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quarta-feira, 17 de junho de 2026

"Theo" - Poema de Manuel António Pina

 


Bruno Liljefors (Swedish artist, 1860–1939), "Rapp and Johan", 1886.
Private collection
 

Theo


Às vezes o gato fitava
com estranheza
o que de nós (um excesso)
se interpunha entre nós e o gato,
a nossa presença.


Manuel António Pina, in "Cuidados Intensivos",
Assírio & Alvim, 1994.




André Letria (Ilustrador português, n. 1973), 
"Incentivo à Leitura"


Aos Esses

Um dia, o Manuel António Pina disse-me: Se tivermos um gato deitado no tapete não temos uma história; mas se tivermos um gato deitado no tapete do cão, sim, temos uma história. O que varia é a tensão, e os livros dão-se bem com ela, é precisamente isso que lhes insufla vida. Os gatos brincam com as suas presas, vêm aos esses quando os chamamos, enfim, rodeiam as coisas antes de as sentenciarem, não correm para o destino, fazem durar a viagem, como num jogo. Isso é o miolo de qualquer história. Se temos uma personagem que tem um desejo e simplesmente o concretiza, não temos nada. Para contarmos uma história, temos de dar as voltas necessárias até chegarmos ao destino, não podemos chegar lá diretamente, sem tensão, dificuldades, gozo, embelezamentos, obstáculos. Temos de escrever como os gatos caminham quando os chamamos.

Não sei se os gatos gostam de escritores, mas são duas espécies claramente aparentadas: por trabalharem sós, pela contemplação e observação. Quando um escritor levanta a cabeça do teclado para meditar sobre uma personagem, quando para para tentar encontrar a palavra justa, quando olha pela janela para tentar desfazer um nó do enredo, tem um comportamento felino. Um gato poderá encontrar, nesse tipo de gestos, uma espécie de identificação. Sim, dirá o gato, também olho para o infinito, semicerro os olhos, paro, demoro-me numa quietude melancólica. É até estranho, dirá o gato, que este homem sentado na secretária não ronrone. 

Afonso Cruz (Artista multidisciplinar português, n. 1971) (daqui)
   

sábado, 2 de maio de 2026

"A triste história do zero poeta" - Poema de Manuel António Pina



John George Brown (British citizen and an American painter, 1831–1913),
"What's your name?", 1876.
 

A triste história do zero poeta 


Numa certa conta havia
um zero dado à poesia
que tinha um sonho secreto:
fugir para o alfabeto.

Sonhava tornar-se um O
nem que fosse um dia só,
ou ainda menos: só
o tempo de dizer: «Oh!»

(Nos livros e nas seletas
o que mais o comovia
eram os «Ohs!» que os poetas
metiam nas poesias!)

Um «Oh!» lírico & profundo,
um só «Oh!» lhe bastaria
para ele dizer ao mundo
o que na alma lhe ia!

E o que na alma lhe ia!
Sonhos de glórias, esperanças,
ânsias, melancolia,
recordações de criança;

além de um grande vazio
de tipo existencial
e de uma caixa que o tio
lhe pedira para guardar;

e ainda as chaves do carro
e uma máscara de entrudo...
Não tinha bolsos, coitado,
guardava na alma tudo!

A alma! Como queria
gritá-la num «Oh!» sincero!
Mas não passava de um zero
que, oh!, não se pronuncia...

Daí que andasse doente
de grave doença poética
e em estado permanente
de ansiedade alfabética.

E se indignasse & etc.
contra o destino severo
que fizera dele um zero
com uma alma de letra!

Tanta ambição desmedida,
tanto sonho feito pó!
E aquele zero dava a vida
para poder dizer «Oh!»...


Manuel António Pina,
in "Pequeno Livro de Desmatemática",
Assírio & Alvim




"Pequeno Livro de Desmatemática" de Manuel António Pina,
com desenhos de Pedro Proença. Assírio & Alvim;
 edição/reimpressão: 03-2009
 

SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
 
Livro recomendado no programa de português do 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.

