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segunda-feira, 27 de março de 2023

"Melancolia" - Poema de João de Deus

 
Marc Chagall (1887-1985), Lune rousse au Cap d'Antibes, 1969, oil, pastel, 
 and watercolor on paper, 61.4 x 49.3 cm, coleção particular.



Melancolia 
 
 
Oh doce luz! oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que flutua
De engano em desengano!
Oh criação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E à dor que nos oprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céu um lago,
E tu, reflexo vago
Dum sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
Oh luz órfã do dia!
Que mística harmonia
Há nessa luz tão fria,
E a sombra que me guia
Neste areal deserto!

Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
Fita-te a gente, estuda,
(Sem medo que se iluda)
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas
A órbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre!
As vítimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as dessas feras brutas...
E as lastimas, as lutas
Da órfã e do pobre! 


João de Deus, in 'Ramo de Flores', 1869
 
Ramo de flores é uma coletânea de poesias líricas, de João de Deus (1830 – 1896), onde sobressai a temática amorosa ("Sede de amor", "Enlevo", "Adeus", "Saudade"), centrada no motivo da mulher sedutora ("Sempre!", "Atração", "O seu nome"). Do ponto de vista formal, as composições primam pela musicalidade, frequentemente associada ao uso das formas métricas e estróficas tradicionais (vejam-se, a título de exemplo, os efeitos do uso do verso tetrassílabo em "Simpatia" ou "Saudade"). O volume contém apreciações críticas à coletânea Flores do Campo, assinadas por Alexandre da Conceição, Luciano Cordeiro, Guiomar Torrezão e Cândido de Figueiredo. (daqui)
 
 
João de Deus in 'O Ocidente', 1878 


João de Deus (1830-1896)

João de Deus de Nogueira Ramos, nascido em São Bartolomeu de Messines no Algarve, ingressou no Seminário de Coimbra, mas a falta de vocação eclesiástica levou-o a cursar Direito. Sem gosto particular pela advocacia tornar-se-ia, por vocação, um ilustre poeta lírico.
João de Deus é autor dos poemas publicados nas coletâneas «Flores do Campo» (1868), «Ramo de Flores» (1869), «Despedidas de Verão» (1880) e «Campo de Flores» (1893).
Viria, porém, a alcançar extraordinária popularidade como pedagogo, pelo seu envolvimento nas campanhas de alfabetização, criando um inovador método de ensino da leitura às crianças, assente na Cartilha Maternal, de sua autoria (1876), aprovado, dois anos depois, como o método nacional de aprendizagem da leitura e da escrita da língua portuguesa.
Foi inumado no Panteão Nacional, em 1966, depois de, no ano da sua morte, os seus restos mortais terem sido depositados na capela do batistério do Mosteiro dos Jerónimos. (daqui)
 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

"Aliança" - Poema de Pedro Homem de Mello


Marc Chagall (1887-1985), The bridal couple, 1927
 

Aliança


Por tudo quanto sei, mas não sabia,
(Feliz de quem um dia ainda o souber!)
Por essa estrela branca em noite fria!
Anunciação, talvez, de poesia...
Por ti, minha mulher!

Por esse homem que sou, mas que não era,
Vendo na morte a vida que vier!
Por teu sorriso em minha vida austera.
Anunciação, talvez de Primavera...
Por ti, minha mulher!

Pelo caminho humano a que vieste
Com fé no amor. — Seja o que Deus quiser!
Por certa fonte abrindo a rocha agreste...
Por esse filho loiro que me deste!
Por ti, minha mulher!

Pelo perdão que espalho aos quatro ventos,
De antemão cego ao mal que me trouxer
Despeitos surdos, pérfidos momentos;
Pelos teus passos, junto aos meus, mais lentos...
Por ti, minha mulher!

Nada mais digo. Nada. Que não posso!
Mas dirá mais do que eu quem não disser
Como eu?: — Avé-Maria... Padre-Nosso...
Por tudo quanto é meu (e que é tão nosso!)
Por ti, minha mulher!


Pedro Homem de Mello
, in "Adeus"


domingo, 22 de setembro de 2019

"O Pássaro Azul" - Poema de Charles Bukowski


O Pássaro Azul


há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?


Charles Bukowski,
emTextos autobiográficos, de Charles Bukowski”
[tradução de Pedro Gonzaga; edição de John Martin].
Porto Alegre: L&PM Editores, 2009.
(Daqui)


 
Marc Chagall, L'oiseau bleu (The Blue Bird), 1952


Bluebird


there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,

I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.

then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die

and we sleep together like
that
with our
secret pact

and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?
 in “The Last Night of the Earth Poems”
Santa Rosa CA: Black Sparrow, 1992.
(Daqui)


Animação baseada no poema "O pássaro azul" de Charles Bukowski. 
“Bluebird” inspirou a designer Monica Umba, estudante de Cambrigde School of Art a fazer uma releitura
 do poema em forma de animação gráfica.


