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quinta-feira, 7 de maio de 2026

"Ah, abram-me outra realidade!" - Poema de Álvaro de Campos



Paul Signac (French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Capo di Noli', 1898, oil on canvas, 93.5 × 75 cm,
Wallraf–Richartz Museum, Cologne.


Ah, abram-me outra realidade!


Ah, abram-me outra realidade! 
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos 
E ter visões por almoço. 
Quero encontrar as fadas na rua! 
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras, 
Desta civilização feita com pregos. 
Quero viver como uma bandeira à brisa, 
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram. 
Meu coração verdadeiro continuará velando 
Pano brasonado a esfinges, 
No alto do mastro das visões 
Aos quatro ventos do Mistério. 
O Norte — o que todos querem 
O Sul — o que todos desejam 
O Este — de onde tudo vem 
O Oeste — aonde tudo finda 
— Os quatro ventos do místico ar da civilização 
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo.

04-04-1929

Álvaro de Campos, in 'Livro de Versos' - Fernando Pessoa.
(Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.)
Lisboa: Estampa, 1993. - 99.


Paul Signac
(French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Portrait of Félix Fénéon' (French art critic, gallery director, writer
and anarchist, 1861–1944), 1890, Museum of Modern Art.



Neoimpressionismo

O Neoimpressionismo foi um movimento artístico  do final do século XIX, iniciado pelo pintor francês Georges Seurat (1859–1891), que, retomando a atenção dada pelo impressionismo ao tratamento da luz e da cor, introduziu novas técnicas e conceitos, como o Pontilhismo ou o Divisionismo. (daqui)

Pós-impressionismo

O Pós-impressionismo  foi um movimento artístico que, entre o final do século XIX e o início do século XX, procurou superar o Impressionismo, contribuindo para o despontar de diferentes vanguardas como o Expressionismo, o Fauvismo, o Cubismo, etc. (daqui) 

O movimento pós-impressionista surgiu como uma intelectualização do Impressionismo, entendido pelos artistas que o integraram como um método empírico de perceção da realidade. O pintor Georges Seurat (1859–1891) foi considerado o principal teorizador deste movimento e o primeiro a desenvolver a técnica do pontilhismo. Através da sua "pintura ótica", Seurat apresentou os fundamentos desta nova técnica, posteriormente seguida por outros pintores como Paul Signac (1863–1935). 

Ao contrário dos impressionistas que aplicavam e misturavam a tinta sobre a paleta, Seurat colocava-a diretamente sobre a tela em pequenos pontos de concentração variável, correspondentes às cores do objeto visto de perto. Por sua vez, estes pontos eram compostos na retina, através de um processo de mistura ótica. Um maior efeito lumínico e cromático era desta forma conseguido, pelo contraste simultâneo. Dando forma e expressão às formulações no campo da teoria da cor, Seurat tentou racionalizar as sensações causadas pela pintura. Na obra 'Grande Jatte', realizada entre 1884 e 1885, concretiza os fundamentos da sua estética e pesquisa pictórica.

Os seus contemporâneos Vincent van Gogh (1853–1890) e Paul Gauguin (1848–1903) contribuíram igualmente para a definição de uma pintura baseada na simbologia codificada da cor, como meio de expressão de sentimentos e tensões.
Paul Cézanne (1839–1906) desenvolve uma representação objetiva, menos emotiva, que se revela tendência para a geometrização dos elementos formais da composição. 
(daqui)


Paul Signac, 'In the Time of Harmony: the Golden Age is not in the Past, it is in the Future'
('Au temps d'harmonie'), 
1893–95, oil on canvas, 310 x 410 cm.


domingo, 19 de março de 2023

"Prognóstico" - Poema de A. M. Pires Cabral



Paul Cézanne
(French, 1839–1906), Portrait of Victor Chocquet (French art collector 
and an ardent propagandist of Impressionism, 1821–1891), 1877, 
 


Prognóstico

 
Sou do tempo em que não se corrigiam
dentes defeituosos.
Além disso, perdi praticamente
todos os molares.
Para piorar as coisas,
a TAC acusa um desvio para a esquerda
do septo nasal.
Ainda por cima, um desvio acentuado.
Bonita caveira hei de dar,
não haja dúvida. 


