Mostrar mensagens com a etiqueta Cidades Portuguesas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cidades Portuguesas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

"A minha terra é Viana" - Poema de Pedro Homem de Mello

 

 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Santuário de Santa Luzia, Viana do Castelo, s.d.



A minha terra é Viana


A minha terra é Viana
Sou do monte e sou do mar
Só dou o nome de terra
Onde o da minha chegar;
Ó minha terra vestida
Da cor da folha da rosa
Ó brancos saios de Perre
Vermelhinhos de Areosa.

Virei costas à Galiza
Voltei-me antes para o mar
Santa Marta, saias negras
Tem vidrilhos de luar.

Dancei a Gota em Carreço
O Verde Gaio em Afife
Dancei-o devagarinho
Como a lei manda bailar;
Como a lei manda bailar
Dancei em Vile a Tirana
E dancei em todo o Minho
E quem diz Minho diz Viana.

Virei costas à Galiza
Voltei-me então para o Sul
Santa Marta, saias verdes
Deram-lhe o nome de azul.

A minha terra é Viana
São estas ruas estreitas
São os navios que partem
E são as pedras que ficam;
É este sol que me abrasa
Este amor que não engana
Estas sombras que me assustam
A minha terra é Viana.

Virei costas à Galiza
Pus-me a remar contra o vento
Santa Marta, saias rubras
Da cor do meu pensamento.


Pedro Homem de Melo
, in Segredo, 1953.
Lello & Irmão - Editores, Porto.

["A minha terra é Viana" e "Havemos de ir a Viana" são dois poemas de Pedro Homem de Mello (1904-1984), notáveis por terem sido imortalizados na voz de Amália Rodrigues. Amália, com sua interpretação única, deu voz e alma a esses versos, tornando-os símbolos da ligação entre o poeta e a cidade de Viana do Castelo.]



Alfredo de Morais
(Ilustrador português, 1872 - 1971), "Feira d'Agonia", s.d.
(Romaria de Nossa Senhora da Agonia) - Viana do Castelo, 
Portugal.


Viana do Castelo
  • Aspetos geográficos 
 
Cidade, sede de concelho e capital de distrito, localiza-se na Região Norte (NUT II), no Minho-Lima (NUT III). Fica na margem direita do rio Lima, junto à sua foz, a uma altitude média de cinco metros.

O concelho tem uma área de 319,02 km2, distribuída por 27 freguesias: Afife, Alvarães, Amonde, Anha, Areosa, Barroselas e Carvoeiro, Cardielos e Serreleis, Carreço, Castelo do Neiva, Chafé, Darque, Freixieiro de Soutelo, Geraz do Lima (Santa Maria, Santa Leocádia e Moreira) e Deão, Lanheses, Mazarefes e Vila Fria, Montaria, Mujães, Nogueira, Meixedo e Vilar de Murteda, Outeiro, Perre, Santa Marta de Portuzelo, São Romão de Neiva, Subportela, Deocriste e Portela Susã, Torre e Vila Mou, Viana do Castelo (Santa Maria Maior e Monserrate) e Meadela, Vila de Punhe e Vila Franca. Dista cerca de 70 km do Porto e 390 km de Lisboa.

Em 2021, o município contava com 85 784 habitantes. O natural ou habitante de Viana do Castelo denomina-se vianense ou vianês.

O distrito, situado no extremo Norte do território continental português, no Minho, entre os rios Minho e Neiva, é limitado a norte e leste pela Espanha, a sul pelo distrito de Braga e a oeste pelo oceano Atlântico. Bastante montanhoso, atinge a altitude máxima na serra da Peneda, a 1416 m.

É banhado pelos rios Minho, Âncora, Lima, Neiva e seus afluentes, Coura e Vez. Nas serranias, a vegetação mais significativa é constituída por matas de carvalhos, pinheiros bravos e eucaliptos.

O clima varia conforme a proximidade do mar e a altitude, tornando-se cada vez mais rigoroso à medida que nos afastamos do oceano e que a altitude aumenta. São frequentes os fenómenos de condensação que originam nevoeiros e nebulosidade.

O distrito é marcado pela proximidade de Espanha, pela riqueza dos seus rios e solos e pela sua costa, banhada pelo oceano Atlântico. Fatores físicos que determinam uma forte ligação das gentes à terra, ao rio e também ao mar.

Compreende dez concelhos: Arcos de Valdevez, Caminha, Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Valença, Viana do Castelo e Vila Nova de Cerveira.

O distrito abrange parte do Parque Nacional da Peneda-Gerês, nos concelhos de Ponte da Barca, Melgaço e Arcos de Valdevez.

