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segunda-feira, 12 de junho de 2017

"Dá-me a festa mágica" - Poema de Pablo Neruda



 
Dá-me a festa mágica


DEUS - e de onde é que tiras para acender o céu
este maravilhoso entardecer de cobre?
Por ele soube encontrar de novo a alegria,
e a má visão eu soube torná-la mais nobre.

Nas chamas coloridas de amarelo e verde
iluminou-se a lâmpada de um outro sol
que fez rachar azuis as planícies do Oeste
e verteu nas montanhas suas fontes e rios.

Deus, dá-me a festa mágica na minha vida,
dá-me os teus fogos para iluminar a terra,
deixa em meu coração tua lâmpada acendida
para que eu seja o óleo de tua luz suprema.

E eu irei pelos campos na noite estrelada
com os braços abertos e a face desnuda,
cantando árias ingénuas com as mesmas palavras
com que na noite falam os campos e a lua.


Tradução de José Eduardo Degrazia



Antonio Vivald, 'The four seasons - Winter', Julia Fischer



“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar.”

(Sophia de Mello Breyner Andresen)
 

domingo, 1 de março de 2015

"A mente livre está em perigo" - Texto de John Steinbeck, in 'A Leste do Paraíso'





A mente livre está em perigo


A nossa espécie é a única espécie criativa, e tem apenas um único instrumento criativo, a mente e espírito únicos de cada homem. Nunca nada foi criado por dois homens. Não existem boas colaborações, quer em arte, na música, na poesia, na matemática, na filosofia. De cada vez que o milagre da criação acontece, um grupo de pessoas pode construir com base nela e aumentá-la, mas o grupo em si nunca inventa nada. A preciosidade reside na mente solitária de cada homem. 

E agora existem forças que enaltecem o conceito de grupo e que declararam uma guerra de exterminação a essa preciosidade, a mente do homem. Através das mais variadas formas de pressão, repressão, culto, e outros métodos violentos de condicionamento, a mente livre tem sido perseguida, roubada, drogada, exterminada. E este é um rumo de suicídio coletivo que a nossa espécie parece ter tomado. 

E é nisto que eu acredito: que a mente livre e criativa do homem individual é a coisa mais valiosa no mundo. E é por isto que eu estou disposto a lutar: pela liberdade da mente tomar qualquer direção que queira, sem direção. E é contra isto que eu vou lutar com todas as minhas forças: qualquer religião, qualquer governo que limite ou destrua o indivíduo. É isto que eu sou e é esta a minha causa. Posso até compreender que um sistema baseado num padrão tenha que destruir a mente livre, pois esta é a única coisa que pode inspecionar e destruir um sistema deste tipo. Concerteza que compreendo, mas lutarei contra isso por forma a preservar a única coisa que nos separa das restantes espécies. Pois se a mente livre for morta, estaremos perdidos. 

 
 
SINOPSE


Os solos férteis do vale de Salinas, na Califórnia, são o cenário deste grande fresco histórico que acompanha os destinos de duas famílias, os Trask e os Hamilton, desde os dias da Guerra Civil Americana ao pós-Primeira Guerra Mundial.

A inexplicabilidade do amor e as consequências criminosas da sua ausência estão no centro deste romance, publicado originalmente em 1952, onde John Steinbeck apresenta algumas das suas personagens mais cativantes. Enfrentando um percurso pejado de luta e de sofrimento que atravessa gerações, nas suas histórias ouve-se ecoar irremediavelmente a tragédia das palavras bíblicas e assiste-se a uma reencenação da queda de Adão e Eva e da rivalidade destrutiva entre Caim e Abel.

A Leste do Paraíso é uma obra de maturidade e de grande fôlego, uma história brutal e apaixonante, sobre a qual escreveu o próprio autor: «O assunto é o mesmo que cada homem tem utilizado como tema: a existência, o equilíbrio, a batalha e a vitória, na eterna guerra entre a sabedoria e a ignorância, a luz e a treva, o bem e o mal. (daqui)


Four Seasons - Vivaldi

sábado, 24 de setembro de 2011

"O Nosso Livro" - Poema de Florbela Espanca



Harold Gilman (British painter, 1876–1919), 'Studio Interior'



O Nosso Livro


Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor! 

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois! 

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós os dois!..."


Florbela Espanca,
in "Livro de Sóror Saudade" 



Antonio Vivaldi - Wiosna