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domingo, 28 de abril de 2024

"De tanto reentrar no mesmo vazio" - Poema de Tiago Nené


Gustave Courbet (French painter, 1819–1877), Portrait of Charles Baudelaire
(French poet, essayist, art critic and translator, 1821–1867), c. 1848.



De tanto reentrar no mesmo vazio

 
De tanto reentrar no mesmo vazio
e conhecer o vento glacial que me absorve,
mantenho aceso o fogo que a consciência envelhece,
um consolo cruzado entre um fumo de dúvidas.
E esta travessia de séculos prevê uma imagem
quando a inutilidade da noite a alastra
às estrelas sobre o poema não escrito, onde um rosto
assinala em branco o regresso ao mundo.
Talvez me nomeie hoje um momento de euforia
por cada insinuação aos olhos da luz,
e quem sabe se esta superfície grossa
não carrega a ferida noturna que me afasta
de tudo o que é fácil e perecível.


Tiago Nené, in 'Este Obscuro Objecto do Desejo'


"Este Obscuro Objecto do Desejo" de Tiago Nené
Editora Guerra & Paz: 2017
 
 
RESUMO
 
 
O livro de Tiago Nené, 'Este Obscuro Objecto do Desejo', marca o fulgor de uma linguagem poética inovadora, em que pontua uma apurada sensibilidade interior, onde a plasticidade emotiva configura a relação da imagem com o desenho múltiplo da palavra plena.
Com esta obra, o autor é o vencedor da 12.ª edição do Prémio Literário Maria Amália de Carvalho (2017) – modalidade de poesia.
Em 2013, Tiago Nené recebeu uma menção honrosa no Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, com o livro ainda inédito 'Nuvem com Superfície Variável'.
Participa em encontros de escritores, como o Palavra Ibérica (Punta Umbría) e o Correntes d’Escritas (Póvoa de Varzim), e escreve em revistas e jornais: Minguante, Big Ode, Inútil, Piolho, Sulscrito, Mundo Universitário, entre outros. Fundou a associação cultural Linguagem de Cálculo, com Fernando Esteves Pinto, e o grupo literário Texto-al, com Luís Ene e Carlos Campaniço.
Tiago Nené nasceu em Tavira, a 29 de Março de 1982. Apaixonado pela literatura, em particular poesia, escreve e traduz. Licenciado em Direito pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa, é advogado em Faro, onde reside atualmente. (daqui)
 

domingo, 13 de novembro de 2022

"Elegia dos Amantes Lúcidos" - Poema de Natália Correia



 Lyon, Musée des Beaux-Arts


Elegia dos Amantes Lúcidos 
 
 
Na girândola das árvores (e não há quem as detenha)
Deixa de fora a tarde o vermelho que a tinge.
Se ao menos tu ficasses na pausa que desenha
O contorno lunar da noite que te finge!

Se ao menos eu gelasse uma corda do vento
para encontrar a forma exata dum violino
Que fosse a sensibilidade deste pensamento
Com que a minha sombra vai pensando o meu destino

E não houvesse o sono dum telhado
Entre ter de haver eu e haver o teto;
E a eternidade não estivesse ao lado
A colocar-nos nas costas as asas dum inseto

Meu amor, meu amor, teu gesto nasce
Para partir de ti e ser ao longe
A cor duma cidade que nos pasce
Como a ausência de deus pastando um monge

Ah, se uma súbita mão na hora a pique
Tangendo harpas geladas por segredos
Desprendesse uma aragem de repiques
Destes sinos parados pelo medo!

Mas só porque vieste fez-se tarde,
Ou é a vida que nasce já tardia
Como uma estrela que se acende e arde
Porque não cabe na rapidez do dia?

Nem homem nem mulher. Só a moeda antiga:
Uma inflação de deuses que não pode parar
Como um pássaro cego à nora da intriga
Que é a morte no centro connosco a circular.

Será o mesmo tempo que nos cabe?
Talvez sejas a raça prematura
Duma gota de orvalho que se há de
Negar à minha sede desértica e futura.

