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sábado, 13 de julho de 2019

"Risos" - Poema de Casimiro de Abreu



Simon Glücklich (1863 - 1943), Children on a meadow in blossom



Risos


Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!

A vida é triste — quem nega?
— Nem vale a pena dizê-lo.
Deus a parte entre seus dedos
Qual um fio de cabelo!

Como o dia, a nossa vida
Na aurora é — toda venturas,
De tarde — doce tristeza,
De noite — sombras escuras!

A velhice tem gemidos,
— A dor das visões passadas —
A mocidade — queixumes,
Só a infância tem risadas!

Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!


Rio, 1858

domingo, 15 de outubro de 2017

"Minha Mãe" - Poema de Casimiro de Abreu


Arthur John Elsley (British Painter, 1860-1952), Good Night, 1914



Minha Mãe


Da pátria distante e saudoso,
Chorando e gemendo meus cantos de dor,
Eu guardo no peito a imagem querida
Do mais verdadeiro, do mais santo amor:
- Minha mãe! -

Nas horas caladas das noites de estio,
Sentado sozinho com a face na mão,
Eu choro e soluço por quem me chamava
O filho querido do seu coração:
- Minha mãe! -

No berço, pendente dos ramos floridos,
Em que eu pequenino feliz dormitava,
Quem é que esse berço com todo o cuidado
cantando cantigas alegres embalava?
- Minha mãe! -

De noite, alta noite, quando eu já dormia,
Sonhando esses sonhos dos anjos dos céus,
Quem é que meus lábios dormentes roçava,
Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus?
- Minha mãe! -

Feliz bom filho, que pode contente
Na casa paterna, de noite e de dia,
Sentir as carícias do anjo de amores,
Da estrela brilhante que a vida nos guia:
- Uma mãe! -

Por isso eu agora, na terra do exílio,
Sentado sozinho com a face na mão,
Suspiro e soluço por quem me chamava:
«Oh filho querido do meu coração!»
- Minha mãe! -





Arthur John Elsley, Baby's Bath Time



"Um único raio de sol é suficiente para afastar várias sombras."



quinta-feira, 1 de junho de 2017

"Infância" - Poema de Casimiro de Abreu


Charles Webster Hawthorne (1872 -1930), At the Seaside, 1920


Infância


Ó anjo da loura trança, 
Que esperança 
Nos traz a brisa do sul! 
– Correm brisas das montanhas... 
Vê se apanhas 
A borboleta de azul!...

Ó anjo da loura trança, 
És criança, 
A vida começa a rir. 
– Vive e folga descansada, 
Descuidada 
Das tristezas do porvir.

Ó anjo da loura trança, 
Não descansa 
A primavera inda em flor; 
Por isso aproveita a aurora 
Pois agora 
Tudo é riso e tudo amor.

Ó anjo da loura trança, 
A dor lança 
Em nossa alma agro descrer. 
– Que não encontres na vida 
Flor querida, 
Senão contínuo prazer.

Ó anjo da loura trança, 
A onda é mansa 
O céu é lindo dossel; 
E sobre o mar tão dormente, 
Docemente 
Deixa correr teu batel.

Ó anjo da loura trança, 
Que esperança 
Nos traz a brisa do sul!... 
– Correm brisas das montanhas... 
Vê se apanhas 
A borboleta de azul!...


In As Primaveras, 1859




Mary Cassatt, Children on the Beach, 1884


"Importa dar aos outros o amor de os ouvir. A criança ama quem for capaz de se partilhar com ela. De lhe dar o que é, sem cuidar de exigir nada em troca. Os nossos melhores amigos são sempre crianças."

(José Luís Nunes Martins)
 
 

domingo, 28 de maio de 2017

"Deus" - Poema de Casimiro de Abreu


Hans Dahl (Norwegian, 1849-1937),  Summer Day



Deus


Eu me lembro! eu me lembro! – Era pequeno 
E brincava na praia; o mar bramia 
E erguendo o dorso altivo, sacudia 
A branca escuma para o céu sereno 

E eu disse a minha mãe nesse momento: 
“Que dura orquestra! Que furor insano! 
“Que pode haver maior que o oceano, 
“Ou que seja mais forte do que o vento?!” – 

Minha mãe a sorrir olhou p’r’os céus 
E respondeu: – “Um Ser que nós não vemos 
“É maior do que o mar que nós tememos, 
“Mais forte que o tufão! Meu filho, é – Deus!” – 


In As Primaveras, 1859


segunda-feira, 17 de abril de 2017

"A Valsa" - Poema de Casimiro de Abreu


Pavel Svedomsky (Russian, 1848-1904), A kiss



A Valsa


Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranquila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos, 
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...