Com versos do poeta Manuel António Pina e desenhos do pintor Pedro Proença, este "Pequeno Livro de Desmatemática" pode tornar-se um clássico da literatura infantil em português. A curiosidade e a imaginação de Pina (e de Proença) dão-nos a ler a matemática de forma divertida. Os problemas de somar, subtrair, multiplicar e dividir, histórias de números (reais ou imaginários), do p, etc., são resumidos pelo próprio autor na introdução, da qual se transcreve:

"Este pequeno livro está cheio de jogos com palavras e com alguns conceitos simples da matemática (por pouco ia a escrever a palavra com letra maiúscula!). Eu gosto de palavras. E de matemática também. Por isso brinco com elas. Brincar é uma coisa muito séria: quem quereria brincar com gente ou coisas de que não gosta? Este livro é um livro de "desmatemática" porque, aqui, os personagens da matemática, os números, os sinais, as contas, são tratados como gente, têm sentimentos, sonhos. Até fraquezas e defeitos. Como tu e como eu. É um jogo que eu gosto muito de jogar: imaginar como as coisas seriam se fossem ao contrário. Nem imaginas como o "Reino do Des" é às vezes divertido! Mas, e apesar de este não ser nem, valha-me Deus, querer ser um compêndio de Matemática (agora já se justifica, se calhar, a letra maiúscula), e ser apenas um pequeno livro de versos (alguns com teoremas escondidos), imaginei que, se tu conhecesses melhor dois ou três dos personagens deste livro, talvez a leitura dele pudesse ser um pouco mais interessante. Por isso te venho apresentar o amimigo zero (uma verdadeira nulidade, pensam alguns; o que eles se enganam!), os números negativos, os números imaginários, os números irracionais (raio de nome!), o misteriosíssimo e famosíssimo p. Talvez, quem sabe?, depois de teres conhecido estes, tu queiras conhecer outros. A maior parte das pessoas não calcula (a palavra calcular vem a propósito) a gente curiosa que vive na matemática!" (daqui)

sexta-feira, 10 de abril de 2026

"Saudade da prosa" - Poema de Manuel António Pina

 
 
François Flameng (French painter, 1856–1923),"Grolier in the House of Aldus", 1889.
 Oil on canvas, 73 x 81 in. Collection of The Grolier Club.
 

Saudade da prosa


Poesia, saudade da prosa;
escrevia «tu», escrevia «rosa»;
mas nada me pertencia,
nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou o que sabia.

E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava
senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?


Manuel António Pina,
'Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança',
Assírio & Alvim, 1999.
 
 
 
Flameng’s study for Jean Grolier de Servières (c.1489/90–1565) in the House 
of Aldus Manutius (c.1449/1452 –1515), 1889, Collection of The Grolier Club.
 
 
"A literatura é a expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do homem."

Louis de Bonald, in Oeuvres complètes; volume 3, ed. 1859.




Retrato de Louis de Bonald  por Louis Hersent
(Pintor francês, 1777-1860), 1823.


Filósofo e político tradicionalista, Louis Gabriel Ambroise de Bonald nasceu a 2 de outubro de 1754, em Le Monna, e morreu a 23 de novembro de 1840, em Lyon. O Visconde Louis de Bonald, filósofo e político, foi obrigado a abandonar França a seguir à revolução de 1789, por ser contrarrevolucionário.

Para Bonald, o homem só existe em função da sociedade e só nela se realiza. Todo o indivíduo que vá contra a sociedade, erra moralmente e vai contra aquilo que a sua própria natureza tem de melhor. Esta posição é fundamentada filosoficamente por Bonald, argumentando que o homem, não tendo ideias inatas, necessita do contacto com a sociedade para a aprendizagem das palavras que lhe permitirão pensar. Mas o homem é apenas o veículo que passa, por tradição, a palavra de geração em geração, pois, em última instância, é em Deus que a palavra se fundamenta: aqui se aplica o bem conhecido adágio que diz "a voz do povo, a voz de Deus". Ora, neste sentido, segundo Bonald, o homem tem um pacto natural com Deus que o obriga a manter em si o que de melhor tem: a presença divina, que se manifesta pelo pensamento e pelo amor, que se socorrem ambos da palavra.

