
Hermann Hesse (German-Swiss poet, novelist and painter, 1877–1962),
"Sunflowers in Montagnola", 1927. Watercolor over pencil on paper,
Herman Hesse Museum in Montagnola, Switzerland.
Rabisco na areia
Que encantamento e beleza
sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
– fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha de sabão,
riso de criança, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal se descobrem, somem –
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não: parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta – notas
de música, que ao nascerem
já fogem, se desvanecem –
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa,
que nem pelo tempo de uma
batida de coração
deixam-se reter, prender.
Som após som, mal se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternalmente
se entrega ao fugaz, ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
– rochas, mundo estelar, joias –
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efémeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor. Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia.
Hermann Hesse,
in 'Andares - Antologia Poética'.
Tradução de Geir Campos.
Nova Fronteira, 2a. ed., Rio de Janeiro, 1982.
"Portrait of Hermann Hesse" (1877–1962), 1905,
by Ernst Würtenberger (German painter, 1868–1934).
Em que é que o poeta crê
Na nossa época, o poeta, no qual se encarna o tipo mais puro da humanidade dotada de uma alma, encontra-se preso a meio do caminho entre o mundo das máquinas e o mundo da atividade intelectual organizada, como num espaço sem ar, onde está condenado a sufocar, já que o poeta é precisamente representante e paladino daquelas forças e daquelas exigências do homem às quais a nossa época declarou a mais fanática das guerras.
Acusar disso a nossa época seria um disparate. Esta não é nem melhor nem pior do que as outras. Para quem consegue partilhar os seus objetivos e os seus ideais, é um paraíso; para quem, pelo contrário, tem de lhe opor resistência, é um inferno. Para nós, poetas, é, portanto, um inferno. Se quiser manter-se fiel à própria origem e à própria vocação, o poeta não pode aderir ao mundo ébrio do sucesso que se apropria da vida por intermédio da indústria e da organização, nem sequer ao mundo da intelectualidade racionalizada que hoje predomina, por exemplo, nas nossas universidades. E posto que o único dever do poeta é o de ser servo, paladino e cavaleiro da alma, na atual fase do mundo ele vê-se condenado a uma solidão e a um sofrimento que não são para todos. A Europa tem hoje muito poucos poetas e nenhum deles é destituído de um tom de tragédia, para não falar de quixotismo. Pelo contrário, o continente formiga daquela espécie de «poetas», a predileta dos leitores burgueses, que empregam o seu talento e o seu gosto na exaltação daqueles ideais e daqueles valores que figuram precisamente na agenda do burguês: hoje a guerra, amanhã o pacifismo, etc.
Mas entre aqueles que podem verdadeiramente definir-se como «poetas» não são poucos os que perecem, reduzidos ao silêncio, no espaço sem ar deste inferno. Outros, pelo contrário, carregam o sofrimento, reconhecem-se nele, submetem-se ao destino e não se revoltam quando veem que a coroa de louros que, noutros tempos, os ornava hoje se transformou numa coroa de espinhos. Para estes poetas vai o meu amor, são eles que eu honro, que amo e dos quais quero ser irmão. Nós sofremos: mas não para protestar nem para imprecar. No ar, para nós, irrespirável do mundo das máquinas e na bárbara indigência que nos oprime nós sufocamos e, no entanto, não nos separamos do todo, aceitamos o sufoco e o sofrimento como a parte que nós devemos tomar nos destinos do mundo, como a nossa missão e a nossa provação. Não acreditamos em nenhum dos ideais desta época, não naquele dos generais, nem naquele dos bolcheviques, ou dos professores, ou dos industriais. Mas nós acreditamos que o homem é imortal, que a sua imagem poderá ressurgir, curada de qualquer deformação, purificada de qualquer inferno. Não tentamos explicar a nossa época, nem melhorá-la, nem amestrá-la, procuramos sempre abrir-lhe novamente, revelando a nossa dor e os nossos sonhos, o mundo da alma. Esses sonhos são, em parte, tristes sonhos de angústia, essas imagens são, em parte, visões terrificantes; mas não podemos embelezá-las, não podemos maquilhar a verdade. Isso fazem-no, à saciedade, os «poetas» que servem para entreter os burgueses. Nós não escondemos o perigo que a alma da humanidade corre, o abismo do qual essa alma está próxima. Mas também não conseguimos esconder que acreditamos na sua imortalidade. (1929)
Acusar disso a nossa época seria um disparate. Esta não é nem melhor nem pior do que as outras. Para quem consegue partilhar os seus objetivos e os seus ideais, é um paraíso; para quem, pelo contrário, tem de lhe opor resistência, é um inferno. Para nós, poetas, é, portanto, um inferno. Se quiser manter-se fiel à própria origem e à própria vocação, o poeta não pode aderir ao mundo ébrio do sucesso que se apropria da vida por intermédio da indústria e da organização, nem sequer ao mundo da intelectualidade racionalizada que hoje predomina, por exemplo, nas nossas universidades. E posto que o único dever do poeta é o de ser servo, paladino e cavaleiro da alma, na atual fase do mundo ele vê-se condenado a uma solidão e a um sofrimento que não são para todos. A Europa tem hoje muito poucos poetas e nenhum deles é destituído de um tom de tragédia, para não falar de quixotismo. Pelo contrário, o continente formiga daquela espécie de «poetas», a predileta dos leitores burgueses, que empregam o seu talento e o seu gosto na exaltação daqueles ideais e daqueles valores que figuram precisamente na agenda do burguês: hoje a guerra, amanhã o pacifismo, etc.