  • História e Monumentos
 
Povoada desde o Paleolítico, a cidade de Viana do Castelo detém um vasto património histórico. São vários os achados que comprovam a presença da cultura castreja, com destaque para a "cidade velha" de Santa Luzia. A civilização romana também se instalou neste território. Recebeu foral em 1258, outorgado por D. Afonso III, que lhe concedeu categoria de vila, chamando-lhe Viana da Foz do Lima.

Esteve envolvida na dinâmica dos Descobrimentos, assistindo-se a uma intensificação da atividade comercial. Tornou-se cidade em 1848, por decreto de D. Maria II, a qual lhe atribuiu o nome de Viana do Castelo em homenagem à resistência que a guarnição do seu castelo manteve durante o cerco que lhe fez a Junta do Porto, aquando do movimento revolucionário chamado Maria da Fonte. Atualmente, o castelo de Viana não passa de uma relíquia histórica.

Do seu vasto património edificado salienta-se: a Sé, a Igreja Matriz, Igreja de Santa Cruz, a Igreja da Caridade do Convento de Sant'Ana, o portal manuelino de Sant'Ana, as igrejas de S. Bento, de S. Domingos, do Carmo, do Convento de Santo António, da Senhora da Agonia, a capela-mor de S. Domingos, a Capela dos Malheiro Reimão, a fonte alegórica Viana e os quatro continentes, o chafariz da Praça (datado do século XVI), o Hospital da Misericórdia de Viana, os Paços do Concelho, a roqueta (uma das primeiras fortalezas abaluartadas da nossa costa), o Museu Municipal-Casa Barbosa Maciel, a estação do caminho de ferro, as casas da Carreira (com a sua fachada manuelina), dos Sá Sotomaior, dos Malheiro Reimão, dos Costa Barros e dos Melo Alvim.

Nos vários concelhos que compõem o distrito, encontram-se monumentos valiosos, quer pela sua arquitetura, quer pelo papel que desempenharam na defesa das nossas fronteiras. São exemplos: a ponte gótica, de Ponte de Barca; o centro histórico de Caminha, onde se salienta a Igreja Matriz e o forte da Ínsua, no estuário do rio Minho; a fortaleza de Valença; a fortaleza de Monção e o castelo e Igreja Matriz de Melgaço, entre outros.

  • Tradições, Lendas e Curiosidades
O feriado municipal da sede de distrito é a 20 de agosto.

Um pouco por todo o distrito realizam-se festas e romarias como sejam: a Festa da Senhora da Cabeça, na terça-feira de Páscoa; a Festa da Senhora das Dores e a Festa da Coca no dia do Corpo de Deus, em Monção; em agosto, as festas do concelho de Arcos de Valdevez, Santa Rita de Cássia em Caminha, a romaria de São João de Arga, a Festa da Cultura em Melgaço, a Senhora do Faro, a Bienal de Arte e festas concelhias em Vila Nova de Cerveira; em setembro, as Feiras Novas em Ponte de Lima e a Festa dos Homens do Mar em Vila Praia de Âncora.

Da tradição do concelho de Monção, faz parte a referida Festa da Coca, consistindo na recriação da lenda popular do combate entre S. Jorge e o dragão (a coca). Em Melgaço, o destaque vai para a lenda da Inês Negra. A cultura popular integra também várias lendas de mouras encantadas.

O artesanato apresenta uma produção importante a nível do distrito. A latoaria é uma das produções artesanais, com o fabrico de candeias e vasilhame. Uma das especialidades deste concelho são as artes do calçado - manufatura de chancas e socos. A confeção de adornos com flores, bordados, tapetes para procissões, arcos de romarias e palmitos está também bem patente nas artes desta região.

São também conhecidos os linhos e a cestaria, nomeadamente em Arcos de Valdevez, os trabalhos em cobre e estanho de Caminha, a olaria, os artigos feitos em palha, os jugos de Monção, as mantas e trapos de Melgaço, a fiação de lã, a talha, o fabrico de redes e barcos de pesca e a pirotecnia.

  • Economia
 
A tradicional agricultura minhota, praticada em pequenos campos, seguindo técnicas por vezes ainda muito artesanais, com o domínio da policultura, assume uma importância considerável nos vários concelhos que compõem o distrito.

Nos vales cultiva-se milho, legumes e vinha - o famoso vinho verde, de características únicas, é um dos produtos da região mais apreciados e exportados. À prática agrícola encontra-se normalmente associada à criação de gado, sobretudo bovino, salientando-se as raças galega e barrosã.

O setor secundário demonstra uma dinâmica assinalável. No distrito existem indústrias de laticínios, de transformação de madeiras, cerâmica, produtos alimentares e pirotecnia.

A construção civil contribui também para o desenvolvimento económico. A atividade piscatória é outra das suas riquezas, assente na riqueza piscícola dos seus rios, na sua maior parte ainda libertos do flagelo da poluição, onde ainda se pescam sáveis, salmões, lampreias e outras espécies cada vez mais raras.

