segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Fala a preguiça" - Poema de Álvaro Magalhães


 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970), 'Montse', 1959.



Fala a preguiça

Eu gosto tanto, tanto, tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.

Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.
Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim.

E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.


Álvaro Magalhães
(Escritor português de livros e contos para crianças, n. 1951)



Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970)



"A preguiça morreu de sede à beira do rio, com preguiça de beber."

(Ditado popular)

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