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quinta-feira, 23 de abril de 2026

"A galinha cor-de-rosa" - Poema de Duda Machado


   
Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "Olivia's Coop", 2013.


A galinha cor-de-rosa


Era uma galinha cor-de-rosa, 
Metida a chique, toda orgulhosa, 
Que detestava pisar no chão 
Cheio de lama do galinheiro.

Ficava no alto do poleiro 
E quando saía do lugar, 
Batia as asas para voar. 
Mas seus pés acabavam na lama.

Aí armava o maior chilique, 
Cacarejava, bicava o galo, 
E depois, com ar de rainha, 
Lavava os pés numa pocinha. 


Duda Machado
,
em 'Histórias com poesia, alguns bichos & cia', 1997.
 
 

'Histórias com poesia, alguns bichos & cia',
de Duda Machado; Ilustração de Guto Lacaz;
 ‎ Editora 34. 
 
Descrição

"Histórias com poesia, alguns bichos e cia." reúne 13 poemas altamente divertidos. Como o próprio título diz, são histórias com bichos, móveis, dias, noites, pontos e outros temas que viraram belos poemas para crianças pequenas. Com versos rimados, o leitor pode divertir-se com 'uma galinha cor-de-rosa que detestava pisar no chão', 'um elefante que andava de mansinho para não machucar o soalho', 'um macaco diferente que fica imitando gente e queria voar', ou com 'a vaca Quilate que dava leite sabor de chocolate'... 
Duda Machado e Guto Lacaz, artista de destaque na arte brasileira contemporânea, uniram-se para contar histórias engraçadas ao leitor infantil em forma de poema. Vale a pena conhecer seus personagens inusitados.

Sobre os Autores
 
Duda Machado (Carlos Eduardo Lima Machado), um dos poetas mais significativos de sua geração, nasceu em Salvador, em 1944. Formado em Ciências Sociais, interessou-se também por cinema e música popular, tendo sido parceiro de Gilberto Gil e Jards Macalé. Em 1977, morando no Rio de Janeiro, publicou seu primeiro livro de poemas, "Zil", ao qual se seguiriam "Crescente" (1990) e "Margem de uma onda" (1997). Nesse mesmo ano publicou, em parceria com Guto Lacaz, "Histórias com poesia, alguns bichos & cia.", um divertido livro de poemas para crianças. Publicou também "Tudo tem a sua história" (2005), "Adivinhação da leveza" (2011) e Coletânea "Poesia 1969-2021" (2024).
Combinando atividades de poeta, ensaísta e tradutor (entre eles, Gustave Flaubert e Mark Twain), foi professor de teoria literária na Universidade Federal de Ouro Preto. 

Guto Lacaz, arquiteto e artista plástico, nasceu em São Paulo, em 1948, e é hoje uma figura de destaque na arte brasileira contemporânea, tendo participado de várias exposições importantes, entre as quais a XVIII Bienal de São Paulo. Com seu traço sintético e bem-humorado, já ilustrou diversos livros, entre eles: "O retrato das figuras", de Anna Flora (1992); "Balé dos Skazkás", de Katia Canton (1997); "A vila e o vulcão", de sua própria autoria (2000); e o "Livro da primeira vez", de Otavio Frias Filho (2004). 
 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

"Janela do Sonho" - Poema de Carlos Melo Santos

 


Morgan Weistling
(American painter, b. 1964)
 


Janela do Sonho


Abri as janelas
que havia dentro de ti
e entrei abandonado
nos teus braços generosos.

Senti dentro de mim
o tempo a criar silêncio
para te beber altiva e plena.

Mil vezes
repeti teu nome,
mil vezes,
de forma aveludada
e era a chave
que se expunha
e fecundava dentro de mim.

Já não se sonha,
deixei de sonhar,
o sonho é poeira dos tempos
é a voz da extensão
é a voz da pureza
que dardejava na nossa doçura.

Quando abri as tuas janelas
e despi teus braços
perdi a vaidade
e a pressa,
amei a partida
e em silêncio abri,
(sem saber que abria)
uma noite húmida
em combustão secreta
desmaiado no teu ombro
de afrodite.


