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domingo, 7 de abril de 2024

"O Casulo" - Poema de Fernando Namora


Charles Spencelayh (English painter, 1865–1958), An Old Master. Watercolour.


O Casulo


No casulo:
uma mesa quatro cinco estantes
livros por centenas ou milhares
tijolos de papel onde as traças
acasalam e o caruncho espreita
sólidas muralhas de elvezires onde
a rua não penetra
uma máquina de escrever olivetti
com a tinta acumulada nas letras mais redondas
cachimbos barros estanhos medalhas fotos
bonecos marafonas lembranças
retratos alguns gente ida ou vinda
gorros usbeques gorros bailundos leques
japoneses arpões açorianos sinos de não sei donde
ou sei esperem sinos da troica em natais noturnos
marfins africanos óleos desenhos calendários
feitiços da Baía a mão a fazer figas
tudo do melhor contra raios coriscos mau olhado
retratos dizia Jorge o de Salvador Júlio o da Morgadinha
Berglin o cientista Kostas o dramaturgo
e outros e outros
Afonso Duarte o das ossadas pórtico
destas lamúrias o sorriso sibilino e rugoso
que matou no Nemésio o bicho harmonioso
mais de agora o Umberto Eco barbudo
a filtrar-me com medievismo os gestos tontos
e outros e outros
suecos brasileiros romenos gregos
e ainda aqueles em que a Zita foi escrevendo
a minha sina de andarilho
Tolstoi patrono obcecante um pastor a tocar
pífaro algures nos Balcãs sinais da Bulgária da Polónia
da Finlândia sinais de tantas partes onde
fui um outro de biografia aberrante
sinais da minha terra também
a minha de verdade e não as outras
a que chamam minhas por distraído palpite
o Lima de Freitas num candeeiro alumiando
a mulher verde-azul em casas assombrada
mestre Marques d’Oliveira num esquisso
de alto coturno a carta de Abel Salazar
que o sol foi comendo não se lendo já
o que a censura omitiu
aqui a China também representada
um ícone de Sófia as plácidas cabras
do Calasans o tinteiro de quando
se usavam plumas roubaram-se o missal do Cicogna
um almofariz para esferográficas furta-cores
a caixa de madeira floreada veio da Rússia
deu-ma a Tatiana sob promessa (cumprida)
de a pôr bem em frente das minhas divagações
anémonas nórdicas da Anne
miosótis búlgaros da Rumiana
o poster é alemão Friede den Kindern
nunca pedi a ninguém a decifração
dois horóscopos face a face
cangaceiros nordestinos
o menino ajoelhado do Tó Zé
num gesso já sem braços nem rosto
objetos objetos o pote tem as armas de não lembro quem
embora o nome que venha por de cima
seja o meu e eu também no óleo carrancudo
do Zé Lima há um ror de anos
melhor não saber quantos
o molde para o bronze é um perfil onde
desenganadamente me reconheço
tanta bugiganga tanto bazar tanto papel
branco ou impresso uma faca para
apunhalar alguém a cassete de poesias na voz
da Maria Vitorino as esculturas astecas
do Miguel medalhas medalhas outra vez lembranças
agendas sem préstimo canetas gastas mais papéis
letras miúdas ou letras farfalhudas
depende da ocasião
um livro de filigrana
as paredes mal se vêem estantes copiosas já disse
quadros em demasia e ainda
as rendas de minha mãe em molduras destoadas
ela no retrato de cenho descontente
fitando-me até ao miolo dos desvairos
o bordão de régulo justiceiro
obliquando no trono de catos
amuletos africanos o mata-borrão que foi
de um pide deu-mo o fuzileiro no pós-Abril
uma bela cabeça de mulher do João Fragoso
jarras de sacristia candeias de cobre
sem pavio um samovar de madeira um samurai de veludo
os painéis de São Vicente em miniatura
a áurea trombeta do troféu lusíada
de parceria com o Manuel Cargaleiro
áureos pesados troféus o marasmo branco
de Pavia na tela sem idade
livros livros os correios não param
de mos trazer para maior sufocação
cartas a granel por responder relógio não há mas ouço-o
sem falhar um segundo há cordas cordões medalhas medalhões
armas lauréis proibições
perfumes em minaretes levantinos.

Esquecia-me de uma coisa porém
na gaveta um passaporte para a vida
com data há muito ultrapassada. Caducou.

