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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

"A minha liberdade" - Poema de Anthero Monteiro

 

 
Veloso Salgado (Pintor galego e português, 1864–1945), O Sufrágio, 1913, Museu de Lisboa.
 
["O Sufrágio" (1913), por Veloso Salgado. O quadro a óleo é alusivo à vitória do Partido Republicano Português nas eleições autárquicas de 1908 (1 de Novembro de 1908). Nele figuram as alegorias do Sufrágio (o homem sentado que segura na urna e na bandeira vermelha que diz "SUFFRAGIO") e da República (a mulher que leva a multidão até à urna), presidindo, no Largo do Município (Lisboa), ao ato eleitoral, a que aflui a população em massa. Encabeçando a multidão, distinguem-se diversos líderes do Partido Republicano, incluindo quatro futuros Presidentes da República Portuguesa (Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Bernardino Machado, e António José de Almeida). Ao fundo vê-se a fachada imponente da Câmara Municipal de Lisboa e, mais ao fundo e à esquerda, a Sé de Lisboa (na altura a sofrer obras de restauro). O quadro está atualmente no Museu de Lisboa.] (daqui)
 

A minha liberdade 


vós os que procurais em vão a justiça
vós os que interrogais os céus inutilmente
vós olhos doridos de desilusão
tomai a minha liberdade

vós que ainda não tivestes a vossa hora
vós que ainda não divisastes a terra prometida
vós que sois espoliados até da vossa esperança
tomai a minha liberdade

tomai-a nas mãos com amor religioso
é tudo o que possuo - e é tão pouca
é diminuta como uma semente
mas é como semente que eu a quero

é pela semente que aquele campo é uma seara
é pela semente que a foice desce ao trabalho
é pela semente que nesta mesa há pão

abdico desta semente
e na hora em que poderia usá-la
podeis lançá-la ao campo de batalha
para que dê fruto e vos sacie

bom é que morra no aceso do combate
como morrem todas as sementes
para ressurgir em libertação

1974

Anthero Monteiro

(Poeta e professor português, 1946 - 2022)


domingo, 2 de março de 2025

"Estações do Ano" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Veloso Salgado (Pintor português, 1864–1945), Juventude (Youth), 1923,
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, Portugal.
 

Estações do Ano


Primeiro vem Janeiro
Suas longínquas metas
São Julho e são Agosto
Luz de sal e de setas

A praia onde o vento
Desfralda as barracas
E vira os guarda-sóis
Ficou na infância antiga
Cuja memória passa
Pela rua à tarde
Como uma cantiga

O verão onde hoje moro
É mais duro e mais quente
Perdeu-se a frescura
Do verão adolescente

Aqui onde estou
Entre cal e sal
Sob o peso do sol
Nenhuma folha bole
Na manhã parada
E o mar é de metal
Como um peixe-espada 


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "O Nome das Coisas", 1977.

 

 
Sophia de Mello Breyner Andresen
retratada por Bottelho (19642014). 
 

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 1919, mas viveu grande parte da sua vida em Lisboa, onde morre em 2004. Considerada como uma das maiores escritoras portuguesas, foi a primeira mulher a receber o Prémio Camões.
O Mar é transversal à vida e obra da poeta: a Praia da Granja subentende os primeiros anos da sua vida e adolescência; o Algarve a vida adulta e a passagem do Mar revolto do norte para o soalheiro sul. A Grécia, mais do que uma idade, representa o encontro com um ideal de beleza que percorre toda sua poesia, porque o gosto pela Grécia parte do seu gosto pelo Mar, levando-a a apaixonar-se pela cultura helénica muito antes de visitar a Grécia. (daqui)


Veloso Salgado, Autorretrato, 1931. 

José Veloso Salgado, pintor português, nasceu a 2 de abril de 1864, em Ourense, e faleceu a 22 de julho de 1945, em Lisboa. Foi professor na Escola de Belas Artes de Lisboa.
Executou variadíssimas obras que marcaram a pintura da sua época. Merecem destaque Amor e Psique, os painéis decorativos do Palácio da Bolsa e a Alegoria às Cortes de 1820, no Palácio de S. Bento. De sua autoria são igualmente o pano de boca e decoração do Teatro Politeama, em Lisboa. (daqui)


Veloso Salgado, Retrato de Senhora, 1917.
 