O estado de conservação do seu património ambiental, a sua riqueza faunística e florística e a diversidade biogeográfica têm sido fatores determinantes para a afirmação do turismo rural, de montanha, de veraneio à beira-mar e até mesmo termal, no caso de Monção.

Paralelamente, assiste-se um pouco por todos os concelhos à expansão do setor terciário, com o crescimento do comércio e criação de serviços essenciais ao bem-estar da população. (daqui)
 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

"Retrato do povo de Lisboa" - Poema de Ary dos Santos

 
 
Inês Dourado (Pintora portuguesa, n. 1958), "Lisboa de Luz e Cor" (Lisboa, Portugal), 2021. 
Aguarela e guache sobre papel, 39,5 x 57 cm.



Retrato do povo de Lisboa


É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.

Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.


Ary dos Santos, in "Fotos-grafias", 1970.



Inês Dourado, "Lisboa Luminosa e Colorida", 2022. Óleo em tela, 50x60 cm.
 

"Lisboa [...] onde todos os que bebem água, não tem mais de um estreito chafariz para tanta gente [...] e deve de trazer a Lisboa 'Água Livre' que de duas léguas dela trouxeram os Romanos, por condutas debaixo da terra, subterrâneos furando muitos montes e com muito gasto e trabalho." 

 
 

Aqueduto das Águas Livres em Campolide - Lisboa em 1905.
Postal Ilustrado - Fototipia Animada, Edições Martins
 (daqui)


Aqueduto das Águas Livres

A condução da água em canais remonta já à Antiguidade. Os Fenícios foram mestres nas construções subterrâneas. Por outro lado, os canais à superfície, apoiados em arcadas, são invenção dos Romanos.

Em Portugal, a influência romana faz-se sentir tanto pelas ruínas arqueológicas, por exemplo, o Aqueduto de Conímbriga, como também pelo fascínio dos governantes da Idade Moderna pela Antiguidade. Assim, aparece-nos o aqueduto como paradigma das obras públicas.

Em 1571, no tratado "Da fábrica que falece a cidade de Lisboa", de Francisco de Holanda, aparece a primeira referência ao aqueduto, numa tentativa de fazer chegar a Lisboa a água das fontes das águas livres, no Vale do Carenque. As obras, essas só viriam a ter início século e meio mais tarde, por alvará régio de D. João V.
Em agosto de 1732, o arquiteto italiano António Canevari dirige o projeto, tendo sido posteriormente afastado e substituído, em 1733, por José da Silva Pais, Manuel da Maia e Custódio Vieira. Coube a Manuel da Maia o comando dos trabalhos até 1736; a partir daí foi Custódio Vieira a dirigir a obra.

O Aqueduto das Águas Livres tem uma extensão - incluindo todos os ramais - de 58 135 metros, possuindo 137 claraboias - que serviam para ventilar os canais -, 35 arcos (14 em ogiva e os restantes de volta perfeita), tendo o central um vão de 29 metros de largura por 65 de altura, o que o torna o maior arco em pedra construído em todo o mundo. O Aqueduto abastecia 34 chafarizes.
Mãe de Água das Amoreiras é o nome dado ao reservatório que recebia e distribuía as águas canalizadas pelo aqueduto aos chafarizes. Este edifício, que servia de término ao Aqueduto, foi da responsabilidade do arquiteto Carlos Mardel (bem como o Arco das Amoreiras) e só foi concluído em 1834.

É sob a direção de Carlos Mardel que, em 1748, corre água pela primeira vez em Lisboa. Esta monumental e notável obra de engenharia hidráulica, que levou mais de um século a ser erguida, só foi retirada do sistema de abastecimento da águas à cidade de Lisboa em 1967. (daqui)
 


 Francisco de Holanda, Autorretrato, ca. 1573,
 o artista apresentando o seu "Livro das Imagens".


Francisco de Holanda

Ensaísta, artista plástico, arquiteto, historiador e crítico de arte português, nascido provavelmente em 1517, em Lisboa, e falecido em 1584. Estudou em Itália, entre 1538 e 1547. Ali teve acesso ao círculo de Vitória Colonna, figura notável do renascimento italiano, facto que lhe proporcionou o convívio com grandes artistas da sua época, como Parmigianino, Giambologna e, em especial Michelangelo Buonarroti, que nele despertou o fervor pelo classicismo.
Regressou, mais tarde, a Portugal, onde obteve várias ajudas da parte do infante D. Henrique, do cardeal-arcebispo de Évora e dos reis D. João III (a mando deste monarca, pintou os livros do coro do Convento de Cristo) e D. Sebastião.