Porque será que nunca o revalidei?


Fernando Namora
, in 'Nome Para Uma Casa', 1984.
 

Charles Spencelayh, The bibliophile. Oil on canvas.
 

"Quando leio um livro tenho a impressão de lê-lo somente com os olhos, mas de vez em quando deparo com um trecho, talvez apenas uma frase, que tem um significado para mim, e ele torna-se parte de mim; tirei do livro tudo o que me é de alguma utilidade, e não posso extrair mais, ainda que o releia uma dúzia de vezes.
Veja, parece-me que cada um de nós se assemelha a um botão de flor fechado, e a maior parte do que lê e faz não faz efeito nenhum; mas há certas coisas que têm uma significação particular para a gente, e elas abrem uma pétala; e as pétalas abrem uma por uma, e no final a flor está aí."

W. Somerset Maugham, in 'Servidão Humana', 1915.


'Servidão Humana' de Somerset Maugham.
Edições Asa,  2009 (1ª ed.),
Trad. de Ana Maria Chaves.

 
SINOPSE
 
Servidão Humana é um dos romances mais emblemáticos do século XX e a obra-prima de Somerset Maugham. Esta narrativa clássica de entrada na idade adulta conta a história de Philip Carey, alter ego do autor na sua juventude, dividido entre o fervor religioso da família e o desejo de liberdade que os livros e os estudos lhe dão a conhecer. Na sua ânsia por independência e aventura, Philip sai de casa em busca de uma carreira como artista em Paris. Mas os seus planos vão ser postos em causa quando se apaixona perdidamente pela mulher que mudará a sua vida para sempre.
Relato inigualável sobre o poder do desejo e da sede de liberdade do homem moderno, Servidão Humana coloca-nos friamente perante a nossa própria visão da vida, as nossas dúvidas e o poder transformador das decisões.  (daqui)


Charles Spencelayh (English painter, 1865–1958), The Artist's Studio, 1953. Oil on canvas.
 

"Enquanto eu durmo, este povo silencioso de estátuas e pinturas, esta humanidade remanescente, paralela, continua de olhos abertos a velar pelo mundo a que, dormindo, renunciei. Para que o possa encontrar novamente ao descer à rua, mais velho eu e precário, porque mais duram afinal as obras da pedra e da cor do que esta fragilidade de carne."
 

domingo, 4 de abril de 2021

"Se" - Poema de Alice Ruiz


August Macke (1887–1914), Ballet russo, 1912, Kunsthalle, Bremen 


Se


se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...
 in "Navalhanaliga", 1980


August Macke, The artist's wife in blue hat, 1909 
 
 
 procurando a lua
encontro o sol
mas já de partida  
 
 (Haicai / Haiku)
 
 
Alice Ruiz
 
Poeta e haikaista, Alice Ruiz nasceu em Curitiba, PR, em 22 de janeiro de 1946. Começou a escrever contos com 9 anos de idade, e versos aos 16. Aos 26 anos publicou pela primeira vez seus poemas em revistas e jornais culturais. Lançou seu primeiro livro aos 34 anos. Alice publicou, até agora, 21 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil
Compõe letras desde os 26 anos - tem diversas canções gravadas por parceiros e intérpretes. Lançou, em 2005, seu primeiro CD, o Paralelas, em parceria com Alzira Espíndola, pela Duncan Discos, com as participações especialíssimas de Zélia Duncan e Arnaldo Antunes.
Antes da publicação de seu primeiro livro, Navalhanaliga, em dezembro de 1980, já havia escrito textos feministas, no início dos anos 1970 e editado algumas revistas, além de textos publicitários e roteiros de histórias em quadrinhos. Alguns de seus primeiros poemas foram publicados somente em 1984, quando lançou Pelos Pêlos pela Brasiliense. Já ganhou vários prémios, incluindo o Jabuti de Poesia, de 1989, pelo livro Vice Versos e o Jabuti de Poesia, de 2009, pelo livro Dois em Um.
Já participou do projeto Arte Postal, pela Arte Pau Brasil; da Exposição Transcriar - Poemas em Vídeo Texto, no III Encontro de Semiótica, em 1985, SP; do Poesia em Out-Door, Arte na Rua II, SP, em 1984; Poesia em Out-Door, 100 anos da Av. Paulista, em 1991; da XVII Bienal, arte em Vídeo Texto e também integrou o júri de 8 encontros nacionais de haikai, em São Paulo.
Tem poemas traduzidos e publicados em antologias nos Estados Unidos, Bélgica, México, Argentina, Espanha e Irlanda, tendo sido também convidada como palestrante na Bienal de Lenguas da América no México e na Europalia Brasil em Bruxelas.
As aulas de haikai são uma experiência única para quem já fez - Alice convence a gente que no fundo de cada um existe um poeta louco para despertar, e descobrimos surpresos que sim, é possível!
 