Como o brilho dum sol partido ao meio
Damos luz pela nostalgia da metade.
Partes para ser gaivota no meu seio.
Mas não trazes no bico uma cidade.

Aqui pousou um pássaro de lume
Que deixou um voo subterrâneo
Na repetida vibração do gume
Que cada hora traz à lâmina do crânio.

Teus dedos num relógio como a picada duma abelha
A fabricar o mel da estação perdida!
Que quanto a primavera um rouxinol na telha
É toda a melodia que traz na unha a vida.

O navio tem dois extremos ermos:
Os cabelos para Vénus e os pés para Marte.
Mas a viagem é o mar com a terra a ver-nos.
E com lenços à vista ninguém parte.

Ah, se ao menos eu pudesse agora erguer-me
Como uma pedra pelas minhas mãos futuras
E ficasse para sempre a aquecer-me
Ao sol que cega efémeras criaturas!

Se soltasses as aves da rotina
E de um jorro de deuses abrisses a comporta
E reclinada em tua espádua genuína
Eu entrasse num céu sem ter que achar a porta!

Se tu viesses cavaleiro branco
Orvalhado pela manhã do meu instinto.
E ficasses a chamar-me como um canto
No porvir do nosso último recinto!

Se ficássemos espuma de Maio cor-de-rosa
Nas praias donde Maio se retira,
Enrolados nos panos duma paisagem silenciosa
Que fosse a pura sonoridade da ausência duma lira!

Ah, as sementes que te exigem em declive
Entre abismos onde nunca te despenhas
E esfumados voos em que te embebes e revives
O que de ti já pousou no cume das montanhas!

Inútil decifrarmos este oráculo de ave absorta
Na incontinência do voo que a abrasa.
Se houver um palácio sem porta, talvez seja a porta.
Se houver uma casa sem teto, talvez seja a casa. 


Natália Correia
(1923-1993), in "Passaporte".
Lisboa, Editora Gráfica Portuguesa, 1958
 
["Passaporte" é um dos primeiros e mais raros livros de poesia de Natália Correia, ligado à «tendência surrealista da poesia portuguesa», como assinala Maria Helena Ribeiro da Cunha (professora, crítica literária e pesquisadora de vasta erudição em relação aos estudos da Literatura Portuguesa, 1930-2020)  na rubrica que lhe dedicou na «Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa». 
"Passaporte" contém os poemas: Passaporte, Boletim Meteorológico, Discurso Directo, Biografia Encomendada pela Insónia, Êxodo, O Poema, Metamorfoses necessárias para a Reconquista do Mundo, A Demiurgia do Riso, Ricochete, Homenagem a Titus Lucretius Carus, Poema destinado a haver Domingo, Nictofagia, Projecto de Bodas, Elegia dos Amantes Lúcidos, Ultrabiográfico, Mar Uterino, Pranto.]
 


 "Passaporte" - Poemas de Natália Correia,
Editora Gráfica Portuguesa, 1958, 1ª ed.
 

«Romântica foi-o também decerto Natália Correia, mesmo pelo meio do onirismo surrealista ou da sua acalorada defesa dos direitos da mulher, na sua fascinação pelo andrógino, na expressão do eros total, no culto da mãe, na religação às suas ilhas de bruma e misticismo, até em muitas das suas veementes tomadas de posição no Parlamento ou em praça pública, no pequeno ecrã da televisão.
O relevo, quase excessivo, da mulher política obscureceu por vezes, o talento real e a sensibilidade da escritora. É bom que lhe façamos justiça e olhemos fundo para a sua obra, rio luminoso, por vezes em chamas, que traz consigo muito do que Natália viveu, leu, sonhou, quis construir e deixou incompleto, como quase todos os artistas da paixão.
O lado narcísico da sua personalidade, que convive com toda essa força e generosidade, também lá está, debruçado sobre o espelho da palavra.» 
 
Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), Breve perfil de Natália em sua obra
 

domingo, 23 de outubro de 2022

"É inútil querer parar o Homem" - Poema de Moacyr Félix

 
Gustave Courbet (French painter, 1819-1877), The Stone Breakers, 1849. 
(Les Casseurs de pierres - Reproduction colorisée du tableau détruit.)
The painting was destroyed during World War II.
 


É inútil querer parar o Homem
 
 
 É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
É inútil querer parar o Homem
a colher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos aéreos da semântica
sob uma indeferida eternidade.
É inútil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na pátria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)

É inútil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.
Isto as crianças nos lembram
quando rodam em nossas portas
os ossos do dia que foi nosso
e agora são os eixos do pedalar
nas bicicletas com que os deuses
as vão levando para outros dias
do acaso, do desejo e do fazer
em que não seremos mais, eternamente.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho a dar longas voltas
ou a inventar estradas no cárcere,
o seu sonho mais essencial
a destruir e a enferrujar
metais de qualquer ditadura.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho, o mais de flor,
de apagar dos lábios da terra
o ricto do medo que estica
no céu de aço a bomba atómica;
o seu sonho, que é o seu movimento
onde a razão dança mais bela,
de ver no armário dos museus
o manual oco e sem asas
que aprisiona o corpo e o sexo
em desrazões dadas na infância
e os livros de Deve & Haver
dos poderosos de Manhattan
comerciando Deus e o mundo.

É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho de enterrar
sob o verde passo de uma história livre
os dogmas do stalinismo
grudado como esparadrapo
sobra a boca múltipla da vida
(e a subdesenvolvida farda
dos tiranos que bebem uísque
pago com o sangue de sua pátria).
É inútil querer parar o Homem:
em tudo que de amor cantar
o seu sonho caminhará
a encaminhá-lo na direção dele próprio
inteirado quando historicamente liberto
do económico em que ora o algemam.
É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas de carne.
A andar em formas de palavras
sob os arvoredos da vida
o sonho do Homem caminhará
do pensamento para as mãos
e das mãos para o pensamento,
noite e dia caminhará.
até tornar as mãos em pássaros
livres, inteiramente livres, para amar
o azul ou as várias almas do céu
dentro do Homem que se movimenta
na liberdade, no amor e no desejo
em que a si próprio inventa.  
 
 
in 'Canto para as Transformações do Homem', 1964
 
 

domingo, 9 de junho de 2013

"Conversa Sentimental" - Poema de Paul Verlaine



Ludwig Knaus
(German painter, 1829–1910), "Peaceful Life's End", 1878.



Conversa Sentimental


No velho parque deserto e gelado
Duas formas passaram há bocado.

Com os olhos mortos e os lábios moles,
Mal se ouvem, a custo, as suas vozes.

No velho parque deserto e gelado
Dois espectros evocaram o passado.

— Recordas-te do nosso êxtase antigo?
— Por que razão acha que ainda consigo?

— Bate, ao ouvires meu nome, o coração?
Vês ainda a minha alma em sonhos? — Não.

— Ah! bons tempos de prazer indizível
Unindo as nossas bocas! — É possível.

— Como era azul, o céu, e grande a esperança!
— Mas é para o negro céu que hoje se lança.

Lá caminhavam pelas aveias loucas
E só a noite ouviu as suas bocas. 


Paul Verlaine, in "Festas Galantes"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral



Paul Verlaine

Retrato do jovem Paul Verlaine.
Pintura de Gustave Courbet (1819–1877)
 

