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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

"Serenata à Chuva" - Poema de Rosa Alice Branco



Jeff Rowland (British painter, b. 1964), 'A Kiss Goodnight'
 

Serenata à Chuva


Chuva, manhã cinza, guarda-chuva. 
Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela 
abraçados caminham sob o teto 
do guarda-chuva que os guarda. 
Pelas ruas vão com a vontade de voltar 
ao branco dos lençóis. Esse objeto prosaico 
que às vezes se vira com o vento 
torna-se objeto de poema. Dizer também 
como a chuva é doce neste dia de verão. 
Como o amor altera o sentido da chuva, 
sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam 
ao vestido. No interior da pele o poema mudou 
desde que entraste no guarda-chuva esquecido 
a um canto do armário. Talvez o amor seja tudo amar 
sem exceção. Eu que nunca uso guarda-chuva 
assino incondicionalmente este poema. 


Rosa Alice Branco, in 'Soletrar o Dia' 


Leonard Cohen - Closing Time



"Admirar é amar pelo espírito; Amar é admirar com o coração."


"Admirer, c'est aimer par l'esprit; aimer, c'est admirer par le cœur!"

Théophile Gautier,
Histoire de l'art dramatique en France depuis vingt-cinq ans: (ler - 6me série),‎  
página 309 - Publicado por Librairie Universelle de J Rozez, 1859


Théophile Gautier fotografado por Nadar.


Pierre Jules Théophile  Gautier (Tarbes, 31 de agosto de 1811 — Paris, 23 de outubro de 1872) foi um escritor, poeta, jornalista e crítico literário francês.
Enquanto Gautier foi um ardente defensor do Romantismo, sua obra é difícil de classificar e continua a ser um ponto de referência para muitas tradições literárias posteriores, como Parnasianismo, Simbolismo, Modernismo e Decadentismo. Ele foi amplamente valorizado por escritores tão diversos como Balzac, Baudelaire, os irmãos Goncourt, Flaubert, Proust e Oscar Wilde.
Em 1830 publicou suas primeiras Poesias, nas quais demonstra habilidade na descrição precisa e colorida de objetos e paisagens.
No prefácio de Mademoiselle de Maupin, de 1835, Gautier afirma sua posição estética, seu culto da arte pela arte, seu desdém pela moral, sustentando a tese de que a arte e a moral nada têm em comum.
Aos poucos, afasta-se de seus amigos românticos. Nessa época, por necessidades económicas, teve de sujeitar-se ao trabalho de crítico dramático, literário e artístico do La Presse e depois do Monitor.
Ao contrário de outros românticos, Gautier não se manifestou ativamente em política. Sua obra compreende coletâneas de poesias, entre as quais: Émaux et Camées, de 1852, obra que teve grande influência sobre Baudelaire, Banville e outros poetas parnasianos; romances como O romance da múmia, de 1858 e Capitão Fracasso, de 1863; diários de viagem e o poema L´Art, uma das obras mais importantes e características de Gautier, onde ele proclama o valor absoluto da profissão de artista, a necessidade - para o poeta - de aceitar as dificuldades da técnica, sugerindo a ideia do jogo subtil das imagens e a utilização delicada dos recursos de linguagem. (daqui)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

"Conto de Fadas" - Poema de Florbela Espanca


Henri Decaisne, Maria Malibran as Desdemona in Rossini's "Otello", 1831.
Paris, Carnavalet Museum


Conto de Fadas 


Eu trago-te nas mãos o esquecimento 
Das horas más que tens vivido, Amor! 
E para as tuas chagas o unguento 
Com que sarei a minha própria dor. 

Os meus gestos são ondas de Sorrento... 
Trago no nome as letras de uma flor... 
Foi dos meus olhos garços que um pintor 
Tirou a luz para pintar o vento... 

Dou-te o que tenho: o astro que dormita, 
O manto dos crepúsculos da tarde, 
O sol que é d'oiro, a onda que palpita. 

Dou-te comigo o mundo que Deus fez! 
- Eu sou Aquela de quem tens saudade, 
A Princesa do conto: “Era uma vez...” 