Calado,
Sozinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!

Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!

Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!




sábado, 18 de julho de 2015

"Clara" - poema de Casimiro de Abreu





Clara


Não sabes, Clara, que pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez... quem sabe... não digo...
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra, 
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo! 

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!




Henri de Toulouse-Lautrec, La Toilette, 1896



"A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte."



domingo, 5 de maio de 2013

"Perfumes e Amor" - Poema de Casimiro de Abreu


Acácia ou Mimosa (Acacia podalyriifolia A.Cunn)



Perfumes e Amor 


A flor mimosa que abrilhanta o prado 
Ao sol nascente vai pedir fulgor; 
E o sol, abrindo da açucena as folhas, 
Dá-lhe perfumes - e não nega amor. 

Eu que não tenho, como o sol, seus raios, 
Embora sinta nesta fronte ardor, 
Sempre quisera ao encetar teu álbum 
Dar-lhe perfumes - desejar-lhe amor. 

Meu Deus! Nas folhas deste livro puro 
Não manche o pranto da inocência o alvor, 
Mas cada canto que cair dos lábios 
Traga perfumes - e murmure amor. 

Aqui se junte, qual num ramo santo, 
Do nardo o aroma e da camélia a cor, 
E possa a virgem, percorrendo as folhas, 
Sorver perfumes - respirar amor. 

Encontre a bela, caprichosa sempre, 
Nos ternos hinos d'infantil frescor 
Entrelaçados na grinalda amiga 
Doces perfumes - e celeste amor. 

Talvez que diga, recordando tarde 
O doce anelo do feliz cantor: 
"Meu Deus! Nas folhas do meu livro d'alma 
Sobram perfumes - e não falta amor!" 





Açucena ou Lírio (Lilium candidum)


 
Camélia (Camellia Japonica)


Petúnia púrpura (Petunia hybrida)


Peonía (Paeonia suffruticosa)


Ranúnculos (Ranunculus Asiaticus)



Prímulas 
(Primula acaulis)


Flor-de-Lis, Lírio-Asteca, Lírio-de-Saint-James, Lírio-Jacobino, ou Lírio-Orquídea 
(Sprekelia formosíssima)


Alfazema ou lavanda (Lavandula)

terça-feira, 27 de março de 2012

"Simpatia" - Poema de Casimiro de Abreu


Frédéric Soulacroix (French, 1858-1933), Tea on the Terrace



Simpatia 


Simpatia – é o sentimento 
Que nasce num só momento, 
Sincero, no coração; 
São dois olhares acesos 
Bem juntos, unidos, presos 
Numa mágica atração. 

Simpatia – são dois galhos 
Banhados de bons orvalhos 
Nas mangueiras do jardim; 
Bem longe às vezes nascidos, 
Mas que se juntam crescidos 
E que se abraçam por fim. 

São duas almas bem gémeas 
Que riem no mesmo riso, 
Que choram nos mesmos ais; 
São vozes de dois amantes, 
Duas liras semelhantes, 
Ou dois poemas iguais. 

Simpatia – meu anjinho, 
É o canto de passarinho, 
É o doce aroma da flor; 
São nuvens dum céu d’agosto 
É o que m’inspira teu rosto… 
- Simpatia – é quase amor!


Casimiro de Abreu




Pinturas de Frédéric Soulacroix












Frédéric Soulacroix



"A educação é o maior e mais difícil problema imposto ao homem."

(Immanuel Kant)


Immanuel Kant (Königsberg, 22 de abril de 1724 — Königsberg, 12 de fevereiro de 1804) foi um filósofo prussiano, geralmente considerado como o último grande filósofo dos princípios da era moderna, indiscutivelmente um dos pensadores mais influentes. Depois de um longo período como professor secundário de geografia, começou em 1755 a carreira universitária ensinando Ciências Naturais. Em 1770 foi nomeado professor catedrático da Universidade de Königsberg, cidade da qual nunca saiu, levando uma vida monotonamente pontual e só dedicada aos estudos filosóficos. Realizou numerosos trabalhos sobre ciência, física, matemática, etc. Kant operou, na epistemologia, uma síntese entre o racionalismo continental (de René Descartes e Gottfried Leibniz, onde impera a forma de raciocínio dedutivo), e a tradição empírica inglesa (de David Hume, John Locke, ou George Berkeley, que valoriza a indução). Kant é famoso sobretudo pela elaboração do denominado idealismo transcendental: todos nós trazemos formas e conceitos a priori (aqueles que não vêm da experiência) para a experiência concreta do mundo, os quais seriam de outra forma impossíveis de determinar. A filosofia da natureza e da natureza humana de Kant é historicamente uma das mais determinantes fontes do relativismo conceptual que dominou a vida intelectual do século XX. No entanto, é muito provável que Kant rejeitasse o relativismo nas formas contemporâneas, como por exemplo o Pós-modernismo. Kant é também conhecido pela filosofia moral e pela proposta, a primeira moderna, de uma teoria da formação do sistema solar, conhecida como a hipótese Kant-Laplace.