A. M. Pires Cabral
, in
“As têmporas da cinza”, 
Editora Cotovia


Pierre-Auguste Renoir (French, 1841–1919), Portrait of Victor Chocquet, 1876
 

"As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas." 

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta, 1929  

 

 

"Cartas a Um Jovem Poeta" (1929), agora em edição bilingue posfaciada por José Miranda Justo, reúne dez epístolas publicadas postumamente e enviadas ao longo de cinco anos por Rainer Maria Rilke a Franz Xaver Kappus, jovem militar que procurava dar os primeiros passos na poesia. Neste compêndio vital sobre o ofício do poeta, a intensidade lírica e a tocante humildade das suas linhas fundem-se sublimemente com as reflexões em torno da criação poética, dando corpo a uma conduta de vida, norteada pelo rigor e pela integridade. "Cartas a Um Jovem Poeta" perdurarão como uma meditação sobre a posição do poeta no mundo moderno e como uma lição de independência sem concessões, num mundo em que o homem cada vez mais se anula na multidão.

Rainer Maria Rilke (1875-1926) é um dos maiores poetas de língua alemã do século XX. Solitário inveterado, levou uma vida errante e instável, desde os dias de dandismo na sua Praga natal aos périplos pela Rússia, a sua pátria espiritual, pelo Egipto, Itália e Espanha. Travou amizades com alguns dos criadores mais importantes da sua época, em particular, Auguste Rodin, de quem foi secretário. Autor de várias coletâneas de poesia, entre as quais Os Sonetos a Orfeu" (1922) e "As Elegias de Duíno" (1923), correspondência e prosa, a sua magistral obra, tão lírica quanto mística, assumiu contornos de reflexão profunda sobre a procura de transcendência. (daqui)
 
 
Maurice Denis (French painter, decorative artist, and writer, 1870– 1943),  Homage to Cézanne  
(Hommage à Cézanne), 1900. Oil on canvas,  Musée d'Orsay, Paris. 
 
[Hommage à Cézanne est un tableau du peintre français Maurice Denis exécuté en 1900. Cette huile sur toile représente des personnalités du monde de l'art réunis dans la galerie Vollard, à Paris, autour d'une nature morte du peintre Paul Cézanne, "Compotier, Verre et Pommes". 
De gauche à droite, y figurent en effet Odilon Redon, Édouard Vuillard, André Mellerio, Ambroise Vollard, Maurice Denis lui-même, Paul Sérusier, Paul-Élie Ranson, Ker-Xavier Roussel, Pierre Bonnard et enfin Marthe Denis, l'épouse de l'artiste. Le tableau, un portrait de groupe, qui contient aussi un autoportrait, est conservé au musée d'Orsay.] (daqui)


"Há alguma evidência de que a dignidade da arte depende do tamanho do interesse dos que admiram".

Theodor W. Adorno, (Filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão, 1903–1969), 
 
 

sábado, 18 de março de 2023

"Não é um gato" - Poema de José Luís Peixoto


Marius Borgeaud (Swiss Post-Impressionist painter, 1861–1924),
«Intérieur aux deux verres», 1923, Huile sur toile (97 cm X 130 cm).
Musée cantonal des Beaux-Arts, Lausanne
 
 
Não é um gato

 
Não é um gato, é uma gata.
Compreendo que seja mais fácil
reduzir todos os gatos a gatos,
mas peço-lhe que, por fineza,
abra uma exceção. É uma gata,
não amamentou gatinhos,
ou porque não teve escolha,
ou, mais provavelmente,
porque não quis. É uma gata,
aluada em certas noites,
a lamber-se sem vergonha,
a desfrutar do seu próprio cio.
Compreendo que seja mais fácil,
sei que não fez por mal, nunca
ninguém faz por mal, já reparou?
Mas peço-lhe que preste atenção
e, no futuro, não volte a cometer
esse erro tão comum. É uma gata,
não é um gato, é uma gata. 
 
 
Marius Borgeaud, «Intérieur au chat», 1918 (62 cm X 53 cm).


