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domingo, 30 de agosto de 2026

"Libera Me" - Poema de Carlos Queirós Ribeiro


 
François Boucher (French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
Cupids - Allegory of Painting, 1760s, Hermitage Museum.



Libera Me


Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação. 


Carlos Queirós Ribeiro (1907–1949), in 'O Instituto'
[Revista científica e literária, entre 1852 e 1981];
in 'Poesia de Carlos Queirós' de Jorge de Sampaio,
Edições Panorama, Lisboa, 1966.




Carlos Queirós
 
 
Poeta, ensaísta e crítico literário português, José Carlos Queirós Nunes Ribeiro nasceu a 5 de abril de 1907, em Lisboa, e morreu a 27 de outubro de 1949, em Paris.
Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, onde conviveu com um grupo de escritores presencistas. Para o Secretariado Nacional de Propaganda editou algumas obras sobre o turismo português e organizou, na Emissora Nacional, onde era funcionário, vários programas de carácter nacionalista e de divulgação cultural e turística.
Dirigiu Panorama (1941) e Litoral (1944), tendo ainda colaborado em publicações como Contemporânea, Momento, Sudoeste, Cadernos de Poesia, Aventura e Revista de Portugal.
Organizou, em 1942, com António Pedro e Jorge de Sena, uma "Homenagem a Arthur Rimbaud". Para além de amigo e o responsável pelo conhecimento travado entre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós, sua tia, que resultou numa relação amorosa, foi também um acérrimo exaltador da memória daquele poeta (cf. "Carta à memória de Fernando Pessoa" e "Homenagem a Fernando Pessoa", ambas publicadas na Presença, em 1936), sendo um dos herdeiros da estética pessoana, constituindo, para David Mourão-Ferreira, um "privilegiadíssimo elo na cadeia que estabelece a ligação entre os poetas de Orpheu (em particular Fernando Pessoa, e nomeadamente o Pessoa ortónimo) e algumas das camadas que só na segunda metade do século principiaram a manifestar-se." (MOURÃO-FERREIRA, David - preâmbulo a Epístola aos Vindouros, Lisboa, Ática, 1989).
Poeta que transcende a etiqueta de presencista e cujo papel basilar na estética do segundo modernismo ainda não foi suficientemente avaliado, a sua obra compõe, também segundo o mesmo crítico, "uma das mais fascinantes cúpulas da poesia da primeira metade de século".
Publicou, entre outros, os livros de poemas Desaparecido (1935) e Breve Tratado de Não-Versificação (1948). (daqui)
 
 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

"O espelho curvo" - Poema de Yves Bonnefoy


 
François Boucher (French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
'Allegory of Painting´, 1765, National Gallery of Art.



O espelho curvo 

I

Olha-os lá, naquela encruzilhada;
Parecem hesitar depois retomam
A estrada. À frente deles o menino corre,
A braçadas colheram para os poucos vasos
Pelo campo essas flores que nem nome têm.

E o anjo está lá em cima, a observá-los
E envolto pelo vento de suas cores.
Tem um dos braços nu no pano rubro,
Parece que segura um espelho, e que a terra
Se reflete na água dessa outra margem.

E que designa agora, com o dedo
Que aponta nessa imagem um lugar?
Será outra casa ou será outro mundo,
Será mesmo uma porta, em meio à luz
Aqui mesclada às coisas e aos signos?

II

Gostam de voltar tarde, assim. Já não distinguem
O caminho sequer por entre as pedras
De onde ainda brota uma sombra ocre-rubra.
Mas estão confiantes. Junto da soleira
A relva é fácil e não existe morte.

E ei-los agora embaixo das abóbodas.
Há escuridão ali no rumor dessas folhas
Secas, que o vento que não sabe move
Por sobre as lajes, de uma sala a outra,
O que tem nome e o que é apenas coisa.

Eles vão indo, vão. Além entre as ruínas,
É o país onde as margens são tranquilas,
Os caminhos imóveis. Pelos quartos
Irão dispondo as flores, junto ao espelho
Que consume talvez, e talvez salve.


Yves Bonnefoy
 
(1923–2016), in 'Obra Poética'.
Ttradução e organização de Mário Laranjeira.
São Paulo: Editora Iluminuras, 1998.
 

 

 embaixo / em baixo
[Ortografia / Lexicografia]

A forma embaixo corresponde a um advérbio de uso comum no português do Brasil. Na norma europeia do português, este advérbio corresponde geralmente à locução adverbial em baixo (ex.: chama o teu irmão, que está lá em baixo; o rapaz andou em baixo durante uns tempos).

Não se trata propriamente de uma variação ortográfica, pois não há nenhuma determinação que recomende o uso de palavra ou locução nestes casos, mas de uma diferença entre a tradição lexicográfica portuguesa (que regista sempre a locução em baixo e não tem registo de embaixo, exceto no Grande Vocabulário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado) e a tradição lexicográfica brasileira (que preconiza embaixo e apenas regista em baixo como regionalismo de Portugal, nomeadamente no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). (daqui)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

"Poema de Amor" - Ruy Cinatti

 

 
François Boucher
(French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
'Cupids - Allegory of Poetry', 1760s.

 Poema de Amor


Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.

Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se...-
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregadas de ilhas, de noturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...


Ruy Cinatti,
in "56 poemas", 1ª ed. - A Regra do Jogo, 1981.
Reeditado: Relógio de Água, 1992.

 
"56 poemas" de Ruy Cinatti,
Relógio D'água, 1992.
 

"56 Poemas", publicado originalmente em 1981 pela editora 'A Regra do Jogo' e, posteriormente, com reedições pela 'Relógio D'Água', é uma obra fundamental de Ruy Cinatti (1915–1986), marcando um ponto culminante na sua produção poética. A obra apresenta uma poesia de maturidade, marcada por um forte teor lírico e confessional, com destaque para "Poema de Amor" e a sua relação com o misticismo e a vivência em Timor.