Para que este pacto natural com Deus se cumpra deve haver um soberano único e destacado, à maneira monárquica. O Rei estaria para a sociedade civil, como o Papa para a religiosa.
Bonald examina a história do pensamento, dividindo-a em três sistemas gerais: o sistema da causa, difundido pelo judaísmo, que corresponde à doutrina de Deus; o sistema dos efeitos, difundido pelo paganismo, e que corresponde a uma doutrina meramente humana; finalmente, o sistema intermédio, difundido pelo cristianismo, correspondendo a uma doutrina de mediação entre Deus e o homem. Toda a estrutura do universo se manifesta por esta tríade, que deve tomar forma tanto na sociedade em geral (poder, ministro, súbdito), quanto no homem em particular (inteligência, órgãos, objeto). (daqui)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

"Farewell Happy Fields" - Poemas de Manuel António Pina

 

Rembrandt (Dutch Golden Age painter, printmaker, and draughtsman, 1606–1669),
The Shipbuilder and his Wife, 1633. Royal Collection.


Farewell Happy Fields

I

Entre a minha vida e a minha morte mete-se subitamente
A Atlética Funerária, Armadores, Casa Fundada em 1888.
A esse sítio acorrem então, aflitíssimos, o teu vago sorriso
e a vaga maneira como dizes os esses;
vêm de muito longe e chegam incompletamente
ao pequeno vulnerável sítio entre
toda a minha vida e toda a minha morte,
quando a minha última recordação atirou já com a porta
e tudo está acabado até a tua respiração
na cama ao meu lado,
e também tu estás morta,
duma forma que já não me importa.

Vamos então os dois outra vez
ao longo de certas ruas sombrias e de certos dias
e sorris e falas alto; está calor mas tens as mãos frias,
compramos coisas, visitamos
talvez algum último amigo
sem sabermos que eu já não estou vivo.

Poderia ter sido de outro modo?
Poderiam ter sido outras duas pessoas
vivendo a minha e a tua vida, morrendo a minha e a tua morte?
(Mesmo o armador, poderia ter sido outro?)
Aparentemente foi por pouco
se fosse um pouco mais tarde ou um pouco mais cedo,
se eu não tivesse chegado a casa cansado,
se a louça não estivesse por lavar
e a janela da sala de jantar
não estivesse fechada, se o mundo não tivesse acabado,
nem tu tivesses ido ao supermercado,
e se eu não estivesse cheio de medo.

Agora estou voltado para cima,
para onde cantas ainda há muito tempo.
Se calhar isto (alguma coisa) vai demorar mas já não me impaciento.
Voltamos, tu e eu, ao mesmo jardim desflorido
onde eu morro sozinho
e conversamos comigo
como com um desconhecido.
Que diremos agora um ao outro?

É tarde. Ainda há um momento
me apetecia conversar, agora estou outra vez tão cansado!
Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
como se fosse pelo lado de dentro?

II

Estou morto, deitado de lado.
Morte, Vida, Medo, Esperança:
já não estou para aí virado.
Onde vos guardarei agora, lembranças?

Talvez também eu seja uma lembrança diante
da lembrança de uma casa também morta,
e talvez ela me abra finalmente a porta
e as escadas brilhem e o corredor cante.

Dos meus olhos vê-se um jardim
ardendo em rosas espetado
(os teus olhos ardiam assim em mim:
como um palácio iluminado),

um jardim lento (tem muito tempo)
onde eu outra vez entro.
Se me voltasse para trás o que veria?
Ainda os teus olhos, ainda a alegria?

