terça-feira, 12 de maio de 2026

"O Gato e o Dicionário" - Poema de Cassiano Ricardo

 

 
Henri Rousseau
(French post-Impressionist painter in the Naïve
or Primitive manner, 1844-1910), 'Portrait of Pierre Loti', c. 1891.
Oil on canvas, 62 x 52 cm, Kunsthaus, Zurich.
 

O Gato e o Dicionário

... tigre em miniature.
(Maurice Rollinat)

Um gato se aproxima. Está com fome.
Abandonado ao deus-dará da rua.
Daqui a pouco, uma roda que significa o universo em seu eixo, o esmagará.
Sem que nenhuma estrela ou flor se mude do lugar onde está. 

Chamo-o para junto do meu corpo.
Aqueço-o com o meu sobretudo londrino.
Os seus olhos são verdes. São mais verdes
que os da mulher que o abandonou na rua
ao passar em seu carro, como uma sereia montada num peixe. 

E como (dada a minha condição pedestre)
jamais poderia eu possuir um tigre de Bengala,
farei, deste gato mosqueado,
o meu tigre, que se conservou criança,
para enfeite do mundo, só dos homens. 

Afinal, para a pequena floresta rotativa onde moro,
me basta este minúsculo tigre, ornamental. 

Não posso ter um quadro de Van Gogh,
tenho uma cópia.
Não posso ter dois pintarroxos no ar voando
tenho um, na mão.
(Que é a infância senão a alegria de ter uma coisa por outra?) 

Não tenho as coisas do bazar de Deus,
tenho um dicionário.
Não tenho a mulher que vi na última corrida do Jóquei,
tenho a sua fotografia. 

(O segredo da vida não está em a gente
se contentar com uma coisa por outra?)
Em meu dicionário de objetos achados,
o gato é o meu tigre.

(Ah, este gato me dará sempre a ilusão de eu ser menino,
aqui,
ou caçador de tigres, na África). 


Cassiano Ricardo
 (1895-1974), 
in 'A Difícil Manhã', 1960.
 

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