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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

"Voo" - Poema de Alfredo Guisado

 


Philip Hermogenes Calderon (British painter, 1833-1898), "Farewell", 1892.


Voo


Voei em mim, voei. Meu voo se perdeu
Num fatigante abraço. Um beijo que me deste
Me conduziu a um mundo, a um mundo de além-Eu.
Onde voei sem ti, onde tu me perdeste.

Há quantos anos já!... Há quantos anos foi!...
Lembro-me que lutei co'um vento de agonia
Uma ilusão perdida, um fenecer do dia,
E lembro-me que fui da minha vida herói.

Ó mãe do meu amor sempre p'ra mim perdida!
Eu sinto-me cansado, eu vivo numa vida
Onde não canta a Alma, onde não sei viver!

Quando passaste em mim, um beijo me deixaste
Na sombra do meu peito, em Dor o emolduraste...
Ó ilusão de mim! Ó névoa do meu Ser!


Alfredo Guisado
,
in revista "O Occidente" de 30 de janeiro de 1914
.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

"Lume" - Poema de Alfredo Guisado





Lume 


Apagou-se, por fim, o incerto lume,
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguia.

Apagou-se, por fim, o lume incerto...
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que para o além era o mais perto
e para voltar a mim o mais distante.

Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.

Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.


Alfredo Guisado,
"Ânfora", 1918

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

"Baloiço" - Poema de Alfredo Guisado


Pierre Auguste Cot (French painter, 1837 – 1883), Springtime, 1873,
Metropolitan Museum of Art, New York
.



Baloiço

 
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.

Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.

Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p’lo que passou.

E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.


Alfredo Guisado
(1891 - 1975)


 
Pierre Auguste Cot (French painter, 1837 – 1883), The Storm, 1880,
Metropolitan Museum of Art, New York.
 

"Aqueles que nós definimos como os nossos dias mais belos não são mais do que um brilhante relâmpago numa noite de tempestade". 
 
"Ce qu'on appelle nos beaux jours n'est qu'un éclair brillant dans une nuit d'orage."

Alphonse de Lamartine, Méditations poétiques - Página 61,
  A la Librairie grecque-latine-allemande, 1820, 156 páginas.
 
 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

"Ante Deus" - Poema de Alfredo Guisado


François-Léon Benouville, Joan of Arc Hearing Voices 



Ante Deus 


Quando te vi eu fui o teu voar
E desci Deus pra me encontrar em mim.
Voei-me sobre pontes de marfim
E uma das pontes, Deus, em meu olhar!

Aureolei-me de oiro em sombra fria
E meus voos caíram destruídos.
Foram dedos de Deus os meus sentidos.
Meu Corpo andou ao colo de Maria.

Agora durmo Cristo em véus pagãos.
São tapetes de Deus as minhas mãos.
Regresso Ânsia pra alcançar os céus.

Ergo-me mais. Sou o perfil da Dor.
Sobre os ombros de Deus olho em redor
E Deus não sabe qual de nós é Deus! 


Alfredo Guisado
, in 'Ânfora'


 
Joan of Arc (1412-1431) is interrogated by The Cardinal of Winchester in her prison, 1431. 
O Homem corrige Deus 

"Nós encontramos o soldado em várias espécies inferiores. A formiga tem exércitos e creio que polícia civil. Qualquer obscuro passarinho é um autêntico Blériot. Não há industrial alemão que se aproxime da abelha. O canto do galo e os versos da Ilíada. João de Deus e o rouxinol, o castor e o arquiteto, a sub-marinha e os tubarões, representam coisas e criaturas que se confundem...

Mas o Filósofo revela-se apenas no homem. A Filosofia é o sinal luminoso que o destaca da mesquinha escuridade ambiente... Só o homem é suscetível de magicar, de refazer a Criação à sua imagem... O homem corrige Deus."

Teixeira de Pascoaes, in "A Saudade e o Saudosismo" 


sábado, 24 de setembro de 2016

"Ante a Paisagem" - Poema de Alfredo Guisado


Jesus Guido, Outono no Ribatejo



Ante a Paisagem


Eu fujo da Paisagem. Tenho medo. 
Os pinheirais são em marfim bordados. 
Sou paisagem-cetim num olhar quedo, 
Oiro louco sonhando cortinados. 