Florbela Espanca,
in "Charneca em Flor"
 

Henri Decaisne, 'O Anjo da Guarda', 1836,
 Museu Real de Belas Artes de Antuérpia


"Beleza, presente de um dia que o Céu nos oferece." 
 
Alphonse de Lamartine


Alphonse de Lamartine, ca.1865


Alphonse Marie Louis de Prat de Lamartine (Mâcon, 21 de outubro de 1790 - Paris, 28 de fevereiro de 1869) foi um escritor, poeta e político francês. Seus primeiros livros de poemas (Primeiras Meditações Poéticas, 1820 e Novas Meditações Poéticas, 1823) celebrizaram o autor e influenciaram o Romantismo na França e em todo o mundo. 

Filho de um conceituado capitão de cavalaria, Lamartine foi estudar em Lyon, voltando-se, desde a adolescência, para a poesia, com leituras de Horácio, Virgílio e Chateaubriand.
 Da educação de sua mãe, recebeu a dieta alimentar que, segundo nos parece por meio desta citação de Confidências (1854), o autor foi por toda vida vegetariano: “Minha mãe estava convencida, assim como foi sempre a minha convicção, de que matar os animais para nos sustentarmos com a sua carne e o seu sangue é uma das mais deploráveis e das mais vergonhosas enfermidades da condição humana; que é uma dessas maldições lançadas sobre o homem pelo endurecimento da sua própria perversidade.”

Em 1820 lançou seu primeiro livro, "Meditações" (Les méditations), inspirado num breve amor por Julie Charles, que morreu prematuramente.
Aclamado pela crítica, ingressou na carreira diplomática, o que lhe proporcionou viagens para Nápoles, Florença e Londres.
Frustrado, com a ascensão de Luís Filipe ao trono da França, em sua intenção de ingressar na carreira diplomática, retornou à poesia com Harmonias Poéticas e Religiosas (1830), Jocelyn (1836) e A Queda de um Anjo (1838).


 Lamartine in front of the Hôtel de Ville of Paris, on February 25, 1848, by Félix Philippoteaux.


 Lamartine foi membro do governo provisório e ministro do Exterior em 1848. Depois de sua mal sucedida candidatura às eleições presidenciais, escreveu apenas narrativas autobiográficas, terminando a vida em difícil situação financeira.
No fim da vida, o governo o socorre com uma renda vitalícia de 21 mil francos, a título de recompensa nacional. Lamartine morre em 1869,  numa casa que lhe fora doada.
Foi colaborador da revista Le Conservateur Littéraire.

 
Lamartine, Albumin photograph by Nadar, 1856


 Obras de Lamartine:
Primeiras Meditações Poéticas (Premières méditations poétiques, 1820)
Novas Meditações Poéticas (Nouvelles méditations poétiques, 1823)
Harmonias poéticas e religiosas (Harmonies poétiques et religieuses, 1830)
Viagem ao Oriente (Voyage en Orient, 1835)
Jocelyn, 1836
A Queda de um Anjo (La chute d'un ange, 1838)
Os retiros (Les recueillements, 1839)
História dos Girondinos (Histoire des girondins, 1847)
Confidências (Confidences, 1849)
Raphaël, 1849
Novas Confidências (Nouvelles confidences, 1851)
O Talhador de Pedras de Saint-Point (Le tailleur de pierres de Saint-Point, 1851)
Geneviève, 1851 - romance policial
Curso Familiar de Literatura (Cours familier de littèrature, 1855) - 28 volumes
A Vinha e a Mansão (La vigne et la maison, 1857) - considerada sua obra-prima do período final.
Regina (Novela)
Graziela (Novela)


Lamartine, by Henri Decaisne (Musée de Mâcon)


terça-feira, 10 de julho de 2012

"Perdão se pelos meus olhos" - Poema de Pablo Neruda




Gustave Courbet
(French painter, 1819–1877), 'Seacoast', 1865



Perdão se pelos meus olhos


Perdão se pelos meus olhos não chegou
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:

- monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, a espuma, o delírio da maré

- assim é minha solidão -
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido.