Paul Verlaine foi um poeta francês nascido em 1844, em Metz, e falecido a 8 de janeiro de 1896, em Paris.
Verlaine viveu até aos sete anos em Metz, cidade francesa onde o pai, capitão de Infantaria, estava colocado, mas depois mudou-se com a família para Paris. Estudou Direito, mas desistiu ao fim de dois anos, optando por prosseguir a formação no serviço civil, onde se graduou com 18 anos.
Fez amizade com vários poetas parnasianos e passava os seus dias em longas conversas enquanto bebia absinto. O pai, desgostoso com este estilo de vida, deixou de lhe dar dinheiro.
Verlaine já se dedicava à poesia e, em 1866, publicou o seu primeiro livro, les Poèmes Saturniens, que revela ainda a influência do Parnasianismo e de Baudelaire, seguido de Fêtes Galantes, três anos mais tarde.
Casou em 1870, mas, um ano mais tarde, apaixonou-se pelo poeta Arthur Rimbaud, na altura com 17 anos. Entretanto já havia escrito, para a sua mulher, La Bonne Chanson, onde revelou a sua esperança pela felicidade. Contudo, tinha um mau temperamento e chegou a bater violentamente na mulher e no filho.
O casamento durou pouco e Verlaine e Rimbaud optaram por levar uma vida boémia entre Londres, em Inglaterra, e Bruxelas, na Bélgica. No entanto, a 12 de julho de 1873, após uma discussão, tentou dar um tiro a Rimbaud e acabou por ser preso durante 18 meses. Na prisão, estudou Shakespeare e a obra Dom Quixote, de Cervantes, e escreveu Romances Sans Paroles, considerado pelos críticos uma das suas obras-primas. Escreveu também o poema Ars poétique (1874) - que só foi publicado dez anos mais tarde em Jadis et naguère, tendo sido posteriormente considerado como o manifesto do Simbolismo - em que amadurece a sua conceção de poesia, encarada essencialmente como "música", subjetividade, espontaneidade, sugestão.


Retrato  de Paul Verlaine, por Eugène Carrière 

Verlaine entretanto converteu-se ao Catolicismo e foi viver para Inglaterra, onde deu lições de Francês. Regressou ao seu país, em 1877, para dar aulas num colégio. Nesta altura, publicou Sagesse, onde a sua poesia estava repleta de sentimentos religiosos.
Em 1879, deixou o ensino e foi com um pupilo viver para o campo, para tentar dirigir uma quinta. No entanto, rapidamente foi à falência e regressou a Paris.


Verlaine bebendo absinto no Café François 1er em 1892, 
fotografado por Paul Marsan Dornac


Com a morte do seu pupilo favorito, em 1883, e a perda da mãe, três anos mais tarde, Verlaine acabou por voltar a beber. Na altura, já era considerado o melhor poeta francês da época e tinha publicado uma obra controversa intitulada Les Poètes Maudits, composta por biografias de poetas, contos e versos sagrados e profanos.
Entrou numa fase de grande decadência, dormindo em bairros de lata e passando largos períodos hospitalizado. Juntamente com os poetas Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire, formou o grupo dos chamados "Decadentes", conhecido pela sua atração pelo mórbido, perverso e bizarro e pela liberdade moral.


Retrato de Paul Verlaine, por Edouard Chantalat (1866-1898)
(Posthumous, from a photograph.)

Paul Verlaine gastou o dinheiro que lhe restava com duas prostitutas com quem vivia alternadamente e com um ladrão com quem mantinha uma relação homossexual.
Mesmo assim, em 1894, foi considerado "O Príncipe dos Poetas franceses" após a sua obra ter sido redescoberta pelos seus contemporâneos.


Paul Verlaine, 1892 by Edmond Aman-Jean 
[Edmond Aman-Jean, January 13, 1858 – January 23, 1936, was a French symbolist painter.]


Paul Verlaine foi um dos líderes do Simbolismo, movimento que busca a espiritualidade e transcendência metafísica.
Morreu na miséria a 8 de janeiro de 1896, mas o seu funeral foi acompanhado por milhares de pessoas.

Paul Verlaine. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-06-08].


Quadro de Henri Fantin-Latour (Verlaine e Rimbaud, os dois à esquerda)


Vários artistas pintaram seu retrato. Entre os mais ilustres estão Henri Fantin-Latour, Antonio de la Gandara, Eugène Carrière, Frédéric Cazalis, e Théophile-Alexandre Steinlen
O tempo em que Rimbaud e Verlaine passaram juntos foi o tema do filme Total Eclipse (1995), dirigido por Agnieszka Holland e com roteiro de Christopher Hampton, baseado em sua peça. Verlaine foi interpretado por David Thewlis.


domingo, 30 de dezembro de 2012

"Canção de embalar" - Poema de José Afonso


Gustave CourbetPortrait of Juliette Courbet as a Sleeping Child, 1841.
Musée d'Orsay, Paris, France
 

Canção de embalar 


Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti. 