O ideal estético renascentista exprime-se acentuadamente neste autor, que afirma que o dever primordial do artista é cultivar a sua íntima originalidade, "imitar-se a si mesmo"; depois, seguir a lição da natureza (puro espelho do Criador) e a lição dos antigos, mestres imortais de grandeza, simetria, perfeição e decoro.
Dotado de uma grande versatilidade intelectual, o autor distinguiu-se pelos seus desenhos da série "Antiguidades de Itália" (1540-1547), pelo seu contributo como instrumento de estudo na reconstituição do património arqueológico romano e da arte italiana da primeira metade do século XVI. Foi ainda autor do projeto da fachada da igreja de Nossa Senhora da Graça, em Évora.

A sua paixão pelo classicismo refletiu-se no seu tratado Da Pintura Antiga, que divulga o essencial da obra de Michelangelo e do movimento artístico de Roma no segundo quartel do século XVI. Escreveu ainda o primeiro ensaio sobre urbanismo na Península Ibérica, como o título Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, e alguns livros de desenhos como De Aetibus Mundi Imagines e Antigualhas. (daqui)
 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

"Não nasci por acaso nestas pedras" - Poema de José Gomes Ferreira


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Porto, Avenida dos Aliados, s.d.


  Poema


(O Eugénio de Andrade espera-me num Café.
Atravesso as ruas do Porto – a cidade onde nasci – 
com os punhos cerrados de dor.) 


Não nasci por acaso nestas pedras
mas para aprender dureza,
lume excedido,
coragem de mãos lúcidas.

Aqui no avesso da construção dos tempos
a palavra liberdade
é menos secreta.

Anda nos olhos da rua
pega lanças aos gestos,
tira punhais das lágrimas,
conclui as manhãs.

E principalmente
não cheira a museu azedo
ou musgo embalado
pela chuva da boca dos mortos.

Começa nos cabelos das crianças
para me sentir mais nascido nestas pedras.

Porto
– cidade de luz de granito.

Tristeza de luz viril
com punhos de grito.


José Gomes Ferreira
,
"Daqui houve nome Portugal" - Antologia de verso e prosa sobre o Porto,
organizada e prefaciada por
Eugénio de Andrade,
Editorial Inova, 1968.
 


Mota Urgeiro, Mercado da Ribeira, Porto, s.d..
 
 
"O Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de três províncias e tendo nas mãos as chaves dos haveres delas, o seu aspeto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada."
 
Alexandre Herculano (Escritor, historiador, jornalista e poeta português, 1810–1877)
 

sábado, 22 de junho de 2024

"Toponímia" - Poema de Inês Lourenço

 
Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Porto, s.d., óleo sobre tela.
 
 
Toponímia


Mudam-se os tempos. Já
não sabemos as matinais canções
nem habitamos vilas morenas.
Toleramos serventes de pedreiro louros,
de preferência não legalizados. Queremos
um grande apartamento em condomínio
fechado, um ferrari, uma piscina, um topo
de gama de uma coisa qualquer.

Temos ruas, temos praças e pontes
com nome de revolução. Como todos
os países temos hino - nação valente
imortal. Tivemos canela e diamantes,
santos, barregãs e dinastias de
tiranos e servos. Andámos muito
no mar, trocando rotas e poderes,
escravos, inquisições e cruzes.

Agora, neste estreito
quadrilátero, de onde saímos
e mal regressámos, sem índias nem
quinto império - salvou-se o manuscrito do
Luís Vaz a nado - restam-nos a sardinha
e a conquilha - ao que consta cercadas
de barcos espanhóis - o bacalhau
que já não vem da Terra Nova, a memória
dos pescadores de baleias, esgotada a captura
nas ilhas.

Também temos o treze
de Maio, o negócio clandestino
das abortadeiras, a broa de Avintes,
os tintos, por enquanto de marca e
o leitão da Bairrada e o Benfica e
o Sporting e o Futebol
Clube do Porto.

Temos ruas, temos praças e
pontes com nome de revolução,
topónimos nebulosos que a distância
apagará. Apenas aquela rua
chamada Cantor Zeca Afonso
poderá surpreender o transeunte
se acrescentarem o aviso:

nunca quis uma rua
só para si.


Inês Lourenço, in Logros Consentidos, 
Editor: & etc, 2005.
 
 

Armando Aguiar
, Porto, s.d., óleo sobre tela.
 
 
Porto

 
"Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto dependurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha."

Há como que seteiras, fendas, passadiços e bocais de pontes diante dos nossos olhos assestados sobre essa tremenda presença de rocha, caliça e betão armado. Uma ravina profunda marca o entalhe do rio, cujas águas verdes da primavera refletem o crescente da sombra dos rabelos de velas enfunadas.

O sol parece baixo sobre a cidade segregada da pedreira; uma transcendência de melancolia paira e comove-nos. A muralha infunde em nós essa doce tristeza europeia, um orgulho de atividade, um desenho de pompas escravas, um sonho económico e uma impraticável fé de liberdade.