Carlos Melo Santos (1956-2021),
in "Lavra de Amor"
 

domingo, 5 de janeiro de 2020

"O Relógio" - Poema de Vinicius de Moraes


Morgan Weistling (American painter, b. 1964), Pocket Watch, Girl with Grandfather, 2005.
 


O Relógio


Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
   Tic-tac...

Rio de Janeiro, 1970 

Vinicius de Moraes 



Morgan Weistling, In Her World, 2017


Livros

"Não viajo sem livros, nem na paz, nem na guerra… pois não se pode dizer o quanto eu me repouso e demoro nessa consideração de que eles estão ao meu lado para me darem prazer quando preciso e em reconhecer quanta ajuda eles me trazem à vida. É a melhor provisão que tenho encontrado para esta viagem humana e sinto uma pena extrema das pessoas inteligentes que deles se privam."

Michel de Montaigne, in ‘Dos Três Comércios’


A portrait of Michel de Montaigne (1533–1592).
 Photo: Stefano Bianchetti/Corbis via Getty Images. 


Cortesão e ensaísta francês, Michel Eyquem de Montaigne nasceu a 28 de fevereiro de 1533, no Château de Montaigne, pertença da sua família por aquisição, perto de Bordéus. O pai era um advogado de ideias progressistas e que havia combatido em Itália, e a mãe uma judia espanhola convertida ao protestantismo. Em conformidade com as conceções que o pai mantinha acerca da educação, foi enviado enquanto recém-nascido para casa de gente humilde, para que se pudesse recordar para toda a vida dessa qualidade.

Estudou no Colégio de Guyenne de Bordéus, fazendo estudos superiores de Direito também em Bordéus e em Toulouse, tornando-se depois conselheiro na Court des Aides de Périgueaux. Em 1557 foi nomeado conselheiro do Parlamento de Bordéus, e em 1561 seria cortesão junto de Carlos IX. A morte de um amigo, Etienne de la Boëtie, com apenas trinta e dois anos de idade, causou-lhe tamanho desgosto que se viu forçado a afastar da corte, em 1563.

Casando em 1565, viu morrerem-lhe quatro filhos quase à nascença, restando-lhe apenas uma filha. Retirou-se com a sua família para o castelo senhorial da família em 1570, ano da morte da sua mãe, apenas dois anos depois da do próprio pai. Aí completou os primeiros dois volumes dos seus Essais (Ensaios), que publicou em 1580. O termo 'Ensaios' seria cunhado pelo autor para designar o estilo literário a que se dedicou, ao anotar pensamentos, memórias, opiniões e incidentes da sua vida quotidiana.

 Com a deflagração da Guerra Civil de França, recusou-se a tomar medidas para a defesa da sua propriedade, dando licença aos seus soldados e escancarando as portas do seu castelo. Montaigne pensava que nada encorajava tanto o uso das armas com a sua presença.

Sofrendo de pedra nos rins, aproveitou a ocasião para viajar em busca de águas termais, percorrendo a Lorena, a Alsácia e a Baviera, e chegando a Itália através de Veneza. Encontrava-se há algum tempo em Roma quando recebeu a notícia de que havia sido nomeado governador de Bordéus, em 1581.

Montaigne desempenhava o seu segundo mandato como governador, um surto de peste bubónica irrompeu em Bordéus, numa altura em que se encontrava fora da cidade. Pouco se importando com a população, ou com o facto de lhe poderem chamar de cobarde, recusou-se a entrar na cidade, deixando aos seus subalternos a tarefa de a dirigir nesses momentos de crise.

Em 1588 foi feito prisioneiro pelos membros da Liga Protestante, mas libertado da Bastilha ao fim de algumas horas. Católico moderado, manteve-se fiel a Henrique III durante algum tempo, até se aperceber da inevitabilidade da vitória do primo, o futuro Henrique IV.

Retirando-se nesse mesmo ano para o Castelo de Montaigne, publicaria uma edição aumentada dos seus Ensaios (Essais). Aí faleceu, vítima de uma infeção na garganta, a 13 de setembro de 1592. (Daqui)