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terça-feira, 5 de setembro de 2017

"O Silêncio" - Poema de José Tolentino Mendonça



Jan Asselijn (Dutch Golden Age painter. c. 1610–1652),
'Italian Landscape with the Church of Sts. Giovanni e Paolo in Rome',
Museum of Fine Arts, Budapest
 

O Silêncio


Regressamos a uma terra misteriosa
trazemos uma ferida
e o corpo ferido
imprevistamente nos volta
para margens mais remotas.

Giorgio Armani tinha declarado
àquele jornal inglês: "o luxo desagrada-me,
é anti-democrático.
Quero homenagear os operários de todo o mundo"
Eu só pensava em São João da Cruz
enquanto ouvia pela enésima vez:
"a moda substituiu o luxo
pela elegância"

João da Cruz fala de coroas,
resplendores, casulas
véus de seda, relicários de ouro e
diamantes

para lá do jogo das nossas defesas
qualquer coisa interior

a intensa solidão das tempestades
os campos alagados,
os sítios sem resposta

o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços.


José Tolentino Mendonça, in 'A Estrada Branca',
 Assírio e Alvim, 2005



Jan Asselijn, The Tiber River with the Ponte Molle 'at Sunset', c. 1650.


"O sofrimento é uma pedra de afiar para uma mente forte."

(J. R. R. Tolkien)

domingo, 23 de julho de 2017

"Do Medo" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes


 
Jan Asselijn (Dutch Golden Age painter, c. 1610–1652), 'The Threatened Swan'
('O Cisne Ameaçado')
, c. 1640–1650, Rijksmuseum
 

Do Medo


Não pode o poema 
circunscrever o medo, 
dar-lhe o rosto glorioso 
de uma fábula 
ou crer intensamente na sua aura. 
Nós permanecemos, quando 
escurece à nossa volta o frio 
do esquecimento 
e dura o vento e uma nuvem leve 
a separar-se das brumas 
nos começa a noite. 

Não pode o poema 
quase nada. A alguns inspira 
uma discreta repugnância. 
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios 
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas 
sobre a terra. 
Quem reconhece a poesia, esse frio 
intermitente, essa 
persistência através da corrupção? 
Quase sempre a angústia 
instaura a luz por dentro das palavras 
e lhes rouba os sentidos. 
Quase sempre é o medo 
que nos conduz à poesia. 


Voltando ao medo: as asas 
prendem mais do que libertam; 
os pássaros percorrem necessariamente 
os mesmos caminhos no espaço, 
sem possibilidades de variação 
que não estejam certas com esse mesmo voo 
que sempre descrevem. 
Voltando ao medo: o poema 

desenha uma elipse em redor da tua voz 
e cerca-se de angústia 
e ervas bravias — nada mais 
pode fazer. 


 in "A Ilha dos Mortos", 1991