A muralha cresce com os seus pequenos palácios da beira-mar, os seus bairros insubstituíveis de lata e de papel, as suas casa bancárias, os crimes de venalidade e de injúria, e os alegres pais de família com uma mulher em cada braço.

Atrás das suas pedras há a nobreza mourisca, há o judeu caviloso e astuto, o fenício do grande comércio, o homem da Lusitânia criticador e inerte. Ela é a muralha povoada de funcionários e mestres de obras, de colegiais, de artistas ingleses colonialistas – e pelo capital.

A sua alma é funda e profética, os seus costumes rigorosos mas não severos – e há mais espírito na sua gente de ilha, na sua gente crua de sentimento e afeiçoada à desgraça, que nos altos patíbulos da raça onde se convertem os grandes a um passatempo de serões.

Ela é a muralha, com a cintura rodeada de nevoeiros, generosa e tímida, com a sua coroa provinciana e a luva suja na mão descalça.”

Agustina Bessa-Luís, no livro A Muralha, 1957
 

sábado, 11 de maio de 2024

"A Minha Terra" - Poema de Afonso Simões


 
António Carneiro (Pintor, ilustrador, poeta e professor português, 1872 – 1930), 
 Praia da Figueira da Foz, 1921.


A Minha Terra


A minha terra, o meu ninho,
Saudoso berço natal,
É o mais belo cantinho
Das terras de Portugal.

O seu nome que se deve
Como uma prece rezar,
Nunca a minha mão o escreve
Sem que eu ouça a alma a cantar:

Figueira, linda Figueira,
Quem te deu encanto assim?
Foi a mesma feiticeira
Que ainda hoje me encanta a mim?

Foi a grande natureza?
Foram as ondas do mar,
Que o teu manto de princesa
Vão respeitosas beijar?

Foi o troveiro Mondego,
Cantando sempre a correr,
Que num murmuro sossego
Junto aos teus pés vai morrer?

Foi talvez moira encantada
Que pela terra ficou,
Dum velho conto de fada
Que a tua infância embalou.

Mas a beleza que encerra
A tua graça sem véu,
Não deve ser cá da terra,
Deve ser obra do céu.


Afonso Simões (1866–1947),
 in 'No Limiar do Poente'
 

 
 
"Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não para, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio."

Guimarães Rosa (1908–1967), "A Terceira Margem do Rio"
 
 
"A Terceira Margem do Rio", ilustração por Luís Jardim e Guimarães Rosa em "Primeiras Estórias", 1962.
 
 
"A Terceira Margem do Rio" é o conto mais famoso e uma das obras mais influentes de Guimarães Rosa, publicado em seu livro "Primeiras Estórias", lançado em 1962.
Narrado em primeira pessoa pelo filho de um homem que decide abandonar a família e toda a sociedade para viver dentro de uma pequena canoa num imenso rio.
Guimarães Rosa dá um tom regionalista e universal ao conto, em estilo de prosa poética e oralidade específica, tratando de grandes dilemas da existência humana. "A Terceira Margem do Rio" é sempre posicionado como um dos melhores contos ou o melhor da literatura brasileira.
(daqui)
 

segunda-feira, 11 de março de 2024

"A Bucólica Margem" - Poema de Egipto Gonçalves

 
 
Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Rio Douro, Porto e Vila Nova de Gaia, s.d.


A Bucólica Margem


Sento-me então a olhar o rio,
os pensamentos formam cardumes
que contra a corrente se insurgem
mas as águas são inexoráveis;
olhando-as, a superfície cintila,
propaga-se como se fossem notas
de um piano na garupa de um cavalo
que se dirige para o mar.

O Douro bebe as cores da cidade,
sobre elas eu abro o coração
em que te encontras, as colinas
emolduram as raízes que à terra
nos ligam. Para os meus olhos
é momento de pausa: as coisas
que interrogo não resistem à maré,
não dão respostas; perdem-se no mar
como tudo o que a memória não reteve.

Mas este rio
já foi longamente folheado, nele
escrevemos
o romance que nos deu uma casa,
nos cortou o cabelo, nos afastou
das rugas, nos entregou o azul
(tecido, nuvem, divã, janela...)
o voo das artérias, lugar do corpo,
portas que amanhecem, espelho
onde fazemos fluir a vida.
Acordes
da guitarra que forja o horizonte,
que guia o sinuoso voo das gaivotas
e acaricia a pele que rasga atalhos
no interior dos sonhos. Estarei
vivo enquanto assim me guardar
teu coração. E no seu lucilar,
esta água imita o fogo
que devora sombras e escombros,
libertando a asa que no sangue
respira. A foz está próxima,
mas o horizonte é o teu olhar.
No leitor do carro, a guitarra flexível
sublinha o que divago; os acordes
disparam,
encontram-me na trajetória do seu alvo.


Egito Gonçalves, A Ferida Amável,
Campo das Letras, 2000.

