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sábado, 13 de março de 2021

"Vou-me Embora pra Pasárgada" - Poema de Manuel Bandeira



Maxime Maufra (French landscape and marine painter, etcher and lithographer,
1861–1918), Bridge over the Loire, 1892.
 
 
Vou-me Embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
 Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada 

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


Manuel Bandeira
in 'Libertinagem', 1930
 
'Libertinagem' é o quarto livro de poemas de Bandeira. Publicado em 1930, é considerado o primeiro livro inteiramente modernista do autor. É composto de 38 poemas escritos entre 1924 e 1930. Na obra, Bandeira abandona o formalismo e opta pela linguagem livre. A temática também é inovadora: cenas do quotidiano, recordações da infância e visão lírica do cenário urbano. Destacam-se os poemas “Evocação do Recife”, “Pneumotórax”, “Andorinha”, “Vou-me embora pra Pasárgada”, dentre outros. 
 
 
 
Maxime Maufra, March Sunlight, Port-Marly, 1902.
 

"Os paraísos perdidos estão somente em nós mesmos."

Marcel Proust

[Romancista, crítico literário e ensaísta francês, 1871– 1922]


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

"Tu eras também uma pequena folha" - Poema de Pablo Neruda



Hans Andersen Brendekilde (Danish painter, 1857–1942), 
'A wooded path in autumn', 1902


Tu eras também uma pequena folha


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Pablo Neruda (1904–1973)



Hans Andersen Brendekilde, 'L.A. Ring maler ved Aasum Smedje'
('L. A. Ring painting near Aasum smithy'), 1893 


"A palavra é uma parte do silêncio e o fogo tem uma metade de frio." 

(Pablo Neruda)


Hans Andersen Brendekilde, 'Home for dinner', 1917


''A verdadeira viagem não está em sair à procura de novas paisagens, mas em possuir novos olhos.''
 
 Marcel Proust
[Romancista, crítico literário e ensaísta francês, 1871– 1922]



Hans Andersen Brendekilde, 'Afternoon work', 1918


"Escritores, meditem muito e corrijam pouco. Fazei as vossas rasuras no vosso próprio cérebro."

(Victor Hugo)



Hans Andersen Brendekilde, 'On forbidden roads', 1886


"O desgosto é o obscurecimento do espírito e não o seu castigo."

(Khalil Gibran)



Hans Andersen Brendekilde, 'Tøsne' or 'break in the frost', 1885


"Se a força faz vencedores, a concórdia faz invencíveis."

(Provérbio)


Send me a Song - Lisa Kelly

domingo, 23 de junho de 2013

"Era um pássaro alto como um mapa" - Poema de Cruzeiro Seixas


 
Obra de Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920–2020)


Era um pássaro alto como um mapa


Era um pássaro alto como um mapa
e que devorava o azul
como nós devoramos o nosso amor.

Era a sombra de uma mão sozinha
num espaço impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão.

Era a chegada de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal
dentro de um pequeno diamante.

Era um arranha-céus
regressado do fundo do mar.

Era um mar em forma de serpente
dentro da sombra de um lírio.

Era a areia e o vento
como escravos
atados por dentro ao azul do luar.


Cruzeiro Seixas, in "Áfricas", 1950


Vida e Obra de Cruzeiro Seixas
Cruzeiro Seixas, Autorretrato, 1975, Serigrafia, 38 x 56 cm