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar. 

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor. 

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer. 


(Zeca Afonso)


Zeca Afonso - Canção de embalar



Galeria de Gustave Courbet

Gustave Courbet (Ornans, 10 de junho de 1819 — La Tour-de-Peilz, 31 de dezembro de 1877) foi um pintor francês. Foi acima de tudo um pintor da vida camponesa de sua região. Ergueu a bandeira do realismo contra a pintura literária ou de imaginação.


Gustave Courbet, Self-portrait with black dog, 1842
 

Gustave Courbet, Portrait of the Artist’s Father
 

Gustave Courbet, Proudhon and his children, 1865
 

Gustave Courbet, The Grain Sifters
 

Gustave Courbet, A Young Woman Reading
 

Gustave Courbet, The Hammock, 1844
 

Gustave Courbet, The Trellis, 1862
 

Gustave Courbet, Stream in the Jura Mountains (The Torrent), 1872-3
 

Gustave Courbet, Les Gorges du Saillon, 1875
 

terça-feira, 10 de julho de 2012

"Ao Cair das Folhas" - Poema de António Nobre


Gustave Courbet (French, 1819-1877), Hunter on Horseback, 1864 



Ao Cair das Folhas 
                                                                          
                                                                                 À minha irmã Maria da Glória 
 
Pudessem suas mãos cobrir meu rosto,
fechar-me os olhos e compor-me o leito,
quando, sequinho, as mãos em cruz no peito,
eu me for viajar para o Sol-posto.

De modo que me faça bom encosto
o travesseiro comporá com jeito.
E eu tão feliz! – Por não estar afeito,
hei-de sorrir, Senhor, quase com gosto.

Até com gosto, sim! Que faz quem vive
órfão de mimos, viúvo de esperanças,
solteiro de venturas, que não tive?

Assim, irei dormir com as crianças
quase como elas, quase sem pecados…
E acabarão enfim os meus cuidados.

Clavadel, outubro, 1895.

António Nobre
, in Despedidas (1895 - 1899), Porto, 1902 
 
 
Obras de Gustave Courbet
 
Gustave Courbet, Self-Portrait with Striped Collar
 

Gustave Courbet, The Desperate Man


Gustave Courbet, The Wounded Man


Gustave CourbetThe Source


Gustave Courbet, Woman with a Parrot


Gustave CourbetPortrait of Jo the Beautiful Irish Woman


Gustave Courbet, Seated woman in the terrace


Gustave Courbet, The hunt


Gustave Courbet, Sitting on cushions dog


Gustave Courbet, The Valley of the Loue


Gustave Courbet, Young Girl Arranging Flowers


Gustave Courbet, Hollyhocks in a Copper Bowl


"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."  - Nelson Rodrigues 


Nelson Falcão Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 — Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980) foi um importante dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro, tido como o mais influente dramaturgo do Brasil. 
Nascido no Recife, Pernambuco, mudou-se em 1916 para a cidade do Rio de Janeiro. Quando maior, trabalhou no jornal A Manhã, de propriedade de seu pai. Foi repórter policial durante longos anos, de onde acumulou uma vasta experiência para escrever suas peças a respeito da sociedade. 
Sua primeira peça foi A Mulher sem Pecado, que lhe deu os primeiros sinais de prestígio dentro do cenário teatral. 
O sucesso mesmo veio com Vestido de Noiva, que trazia, em matéria de teatro, uma renovação nunca vista nos palcos brasileiros. 
A consagração se seguiria com vários outros sucessos, transformando-o no grande representante da literatura teatral do seu tempo, apesar de suas peças serem tachadas muitas vezes como obscenas e imorais. 
Em 1962, começou a escrever crónicas desportivas, deixando transparecer toda a sua paixão por futebol. Veio a falecer em 1980, no Rio de Janeiro. 