 

 
Armando Aguiar, Rio Douro, Porto e Vila Nova de Gaia, s.d.

«Uma ida ao Porto é sempre uma lição de portuguesismo, tanto mais rica quanto mais raramente lá se vai. É indispensável – claro! – um mínimo de contacto reiterado com esse lar da nação para nele vermos algumas das significações latentes que enriquecem a nossa consciência de práticas.» — Vitorino Nemésio
 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

“As noites do Porto” - Poema de Nuno Júdice


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Entardecer no Porto, s.d.

 
 As noites do Porto

 
Shakespeare podia ter vivido aqui. Podia
ter dançado na noite de S. João, quando o rio
transborda para as ruas nas correntes
humanas que as inundam. Podia ter escrito
nos invernos de ausência o que a noite
ensina sobre a privação. Podia ter
ensinado, à beira do cais, que o tempo lascivo
corre como a água, levando o que não há de
voltar e trazendo o que nunca terá nome
nem corpo. As almas, que empalidecem quando
o sol poente se reflete nos vidros,
cantam bruscamente o verão: reflexo de um
reflexo, frutos que se deixam colher pela
memória, seres sem ser que não hão de voltar
a nascer. Mas o que ele cantou, podia
tê-lo cantado aqui. Todos os lugares são,
afinal, lugar nenhum para quem não habita
senão a própria voz: sonho de outra margem,
cantor perdido no labirinto das pontes. Perto
da foz, sem o saber; sonhando a nascente,
como se não fosse ele próprio a única fonte.


Nuno Júdice, A Fonte da Vida,
Lisboa, Quetzal Editores, 1997
 
 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

"Memmo Alfama, Lisboa" - Poema de José Luís Peixoto

 


António Soares (Ilustrador e pintor português, 1894–1978), Alfama, Lisboa, 1966


Memmo Alfama, Lisboa
 

Se o Tejo fosse um verbo ou uma fonte, haveria nesta tarde
suficiente expressão para saciar todas as bocas. Acreditamos
nos últimos dias de julho, na simples inocência dos telhados,
acreditamos no está e, logo a seguir, no já não está. Existimos
misturados com esta tarde, é a nossa respiração que a faz
entardecer.


José Luís Peixoto
, inédito
Memmo Alfama, Lisboa, 29 de julho de 2021
(daqui)
 
 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

"Metamorfose" - Poema de Jorge de Sena


Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Rua e Igreja e Torre dos Clérigos, Porto
 
 
 
Metamorfose


Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se refletem na água.

E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter…
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.
 
25/10/42

Jorge de Sena
, in Coroa da terra. 
Porto: Lello & Irmão, 1946
 
 

 
Jorge de Sena, Coroa da terra.
Edição/reimpressão: 05-2021
Editor: Assírio & Alvim
 
 
SINOPSE
 
É com certo arrepio que se lê a crueza de Jorge de Sena nas páginas de Coroa da Terra (1946), o seu segundo livro de poesia, dedicado à Cidade do Porto, o palco da sua errância. Mostra-se assim a visão de Sena, nas palavras de Francisco Cota Fagundes, como «uma poesia por vezes intencionalmente rude e nunca de bibelot d’inatité sonore […] que se fosse música, seria um longo e persistente réquiem dilacerante […] poemas em que a criança é um dos temas dominantes, como dominante e marcante é o seu carácter de poesia de resistência e de empenho».
 
 “Para a minha alma eu queria uma torre como esta, /assim alta, /assim de névoa acompanhando o rio […]”. Estes versos de Jorge de Sena em Metamorfose conduzem-nos até à Torre dos Clérigos, um dos elementos mais emblemáticos da cidade, cuja imponência inspirou o poeta. O autor estudou no Porto e, durante esse período, escreveu Coroa da Terra (1946), obra da qual faz parte Metamorfose e onde faz uma dedicatória “à cidade onde este livro foi, na sua maior parte, vivido e escrito […]”. (daqui)
 
 

Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Clérigos, Porto, Portugal
 
 
[O conjunto arquitetónico dos Clérigos, que integra a Torre, a Igreja e um Museu, é, de facto, local de passagem obrigatória para todos os que visitam a cidade do Porto. A Igreja e a Torre integram uma edificação do século XVIII, de inspiração barroca, que marcou a configuração urbana da cidade e, em 1910, foi classificada como Monumento Nacional. Nicolau Nasoni projetou-a com genialidade, criando numa rua desnivelada um edifício de referência, que pode ver-se de quase toda a cidade.
Igreja e Torre estão unidas pela Casa da Irmandade que, desde 2014, está aberta ao público como Museu, com uma exposição que convida a uma viagem pelo tempo e pelo espaço, pela imagem e pela devoção.(daqui)]
 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

"Balada do Rio Douro" - Poema de Pedro Homem de Mello



Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Ribeira do Porto, s.d.