"Gatos não pertencem às pessoas. Eles pertencem aos lugares."


"Cats don't belong to people. They belong to places."
 
Wright Morris
Collected Stories, 1948-1986‎ - Página 53,
Publicado por Harper & Row, 1986
 
 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

"Chuva de pedra" - Poema de Menotti Del Picchia


Wassily Kandinsky (1866-1944), Landscape with Rain, January, 1913 – óleo sobre tela, 
70,2 x 78,1 cm,  Solomon R. Guggenheim Museum - New York, USA (Abstract art)
 

 
Chuva de pedra


O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de fruta dos pomares...

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes...

Fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pelos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura a dinamite dos coriscos.

Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos
correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas. No terreiro,
as roupas penduradas nos varais
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados! 


Menotti Del Picchia
, Chuva de pedra, 1925

 

Maurice Prendergast (American (born in Canada), 1858–1924), Umbrellas in the Rain,
 

"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."

8-11-1915  
 

“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro
(Heterónimo de  Fernando Pessoa)

 
Claude Monet (French, 1840-1926), Morning on the Seine in the Rain, 1897-1898, 
óleo sobre tela. National Museum of Western Art, Toquio, Japão (Impressionism)



Provérbios portugueses (daqui)
 
 
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
 
[Significa que «a tenacidade vence todas as dificuldades» (in Dicionário Prático de Locuções e Expressões Correntes, de Emanuel de Moura Correia e Persília de Melim Teixeira, Papiro Editora).]


“Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.”

[Significa que «é difícil ter, ao mesmo tempo, duas coisas opostas.»]

terça-feira, 13 de setembro de 2022

"Nossa Senhora de Paris" - Poema de Mário de Sá-Carneiro


Raoul Dufy, Paris, 1934, óleo sobre tela, 156.5 x 196.2 cm (Post-Impressionism)
Los Angeles County Museum of Art
, Los Angeles, CA, USA

 
 
Nossa Senhora de Paris


Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços de uma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...

Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o Oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais...
Fico sepulto sob círios –
Escureço-me em delírios
Mas ressurjo de Ideais...

– Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e velas...
Orgulho… Estrelas…
Vitrais! Vitrais!

Flores de liz…

Manchas de cor a ogivarem-se…
As grandes naves a sagrarem-se…
– Nossa Senhora de Paris!…

Paris, 15 de junho de 1913

Mário de Sá-Carneiro
, do livro "Indícios de Oiro", in Orpheu  
 
 

quarta-feira, 7 de julho de 2021

"Rosa, Rosae" - Poema de Merícia de Lemos



Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),
Still Life: Vase with Pink Roses, 1890. National Gallery of Art.



Rosa, Rosae


Dá-me rosas, outras rosas
dá-me mais rosas amor.

Já olhaste bem as rosas?
Rosas-bocas rosas-olhos
e há rosas coração.
Há rosas que são sorrisos
e rosas que são paixão
Rosa-beijo, rosa-abraços
e rosas-mãos.

Numa noite de luar
uma grande rosa aberta
acenou-me num jardim:
corri logo para ela
— seria a rosa-aventura?

Pela tarde num caminho
à hora em que o sol cansado
pensa em ir-se deitar
encontrei uma roseira
com uma rosa em botão
muitas folhas e espinhos
— e estava ali porquê?
Linda rosa cor-de-rosa

Era o amor feito rosa,
sem saber...


Merícia de Lemos, in Rosa, Rosae
[Escritora moçambicana, 1913–1996]
 
 
 

Caridade

 
Desfolha-se a rosa.
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa. 
 

Guilherme de Almeida 
(Haicai / Haikai / Haiku)

terça-feira, 20 de abril de 2021

"Motivo" - Poema de Aleilton Fonseca


 
Charles Laval, Self-Portrait, 1888, oil on canvas, 50 × 60 cm,  
Van Gogh Museum, Amsterdam


Motivo


calar é ceder à morte
sob o gume da automordaça

o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto

por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor

sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo

sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
 
 
 
Charles Laval, Paysage de la Martinique, 1887

[Charles Laval (Paris, 17 de março de 1860 - Paris, 26 de abril de 1894) foi um pintor pós-impressionista francês. Foi amigo de Paul Gauguin e Vincent van Gogh.]
 