Agora que partiste para sempre
segurando-me inutilmente a cabeça
talvez tudo te pareça
excessivamente evidente

e excessivamente irrisório:
a morte, a vida, os dias sem lugar,
a louça do almoço por lavar,
as meias a escorrer no lavatório.

Mas não nos julgues com severidade,
estava a fazer-se tarde
e já ninguém vinha, o melhor
era irmo-nos deitar.

Agora, se o telefone tocar,
diz que não estou.
(Sem ironia, o meu coração teme a ironia
quase tanto quanto a perfeição;

e sem melancolia:
estávamos a precisar de solidão,
de silêncio, de geometria,
e as nossas lágrimas de uma grande razão).

Agora que não estou
(nem tu sabes quanto)
tudo o que passou
sou eu regressando.

Os meus passos, não
os ouves nas escadas,
subindo as escadas
como os de um ladrão?

III

Se eu não morresse
como morreria,
e como responderia
pelo nome que tivesse?

E quem me chamaria?
Tu não (nem ninguém antes de mim,
nem depois de mim,
nem a meu lado);

ter-te-ias demorado,
as filhas teriam crescido,
os amigos partido,
e quando voltasses estaria tudo acabado.

A verdade é que eu já não tinha idade
(nem palavras) para esperar-te,
começava a fazer-se muito tarde
e morria sozinho sem ninguém com quem falar de

mim. Os sonhos da infância
vagueavam inúteis pelos cantos
e eu transformava-me entretanto
em algo parecido com eles, da mesma substância.

A própria casa era um erro
grosseiro: não tinha paredes.
O jardim onde tantas vezes
florira o meu desespero

não era real,
era uma coisa passada;
real era o meu medo, tão real
que mesmo abrindo os olhos não passava.

Agora já não tenho medo, estou deitado
em palavras sem artifício e sem esplendor
onde fala passando
uma voz anterior.

(Assim morreria
talvez, se não morresse,
mas como o saberia?
E não o sabendo como o ignoraria?)

Poesia Reunida: 1974 - 2011.

 

"Todas as Palavras" de Manuel António Pina
Edição/reimpressão: 05-2012 
Editor: Assírio & Alvim
 
 
SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

Corria o ano de 2001 quando a Assírio & Alvim publicou a primeira edição da Poesia Reunida de Manuel António Pina. Pouco depois escrevia Eduardo Prado Coelho no Público:
«Talvez agora, no momento em que a Assírio & Alvim publica a Poesia Reunida de Manuel António Pina, estejamos em condições de poder afirmar que nos encontramos perante um dos grandes nomes da poesia portuguesa atual. Uma extrema delicadeza pessoal, uma discrição obsessiva, uma cultura ziguezagueante e desconcertante, mas sempre subtil e envolvente, um sentido profundo da complexidade da literatura, e também, sobretudo, da complexidade da vida, têm talvez impedido a descoberta plena e mediática deste jornalista e homem de letras também voltado para os jogos mais leves e embaladores da literatura infantil. Contudo, torna-se imperioso dizê-lo agora: este tom deliberadamente menor sustenta uma obra maior da literatura portuguesa». 
A edição que agora se apresenta, numa belíssima edição encadernada e substancialmente ampliada, inclui todo o trabalho poético do autor de 1974 a 2011. (daqui)
 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"A quarta porta" - Poema de Manuel António Pina


 
Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920–1984), Oracle, 1971.

 

A quarta porta


É a solidão
o que o coração procura,
como poderei não
saber o que não sei?

Estou cada vez mais longe de qualquer coisa,
regressarei alguma vez
a tudo o que há de vir?
O que está atrás de ti

é a tua imagem
que o Futuro persegue.
Este é um lado de tudo
e o outro é o mesmo e o outro.