Frédéric Soulacroix


"Duas coisas que me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento dela se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim."

(Immanuel Kant)



terça-feira, 20 de março de 2012

"Primavera" - Poema de Casimiro de Abreu


Ilustração de Edward Julius Detmold (1883-1957) 


Primavera 


A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.

Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.

Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.

A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.

Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: - Como é linda a veiga!
Responde a rosa: - Como é doce o orvalho!




Ilustração Edward Julius Detmold 



"Se não tivéssemos inverno, a primavera não seria tão agradável: se não experimentássemos algumas vezes o sabor da adversidade, a prosperidade não seria tão bem-vinda." 

(Anne Bradstreet)





Poetisa norte-americana [cuja nacionalidade se convencionou ser norte-americana], Anne Bradstreet nasceu no ano de 1612 em Northampton, na Inglaterra. O pai, funcionário do Conde de Lincoln, havia participado no movimento da Reforma, acabando por se tornar impopular pelas suas convicções religiosas. 
A família foi posta aos cuidados do filho de um sacerdote puritano, Simon Bradstreet, assistente na recém-criada companhia de navegação Massachusetts Bay Company, e com quem Anne casou, quando contava apenas dezasseis anos de idade. Em 1630 emigrou com a família para a América a bordo do Arbella, embarcação lendária por ter sido uma das primeiras a prestar serviço no êxodo puritano. 
Chegados à Nova Inglaterra após três meses de tribulações, procuraram instalar-se: o pai de Anne conseguiu ser nomeado Vice-Governador de Boston e o marido Administrador-Principal da mesma cidade. 
Não obstante, Anne não teve a mesma sorte: à dureza da viagem acresceram as dificuldades de adaptação ao clima e ao processo de estabelecimento. Assim, após ter contraído papeira, foi vítima de uma paralísia progressiva que lhe afetou as articulações, o que não a impediu de dar à luz oito crianças. 
Restringida ao domínio das tarefas domésticas, Anne procurou sublimar as longas e continuadas ausências do marido, sempre tratando dos assuntos de estado e da fixação dos pioneiros, lendo e escrevendo versos. 
Em 1649, um dos seus irmãos levou consigo um manuscrito contendo os seus poemas, que publicou com o título The Tenth Muse (1649). O livro seria reeditado no ano seguinte como The Tenth Muse Lately Sprung Up In America (1650), desta feita em Boston. Escrevendo sobre a vida quotidiana dos colonos britânicos na América, a obra de Bradstreet, embora demonstrando uma certa vivacidade, foi esquecida, pela abundância de lugares-comuns e estética puritana, por constituir um exercício de estilo imitativo da poesia da época. Foi no entanto redescoberta pelas feministas do século XX, que afirmaram encontrar nos poemas de Bradstreet qualidades artísticas significativas. 
A sua saúde periclitante foi seriamente abalada quando contraiu tuberculose, que veio eventualmente a causar-lhe a morte, ocorrida a 16 de setembro de 1672, em Andover, Massachusetts. (Daqui)



Edward Julius Detmold, "Three large butterflies on irises and lilies"



"O inverno cobre minha cabeça, mas uma eterna primavera vive em meu coração." 





John Mayer - Half of my heart


sábado, 17 de março de 2012

"Minha alma é triste" - Poema de Casimiro de Abreu


Maximilien Luce (1858 -1941), Man Washing, 1887



Minha alma é triste


Minh'alma é triste como a rola aflita 
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora, 
E em doce arrulo que o soluço imita 
O morto esposo gemedora chora. 

E, como a rola que perdeu o esposo, 
Minh'alma chora as ilusões perdidas, 
E no seu livro de fanado gozo 
Relê as folhas que já foram lidas. 

E como notas de chorosa endeixa 
Seu pobre canto com a dor desmaia, 
E seus gemidos são iguais à queixa 
Que a vaga solta quando beija a praia. 

Como a criança que banhada em prantos 
Procura o brinco que levou-lhe o rio, 
Minha'alma quer ressuscitar nos cantos 
Um só dos lírios que murchou o estio. 

