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segunda-feira, 8 de março de 2021

"O tempo fecha" - Poema de Ana Cristina Cesar


Peder Mørk Mønsted (Danish painter, 1859-1941), An old woman knitting in the doorway, 1923 
Oil on panel, 31 x 40 cm. (12.2 x 15.7 in.), private collection.
 


O tempo fecha


Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh! tão presa! Esses mosquitos
que não largam! Minhas saudades ensurdecidas
por cigarras! O que faço aqui no campo
declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não
sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou profissional.

in  'A teus pés'. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 9.
 
 
 
Peder Mørk Mønsted, Torre del Grecco, 1925 - Óleo sobre tela, 40 x 61 


 Cigarra

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa. 

Guilherme de Almeida 
(Haicai/Haikai)


segunda-feira, 1 de março de 2021

"Fagulha" e "Contagem regressiva" - Poemas de Ana Cristina Cesar


 
William McGregor Paxton (American painter and instructor, 1869–1941),
'Girl combing her hair' or 'Young girl with a mirror', 1909



Fagulha

 
Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimónia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.


Ana Cristina Cesar
, in 'A teus pés',
São Paulo: Brasiliense, 1982. 
 

 
William McGregor Paxton, 'Girl Arranging Flowers', 1921
 

Contagem regressiva

 
Acreditei que se amasse de novo
 esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço 
e amo em ti os outros rostos 
in "Inéditos e Dispersos"

Ana Cristina Cesar (19521983) deixou em sua breve passagem pela literatura brasileira do século XX uma marca indelével. Tornou-se um dos mais importantes representantes da poesia marginal que florescia na década de 1970, justamente pela singularidade que a distanciava das “leis do grupo”. Criou uma dicção muito própria, que conjugava a prosa e a poesia, o pop e a alta literatura, o íntimo e o universal, o masculino e o feminino - pois a mulher moderna e liberta, capaz de falar abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, derramava-se numa delicadeza que podia conflitar, na visão dos desavisados, com o feminismo enérgico, característico da época.
Entre fragmentos de diário, cartas fictícias, cadernos de viagem, sumários arrojados, textos em prosa e poemas líricos, Ana Cristina fascinava e seduzia seus interlocutores, num permanente jogo de velar e desvelar. "Cenas de Abril", "Correspondência Completa", "Luvas de Pelica", "A Teus Pés", "Inéditos e Dispersos", "Antigos e Soltos": livros fora de catálogo há décadas estão agora novamente disponíveis ao público leitor, enriquecidos por uma secção de poemas inéditos, um posfácio de Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário, por muitos anos, dos escritos da carioca, Armando Freitas Filho. Dos volumes independentes do começo da carreira aos livros póstumos, a obra da musa da poesia marginal - reunida pela primeira vez em volume único - ainda se abre, passados trinta anos de sua morte, a leituras sem fim. (daqui)