 Pós-impressionismo


O movimento pós-impressionista surgiu como uma intelectualização do Impressionismo, entendido pelos artistas que o integraram como um método empírico de perceção da realidade. O pintor Georges Seurat foi considerado o principal teorizador deste movimento e o primeiro a desenvolver a técnica do Pontilhismo. Através da sua "pintura ótica", Seurat apresentou os fundamentos desta nova técnica, posteriormente seguida por outros pintores como Paul Signac.

Ao contrário dos impressionistas que aplicavam e misturavam a tinta sobre a paleta, Seurat colocava-a diretamente sobre a tela em pequenos pontos de concentração variável, correspondentes às cores do objeto visto de perto. Por sua vez, estes pontos eram compostos na retina, através de um processo de mistura ótica. Um maior efeito lumínico e cromático era desta forma conseguido, pelo contraste simultâneo. Dando forma e expressão às formulações no campo da teoria da cor, Seurat tentou racionalizar as sensações causadas pela pintura. Na obra A Grande Jatte, realizada entre 1884 e 1885, concretiza os fundamentos da sua estética e pesquisa pictórica.

Os seus contemporâneos Vincent Van Gogh e Paul Gauguin contribuíram igualmente para a definição de uma pintura baseada na simbologia codificada da cor, como meio de expressão de sentimentos e tensões.

Paul Cézanne desenvolve uma representação objetiva, menos emotiva, que se revela tendência para a geometrização dos elementos formais da composição. (daqui)

 

 
Charles Laval, Going to Market, Brittany, 1888, Indianapolis Museum of Art 

Sintetismo

Sintetismo é um estilo e técnica pictórica desenvolvida em França no final do século XIX com o propósito de representar as impressões primárias provocadas pelos objetos e pela natureza, nomeadamente através da redução dos volumes a duas dimensões e do uso de superfícies de cor delimitadas por contornos vigorosos. O termo é usado por artistas pós-impressionistas como Paul Gauguin, Émile Bernard e Louis Anquetin para distinguir seu trabalho do impressionismo. O Sintetismo é outra subcorrente do Simbolismo. Este tipo de arte também é chamado de Neotradicionalismo ou Cloisonnisme (Alveolismo).

 


Paul Gauguin, pintor francês pós-impressionista, nasceu a 7 de junho de 1848, em Paris, e morreu a 8 de maio de 1903, nas Ilhas Marquesas.
Depois de ter sido marinheiro e empregado bancário, decidiu enveredar pela pintura, ao conhecer Camille Pissarro e o trabalho dos impressionistas. Em constante revolta contra os artifícios e os convencionalismos da época, encetou um retorno às origens em Taiti. A Bretanha constitui contudo o primeiro passo no seu percurso artístico. 
Libertando-se do Impressionismo, em O Cristo Amarelo (1889) utiliza cores lisas delimitadas por contornos, processo que se assemelha à arte do vitral medieval, e que vai aperfeiçoar naquilo a que se chamou o "cloisonnisme". 
Em Manao Tupapau (1892), já no Taiti, as prioridades do espaço pictural prevalecem sobre a realidade, as proporções das figuras são deformadas, a perspetiva alterada, as cores são intensas e profundas, mas nunca agressivas. 
Em A Lua e a Terra (1893) expressa os seus sentimentos sobre a cultura maori. 
Com O Cavalo Branco (1898) o seu estilo conserva-se essencialmente o mesmo, mas torna-se mais poderoso. 
A sua obra-prima é a alegoria Donde Vimos? Que Somos? Para Onde Vamos? (1897) uma espécie de testamento mágico-religioso executado antes de uma tentativa de suicídio. 
A sua arte influenciou diretamente os Nabis, o Fauvismo, o Simbolismo e mesmo o Expressionismo de Edvard Munch. (daqui) 

terça-feira, 13 de abril de 2021

"A Catedral" - Poema de Alphonsus de Guimaraens



Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),  
A Catedral

 
Entre brumas, ao longe, surge a aurora.
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu risonho,
Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a bênção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu tristonho,
Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.