"Eu não sei porque comecei a escrever poesia. É uma questão de sobrevivência. O pássaro sabe porque voa? Não. Então também não sei [porque escrevo]."


 Deborah Brennand, em "Letras verdes", 2002.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

"Tateio" - Poema de Hilda Hilst


Marc Chagall, Blue Lovers, 1914



Tateio


Tateio. A fronte. O braço. O ombro. 
O fundo sortilégio da omoplata. 
Matéria-menina a tua fronte e eu 
Madurez, ausência nos teus claros 
Guardados. 

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas 
Em lúcida altivez, eu já sou o passado. 
Esta fronte que é minha, prodigiosa 
De núpcias e caminho 
É tão diversa da tua fronte descuidada. 

Tateio. E a um só tempo vivo 
E vou morrendo. Entre terra e água 
Meu existir anfíbio. Passeia 
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta: 
Noturno girassol. Rama secreta. 


in 'Preludios-Intensos para os Desmemoriados do Amor' 


domingo, 16 de março de 2014

Marc Chagall - Vida e Obra


Marc Chagall, Paris through the window, 1913 

  
"Por um lado, o artista furta o seu tema ao tempo, tornando-o acessível a todos em todos os momentos, por outro lado, salva-o ainda da corrente do tempo, na medida em que faz convergir num só instante o que foi beleza em instantes sucessivos." - Agostinho da Silva 
 
 
[George Agostinho Baptista da Silva (Porto, 13 de Fevereiro de 1906 — Lisboa, 3 de Abril de 1994) foi um filósofo, poeta e ensaísta português. O seu pensamento combina elementos de panteísmo, milenarismo e ética da renúncia, afirmando a Liberdade como a mais importante qualidade do ser humano. Agostinho da Silva pode ser considerado um filósofo prático empenhado, através da sua vida e obra, na mudança da sociedade. Passou considerável tempo de sua vida no Brasil.]
 
 
Marc Chagall

Portrait of Marc Chagall by Yehuda (Yuri) Pen, his first art teacher in Vitebsk, c. 1915
 
 
Marc Chagall (Vitebsk, Bielorrússia, 7 de julho de 1887 — Saint-Paul-de-Vence, França, 28 de março de 1985) foi um pintor, ceramista e gravurista surrealista judeu russo-francês.


Marc Chagall, Chagall's Parents, The Spoonful of Milk, 1912

Nascido no seio de uma família judaica, na sua juventude entrou para o ateliê de um retratista famoso da sua cidade natal. Lá aprendeu não só as técnicas de pintura, como a gostar e a exprimir-se nessa arte. Ingressou, posteriormente, na Academia de Arte de São Petersburgo, de onde rumou para a próspera cidade-luz, Paris.
Ali entrou em contacto com as vanguardas modernistas que enchiam de cor, alegria e vivacidade a capital francesa. Conheceu também artistas como Amedeo Modigliani e La Fresnay. Todavia, quem mais o marcou, deste próspero e pródigo período, foi o modernista Guillaume Apollinaire, de quem se tornou grande amigo.


Marc Chagall, 1911, Trois heures et demie (Le poète), oil on canvas, 
195.9 x 144.8 cm, Philadelphia Museum of Art

É também neste período que Chagall pinta dois dos seus mais conhecidos quadros: Eu e a aldeia e O Soldado bebe, pintados em 1911 e 1912, respetivamente.
Os títulos dos quadros foram dados por Blaise Cendrars. Coube a Guillaume Apollinaire selecionar as obras que seriam posteriormente expostas em Berlim, no ano em que a Primeira Guerra Mundial rebentou, em 1914.


Marc Chagall, 1911, I and the Village, (Eu e a aldeia) oil on canvas, 
192.1 x 151.4 cm, Museum of Modern Art, New York


Marc Chagall, The Soldier Drinks, 1912 (O Soldado bebe)


Marc Chagall, 1912, Still-life (Nature morte), oil on canvas, private collection


Marc Chagall, 1912, Calvary (Golgotha) Christus gewidmet, oil on canvas, 174.6 x 192.4 cm,
Museum of Modern Art, New York.


Marc Chagall, 1912, The Fiddler, from which the musical, Fiddler on the Roof, takes its name.

