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quinta-feira, 1 de junho de 2017

"Amor" - Poema de Alfredo Brochado


Cecily Brown, Combing the Hair (Côte d’Azur), 2013



Amor


Tu acendeste-me o lume, 
Naquela tarde de frio. E do jardim, 
Solitário e sombrio, 
Vinha até mim 
Um suave perfume 
De goivos a morrer. 

Sobre a cidade calma, 
As nuvens, uma a uma, 
Como flocos de espuma, 
Passavam a correr. 

Era uma tarde, das tardes mais frias! 
E as coisas não me sorriam. 
Somente, 
Doente, 
Tu me sorrias. 

Na vidraça, como gelo, 
Soluçaram gotas de água. 
Afaguei o teu cabelo, 
Com alegria e com mágoa. 

Era uma tarde sombria, 
De luz bem singular. 
Tarde tão fria, 
Até parecia 
Que tudo ia gelar. 


 in "Bosque Sagrado" 


terça-feira, 16 de maio de 2017

"Poema do afinal" - de António Gedeão


Cecily Brown, Shadow Burn, 2005–06



Poema do afinal


No mesmo instante em que eu, aqui e agora,
Limpo o suor e fujo ao Sol ardente,
Outros, outros como eu, além e agora,
Estremecem de frio e em roupas se agasalham.

Enquanto o Sol assoma, aqui, no horizonte,
E as aves cantam e as flores em cores se exaltam,
Além, no mesmo instante, o mesmo Sol se esconde,
As aves emudecem e as flores cerram as pétalas.
Enquanto eu me levanto e aqui começo o dia,
Outros, no mesmo instante, exatamente o acabam.
Eu trabalho, eles dormem; eu durmo, eles trabalham.
Sempre no mesmo instante.

Aqui é Primavera. Além é Verão.
Mais além é Outono. Além, Inverno.
E nos relógios igualmente certos,
Aqui e agora,
O meu marca meio-dia e o de além meia-noite.

Olho o céu e contemplo as estrelas que fulgem.
Busco as constelações, balbucio os seus nomes.
Nasci a olhá-las, conheço-as uma a uma.
São sempre as mesmas, aqui, agora e sempre.

Mas além, mais além, o céu é outro,
Outras são as estrelas, reunidas
Noutras constelações.

Eu nunca vi as deles;
Eles,
Nunca viram as minhas.

A Natureza separa-nos.
E as naturezas.
A cor da pele, a altura, a envergadura,
As mãos, os pés, as bocas, os narizes,
A maneira de olhar, o modo de sorrir,
Os tiques, as manias, as línguas, as certezas.

Tudo.

Afinal
Que haverá de comum entre nós?

Um ponto, no infinito.


Poemas Escolhidos
Lisboa, Sá da Costa, 2001


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

"Porque" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Cecily Brown, Untitled (Blood Thicker Than Mud), 2012



Porque


Porque os outros se mascaram mas tu não 
Porque os outros usam a virtude 
Para comprar o que não tem perdão. 
Porque os outros têm medo mas tu não. 

Porque os outros são os túmulos caiados 
Onde germina calada a podridão. 
Porque os outros se calam mas tu não. 

Porque os outros se compram e se vendem 
E os seus gestos dão sempre dividendo. 
Porque os outros são hábeis mas tu não. 

Porque os outros vão à sombra dos abrigos 
E tu vais de mãos dadas com os perigos. 
Porque os outros calculam mas tu não. 


in Mar Novo (1958)






"A democracia surgiu quando, devido ao facto de que todos são iguais em certo sentido, acreditou-se que todos fossem absolutamente iguais entre si."


Aristóteles, Grécia Antiga, -384 // -322
Filósofo/Cientista


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