Carô Murgel, Historiadora (Daqui)
 
 
 August Macke, Tightrope walker, 1913 
 
 
August Macke, Tightrope walker, 1914
  Kunstmuseum Bonn 


"Só o amor e a arte tornam a existência tolerável."

William Somerset Maugham, A Servidão Humana
 
 
W. Somerset Maugham photographed
 by Carl Van Vechten in 1934
 
Escritor e dramaturgo inglês, de nome completo William Somerset Maugham, nasceu em 1874, em Paris, na França, filho de pais ingleses, e faleceu em 1965, em Inglaterra.
O pai trabalhava na embaixada inglesa em Paris e até aos dez anos William Somerset Maugham viveu em França, tendo o francês como primeira língua. Aos dez anos ficou órfão e foi enviado para Inglaterra para viver com um tio.

Estudou Medicina em Londres e tornou-se médico aos 23 anos, embora tenha abandonado esta atividade quando começou a fazer sucesso como escritor.
No mesmo ano em que se licenciou, lançou também o seu primeiro romance, Liza of Lambeth, sobre mulheres grávidas. A Man of Honour, em 1903, foi a sua primeira peça de teatro a chegar aos palcos.
Em 1907, obteve o primeiro sucesso como autor de peças de teatro com Lady Frederick e, logo no ano seguinte, quatro das suas peças estiveram em cena simultaneamente na zona do West End, em Londres. Nessa década e na seguinte escreveu mais algumas peças, algumas delas comédias, que se tornaram bastante populares, permitindo ao autor viver da escrita.

Em 1915, editou o romance Of Human Bondage, um dos poucos que ao longo da sua carreira conseguiu convencer os críticos, tal como viria a acontecer, em 1944, com The Razor's Edge (O Fio da Navalha).
Somerset Maugham lançou, em 1919, o romance The Moon and Sixpence, onde conta a história do pintor Paul Gauguin, que fez bastante sucesso junto do público, embora não tivesse convencido a crítica literária da época. O mesmo se passou em 1930 com Cakes and Ale. Entretanto, em 1921, havia lançado o livro de contos Treambling of a Leaf, onde constava Rain, que viria a ser uma das suas histórias mais apreciadas. Aliás, William Somerset Maugham viria a destacar-se também como contista.

Na autobiografia que lançou em 1938, The Summing Up, referiu que a crítica o via sempre como um escritor de segundo plano. Mais tarde, referiu que só pretendia contar histórias de uma forma simples e acessível e lamentou que isso não fosse considerado positivo pelos meios intelectuais.

Somerset Maugham trabalhou também como espião para os serviços secretos britânicos quando, em 1917, disfarçado de jornalista, acompanhou a Revolução Russa. Contudo, devido à sua saúde débil, depressa regressou a Inglaterra. Desta experiência resultou o romance de espionagem Ashenden; Or The British Agent.
(Daqui)

 
 August Macke, Vegetable fields, 1911, Kunstmuseum Bonn  


"A Arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade."
 
 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

"Pequenina" - Poema de Florbela Espanca


Vincenzo Irolli (Italian painter, 1860 - 1949), L'angelo musicante, 1900-1905 
 


Pequenina


És pequenina e ris... A boca breve 
É um pequeno idílio cor-de-rosa... 
Haste de lírio frágil e mimosa! 
Cofre de beijos feito sonho e neve! 

Doce quimera que a nossa alma deve 
Ao Céu que assim te faz tão graciosa! 
Que nesta vida amarga e tormentosa 
Te fez nascer como um perfume leve! 

O ver o teu olhar faz bem à gente... 
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores 
Quando o teu nome diz, suavemente... 

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou, 
Que ela afaste de ti aquelas dores 
Que fizeram de mim isto que sou!  
 
 
Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"


Vincenzo Irolli, On the Terrace
 

"A desgraça deste mundo reside no facto de ser muito mais fácil abandonar os bons hábitos do que os maus."