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sexta-feira, 29 de maio de 2026

"Sempre a Razão vencida foi de Amor" - Poema de Luís de Camões



Arthur Hughes (English painter and illustrator, 1832–1915),
"Fair Rosamund" (Rosamund Clifford), 1854.
National Gallery of Victoria.


[Rosamund Clifford (c. 1140 – c. 1176), often called "The Fair Rosamund" or "Rose of the World", was a medieval English noblewoman and mistress of Henry II, King of England. She became famous in English folklore.] (daqui) 
 
 
Sempre a Razão vencida foi de Amor

 
Sempre a Razão vencida foi de Amor;
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.


Luís de Camões (1524–1580), 'Sonetos',
in 'Obras completas'
 


John William Waterhouse (English painter, 1849–1917),
"Fair Rosamund", 1917.


"Vi chorar uns claros olhos
Quando deles me partia.
Oh! Que mágoa! Oh! Que alegria!"
(Mote de um Vilancete)
 
*** 
 

Cesária Évora - 'Sodade'

'Sodade' é uma canção cabo-verdiana escrita por Armando Zeferino Soares na década de 1950, interpretada na década de 1970 por Bonga Kwenda, mais tarde popularizada por Cesária Évora no seu álbum 'Miss Perfumado' na década de 1990. O nome da canção, 'sodade', é uma variante crioula cabo-verdiana do termo português saudade.
 (daqui)
 
 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

"Balada do Festival" - Poema de Hilda Hilst



Arthur Hughes (English painter and illustrator, 1832–1915), 'A Music Party', 1864


Poema

XX

Nós, poetas e amantes
o que sabemos do amor?
Temos o espanto na retina
diante da morte e da beleza.
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.

Somos inimigos.
Inimigos com muralhas
de sombra sobre os ombros.
E sonhamos. Às vezes
damos as mãos àqueles
que estão chorando.
(os que nunca choraram por nós)

Ah, meus irmãos e irmãs...
Ai daqueles que nos amam
e que por amor de nós se perdem.
Ah, pudéssemos amar um homem
ou uma mulher ou uma coisa...
Mas diante de nós, o tempo
se consome, desaparece e não para.

Ouvi: que vossos olhos se inundem
de pranto e água de todo o mundo!
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.


Hilda Hilst (1930
–2004),
de 'Balada do Festival', 1955.



domingo, 6 de janeiro de 2013

"A Essência da Poesia" - Texto de Pablo Neruda



Arthur Hughes (English painter and illustrator, 1832–1915), 'A Rocky Coast, Merope Rocks',
 near Harlyn Bay, North Cornwall, c. 1889–1892, National Trust. 


A Essência da Poesia 


"Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio. 
Encontrei, naquela longa jornada, as doses necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma ação passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia - o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia - numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde. E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio de uma vaca, ao banhar os pés na água purificadora das mais elevadas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para se comunicar depois a muitos outros seres ou era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigência ou embrazamento. Não sei se aquilo o vivi ou escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde. 
De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é necessário atravessar a solidão e aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar com hesitação ou cantar com melancolia, mas nessa dança ou nessa canção acham-se consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de serem homens e de acreditarem num destino comum."


Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer" (Discurso na entrega do Prémio Nobel)

***

 Galeria de Arthur Hughes

Arthur Hughes, 'A Rocky North Cornish Coast', c. 1889–1892, 
National Trust  



Arthur Hughes, 'Springtime (Cornwall)', Beverley Art Gallery



Arthur Hughes, 'Above a Cove, North Cornwall', c. 1889–1892



Arthur Hughes, 'Burghfield Orchard, near Reading', c. 1898–1899  



Arthur Hughes, 'Cottage at Burghfield, near Reading, with Pond', c. 1886–1887



Arthur Hughes, 'Burghfield, near Reading', National Trust
 


Arthur Hughes, 'A Man Scything in a Field of Poppies', 
National Trust



Arthur Hughes, The Swineherd, c. 1875, Brighton Museum & Art Gallery



Arthur Hughes, 'The Sluggard, Market Women, Brittany, France', 1876



Arthur Hughes, 'He is Risen - The First Easter', c. 1893–1896, William Morris Gallery


 
Arthur Hughes, 'As You Like It' (3 panels), c. 1872–1873, Walker Art Gallery
 


Arthur Hughes, 'Ophelia', 1852
 
 

Arthur Hughes, 'Gleaning'
 
 

Arthur Hughes, 'The Mower', c. 1865, Aberdeen Art Gallery
 


Arthur Hughes, 'Ellen Dana Conway' (1833–1897), 1873,

Arthur Hughes, 'April Love', c. 1855–1856, Tate Britain, London
 
 

Arthur Hughes, 'Ophelia' (Second Version), 1863, Ashmolean Museum
 

"A Caridade" - Poema de João de Deus



Arthur Hughes (English painter and illustrator, 1832–1915),
'A Christmas Carol at Bracken Dene', c. 1878–1879,
Birmingham Museum and Art Gallery



A Caridade


Eu podia falar todas as línguas
Dos homens e dos anjos;
Logo que não tivesse caridade,
Já não passava de um metal que tine,
De um sino vão que soa.