 
Balada do Rio Douro

 
Que diz além, além entre montanhas,
O rio Douro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!...
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?...
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira...
Que triste e rouca a voz dos mercadores!...
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores...
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade...
Que diz o rio além? Por que não há de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas...
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!...
 

Pedro Homem de Melo
, Poesias Escolhidas 
 
 

Manuel Cardoso Lima (Pintor português, n. 1949), Porto - Ribeira, s.d., 
 óleo sobre tela, 80x130 cm.
 

A cidade e a Poesia

As cidades são como as pessoas, têm os seus se­gredos, e às vezes guardam-nos bem guardados. Há quem goste muito do Porto e há quem o deteste. Queria falar desta cidade "tão masculina" sem nenhum peso de erudição, que é coisa tão inimiga da poesia, que só Borges, que eu saiba, lhe conseguiu arrancar alguns versos dignos da sua prosa. Também não me parece leal contrapor-lhe outras cidades, e menos ainda Ve­neza. Toda a gente sabe que se Veneza não cheirasse a água podre seria incomparável, mas cheiro por cheiro antes o de Marraquexe; Marraquexe cheira a cavalos, que é cheiro de homem. Há quem goste do Porto, dizia eu; Marguerite Yourcenar — ninguém sabe, porque foi a mim que o disse — andou por aqui dois dias fascinada com a Ribeira e as encostas da Sé. Isto de gostar não tem explicação fácil. O mais simples é, se nos pedem razões, dizê-lo com as palavras de Montaigne: Parce que c'était lui, parce que c'était moi. Mas não só o amor tem estranhos mecanismos, os do ódio não lhe ficam atrás.

Há anos li muita coisa sobre o Porto, não tive outro remédio, fiz sobre ele uma antologia que circula por aí. Nessa altura deparei com coisas tão acintosas que fui levado a pensar em ressentimentos. Algumas daquelas coisas eram escritas com dor de corno. Camilo, Eça, Antero, Nobre, Pascoaes detestavam-no. "A sentina é aqui", dizia Camilo num vómito. "Pançudo e pesado", é o Eça a falar, enquanto entala o monóculo. "O Porco", afirma Antero que lhe chamava Oliveira Martins. "Tão carregado de província que nem os arredores de Braga", diz, já mais perto de nós, Pascoaes em 'O Peni­tente'. E sigo, que o meu destino é outro. Mas o burgo também tem quem lhe faça a corte: Jaime Cortezão, Rodrigues Miguéis, Miguel Torga, Jorge de Sena, Agustina Bessa-Luís gostam dele, como testemunharam de muitos modos. Agustina é no nosso tempo o seu cro­nista, e cronista admirável, nunca é demais repeti-lo, pois há sempre quem o não saiba; quanto ao seu poeta, ainda não lhe disse o nome, e vai sendo tempo: Pedro Homem de Mello. Caiu sobre ele, desde que morreu, um estranhíssimo silêncio. Eu estou pouco a par dessa coisas, há muitos anos que não leio jornais, mas creio que não há um beco ou uma viela com o seu nome. Nem sequer uma escola ou um jardim de infância. Qual foi o agravo que fez à cidade onde nas­ceu? Não era um grande poeta? Pois não, mas os grandes poetas são tão raros! Na geração que foi a dele — a do Segundo Modernismo, como se lhe vem cha­mando — quem, além de Vitorino Nemésio, é grande poeta? A sua poesia era muito irregular? Sem dúvida, mas irregular, que poeta o não foi neste país? Veja-se o Gomes Leal, com quem o Pedro tem afinidades, ou até poetas de outras dimensões, o Nobre, o Pascoaes, o Sena. Estamos pois de acordo: nem grande poeta nem espírito crítico capaz de corrigir as emoções – mas era um poeta, e também não há tantos como isso, ao contrário do que se diz. O que há muito entre nós é literatos, gente em que sobra espírito e falta alma. Ocorre-me Flaubert: Ah! Ah! les gens d'esprit, quels pauvres gens cela fait! Como principiei por afirmar — e ele tinha consciência e orgulho disso — Pedro Homem de Mello é, como nenhum outro, o poeta do Porto, das suas ruas escuras, dos seus jardins "de má fama", dos seus palácios em ruína, das suas torres de face encardida, das grades frias dos seus aljubes, do luto entranhado dos seus habitantes, e também da sua estreiteza conservadora, do seu grosseiro espírito de ganância; de tudo isto ele era o poeta, como era também aquele de quem os juízes e tabeliães e bem pensantes faziam troça, os políticos malevolamente se aproveitavam, e a gente anónima respeitava, porque, apesar do brasão ostensivo no dedo e algum snobismo, tinha sempre um sorriso ou uma palavra afável para o cobrador do elétrico ou para o engraxador; pois apesar de ser um senhorito da televisão, visitava os amigos com moços sem eira nem beira, que levava para os seus versos, e que, à semelhança de Kavafís, são os melhores que escreveu.

