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sábado, 13 de dezembro de 2014

"A meias" - Poema de João Luís Barreto Guimarães


 Ron Hicks (American Impressionist painter, b. 1965)
And Then They Exhaled, 2013


A meias


Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.


João Luís Barreto Guimarães, in «Poesia Reunida»,
Quetzal, Lisboa, 2011

[João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto, Portugal, em Junho de 1967. Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. Publicou 8 livros de poesia, os primeiros sete reeditados em "Poesia Reunida" (2011), a que se seguiu o seu mais recente título "Você está aqui" (2013).]


Pintura de Ron Hicks


"Usa a capacidade que tens. A floresta ficaria mais silenciosa se só o melhor pássaro cantasse."



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"Chove? Nenhuma chuva cai" - Poema de Fernando Pessoa


Gustave Caillebotte (Paris, 1848-1894), Richard Gallo and His Dog at Petit Gennevilliers, 1884


Chove? Nenhuma chuva cai... 

 
Chove? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia?

Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...
No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia

Põe dias de ilhas vistas do convés
No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...
 
 
 Fernando Pessoa, in Cancioneiro


Gustave Caillebotte, The Gardeners, 1875-1877 


"O tempo é demasiadamente lento para os que esperam; veloz para os que o temem; prolongado para os que sofrem; curto para os que se divertem; mas para os que amam, o tempo não conta". 

Henry Van Dyke (1852-1933), diplomata, pastor e escritor americano.