Podia ter o dom da profecia,
Saber o mais possível,
Ter fé capaz de transportar montanhas;
Logo que eu não tivesse caridade,
Já não valia nada!

Eu podia gastar toda afortuna
A bem dos miseráveis,
Deixar que me arrojassem vivo às chamas;
Logo que eu não tivesse caridade,
De nada me servia!

A caridade é dócil, é benévola,
Nunca foi invejosa,
Nunca procede temerariamente,
Nunca se ensoberbece!

Não é ambiciosa; não trabalha
Em seu proveito próprio; não se irrita;
Nunca suspeita mal!

Nunca folgou de ver uma injustiça;
Folga com a verdade!

Tolera tudo! Tudo crê e espera!
Em suma tudo sofre!


João de Deus
, in 'Campo de Flores' 
 

João de Deus in 'O Ocidente', 1878 
 
 
João de Deus 

Poeta e pedagogo, João de Deus de Nogueira Ramos nasceu a 8 de março de 1830, no Algarve, e morreu a 11 de janeiro de 1896, em Lisboa.
Depois de ter frequentado, durante dez anos, o curso de Direito em Coimbra (onde foi uma das figuras mais destacadas da boémia estudantil da época e se relacionou com alguns elementos da Geração de 70, sobretudo Antero de Quental e Teófilo Braga), de ter dirigido em Beja, entre 1862 e 1864, o jornal O Bejense (onde publicou muitas das suas primeiras poesias), e de ter iniciado a prática de jurisconsulto, foi eleito deputado, em 1868, por Sines. Mudou-se para Lisboa, onde continuou a frequentar ambientes de boémia literária. Colaborou em vários jornais e revistas, como O Académico, Anátema, O Ateneu, Ciências, Artes e Letras, O Fósforo, Gazeta de Portugal, A Grinalda, Herculano, Prelúdios Literários e Revista de Coimbra. Por volta de 1868-1869, coligiu as suas poesias no volume Flores do Campo, a que se seguiram Ramo de Flores (1869), Folhas Soltas (1876), Despedidas do verão (1880) e Campo de Flores (1893). No seguimento da sua nomeação para o cargo de comissário-geral do ensino da leitura, viria a desempenhar um papel social e cultural da maior distinção, revelando-se decisivos os seus esforços para a alfabetização de camadas cada vez mais alargadas da população portuguesa. A publicação, em 1876, da célebre Cartilha Maternal, método de ensino da leitura verdadeiramente revolucionário no panorama pedagógico nacional, constituiu um marco importante desse processo. Devido, em parte, à sua ação de pedagogo, em 1895 foi agraciado com várias homenagens à escala nacional, entre as quais a de sócio-honorário da Academia Real das Ciências e do Instituto de Coimbra.
Como poeta, João de Deus situou-se num momento em que a via ultrarromântica estava já a esgotar-se, mas, apesar do apreço que lhe manifestavam autores como Antero de Quental, não se identificou com as preocupações filosóficas e sociais da Geração de 70. De facto, a temática dominante da sua obra poética afastou-o da nova corrente. O seu lirismo intimista versa constantemente sobre o amor, e por vezes perpassa um sentido de plácida religiosidade, exprimindo-se sempre num estilo simples. A sua obra abrange vários géneros, da ode à elegia, do epigrama à fábula, passando pelo soneto. João de Deus, que Antero considerava, já em 1860, "o poeta mais original do seu tempo", defendeu e praticou um lirismo depurado, inspirado, a exemplo de Garrett, na lírica tradicional portuguesa e na obra camoniana, de onde recuperaria o soneto como um dos seus géneros de eleição.

João de Deus. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-06].
  
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Galeria de Arthur Hughes 

Arthur Hughes, 'Self-portrait', 1851

Arthur Hughes (27 de janeiro de 1832 – 22 de Dezembro de 1915) foi um pintor e ilustrador Inglês associado com a Irmandade pré-rafaelita. Ele é o tio do pintor Inglês Edward Robert Hughes.



Arthur Hughes, 'Saying Grace, The Skipper and His Crew', 1881

 

Arthur Hughes, 'Mrs. Norman Hill and Children', 1897



Arthur Hughes, 'Mrs Leathart and Her Three Children', c. 1863–1865



Arthur Hughes, 'Mother and Child Seated in Garden', c. 1865–1870
 
 
 
Arthur Hughes, 'The Children of Birkbeck Hill', 1868

 

Arthur Hughes, 'The Potter's Courtship', c. 1886
 

 
Arthur Hughes, 'Home from Work', c. 1870


 
Arthur Hughes, 'Sir Galahad - the Quest of the Holy Grail', 1870



Arthur Hughes, 'In the Grass', c.1864–1865, Sheffield Galleries and Museums Trust
 

 
Arthur Hughes, 'Mabel and Ruth Orrinsmith', c. 1878