Apesar de Pedro Homem de Mello ter feito tanto frete ao SNI, e escrever versos que eram uma merda pedindo o voto em Salazar, e outros igualmente excrementícios para o Menino Jesus dos Correios todos os anos pelo Natal, ele nunca tinha cheta, nem sabia de usura, nem atraiçoava os amigos — amava a poesia de Verlaine e António Nobre, o nosso Romanceiro e o de Lorca, de que herdou ritmos e segredos; dançava o vira, ou lá o que era, como ninguém; gostava daquela gente da Serra d'Arga e da Nazaré, que lhe pagava na mesma moeda; e os versos que escreveu, às vezes, também têm a ver com o movimento soberbo daque­les braços erguidos e daquelas cinturas queimando os dedos de quem as tocava, ou então com os olhos turvos que se cruzavam com os seus na Cordoaria, e lhe arrepiavam a pele ou paralisavam os passos — porque a sua poesia, não vale a pena ocultá-lo, partia dali, de todos os sentidos despertos, que nele deviam ser mais de cinco. E quando os seus versos não têm essa origem o melhor é ignorá-los, porque então raramente ultra­passam a mais convencional e rasteira prosa metrifi­cada. 
 
— "Quando penso que tenho que pensar fico com dores de cabeça", disse-me ele um dia — e devia dizer a verdade. 
O Pedro, apesar dos universos divergentes, e não apenas mentais, a que eu e ele pertencíamos, foi meu amigo. Imaginem: amigo de quem é tão distraído e distante para as coisas literárias e, ainda por cima, sem paciência nenhuma para aquele exibicionismo pueril de poemas lidos na rua ou à mesa do café, e por ele, que os lia tão mal, tão mal... Mas era gentil e generoso e bem educado, coisas em que minha mãe reparou logo quando o conheceu, numa das suas vindas ao Porto. Ocorre-me agora que, um ou dois dias depois, o Pedro passou pelos Serviços onde eu trabalhava só para me dizer:
— A tua mãe é linda! 
Era a primeira vez que estava inteiramente de acordo com ele.
 
 
Eugénio de Andrade (1923—2005), "À Sombra da Memória", 1993
 

Eugénio de Andrade, "À Sombra da Memória",
Editor: Assírio & Alvim

Edição/reimpressão: 06-2018
 

«Este livro, 'À Sombra da Memória' (1993), continua 'Os Afluentes do Silêncio' (1950) — são coisas ocasionais: falas em raras ocasiões públicas, prefácios a dois ou três livros em colaboração com amigos, palavras de amizade ou admiração em catálogos de exposições ou plaquetes de homenagem. Coisas assim, esparsas, uma vez mais, no correr dos dias. Terei de reconhecer que falo de mim mais do que devia mas, em prosa, ninguém me voltará a encontrar noutro sítio — prometo.» — Eugénio de Andrade (daqui)
 
 
 
Eugénio de Andrade, "Os Afluentes do Silêncio",
Editor: Assírio & Alvim
Edição/reimpressão: 12-2013

 
«As crónicas de 'Os Afluentes do Silêncio' (1950) constituem uma prova plena dessa capacidade de assimilar e transformar, com imaginação, pessoas, ideias e espaços. São também águas vivas onde se reflete o rosto de um poeta maior, ao longo de décadas. Sempre fiel às amizades fraternas, mas sensível a beliscaduras; desapegado do poder político, porém interventivo; indiferente a bens materiais, contudo grato pela partilha de poemas, pinturas e canções; cidadão do mundo, sem deixar de ser de Póvoa de Atalaia ou do Porto - Eugénio é tão singular e autêntico quanto a sua obra. O tempo saberá recordar este homem com coração de pássaro.» (daqui)

terça-feira, 24 de outubro de 2023

"Hora de Ponta" - Poema de Rosa Alice Branco


 
Armando Anjos (Pintor português, 1931–2017), Avenida dos Aliados, Porto, Portugal


Hora de Ponta 
 
 
Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar
pela janela e fingir que tenho imunidade diplomática,
que estou de lá do vidro com o hálito das folhas, o sabor
a hortelã e um ar fresco interrompido pela velha senhora
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente
do homem gordo na minha orelha, com a mão livre
apertada contra o peito, contra o visco da hora apinhada
na minha pele pública, na minha pele de todos.
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso
doce e cansado, os olhos brilhantes, a candura intacta
toma-me toda como se eu fosse um anjo
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele
receba a dádiva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho,
o calor excessivo, a proximidade insustentável e leia no teu rosto
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para
os outros. No teu rosto à hora de ponta aprendo a compaixão
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio. 


Rosa Alice Branco, in "Da Alma e dos Espíritos Animais",
Campo das Letras, 2001