Manuel António Pina,
in 'Aquele que quer morrer', 1978.


sexta-feira, 27 de junho de 2025

"Nenhuma música" e "As vozes" - Poemas de Manuel António Pina



Cecilia Beaux (American artist, 1855–1942), Man with the Cat –
Portrait of Henry Sturgis Drinker
(1850–1937), 1898.
Smithsonian American Art Museum



Nenhuma música


O gato olha-me
ou o meu olhar olhando-o?
E eu o que vejo senão
a mesma única solidão?

Chamo-o pelo nome,
pela oposição.
Em vão:
sou eu quem responde.

Virou-se e saltou
para o parapeito
real e perfeito,
sem nome e sem corpo.
(Também eu estou,
como ele, morto).


Manuel António Pina
, in Cuidados Intensivos
Assírio & Alvim, 1994
 
 
Cecilia Beaux, Les Derniers Jours d'Enfance, c. 1883-1885.
Oil on canvas, 46 x 54, Pennsylvania Academy of the Arts.


As vozes


A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas
e bate à porta

— Quem é?
— É a mãe morta
— São coisas passadas
— Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?


Manuel António Pina,
in Nenhuma palavra e nenhuma lembrança
Assírio & Alvim, 1999

terça-feira, 6 de maio de 2025

"O Regresso" - Poema de Manuel António Pina


 Walter Langley (Social Realist painter, 1852-1922 ), Waiting for the boats, 1885. Pencil and watercolor.



O Regresso


Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.


 Manuel António Pina, Como se desenha uma casa, 2011.
 

quinta-feira, 13 de março de 2025

"Talvez de noite" - Poema de Manuel António Pina


Xavier J. Barile (American painter, graphic artist, illustrator and art teacher
 born in Tufo, Italy, 1891–1981), 42nd St. Nocturne, oil on canvas board, 1953.
 


Talvez de noite 

1

À minha volta tudo envelheceu
como se fosse eu, e no entanto
uma casa, ou um espaço em branco
entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.

Pois nada
surge com a sua própria forma.

Digo "casa", mas refiro-me a luas e umbrais,
a lembranças extenuadas,
às trevas do corpo, lúcidas,
latejando na obscuridade de quartos interiores.

E digo "palavras" porque
não sei que coisa chamar
à mudez do mundo.

E digo "sentido" sufocado
sob o pensamento
tentando respirar
a golpes de coração,
agora que se desmorona a casa
sobre todas as palavras possíveis.


 Manuel António Pina, Como se desenha uma casa, 2011.

 Xavier J. Barile, 42nd St. Nocturne, oil on canvas board, 1953
 
 
Talvez de noite 

2

Em breve partirei de novo
e caminharei por desertos e por desastres
e por leituras exasperadas e citações,
entre palavras, sem ninguém real que me espere e me abra a porta.

O jantar arrefecerá na mesa,
os meus livros desesperarão
e não haverá sentido que os conforte
e o meu nome, se tiver um nome, não me responderá.

E no entanto um fio de tempo ou um fio de sangue,
ou então algo ainda menos palpável,
o que partiu e o que ficou regressando um ao outro
por galerias intermináveis e sonhos desfigurados,
ausentes um do outro, desaparecendo um no outro
como se esgota a água no fundo de um poço.


 Manuel António Pina, Como se desenha uma casa, 2011.
 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

"Transforma-se a coisa escrita no escritor" - Poema de Manuel António Pina



Louis Moeller (American genre painter, 1855–1930), A Discussion, ca. 1890–95,
Metropolitan Museum of Art, New York.


Transforma-se a coisa escrita no escritor


Isto está cheio de gente
falando ao mesmo tempo
e alguma coisa está fora de isto falando de isto
e tudo é sabido em qualquer lugar.

(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto;)
o escritor é uma sombra de uma sombra
o que põe-o fora de si
e de tudo o que não existe.

