Francis Picabia, The Procession, Seville, 1912, oil on canvas, 121.9 x 121.9 cm, National Gallery of Art, Washington DC.
O Macho
O macho não é menos a alma,
nem é mais:
ele também está no seu lugar,
ele também é todo qualidades,
é ação e força,
nele se encontra
o fluxo do universo conhecido,
fica-lhe bem o desdém,
ficam-lhe bem os apetites e a ousadia,
o maior entusiasmo e as mais profundas paixões
ficam-lhe bem: o orgulho cabe a ele,
orgulho de homem à potência máxima
é calmante e excelente para a alma,
fica-lhe bem o saber e ele o aprecia sempre,
tudo ele chama à experiência própria,
qualquer que seja o terreno,
quaisquer que sejam o mar e o vento,
no fim é aqui que ele faz a sondagem.
(Onde mais lançaria ele a sonda,
senão aqui?)
Sagrado é o corpo do homem
como sagrado é o corpo da mulher,
sagrado — não importa de quem seja.
É o mais humilde numa turma de operários?
É um dos imigrantes de face turva
apenas desembarcados no cais?
São todos daqui ou de qualquer parte,
da mesma forma que os bem situados,
da mesma forma que qualquer um de vocês:
cada qual há de ter na procissão
o lugar dele ou dela.
(Tudo é uma procissão,
todo o universo é uma procissão
em movimento medido e perfeito.)
Saberão vocês tanto, de si mesmos,
que ao mais humilde chamem de ignorante?
Consideram-se com todo direito a uma boa visão
e a ele ou ela sem nenhum direito a uma visão?
Acham então que a matéria se fez coesa
na inconsistência em que flutuava
e que a crosta subiu e se fez chão
e as águas correm e brotam as plantas
para vocês, só — para ele e ela, nada?
"O homem era, antes, dono do seu saber. O seu saber é hoje o seu domínio."
(John Steinbeck)
Francis-Marie Martinez Picabia (Paris, 28 de janeiro de 1879 - id., 30 de novembro de 1953) foi um pintor e poeta francês.
Estudou em sua cidade natal, Paris, na
École des Beaux-Arts e na
École des Arts Décoratifs. Recebeu uma forte influência do
impressionismo e do
fauvismo, em especial da obra de
Picasso e Sisley. De 1909 a 1911 esteve vinculado ao
cubismo e foi membro do grupo "Puteaux", onde conheceu os irmãos
Marcel Duchamp,
Jacques Villon,
Suzanne Duchamp e
Raymond Duchamp-Villon. Em 1913 viajou aos
Estados Unidos, onde entrou em contato com o fotógrafo
Alfred Stieglitz e o grupo dadá estadunidense. Em
Barcelona, publicou o primeiro número de sua revista
dadaísta "391" (1916) contando com colaboradores como
Apollinaire,
Tristan Tzara,
Man Ray e
Arp. Após passar um período na
Costa Azul com uma forte presença
surrealista, regressa a Paris e cria com
André Breton a revista
"491".
Colecção privada.
"Um escritor deve acreditar que o que está a fazer é o mais importante do mundo. E deve apegar-se a esta ilusão, ainda que saiba que não é verdade."
(John Steinbeck)
John Steinbeck, 1962