Dizem que há, gozos nas mundanas galas, 
Mas eu não sei em que o prazer consiste. 
— Ou só no campo, ou no rumor das salas, 
Não sei porque — mas a minh'alma é triste! 

Minh'alma é triste como a voz do sino 
Carpindo o morto sobre a laje fria; 
E doce e grave qual no templo um hino, 
Ou como a prece ao desmaiar do dia. 

Se passa um bote com as velas soltas, 
Minh'alma o segue n'amplidão dos mares; 
E longas horas acompanha as voltas 
Das andorinhas recortando os ares. 

Às vezes, louca, num cismar perdida, 
Minh'alma triste vai vagando à toa, 
Bem como a folha que do sul batida 
Bóia nas águas de gentil lagoa! 

E como a rola que em sentida queixa 
O bosque acorda desde o albor da aurora, 
Minha'alma em notas de chorosa endeixa 
Lamenta os sonhos que já tive outrora. 

Dizem que há gozos no correr dos anos!... 
Só eu não sei em que o prazer consiste. 
— Pobre ludíbrio de cruéis enganos, 
Perdi os risos — a minh'alma é triste! 

Minh'alma é triste como a flor que morre 
Pendida à beira do riacho ingrato; 
Nem beijos dá-lhe a viração que corre, 
Nem doce canto o sabiá do mato! 

E como a flor que solitária pende 
Sem ter carícias no voar da brisa, 
Minh'alma murcha, mas ninguém entende 
Que a pobrezinha só de amor precisa! 

Amei outrora com amor bem santo 
Os negros olhos de gentil donzela, 
Mas dessa fronte de sublime encanto 
Outro tirou a virginal capela. 

Oh! quantas vezes a prendi nos braços! 
Que o diga e fale o laranjal florido! 
Se mão de ferro espedaçou dois laços 
Ambos choramos mas num só gemido! 

Dizem que há gozos no viver d'amores, 
Só eu não sei em que o prazer consiste! 
— Eu vejo o mundo na estação das flores 
Tudo sorri — mas a minh'alma é triste! 

Minh'alma é triste como o grito agudo 
Das arapongas no sertão deserto; 
E como o nauta sobre o mar sanhudo, 
Longe da praia que julgou tão perto! 

A mocidade no sonhar florida 
Em mim foi beijo de lasciva virgem: 
— Pulava o sangue e me fervia a vida, 
Ardendo a fronte em bacanal vertigem. 

De tanto fogo tinha a mente cheia!... 
No afã da glória me atirei com ânsia... 
E, perto ou longe, quis beijar a sereia 
Que em doce canto me atraiu na infância. 

Ai! loucos sonhos de mancebo ardente! 
Esperanças altas... Ei-las já tão rasas!... 
— Pombo selvagem, quis voar contente... 
Feriu-me a bala no bater das asas! 

Dizem que há gozos no correr da vida... 
Só eu não sei em que o prazer consiste! 
— No amor, na glória, na mundana lida, 
Foram-se as flores — a minh'alma é triste!


Casimiro de Abreu (1839-1860),
 poeta romântico brasileiro.



Miranda Lambert - New Strings




“As bibliotecas são fascinantes: às vezes parece-nos estar sob a marquise de uma estação ferroviária e, consultando livros sobre terras exóticas, tem-se a impressão de viajar a paragens longínquas”.




sábado, 11 de fevereiro de 2012

"Desejo" - Poema de Casimiro de Abreu


Pintura de An He (Guangzhou, China, 1957)



Desejo


Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então! 

Se essa mulher fosse linda 
Como os anjos lindos são, 
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão, 
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão; 

Se tivesse a tez morena, 
Os olhos com expressão, 
Negros, negros, que matassem, 
Que morressem de paixão, 
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução; 

Se as tranças fossem escuras, 
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração, 
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão; 

Se a fronte pura e serena 
Brilhasse d'inspiração, 
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão, 
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão; 

Se a voz fosse harmoniosa 
Como d'harpa a vibração,
Suave como a da rola 
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção; 

E se o peito lhe ondulasse 
Em suave ondulação, 
Ocultando em brancas vestes 
Na mais branda comoção 
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação; 

E se essa mulher formosa 
Que me aparece em visão, 
Possuísse uma alma ardente, 
Fosse de amor um vulcão; 
Por ela tudo daria...
— A vida, o céu, a razão! 