Porque nasci no Porto
 
Nasci no Porto. 
 
A cidade, os seus arredores, as praias próximas, descendo para o sul, permanecem para mim a pátria dentro da pátria, a Terra materna, o lugar primordial que me funda. 

Ali estão as tílias enormes, as manhãs de nevoeiro, as praias saturadas de maresia, os rochedos cobertos de algas e anémonas, as primaveras botticellianas, os plátanos, a cerejeira, as camélias. 

Ali o rio, as casas em cascata, os barcos deslizando rente à rua nas tardes cor de frio do inverno. 

Ali o cais, a Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos. Uma beleza funda, grave, rude e rouca. Escadas, arcadas, ruelas abrindo para o labirinto do fundo do mar da cidade. E, aqui e além, um rosto emergindo do fundo do mar da vida. 

Porque ali é a cidade onde pela primeira vez encontrei os rostos de silêncio e de paciência cuja interrogação permanece. 

Porque ali é o lugar onde para mim começaram todos os maravilhamentos e todas as angústias. 

Cidade onde sonhei cidades distantes, cidade que habitei e percorri na ilimitada disponibilidade interior da adolescência. 

Descia pelo Campo Alegre, passava a Igreja de Lordelo, seguia entre muros de jardins fechados. 

Através das grades de ferro dos portões viam-se rododendros, buxos, cameleiras. 

Depois surgia um rio e ao longo do rio eu caminhava sobre os cais de pedra, até à barra, até aos rochedos onde se espraiam as ondas. 

Histórias de naufrágios, de barcos perdidos, de navios encalhados. Por isso nas noites de temporal se rezava pelos pescadores. Ouvia-se ao longe o tumulto do mar onde navegavam os pequenos barcos da Aguda tentando chegar à praia. Quando a trovoada estava próxima, a luz apagava-se. Então se acendiam velas e se rezava a Magnífica. […]
 
Porque nasci no Porto sei o nome das flores e das árvores e não escapo a um certo bairrismo. Mas escapei ao provincianismo da capital.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Eugénio de Andrade,
Daqui Houve Nome Portugal
, Antologia de verso e prosa sobre o Porto.
 

terça-feira, 7 de maio de 2024

"Ama-me por amor do amor somente" - Poema de Elizabeth Barrett Browning


Peder Severin Krøyer (Danish painter, 1851–1909), Marie in the garden, 1895. 
 
 
 
Soneto 14

 
Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh’alma em comunhão constantemente
Com a sua.” Porque pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.


Elizabeth Barrett Browning
'Sonnets from the Portuguese nº 14′, 1845 
Tradução de Manuel Bandeira
  
 
 
 

A Reabilitação do Amor


À indiferença oponhamos o amor, à dúvida oponhamos a fé.
O céu tem ainda o azul radiante dos dias da mocidade; a natureza é ainda a bela insensível, que assiste radiosa e iluminada às nossas lágrimas eternas, que o vento enxuga num momento!
Contemplemos de mais alto a evolução dos ideais e a transformação das coisas.
Se na terra somos efémeros de uma hora, nunca se quebra a cadeia que se vai forjando, dos ideais belos que concebemos ao passar.
Soframos, tal é o nosso destino e quase o nosso dever, mas amemos, que é o meio de tornarmos fecunda para os outros a dor que acima de nós mesmo nos levanta, a dor que é inspiração de todo o bom, de todo o belo, que em nós há.
O pessimismo leva à abdicação da vontade, à própria negação do sofrimento, pela completa insensibilidade a que aspira, e que de vez em quando já começa a atingir.
Não vale a pena! Eis a divisa da nossa desolada geração!
Pois é necessário que, em contradição e em protesto a este lema egoístico, se levante das nossas entranhas de mães, dos nossos corações de mulheres, um grito de amor intenso, um grito de amor fecundante e poderoso.
Porque um dos defeitos da nossa quadra é este: depois de termos dado ao amor um lugar enorme, predominante, decisivo e tirânico, tendemos a cercear-lhe todos os direitos, a destruir-lhe todas as influências boas.
O nosso século, que por meio de radiante romantismo fez do amor o Deus pagão que foi na Renascença, hoje, pela escola científica do temperamento e do meio, vai fazer do amor um poder inconsciente, que, segundo as circunstâncias em que é chamado a atuar, é um órgão de reprodução animal, ou um elemento de corrupção dissolvente.
Reabilitemos o amor.
Façamos dele alguma coisa de mais ou de menos do que o estão fazendo os mestres da literatura contemporânea, fotógrafos, neste ponto, dos costumes decadentes da época.
Ele não é a suprema e última embriaguez embrutecedora em que a humanidade tende a adormecer, como essa literatura de sensualismo agonizante, parece querer demonstrar-nos; pelo contrário, ele, é a fonte da eterna juventude em que, os velhos, da velhice precoce deste século, da velhice que se traduz pelo excesso do pensamento e da sensação, podem ainda retemperar as forças exaustas; é dele que podem ainda partir as grandes iniciativas transformadoras, as poderosas e viris energias, os sonhos iluminados da virtude e do bem.