"Perdão se pelos meus olhos" - Poema de Pablo Neruda



Gustave Courbet, Seacoast, 1865


Perdão se pelos meus olhos



Perdão se pelos meus olhos não chegou
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:

- monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, a espuma, o delírio da maré

- assim é minha solidão -
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido.


Pablo Neruda


Vida e obra de Gustave Courbet 
Gustave Courbet retratado por Nadar
 
 
Gustave Courbet (Ornans, 10 de Junho de 1819 — La Tour-de-Peilz, 31 de Dezembro de 1877) foi um pintor anarquista francês pertencente à escola realista. 
Foi acima de tudo um pintor de paisagens campestres e marítimas onde o romantismo e idealização da altura são substituídos por uma representação da realidade fruto de observação direta. Esta busca da verdade é transposta para a tela em pinceladas espontâneas que não deixam de lado os aspetos menos estéticos do que é observado.
Courbet nasceu numa família de milionários na França. Depois de frequentar um colégio na mesma cidade, começou a ter aulas de pintura e iniciou seus estudos de direito em Paris. 
Finalmente decidiu estudar desenho e pintura por iniciativa própria, copiando os grandes mestres no Louvre, principalmente Hals e Velázquez. Suas primeiras obras foram uma série de auto-retratos. 
Em 1844 expôs pela primeira vez no Salão de Paris e dois anos mais tarde apresentou os quadros Enterro em Ornans e O Ateliê do Artista, que lhe custaram críticas severas e a recusa do Salão de Paris devido aos seus temas demasiadamente prosaicos. Courbet não se deu por vencido e construiu um pavilhão perto do Salão, onde expôs quarenta e quatro de suas obras, que chamou de realista, fundando assim esse movimento.
O público não viu com satisfação essa nova estética das classes trabalhadoras. Courbet, enquanto isso, reunia-se para compartilhar opiniões com seus amigos, entre eles o pintor e notável teórico anarquista Proudhon, o escritor Baudelaire e o irónico caricaturista Daumier.
Já se discutiu muito sobre os motivos que teriam levado Courbet a escolher os trabalhadores como tema. De facto, os homens de seus quadros não expressam nenhuma emoção e mais parecem parte de uma paisagem do que seus personagens. Courbet  manteve-se, nesta etapa realista, muito longe do colorismo romântico, aproximando-se, em compensação, do realismo tenebroso espanhol do barroco, com uma profusão de pretos, ocres e marrons, banhados por uma pátina cinza. Comprova-se isto no seu quadro mais importante, O Ateliê do Artista (1855), em que manifestou sua desaprovação em relação à sociedade.
Por volta de 1850, o realismo de Courbet foi se apagando e deu lugar a uma pintura de formas voluptuosas e conteúdo erótico, de figuras femininas no estilo de Ingres, mas mais descarnadas. A elas seguiu-se uma série de naturezas-mortas, quadros de caça e paisagens marinhas que confirmaram sua capacidade criativa e técnica impecável. 
Por volta de 1870, Courbet foi acusado de ter destruído uma coluna da praça Vendôme, o que levou o pintor a  mudar-se para Viena. Em Paris, suas obras foram rejeitadas, e o ateliê do artista foi leiloado para pagar a restauração da coluna.
 

 
Gustave Courbet, Self-Portrait, Le Désespéré (1843-1845)
 
 
 
Gustave Courbet, Self-Portrait
 

Marine "Les Equilleurs"
 
 
Marine  "Saint Aubin"
 
 
"The Stormy Sea"
 

"After the Storm"
 

"Seascape"
 
 
"Bonjour Monsieur Courbet"
 
 
"The Painter's Studio; A Real Allegory"
 
 
"A Burial at Ornans" 
 
 
"A Thicket of Deer at the Stream of Plaisir-Fontaine"
 
 
"Count de Choiseul's Greyhounds"
 
 
"Château of Chillon"