E o sino geme em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!" 
 
14 de julho de 1914

Alphonsus de Guimaraens, em “Obra completa”
Poema originalmente publicado no periódico 'Vida de Minas', 
Belo Horizonte, 30 set. 1915
 
 
Alphonsus de Guimaraens
  (1870–1921)
 
Poeta e jurista brasileiro, Alphonsus de Guimaraens, nome literário de Afonso Henriques da Costa Guimarães, nasceu a 24 de julho de 1870, em Ouro Preto, Minas Gerais (Brasil).

Concluiu os seus estudos em Ouro Preto e matriculou-se, em 1887, em Engenharia. Aos 18 anos, a sua prima e noiva Constança morreu, o que o marcou profundamente.

Em 1891, inscreveu-se no Curso de Direito da Faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo. Colaborou com a imprensa paulista e contactou com jovens simbolistas. Em 1895, em viagem ao Rio de Janeiro, conheceu o grande simbolista Cruz e Sousa. Após a conclusão do curso em 1895, regressa a Minas Gerais, casa-se em 1897 com Zenaide de Oliveira, de quem teve 14 filhos e é nomeado juiz, na cidade de
Mariana, em 1906.

Quanto à sua obra literária, Alphonsus de Guimaraens escreveu os livros de poesia Sentenário das Dores de Nossa Senhora (1899), Câmara Ardente (1899), Dona Mística (1899), Kyriale (1902), Pauvre Lyre (1921), Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte (1923) e o livro de prosa Mendigos (1920). 
 
A sua obra, influenciada por Verlaine e Mallarmé, é marcada por um lirismo místico, em que Constança, a amada perdida, está sempre presente. Para além do misticismo, a morte e o amor são temáticas essenciais na poesia de Guimaraens. Esta, constituída por uma linguagem simples, cheia de aliterações e sinestesias, apresenta maior sucesso quando é utilizada na forma de soneto.

A 15 de julho de 1921, Alphonsus de Guimaraens, uma das figuras principais do movimento simbolista brasileiro, morreu em
Mariana, Minas Gerais.

Numa iniciativa do Ministério da Educação, toda a obra poética de Alphonsus de Guimaraens foi publicada em 1938, numa edição revista e dirigida por Manuel Bandeira.
(daqui)
 
 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

"Ode à Cebola" - Poema de Pablo Neruda



Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),
'Still Life with Drawing Board and Onions' (Still Life: Drawing Board,
Pipe, Onions and Sealing-Wax)
, 1889, Kröller-Müller Museum.

Ode à Cebola


Cebola,
luminosa redoma,
pétala a pétala
formou-se a tua formosura,
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra sombria
arredondou-se o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
deu-se o milagre
e quando apareceu
teu rude caule verde,
e nasceram
as tuas folhas como espadas no horto
a terra acumulou seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar distante
duplicou a magnólia
levantando-lhe os seios,
a terra
fez-te assim,
cebola,
clara como um planeta,
e destinada
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
dos pobres.

Generosa
desfazes
teu globo de frescura
na consumação
fervente do cozido,
e o girão de cristal
ao calor inflamado do azeite
transforma-se em ondulada pluma de ouro.

Recordarei também como a tua influência
fecunda o amor da salada
e parece que contribui o céu
dando-te a fina forma do granizo
a celebrar a tua luz picada
sobre os hemisférios de um tomate.
Mas ao alcance
das mãos do povo,
regada com azeite,
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no duro caminho.
Estrela dos pobres,
fada madrinha
envolta
em delicado
papel, tu sais do solo,
eterna, intacta, pura
como semente de astros,
e ao cortar-te
a faca de cozinha
sobe a única lágrima
sem mágoa.
Fizeste-nos chorar mas sem sofrer.
Tudo o que existe celebrei, cebola,
mas para mim és
mais formosa que um pássaro
de plumas ofuscantes,
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina,
baile imóvel
de anémona nevada

e a fragância da terra inteira vive
na tua natureza cristalina.