Cruzeiro Seixas, de nome completo, Artur Manuel Rodrigues do Cruzeiro Seixas (Amadora, 3 de Dezembro de 1920) é um pintor e poeta português.
Frequentou a Escola António Arroio, onde fez amizade com Mário Cesariny, Marcelino Vespeira, Júlio Pomar e Fernando Azevedo.
Em meados da década de 1940 aproxima-se do neorrealismo, de que se afasta quando adere aos princípios do surrealismo. Juntamente com Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Carlos Calvet, Pedro Oom e Mário-Henrique Leiria, entre outros, integra o grupo Os Surrealistas, resultante da cisão do recém formado movimento surrealista português. Participa na exposição desse grupo em 1949 (1ª exposição dos Surrealistas, Lisboa).
Em 1950 alista-se na Marinha Mercante e viaja até África, Índia e Ásia. Em 1951 fixa-se em Angola, desenvolvendo atividade no Museu de Luanda. Data desse tempo o início da sua produção poética. Realiza as primeiras exposições individuais, que levantam um acalorado movimento de opinião (a primeira de desenhos sobre a evocação de Aimé Cesaire, em 1953; a segunda principalmente de «objetos» e «colagens», 1957).
Regressa a Portugal em 1964. Recebe uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian em 1967. Nesse mesmo ano realiza uma pequena retrospetiva na Galeria Buchholz (com folha volante de Pedro Oom e prefácio de Rui Mário Gonçalves) e expõe na Galeria Divulgação, Porto. Em 1970 expõe individualmente na Galeria de S. Mamede, Lisboa, um conjunto de desenhos "de uma imagética cruel, ilustrações possíveis de Lautréamont".
Trabalha como programador nas Galerias 111 e S. Mamede, Lisboa. Viaja pela Europa; entra em contacto com membros do surrealismo internacional. Radica-se no Algarve na década de 1980, trabalhando como programador de diversas galerias. Colabora em revistas internacionais ligadas ao surrealismo, a que sempre se manteve fiel.
O traço certeiro de Cruzeiro Seixas, "de limites apurados e atmosferas de vertigem […] edifica um mundo desolador em que a face onírica e literária não esconde a violência do conjunto, destruindo toda a possibilidade de quietude". Mas essa noite primordial e inquietante "soube coexistir com paisagens mais ligeiras e felizes, como algumas das pintadas nos anos de Angola, e com citações plásticas da história da arte, num jogo de grande prazer plástico, bem como com objetos dotados de flagrante poética, na sua simplicidade de materiais, de técnicas e no sobressalto imaginativo."
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Cruzeiro Seixas, No dia a seguir ao nosso casamento, 1967Acrílico sobre papel, 28 x 37 cms.


Tela de Cruzeiro Seixas


Tela de Cruzeiro Seixas


Cruzeiro Seixas, sem titulo, 1961


 Tela de Cruzeiro Seixas 


Cruzeiro Seixas, Projeto para um Tejo à nossa medida, 1966Serigrafia, 15 x 20,5 cm


Cruzeiro Seixas, Recordação de Lisboa em forma de postal, 1970.


"Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem." 
 
Marcel Proust
[Romancista, crítico literário e ensaísta francês, 1871–1922]
 

sábado, 27 de outubro de 2012

"Timidez" - Poema de Maria Alberta Menéres


 
 Tullia Masinari (Ilustradora italiana, n. 1960), Jogar às escondidas na rua.


Timidez


O bicho-de-conta
Faz de conta, faz
Que é cabeça tonta
Mas lá bem no fundo
Não é mau rapaz.

Se a gente lhe toca,
Logo se disfarça:
Veste-se de bola.
Por mais que se faça
Não se desenrola.

Lá dentro escondendo
Patinhas e rosto
É todo um segredo:
Se eu fosse menino
Comigo brincava
Sem medo, sem medo. 


Maria Alberta Menéres
,
em 'Conversas com Versos', 2005.






A editora Asa publicou com regularidade, a obra completa de Maria Alberta Menéres, quer em prosa, quer em verso, dedicado às crianças. A poetisa, que é figura de destaque da chamada geração de 50, havendo, até, colaborado nas folhas de poesia Távola Redonda, tem composto, como os seus pares Matilde Rosa Araújo, Fernando de Paços, Eugénio de Andrade, Rosa Lobato Faria, Sidónio Muralha, versos destinados ao leitor infantojuvenil. Os temas são extremamente variados, desde os animais, plantas, objetos, sentimentos. São cinquenta e nove poemas cheios de graça, de lirismo e de beleza, a divertirem e a educarem a sensibilidade dos mais novos. Vale a pena citar outro poema escolhido à toa, nestas páginas primorosamente ilustradas por Rui Castro: Intitula-se Romance


"Havia um peixe no ar, 
um papagaio no mar, 
uma lâmpada no olhar, 
um cogumelo a chorar.

- Mãe, em que história seria? 

A princesa na floresta 
bebia orvalho e cantava, 
de sua boca tombando 
o que de sonho tombava. 

- Mãe, em que história eu fugia? 

Doze anões e uma antiga 
branca de neve, quem sabe? 
Havia um gato de botas
onde o meu pé já não cabe. 

- Mãe, em que história aparecia? 

Ah, montanhas de cristal 
onde um cavalo espantava
e um espelho que tudo via 
mil respostas me não dava. 

- Mãe, em que história eu dormia?


Ilustrações de Tullia Masinari
Ilustração de Tullia Masinari


(...) Enquanto a leitura for para nós a iniciadora cujas chaves mágicas nos abrem no fundo de nós próprios a porta das habitações onde não teríamos conseguido penetrar, o papel dela na nossa vida será salutar. (...)