Aquele que quer saber
tem o coração pronto para o
roubo e para a violência
e a alma pronta para o esquecimento


Manuel António Pina
,
Aquele que quer morrer, 1978.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

"Quinquagésimo ano" - Poema de Manuel António Pina

 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926).
Garden at Sainte-Adresse
(Terrasse à Sainte-Adresse), 1867.


Quinquagésimo ano



São muitos dias
(e alguns nem tantos como isso…)
e começa a fazer-se tarde de um modo
menos literário do que soía,
(um modo literal e inerte
que, no entanto, não posso dizer-te
senão literariamente).
Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr;
a única coisa que corre é o tempo,
do lado de fora, porque dentro
a própria morte é uma maneira de dizer.
Caem co’a calma as palavras
que sustentaram o mundo,
e nem por isso o mundo parece
menos terreno ou impermanece.
Restam, é certo, alguns livros,
algumas memórias, algum sentido,
mas tudo se passou noutro sítio
com outras pessoas e o que foi dito
chega aqui apenas como um vago ruído
de vozes alheias, cheias de som e de fúria:
literatura, tornou-se tudo literatura!
E a vida? (Falo de uma vida
muda de palavras e de dias, uma vida nada mais que vida;
haverá uma vida assim para viver,
uma vida sem a si mesma se saber?)
Lembras-te dos nossos sonhos? Então
precisávamos (lembras-te?) de uma grande razão.
Agora uma pequena razão chegaria,
um ponto fixo, uma esperança, uma medida. 


Manuel António Pina, Atropelamento e fuga, 2001.
 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

"Café do Molhe" - Poema de Manuel António Pina


  (The Rowers' Lunch), c. 1875, Art Institute of Chicago.
 
 

Café do Molhe


Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

por que a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
 
 
 Manuel António Pina,
"Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança", 1999. 
 

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

"A avó" - Poema de Manuel António Pina



Rudolf Epp
(German painter, 1834 - 1910), Visit to the Grandmother. 


A avó


Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pelo dele preto e brando.

Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela.

Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro.


Manuel António Pina
, in "Os livros",
Lisboa: Assírio & Alvim, 2003. 
"Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011",
Assírio & Alvim, 2012. 
 
 
Rudolf Epp, Admonition of the Grandmother.

 
 
Pelo ou pêlo

A forma correta de escrita do nome do filamento que nasce no corpo humano ou no corpo dos animais é pelo, sem acento circunflexo. A palavra pêlo passou a estar errada desde a entrada em vigor do Novo Acordo Ortográfico.
 
Na atual reforma ortográfica foi abolido o acento circunflexo utilizado no substantivo pelo, deixando de haver esse acento que diferenciava o substantivo pelo da preposição contraída pelo.

Assim, a distinção entre o substantivo e a preposição não é mais feita pela acentuação mas sim pelo contexto em que as palavras ocorrem:
  • Meu cachorro tem tanto pelo!
  • Que feio ficar olhando pelo buraco da fechadura.
 
Pelo: substantivo masculino

Enquanto substantivo, pelo pode significar um filamento que nasce no corpo humano ou no corpo dos animais, bem como fios que se soltam dos tecidos, sendo sinónimo de cabelo, pelagem, penugem, fio,…

Exemplos com substantivo pelo: 
  • Sou alérgica a pelo de gato.
  • Meu marido tem muitos pelos nas costas.
  • Esse cobertor larga tanto pelo!
Pelo: preposição

Enquanto preposição contraída, pelo pode ser a preposição per contraída com o artigo definido o ou com pronome demonstrativo o (por + o = pelo). É sinónimo de: a favor de, ao longo de, através de, por aquele, por aquilo,…

Exemplos com preposição contraída pelo:
  • Sou pelo direito à eutanásia.
  • Cheguei rápido porque vim pelo caminho mais curto.
  • Pelo andar da carruagem, não iremos a lugar nenhum…

Novo Acordo Ortográfico e os acentos diferenciais

O Novo Acordo Ortográfico aboliu o acento diferencial em palavras paroxítonas homógrafas de outras não acentuadas.