Mas entre aqueles que podem verdadeiramente definir-se como «poetas» não são poucos os que perecem, reduzidos ao silêncio, no espaço sem ar deste inferno. Outros, pelo contrário, carregam o sofrimento, reconhecem-se nele, submetem-se ao destino e não se revoltam quando veem que a coroa de louros que, noutros tempos, os ornava hoje se transformou numa coroa de espinhos. Para estes poetas vai o meu amor, são eles que eu honro, que amo e dos quais quero ser irmão. Nós sofremos: mas não para protestar nem para imprecar. No ar, para nós, irrespirável do mundo das máquinas e na bárbara indigência que nos oprime nós sufocamos e, no entanto, não nos separamos do todo, aceitamos o sufoco e o sofrimento como a parte que nós devemos tomar nos destinos do mundo, como a nossa missão e a nossa provação. Não acreditamos em nenhum dos ideais desta época, não naquele dos generais, nem naquele dos bolcheviques, ou dos professores, ou dos industriais. Mas nós acreditamos que o homem é imortal, que a sua imagem poderá ressurgir, curada de qualquer deformação, purificada de qualquer inferno. Não tentamos explicar a nossa época, nem melhorá-la, nem amestrá-la, procuramos sempre abrir-lhe novamente, revelando a nossa dor e os nossos sonhos, o mundo da alma. Esses sonhos são, em parte, tristes sonhos de angústia, essas imagens são, em parte, visões terrificantes; mas não podemos embelezá-las, não podemos maquilhar a verdade. Isso fazem-no, à saciedade, os «poetas» que servem para entreter os burgueses. Nós não escondemos o perigo que a alma da humanidade corre, o abismo do qual essa alma está próxima. Mas também não conseguimos esconder que acreditamos na sua imortalidade. (1929)
Hermann Hesse (Prémio Nobel de Literatura, 1946), in 'Uma Biblioteca da Literatura Universal'

Hermann Hesse – 'Uma Biblioteca da Literatura Universal'
Cavalo de Ferro, 2010
Descrição
Plano Nacional de Leitura
Literatura – Ensaio – 15-18 anos
Os livros são fonte de satisfação, de alegrias e de conhecimento, enriquecendo a nossa vida e aumentando o valor da nossa existência. Mas quantos de nós já não nos sentimos perdidos nessa floresta densa e por vezes hostil que é o mundo dos livros e da literatura? O que ler? Como encontrar o livro que secretamente procuramos?
Hermann Hesse, escritor amado por gerações de leitores, guia-nos neste conjunto de textos fundamentais pela floresta de papel da literatura, introduzindo-nos à «magia do livro». Explica e ilustra com clareza o que significa encontrar um livro, acontecimento que pode ser tão ou mais importante do que o encontro com outra pessoa. Ajuda-nos de forma simples e precisa no passo mais delicado e fundamental: a criação da nossa própria biblioteca. Sugere-nos livros incontornáveis e explica-nos porque devemos travar conhecimento com eles. Reflete de forma atualíssima sobre o universo da leitura e da escrita. (daqui)
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