Marcel Proust
[Romancista, crítico literário e ensaísta francês, 1871–1922]
 

Tullia Masinari - Saltar à corda


“Use a sua luz, mas diminua o seu brilho.” 

Lao Zi
[Lao Zi, também conhecido como Lao-Tzu e Lao-Tze, foi um importante filósofo da China antiga, 
conhecido como o autor do "Tao Te Ching", a obra basilar da filosofia taoísta.]


Tullia Masinari - Saltar ao eixo


“Grandes realizações são possíveis quando se dá atenção aos pequenos começos.” 

(Lao Zi)


Tullia Masinari - Jogo da cabra cega
 

“Saber e não fazer, ainda não é saber.” 

(Lao Zi)


Tullia Masinari - Jogo corrida de sacos


“A atividade vence o frio. A quietude vence o calor.” 

(Lao Zi)


Tullia Masinari - Jogar ao berlinde


“Amar não é apoderar-se do outro para completar-se, mas dar-se ao outro para completá-lo.” 

(Lao Zi) 


Tullia Masinari - Jogar a bola
 

"Aquilo que ouço, esqueço; 
aquilo que vejo, lembro, 
aquilo que faço, entendo."

(Lao Zi)


Tullia Masinari Jogo da Bandeira
 

"Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina!"

(Lao Zi)


Tullia Masinari 


"Sempre tive pena de mim por não ter sapatos. 
Um dia, encontrei um homem que não tinha pés." 


(Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"Se estiveres no caminho certo, avança;
 se estiveres no errado, recua."

(Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"Se deres um peixe a um homem faminto, vais alimentá-lo por um dia. 
Se o ensinares a pescar, vais alimentá-lo toda a vida."

(Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"A bondade em palavras cria confiança; 
a bondade em pensamento cria profundidade;
 a bondade em dádiva cria amor."

 (Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência.
 Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão."

(Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"O sábio não se exibe e vejam como é notado. 
Renuncia a si mesmo e jamais é esquecido."

 (Lao Zi)


Tullia Masinari  Le dune di Dunhuang - deserto del Gobi Cina
 

"Lança o saber e não terás tristeza." 

(Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"O homem realmente culto não se envergonha de fazer perguntas também aos menos instruídos." 



Tullia Masinari 
 

"As paixões ensinaram a razão aos homens." 

William Shakespeare

[Poeta, dramaturgo e ator inglês, 1564–1616]
 

Tullia Masinari 


"Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar." 

Friedrich Nietzsche
[Filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor alemão, 1844–1900]
 

Tullia Masinari 


"As «histórias» dos meus livros são desde há muito dadas por manchas como uma pintura." 

Vergílio Ferreira

[Escritor e professor português, 1916–1996] 


* * *
 
Dueto de Eugénia com Chico Buarque
Retirado do CD "DESCONSTRUÇÃO"


quinta-feira, 31 de maio de 2012

"Que Humanidade é esta?" - Texto de José Saramago



Robert Zünd (Swiss landscape painter, 1826–1909),
 'Near the Schlachtkapelle in Sempach', 1867
 

Que Humanidade é esta? 


"Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta?
Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegámos a isso, não somos seres humanos.
Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espetáculo do mundo e é uma coisa arrepiante.
Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro.
Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo.
E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica." 
 
José Saramago, in 'Canarias7 (1994)'
 
 
 Obras de Robert Zünd

Robert Zünd, 'Harvest', 1860


"O milagre não é dar vida ao corpo extinto, ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo… nem mudar água pura em vinho tinto… milagre é acreditarem nisso tudo!" 
 
(Mário Quintana)
 

 
Robert Zünd, 'Beech Wood', 1887


''A verdadeira viagem não está em sair à procura de novas paisagens, mas em possuir novos olhos.'' 
 
 (Marcel Proust)


 
 Robert Zünd, 'Oak Forest', 1882


"Temos de conhecer as pessoas e as coisas humanas para as amar. 
Temos de amar Deus e as coisas divinas para as conhecer." 

Blaise Pascal
[Matemático, escritor, físico, inventor, filósofo e teólogo francês, 1623–1662]




Robert Zünd, 'Ox Team in Valais ', 1900 
 

"Viver é a coisa menos frequente do mundo, a maior parte das pessoas existe e isso é tudo."

(Oscar Wilde) 


 
Robert Zünd, 'The Harvest'


"Lembrar é fácil para quem tem memória. Esquecer é difícil para quem tem coração." 
 
 (William Shakespeare)
 


Robert Zünd, 'Tree'


"O que eu ouço, esqueço. O que eu vejo, lembro. O que eu faço, aprendo."

(Confúcio)
 

Joe Cocker - With a little help from my friends