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domingo, 14 de fevereiro de 2016

"Testamento" - Poema de Ana Luísa Amaral



Robert Delaunay (French artist of the School of Paris movement, 1885–1941),
Champs de Mars: The Red Tower, 1911. Oil on canvas, 60.7 cm × 128.6 cm,
Art Institute of Chicago.



Testamento 


Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras.




domingo, 7 de fevereiro de 2016

"Um homem e o seu carnaval" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Robert Delaunay (French artist of the School of Paris movement, 1885–1941),
Carousel of Pigs, 1906, Solomon R. Guggenheim Museum.


Um homem e o seu carnaval


Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.


Carlos Drummond de Andrade,
Brejo das Almas, 1934



Queen - Innuendo



domingo, 25 de maio de 2014

"O Ideal da Amizade" - Texto de Sándor Márai


 
Robert Delaunay
, 'Portuguese Woman', 1916, oil on canvas, 135.9 × 161 cm,
Columbus Museum of Art
 
 
O Ideal da Amizade

 
“A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade é uma espécie de amizade. Naturalmente, nesses casos não se trata de verdadeira amizade. Uma pessoa imagina que a amizade é um serviço. O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal. E na verdade, vale a pena viver, ser homem, sem esse ideal? E se um amigo falha, porque não é um verdadeiro amigo, podemos acusá-lo, culpando o seu caráter, a sua fraqueza? Quanto vale aquela amizade, em que só amamos o outro pela sua virtude, fidelidade e perseverança? Quanto vale qualquer afeto que espera recompensa? Não seria nosso dever aceitar o amigo infiel da mesma maneira que o amigo abnegado e fiel? Não seria isso o verdadeiro conteúdo de todas as relações humanas, esse altruísmo que não quer nada e não espera nada, absolutamente nada do outro? E quanto mais dá, menos espera em troca? E se entrega ao outro toda a confiança de uma juventude, toda a abnegação da idade viril e finalmente oferece a coisa mais preciosa que um ser humano pode proporcionar a outro ser humano, a sua confiança absoluta, cega e apaixonada, e depois se vê confrontado com o facto de o outro ser infiel e vil, tem direito de se ofender, de exigir vingança? E se se ofende e grita por vingança, era realmente amigo, o traído e abandonado?…”

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'


Robert Delaunay, 'Autoportrait', 1905–06, oil on canvas

Robert Delaunay (12 de abril de 1885 - 25 de outubro de 1941) era um artista francês que usava o abstracionismo e o cubismo em seu trabalho.
Delaunay concentrado no Impressionismo, quando quis trabalhar mais tarde era mais abstrato, reminiscente de Paul Klee. Sua influência chave relacionou-se ao uso bold (realce) da cor, e a um amor desobstruído da experimentação da profundidade e do tom.
Quando era criança, os pais de Delaunay eram divorciados, sendo criado então por seu tio, no La Ronchère (perto de Burges). Começou a pintar numa idade precoce, e por 1903, produzia imagens maduras num estilo confiante e impressionista. Em 1908, após um semestre no trabalho militar como um bibliotecário regimental, encontrou-se com Sarah Stern que mais tarde seria Sonia Delaunay, e com quem se casaria mais tarde, apesar de na época ser casada com um negociante de arte alemão.
Em 1909, Delaunay começou a pintar uma série de estudos da cidade de Paris e da Torre Eiffel.


 Robert Delaunay, 'La Ville de Paris', 1910–12, oil on canvas, 267 × 406 cm, 

Pelo convite de Wassily Kandinsky, Delaunay junta-se ao grupo "O Cavaleiro Azul" (Der Blaue Reiter), um grupo de artistas abstratos de Munique, em 1911, e sua arte se volta ao abstrato.


 
Robert Delaunay, 'Simultaneous Windows on the City', 1912,  

Na deflagração da I Guerra Mundial, Delaunay e sua esposa encontravam-se de férias na Espanha, e acabaram se estabelecendo com amigos em Portugal durante o conflito. Vieram viver, juntamente com o filho Charles, para Vila do Conde entre o Verão de 1915 e inícios de 1917, numa casa a que chamaram La Simultané. Aí aprofundaram a amizade com os pintores Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros. Robert, tal como Sonia, fascinados pela luz portuguesa, desenvolveu aí as suas teorias sobre a cor simultânea. Neste período, o casal assumiu vários trabalhos desenhando trajes para a ópera de Madrid, e Sonia Delaunay começou um negócio de design de moda.


Robert Delaunay, 'Nu à la toilette' (Nu à la coiffeuse), 1915, oil on canvas, 

Até meados de 1916 tiveram, em Vila do Conde, a companhia do pintores Eduardo Viana e Samuel Halpert.
Após a guerra, em 1921, retornaram a Paris. Delaunay continuou a trabalhar num estilo na maior parte abstrato. Durante a Feira Mundial de Paris em 1937, Delaunay participa no projeto da estrada de ferro e dos pavilhões de viagem aérea.


Robert Delaunay, 'Circular Forms' (Formes circulaires), 1930

Com o início da II Guerra Mundial, os Delaunays mudam-se para Auvérnia (Auvergne) com o intuito de fugir às forças invasoras alemãs. 
Sofrendo de cancro, Delaunay não estava capaz de ser transferido de localidade em localidade, e sua saúde deteriorou-se. Morre em Montpellier, a 25 de outubro de 1941, aos 56 anos, vítima de cancro. O seu corpo foi transladado para Gambais em 1952.


Robert Delaunay, 'Rythme n°1', 1938, Decoration for the Salon des Tuileries,