Neste ano (1914), após a explosão da guerra, Marc Chagall volta ao seu país natal, sendo, portanto, mobilizado para as trincheiras. Todavia, permaneceu em São Petersburgo, onde casou, em maio de 1915, com o seu primeiro amor, Bella Rosenfeld, a filha de um joalheiro rico de Vitebsk.


 
(Bella Rosenfeld Chagall (Vitebsk, 1895- 02 de setembro de 1944, Nova York ), escritora e esposa de Marc Chagall). 

Bella Rosenfeld foi o modelo de inspiração para sua famosa série de pinturas com figuras voadoras apaixonadas. Em 1916, o casal teve uma filha, Ida. Naquela época, ele criou suas pinturas mais vibrantes e jovens representando sua esposa Bella voando com ele nos céus acima de sua cidade natal, Vitebsk.


Marc Chagall, Over the town, 1918 

Depois da grande revolução socialista na Rússia, que pôs fim ao regime autoritário czarista, Marc Chagall, foi nomeado comissário para as belas-artes, tendo inaugurado uma escola de arte, aberta a quaisquer tendências modernistas. Foi neste período que entrou em confronto com Kasimir Malevich, acabando por se demitir do cargo.


Composition with Circles and Goat, by Marc Chagall, 1920

Retornou então, a Paris, onde iniciou mais um pródigo período de produção artística, tendo mesmo ilustrado uma Bíblia. Em 1927, ilustrou também as Fábulas de La Fontaine, tendo feito cem gravuras, somente publicadas em 1952. São também deste ano conhecidas as suas primeiras paisagens.
Visitou em 1931 a Palestina e, depois, a Síria, tendo publicado, em memória destas duas viagens o livro de carácter autobiográfico Ma vie ("Minha vida").

Desde 1935, com a perseguição dos judeus e com a Alemanha prestes a entrar em mais uma guerra, Chagall começa a retratar as tensões e depressões sociais e religiosas que sentia na pele, já que também era judeu convicto.


Marc Chagall, The Revolution, 1937

Anos mais tarde, parte para os Estados Unidos, onde se refugia dos alemães. Lá, em 1944, com o fim da guerra a emergir, Bella, a sua mulher, falece, facto que lhe causa uma enorme depressão, mergulhando novamente no mundo das evocações, dos chamamentos, dos sonhos. Conclui este período com um quadro que já havia iniciado em 1931: "Em Torno Dela".


Marc Chagall, Autour d'Elle, 1945


Marc Chagall,  La Mariée, 1950

Dois anos depois do fim da guerra, regressa definitivamente à França, onde pintou os vitrais da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Na França e nos Estados Unidos pintou, para além de diversos quadros, vitrais e mosaicos. Explorou também os campos da cerâmica, tema pelo qual teve especial interesse.


Marc Chagall, The street performers in the night, 1957


Marc Chagall, The Circus Horse, 1964


 "The Prophet Jeremiah" by Marc Chagall, 1968

Em sua homenagem, em 1973 foi inaugurado o Museu da Mensagem Bíblica de Marc Chagall, na famosa cidade do sul da França, Nice. Em 1977 o governo francês condecorou-o com a Grã-cruz da Legião de Honra.


 Stained glass windows in Reims Cathedral, by Marc Chagall, 1974

Marc Chagall foi sem dúvida, um dos melhores pintores do século XX. Profílico, foi um génio artístico que se envolveu em quase todas as artes. 
Faleceu em Saint-Paul-de-Vence, no sul da França, em 1985, aos 97 anos.


Marc Chagall, Self-Portrait with Bouquet, 1981


Marc Chagall, Flower Bouquet, 1982


Marc Chagall (1887 - 1985) - Music by Maurice Sklar 

sábado, 7 de janeiro de 2012

"O Vento na Ilha" - Poema de Pablo Neruda



Marc Chagall (Russian and French artist of Jewish ancestry, 1887–1985),
'Over the town', 1918.



O Vento na Ilha


O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como percorre o mundo
para levar-me para longe.

Esconde-me em teus braços
por esta noite apenas,
enquanto a chuva abre
contra o mar e contra a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para levar-me para longe.

Com tua fronte na minha
e na minha a tua boca,
atados os nossos corpos
ao amor que nos abrasa,
deixa que o vento passe
sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e procure
galopando na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
por esta noite apenas
descansarei, meu amor.


Pablo Neruda, in 'Os Versos do Capitão' 
Tradução de Albano Martins



Marc Chagall, 'The Birthday', 1915


"Só a arte permite a realização de tudo o que na realidade a vida recusa ao homem." 

Johann Goethe, in "Eufrosina"