Fujo de mim porque já sou Paisagem. 
Procura-me Satã no meu chorar... 
Seus passos, o ruído da folhagem. 
Cimos de lírios velhos de luar. 

As tuas mãos fechadas e desertas, 
Janelas para o jardim, jamais abertas, 
Fiam de mármore um correr de rios... 

E os teus olhos cansados de saudades. 
Eunucos possuindo divindades... 
Hora-luar a de teus olhos frios... 


in 'Elogio da Paisagem'


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

"Ela, em meu Sonho" - Poema de Alfredo Guisado


Lady with a Harp, portrait of  Eliza Ridgely by Thomas Sully, 1818



Ela, em meu Sonho


Ela vivia num palácio mouro... 
Nas harpas, os seus dedos a espreitarem 
como pajens curiosos, a afastarem 
os cortinados todos fios de ouro. 

As suas mãos, tão leves como as aves, 
ora fugiam volitando, frias, 
ora pesam, trémulas, suaves, 
nas cordas, a sonharem melodias... 

E os sons que ela tangia, aos seus ouvidos 
chegaram, receosos de senti-la, 
voltavam a não ser nunca tangidos. 

É que ela, as suas mãos, as harpas de ouro, 
não eram mais do que um supor ouvi-la 
e o meu julgá-la num palácio mouro. 


Alfredo Guisado, in 'Antologia Poética'


Alfredo Guisado 


Alfredo Guisado foi um poeta português, nascido a 30 de outubro de 1891, em Lisboa, e falecido a 30 de novembro de 1975, na mesma cidade. 
Assinou, entre 1915 e 1917, algumas obras com o nome Pedro de Meneses
Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, foi deputado pelo Partido Republicano Português, tendo também desenvolvido a atividade de jornalista. 
Colaborou, entre outras publicações, nas revistas Renascença, Orpheu, Exílio e SW. O essencial da sua atividade poética foi publicado na segunda década do século XX, no contexto da renovação poética do modernismo, produção que viria ser coligida ainda em vida do autor, em 1970, num volume designado Tempo de Orpheu
Se em Distância ecoa a estética sintetizada pelo poema-programa do paulismo Impressões de Crepúsculo de Fernando Pessoa, a publicação de 15 Sonetos no primeiro número de Orpheu, posteriormente coligidos em Ânfora, confirmam-no como um poeta na confluência de estesias várias como, além do paulismo, o simbolismo, o decadentismo e o saudosismo.  
No artigo "Bibliographia - Movimento Sensacionista", publicado em Exílio, em 1916, a propósito de uma recensão ao livro de Pedro Meneses, Elogio da Paisagem, Fernando Pessoa ao fazer um balanço das atividades do grupo de Orpheu, insere o autor no "movimento sensacionista", enaltecendo, nas suas composições, "a exuberância abstrato-concreta das imagens", a "riqueza de sugestão na associação dellas", a "profunda intuição metaphysica". 
Destas influências Alfredo Guisado cria uma arte poética original que tem como traços recorrentes: liberdades lexicais e sintáticas; regências insólitas; maiusculação de nomes; os compostos por justaposição; sinestesias; a alegorização e metaforização aristocrática, medievalista e exótica; num preciosismo que tende menos para a expressão de sentimentos do que para figurar como motivos do trabalho estético do poema. 
Óscar Lopes (Entre Fialho e Nemésio, II, Lisboa, 1987) ressalta a "inventividade da metáfora" e "equilíbrio de gosto", a "elegância do verso" deste autor que surpreende pela originalidade das imagens e alegorias, pelo ornamento do poema e pela expressão dramática da despersonalização:


Outrora alguém olhou com os meus olhos 
E alguém sentiu também com meus sentidos. 
Alguém foi Eu em sonhos derruídos, 
Alguém viveu de mim ante os teus olhos. 

Por isso se me vejo, me conheço 
De me ter visto outrora no meu Eu. 
O meu passado é tudo que adormeço 
Tudo o que envolvo em mim e me esqueceu. 

E as minhas mãos que no teu sonho exaltas, 
Outrora para Deus as elevei... 
Não tocavam em Deus, eram mais altas. 

Minha presença é alma que se ausenta 
E o meu passado que ante mim deixei. 
Uma cadeira onde ninguém se senta. 

Alfredo Guisado, «Outrora» in 'Ânfora' 
 
 
Alfredo Guisado. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-09-10].