ar;
abro os olhos e não vejo,
já não ando, já não oiço,
– e fico, desgraçado de ficar.
Manuel da Fonseca
(Poeta, contista, romancista e cronista português, 1911–1993)
«Que coisa extraordinária que eu vivi!» e, se eu disser isto, é porque estou no bom caminho, que é esse de colecionar coisas extraordinárias.