Antes do acordo: pêlo, pára, péla, pélo, pólo, pêra.

Depois do acordo: pelo, para, pela, pelo, polo, pera.

Foram mantidos os acentos diferenciais no verbo pôr, para distinguir da preposição por, e na forma conjugada pôde (pretérito perfeito do indicativo), para distinguir da forma conjugada pode (presente do indicativo). (daqui)
 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

"Depois" - Poema de Manuel António Pina



Jean Metzinger (French painter, theorist, writer, critic and poet, 1883–1956),
  L'Oiseau bleu (The Blue Bird), c. 1912–1913, oil on canvas, 230 x 196 cm.
 

Depois


Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e de respostas.

Que coração, no entanto, pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado.

Porquê, tão tardo, o passado?
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração o saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolheram também sob
lembranças extenuadas?

Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas acabadas.


Manuel António Pina,
"Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"
, 1999. 
 

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

"Uma prosa sobre os meus gatos" - Poema de Manuel António Pina



Henriëtte Ronner-Knip (Dutch-Belgian artist, 1821–1909), Kitten, 1896, Teylers Museum.


Uma prosa sobre os meus gatos


Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa do tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstratos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»,
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjetivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.
 

Henriëtte Ronner-Knip, Cat at Play, c. 1860–1878, Rijksmuseum.


"Quando eu brinco com meu gato, quem sabe se eu não sou mais um passatempo para ele 
do que ele é para mim?"

Michel de Montaigne
, Ensaios, 1580
 
 

domingo, 14 de julho de 2024

"Aos filhos" - Poema de Manuel António Pina


 
William Brymner (Canadian painter and educator, 1855–1925), 'The Vaughan Sisters', 1910. 


Aos filhos



Já nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos.

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos?

Estes são tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
fôssemos ao menos infames.

Comprámos e não pagámos,
faltámos a encontros:
nem sequer quando errámos
fizemos grande coisa!


Manuel António Pina, 
in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça',
Edição do autor, 1991.
 
 
William Brymner, 'The Picture Book', 1898. Watercolor, oil and resin on linen.
 

"Livros são os mais silenciosos e constantes amigos; os mais acessíveis e sábios conselheiros;
 e os mais pacientes professores."
 
"Books are the quietest and most constant of friends; they are the most accessible and wisest of counsellors,
 and the most patient of teachers."

Charles William Eliot, American Contributions to Civilization and Other Essays and Addresses -
 página 261- Century Company, 1897 - 387 páginas
 

quinta-feira, 13 de junho de 2024

"Esplanada" - Poema de Manuel António Pina


Conrad Kiesel (German sculptor and painter, 1846-1921), Day dreaming, c. 1921.
 
 

Esplanada 


Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça',
Edição do autor, 1991.
 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

"Tanto silêncio" - Poema de Manuel António Pina

 
Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920-1984), Interior and Silence, 1967
 

 
Tanto silêncio 


Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?


Manuel António Pina
, in "Os livros", 
Assirio & Alvim, 2003
 
 
Jimmy Ernst, Recollections and Silence, 1962


Em grandes silêncios
tomava mais meu afeto
sorrateiramente
 

Capa do livro
'Ouvir o silêncio'
 
 
Súbito um suspiro
da moça silenciosa
estrela cadente 
 
 
[Carlos Viegas nasceu em Pitangui (MG), em 25 de abril de 1951. Poeta de haicai, médico, mestre e doutor em Pneumologia e Medicina do Sono, professor da UnB. 
Livros: O caminho do olhar (Coletânea de 100 haicais), 2014; Ouvir o silêncio (Coletânea de 84 haicais), 2016; Catadores de paina (Coletânea de 112 haicais), 2018; Flor do cerrado (Coletânea de 100 haicais), 2019; Hai-kais Transrosianos (Coletânea de 51 haicais), 2021; Haicais para Diadorim (Coletânea de 128 haicais), 2022.]