Pablo Neruda (1904–1973)


Vida e obra de Gustave Courbet 

Gustave Courbet, c. 1866, por Nadar (1820–1910)
 
 
Gustave Courbet (Ornans, 10 de Junho de 1819 — La Tour-de-Peilz, 31 de Dezembro de 1877) foi um pintor anarquista francês pertencente à escola realista. 
Foi acima de tudo um pintor de paisagens campestres e marítimas onde o romantismo e idealização da altura são substituídos por uma representação da realidade fruto de observação direta. Esta busca da verdade é transposta para a tela em pinceladas espontâneas que não deixam de lado os aspetos menos estéticos do que é observado.
Courbet nasceu numa família de milionários na França. Depois de frequentar um colégio na mesma cidade, começou a ter aulas de pintura e iniciou seus estudos de direito em Paris. 
Finalmente decidiu estudar desenho e pintura por iniciativa própria, copiando os grandes mestres no Louvre, principalmente Hals e Velázquez. Suas primeiras obras foram uma série de auto-retratos. 
Em 1844 expôs pela primeira vez no Salão de Paris e dois anos mais tarde apresentou os quadros Enterro em Ornans e O Ateliê do Artista, que lhe custaram críticas severas e a recusa do Salão de Paris devido aos seus temas demasiadamente prosaicos. Courbet não se deu por vencido e construiu um pavilhão perto do Salão, onde expôs quarenta e quatro de suas obras, que chamou de realista, fundando assim esse movimento.
O público não viu com satisfação essa nova estética das classes trabalhadoras. Courbet, enquanto isso, reunia-se para compartilhar opiniões com seus amigos, entre eles o pintor e notável teórico anarquista Proudhon, o escritor Baudelaire e o irónico caricaturista Daumier.
Já se discutiu muito sobre os motivos que teriam levado Courbet a escolher os trabalhadores como tema. De facto, os homens de seus quadros não expressam nenhuma emoção e mais parecem parte de uma paisagem do que seus personagens. Courbet  manteve-se, nesta etapa realista, muito longe do colorismo romântico, aproximando-se, em compensação, do realismo tenebroso espanhol do barroco, com uma profusão de pretos, ocres e marrons, banhados por uma pátina cinza. Comprova-se isto no seu quadro mais importante, O Ateliê do Artista (1855), em que manifestou sua desaprovação em relação à sociedade.
Por volta de 1850, o realismo de Courbet foi se apagando e deu lugar a uma pintura de formas voluptuosas e conteúdo erótico, de figuras femininas no estilo de Ingres, mas mais descarnadas. A elas seguiu-se uma série de naturezas-mortas, quadros de caça e paisagens marinhas que confirmaram sua capacidade criativa e técnica impecável. 
Por volta de 1870, Courbet foi acusado de ter destruído uma coluna da praça Vendôme, o que levou o pintor a  mudar-se para Viena. Em Paris, suas obras foram rejeitadas, e o ateliê do artista foi leiloado para pagar a restauração da coluna.
 

 
Gustave Courbet, 'Self-Portrait', 'Le Désespéré', 1843–1845
 
 
 
Gustave Courbet, 'Self-Portrait'
 


Gustave Courbet, Marine 'Les Equilleurs'

 
Gustave Courbet, Marine  'Saint Aubin'
 
 
Gustave Courbet, 'The Stormy Sea'
 

Gustave Courbet, 'After the Storm'
 

Gustave Courbet, 'Seascape'
 
 
Gustave Courbet, 'Bonjour Monsieur Courbet'
 
 
Gustave Courbet, 'The Painter's Studio; A Real Allegory'
 
 
'Gustave Courbet, 'A Burial at Ornans'
 
 
Gustave Courbet, 'A Thicket of Deer at the Stream of Plaisir-Fontaine'
 
 
Gustave Courbet, 'Count de Choiseul's Greyhounds'
 
 
Gustave Courbet, 'Château of Chillon'