Casimiro de Abreu


Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860), poeta romântico brasileiro. Dono de rimas cantantes, ao gosto do público, Casimiro de Abreu publicou apenas um livro, As Primaveras (1859). Filho de um rico comerciante, Casimiro de Abreu nasceu em Barra de São João (Rio de Janeiro) e cresceu no Rio, então capital do Império e centro cultural do país. Entre 1853 e 1857, estudou em Portugal. A vocação literária, porém, suplantou a vida académica. Em Lisboa, iniciou-se como poeta e dramaturgo. A peça Camões e Jaú estreou no teatro D. Fernando e, nela, o autor proclama sua brasilidade, as saudades dos trópicos e refere-se a Portugal como "velho e caduco". De volta ao Brasil, dedicou-se à atividade comercial, com o apoio paterno. Mas definia este trabalho como uma "vida prosaica…que enfraquece e mata a inteligência". Morreu aos 21 anos, de tuberculose, em Nova Friburgo, estado do Rio de Janeiro. Seu poema mais famoso é Meus Oito Anos. Da segunda geração romântica brasileira, Casimiro de Abreu cultivava um lirismo de expressão simples e ingénua. Seus temas dominantes foram o amor e a saudade. Embora criticado por deslizes de linguagem e falta de embasamento filosófico, Casimiro de Abreu é admirado, justamente, pela simplicidade. Alguns versos acabaram se incorporando à linguagem corrente como, por exemplo, simpatia é quase amor, hoje nome de um famoso bloco do carnaval carioca. 
É pequena a obra poética de Casimiro de Abreu. Porém, deixou-nos de forma marcante, a poesia da saudade: "Canção do exílio" ("Meu lar") em que partia da aceitação premonitória, "Se eu tenho de morrer na flor dos anos", para a formulação de um desejo que se realizou plenamente: "Quero morrer cercado dos perfumes / Dum clima tropical.”“Meus Oito Anos, Minha Terra” - poemas escritos em Portugal, onde adquiriu sua educação literária. (Daqui)


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"Meus Oito Anos" - Poema de Casimiro de Abreu


Sophie Gengembre Anderson, O pastor flautista (1881)



Meus Oito Anos 


Oh! que saudades que tenho 
Da aurora da minha vida, 
Da minha infância querida 
Que os anos não trazem mais! 
Que amor, que sonhos, que flores, 
Naquelas tardes fagueiras 
À sombra das bananeiras, 
Debaixo dos laranjais! 

Como são belos os dias 
Do despontar da existência! 
- Respira a alma inocência 
Como perfumes a flor; 
O mar - é lago sereno, 
O céu - um manto azulado, 
O mundo - um sonho dourado, 
A vida - um hino d'amor! 

Que aurora, que sol, que vida, 
Que noites de melodia 
Naquela doce alegria, 
Naquele ingénuo folgar! 
O céu bordado d'estrelas, 
A terra de aromas cheia 
As ondas beijando a areia 
E a lua beijando o mar! 

Oh! dias da minha infância! 
Oh! meu céu de primavera! 
Que doce a vida não era 
Nessa risonha manhã! 
Em vez das mágoas de agora, 
Eu tinha nessas delícias 
De minha mãe as carícias 
E beijos de minha irmã! 

Livre filho das montanhas, 
Eu ia bem satisfeito, 
Da camisa aberta o peito, 
- Pés descalços, braços nus - 
Correndo pelas campinas 
A roda das cachoeiras, 
Atrás das asas ligeiras 
Das borboletas azuis! 

Naqueles tempos ditosos 
Ia colher as pitangas, 
Trepava a tirar as mangas, 
Brincava à beira do mar; 
Rezava às Ave-Marias, 
Achava o céu sempre lindo. 
Adormecia sorrindo 
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho 
Da aurora da minha vida, 
Da minha infância querida 
Que os anos não trazem mais! 
- Que amor, que sonhos, que flores, 
Naquelas tardes fagueiras 
A sombra das bananeiras 
Debaixo dos laranjais! 


Casimiro de Abreu 


Casimiro José Marques de Abreu (Capivary, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860) foi um poeta brasileiro da segunda geração romântica. Dono de rimas cantantes, ao gosto do público, Casimiro de Abreu publicou apenas um livro, As Primaveras (1859). Morreu aos 21 anos, de tuberculose, em Nova Friburgo, estado do Rio de Janeiro. Seu poema mais famoso é Meus Oito Anos. Da segunda geração romântica brasileira, Casimiro de Abreu cultivava um lirismo de expressão simples e ingénua. Seus temas dominantes foram o amor e a saudade.





"O comportamento é um espelho no qual todos mostramos o que somos."



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