Pablo Neruda, 
in 'Antologia de Pablo Neruda',
editorial Inova, 1973.
Tradução de José Bento



Paul Cézanne (French Post-Impressionist painter, 1839–1906),
'Still Life with red Onions', 1896–1898, Paris, Musée d'Orsay

“Comer está na moda!
Com pedra e pau, faca e cimitarra, com fogo e tambor as pessoas avançam para a mesa. Os grandes continentes desnutridos explodem em mil bandeiras, em mil independências. E tudo vai para a mesa: o guerreiro e a guerreira. Sobre a mesa do mundo, com todo mundo à mesa, voarão as pombas.
Busquemos no mundo a mesa feliz.
Busquemos a mesa onde o mundo aprende a comer. Onde aprende a comer, beber, cantar!
A mesa feliz.” (daqui)

Pablo Neruda (1904–1973)

 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

"A morte não separa" - Texto de José Luís Nunes Martins



Samuel Peploe (Scottish Post-Impressionist painter, 1871–1935),
Jeffrey's Brewery, Edinburgh, 1900



A morte não separa

 
Ninguém pode viver a minha vida por mim. Ninguém pode dar os meus passos, ver o que vejo, sentir as mesmas emoções ou pensar ideias iguais às minhas... ser é fazer a diferença.

A minha existência pode servir de modelo a outros, assim como posso tomar alguém como exemplo a seguir, mas não devemos deixar que o eu se perca, porque quando me confundir com outros perderei o meu maior valor: ser único. Amar não é anular ninguém, antes protegê-lo e promovê-lo, tal qual quer ser. O bem que é.

Não sou o que tenho, não sou o que faço. Sou apenas a marca que deixo... o que decido querer, a cada passo.

Quando nos morre alguém, perde-se a sua referência palpável. É o fim de todas as possibilidades da relação, nos termos em que a conhecemos. Mas, mais do que os seus sapatos – que outro qualquer pode usar – ficam os seus passos, ao lado de quem precisava da sua força, todos os que deu por amor... porque só o que é nobre fica. Tudo o mais é nada.

Porque o amor é a negação da morte, eis que se levanta a mais importante de todas as guerras, o visível contra o invisível, a dúvida contra a fé, o tempo contra a eternidade... cabe a cada um de nós escolher o que quer.

Quando alguém que me ama morre, fica. Contudo, depende de mim aceitar a sua presença no meu íntimo. Assumir a missão de ser um, pelos dois... mais livre do que nunca... mas é isso mesmo que quer quem nos ama de verdade: que sejamos independentes, autónomos e felizes!

Amar é estar sempre a sós com a pessoa que se ama, mesmo quando há uma enorme distância... no espaço e no tempo.

A morte não separa os que se amam, apenas aproxima e une, ainda mais, os que decidem continuar a amar-se.
 

   

domingo, 29 de maio de 2016

"Ismália" - Poema de Alphonsus de Guimaraens



Émile Bernard (Peintre, graveur et écrivain français, 1868–1941),
'Les Bretonnes aux ombrelles', 1892, Musée d'Orsay, Paris. 



Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


Alphonsus de Guimaraens,
do livro lírico "Pastoral aos crentes do amor e da morte", 1923.
Poema integrante da série "As Canções".

[Dentro das tendências simbolistas, com um ritmo envolvente e seu tom musical de canção popular, fez de 'Ismália' o poema mais famoso e popular do Simbolismo brasileiro]



Émile Bernard, 'Autoportrait au vase de fleurs', 1897,
Rijksmuseum Amsterdam.

Émile Bernard (1868–1941) foi um pintor pós-impressionista francês. Também foi escritor, mas obteve maior destaque no campo das artes plásticas. Foi amigo e teve relações artísticas com Vincent van Gogh e Paul Gauguin. Começou seu estilo artístico no pontilhismo, depois passou pelo impressionismo e, por último, pelo cloisonnisme (estilo de pintura pós-impressionista). Abordou, em grande parte de suas obras, temas populares, banhistas, temas religiosos, natureza morta, cenas quotidianas de Paris e o estilo de vida no interior da Bretanha.