Maria Amália Vaz de Carvalho (18471921), in "Cartas a Luísa", 1886


Veloso Salgado (Pintor português, 1864–1945),
Retrato de Maria Amália Vaz de Carvalho
 

Maria Amália Vaz de Carvalho, escritora e poetisa portuguesa, nasceu em 1847, em Lisboa, e faleceu em 1921. Descendente de famílias ilustres nas Letras e nas armas (descendente do poeta quinhentista Sá de Miranda), esposa do poeta parnasiano Gonçalves Crespo, é sobretudo conhecida pela sua faceta de educadora, tendo deixado uma vasta obra acerca da formação das crianças e das mulheres (Cartas a Uma Noiva, 1891), onde assume posições tradicionalistas.
O seu talento revelou-se através de crónicas, artigos políticos, folhetins de crítica e diversas traduções. Em 1867, fez a sua estreia literária com o poema romântico Uma Primavera de Mulher, prefaciado por Tomás Ribeiro e aplaudido por Castilho, Mendes Leal e Bulhão Pato, entre outros. Em 1876, publicou o seu primeiro livro, Vozes no Ermo, o qual foi elogiado por escritores como Guerra Junqueiro.
No seu salão literário, recebeu escritores como Camilo, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro e António Cândido. Iniciou a sua colaboração jornalística no Diário Popular, onde assinava com o pseudónimo Valentina de Lucena, mas colaborou também no Jornal do Comércio, Repórter, Artes e Letras, Diário de Notícias, Novidades, Ocidente e Comércio do Porto. Grande parte dessas crónicas, nomeadamente as consagradas à crítica literária, foram reunidas nos volumes Serões no Campo (1877), Arabescos (1880), Em Portugal e no Estrangeiro (1899) e Figuras de Ontem e de Hoje (1902). 
Em 1886, de parceria com o seu marido, Gonçalves Crespo, editou a antologia infantil Contos para os Nossos Filhos. Entre 1898 e 1903 publicou a biografia Vida do Duque de Palmela D. Pedro de Sousa e Holstein. Em 1912, ingressou na Academia das Ciências de Lisboa, a par com Carolina Michaëlis, tornando-se as duas primeiras mulheres portuguesas a receberem essa distinção. Apesar da feição subjetiva e impressionista, os seus textos de crítica literária espelham leituras de orientação moderna e europeia e revelam o conhecimento das doutrinas de Taine relativas à influência da raça e do meio sobre o indivíduo: "a obra do poeta só poderá ser compreendida plenamente por quem lhe houver estudado a vida; uma completa e explica a outra; subordina-se-lhe e recebe dela a consagração e a realidade" (in Arabescos).
Na sua vasta obra, destacam-se também Crónicas de Valentina (1890), A Arte de Viver na Sociedade (1897), As Nossas Filhas (1905) e No Meu Cantinho (1909). Foi condecorada com o oficialato da Ordem de Sant'Iago, tendo sido também eleita sócia da Academia das Ciências. (daqui)