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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

"Veneza" - Poema de Aleksandr Blok



Ivar Kamke
(Pintor sueco, 1882-1936), Lavadeiras no canal - Veneza, 1920.
 

Veneza


O barulho da vida já não dura.
A maré de inquietudes se quebranta.
E no veludo negro o vento canta
Minha vida futura.

Talvez despertarei noutro lugar,
Quem sabe nesta terra entristecida,
E algumas vezes hei de suspirar
Pensando em sonho nesta vida?

Mercador, padre, arrais, neto de um doge,
Quem me fará viver? Que criatura
Há de forjar com minha mãe futura
Na noite escura a vida que me foge?

Quem sabe até, ao escutar o canto
Da jovem veneziana, comovido,
O meu futuro pai por entre o encanto
Da canção já me tenha pressentido?

Quem sabe em algum século vindouro
A mim, criança, a sorte me consente
Abrir as pálpebras, tremulamente,
Junto à coluna do leão de ouro?

Mãe, o que canta este áfono instrumento?
Talvez a fantasia já te embale
E me protejas com teu santo xale
Da laguna e do vento?

Não! O que é, o que foi – tudo está vivo!
Fantasias, visões, ideias – tudo!
A onda do oceano recidivo
As despeja na noite de veludo!


Aleksandr Blok
Tradução de Augusto de Campos, in Poesia da recusa,
Perspectiva, São Paulo, 2006.
 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

"O Rio" e "Velha Chácara" - Poemas de Manuel Bandeira

Ivar Kamke, Franskt landskap, 1910


O rio


 
Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.
 
Petrópolis, 1948
 
  'Belo Belo'
 
'Belo Belo' é o sétimo livro de poesia de Manuel Bandeira, publicado pela primeira vez em 1948. Com 32 poemas, em cada um deles “encontramos uma amostra valiosa da obra de um poeta erudito, de senso crítico e estético apurados. Manuel Bandeira foi seguramente o principal poeta que construiu e orientou, ao lado de Mário de Andrade, os novos rumos da nossa arte lírica, num trabalho permanente de pesquisa e renovação da poesia brasileira do século XX”, descreve Aleilton Fonseca, professor titular da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA) na apresentação. 
 
Ao longo da leitura dos poemas que integram essa obra, é permanente a sensação de estarmos diante de preciosidades do repertório de um dos maiores artistas brasileiros da palavra. Conhecido como o responsável por inspirar os modernistas, Bandeira traz o convívio com amigos em poemas como “A Mário de Andrade ausente”, “Esparsa triste” (em alusão a Jaime Ovalle), “Resposta a Vinicius” e “Improviso”, este em homenagem a Cecília Meireles. Sua proximidade com a morte, graças à tuberculose que o ameaçou desde a juventude, nesse Belo Belo reaparece no poema “O homem e a morte”, assim como outra realidade se desenha em “O bicho” e uma nova perspectiva de encarar o amor em “Arte de amar”.(Daqui)
 
 

Ivar Kamke, Motiv från Dachau, 1910
 

Velha chácara

 
A casa era por aqui...
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida… nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa... 

– Mas o menino ainda existe. 
 
 
  In 'Lira dos cinquent’anos', 1940
 
 

Ivar Kamke (Swedish, 1882-1936)

 
Manhã de primavera
para todas as flores
dia de estreia 
 
no livro “Jardim de Haijin”
(Haicai / Haikai)
 
 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

"Os estivadores" - Poema de Ruy Belo



Ivar Kamke (Swedish, 1882-1936), "Dockworkers on a North Sea Wharf", c. 1909, oil on canvas
 


Os estivadores


Só eles suam mas só eles sabem
o preço de estar vivo sobre a terra
Só nessas mãos enormes é que cabem
as coisas mais reais que a vida encerra

Outros rirão e outros sonharão
podem outros roubar-lhes a alegria
mas a um deles é que chamo irmão
na vida que em seus gestos principia

Onde outrora houve o deus e houve a ninfa
eles são a moderna divindade
e o que antes era pura linfa
é o que sobra agora da cidade

Vede como alheios a tudo o resto
compram com o suor a claridade
e rasgam com a decisão do gesto
o muro oposto pela gravidade

Ode marítima é que chamo à ode
escrita ali sobre a pedra do cais
A natureza é certo muito pode
mas um homem de pé pode bem mais
"Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 151 e 152 
 Editorial Presença Lda., 1984
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

"A Alma do Vinho" - Poema de Charles Baudelaire


Ivar Kamke (Swedish painter, 1882 – 1936), Drinking men, 1920


A Alma do Vinho


Nas garrafas cantou, uma noite, a alma do vinho:
“Homem, pra ti exalo, ó caro deserdado,
Nesta prisão de lacre vermelho e de vidro,
Um canto cheio de luz e de fraternidade!

“Sobre a colina em fogo, sei quanto é preciso
De esforço, de suor e de sol bem ardente
Pra me engendrar a vida e me criar o espírito;
Porém, não quero ser ingrato ou malevolente,

“Porque imensa alegria sinto ao ir caindo
Na goela de um homem gasto plo trabalho
E o seu peito quente é um sepulcro suave
Que me agrada bem mais do que as adegas frias.

“Não ouves ressoar os refrãos domingueiros
E no meu peito ansioso a esperança a gorjear?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Irás glorificar-me e estarás satisfeito;

“Da tua esposa encantada acenderei os olhos;
Devolverei a força e as cores ao teu filho
E serei pra tão frágil atleta da vida
O óleo que enrijece aos lutadores os músculos.

“Em ti hei de cair, vegetal ambrosia,
Precioso grão que sempre o eterno Semeador
Lança, pra que do nosso amor nasça a poesia
Que brotará pra Deus como uma rara flor!” 


Charles Baudelaire
,
in As Flores do Mal, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992.
Tradução de Fernando Pinto do Amaral



Ivar Kamke (Swedish painter, 1882 – 1936), Italian Farmers, 1910 


O Vinho
(Citações)


“Embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia e com virtude.”
Charles Baudelaire (1821 - 1867)

“Deus apenas fez a água, mas o homem fez o vinho.”
Victor Hugo (1802 - 1885)

“A vida é como o vinho: se a quisermos apreciar bem, não devemos bebê-la até à última gota.”
Lord Byron (1788 - 1824)

“O vinho, quanto mais envelhece mais calor ganha; pelo contrário, a nossa natureza quanto mais vive, mais vai esfriando.”
Félix Lope de Vega (1562 - 1635)


Photo by: Stefan Krause, Germany, Vinho (daqui)


“Os vinhos são como os homens: com o tempo os maus azedam e os bons apuram.”

Cícero (106 a.C - 43 a.C)