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segunda-feira, 25 de maio de 2026

"Atrás não torna, nem, como Orfeu" - Poema de Ricardo Reis



Elsie Russell
(French painter, b. 1956), The Loss of Eurydice - Orpheus looks
back at Eurydice during her rescue from Hades, losing her forever
, c. 1994. 


Atrás não torna, nem, como Orfeu


Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento. 

31-5-1927

Ricardo Reis, in "Odes" – Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994) - 105.
 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

"Deriva VIII" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Federico Cervelli (Italian painter, 1745–1827),
Orpheus
and Eurydice, n.d.


Deriva VIII


Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri.

1982

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Navegações, 1983.

[Sophia atravessou o mar até Macau e o que viu a poetisa viajante está no livro "Navegações", do qual faz parte os versos de "Deriva VIII".] 

 

Christian Gottlieb Kratzenstein Stub (Danish painter, 1783–1816),
Orpheus and Eurydice
, 1806.

 

Ary Scheffer (Dutch-French Romantic painter, 1795–1858),
Orpheus Mourning the Death of Eurydice, 1814.


terça-feira, 3 de março de 2026

"Cruzar a Margem" ("Crossing the Bar") - Poema de Alfred Tennyson



Joachim Patinir also called Patenier (Flemish Renaissance painter of history and landscape subjects,
c. 1480–1524), "Landscape with Charon Crossing the Styx", c. 1515–1524, Prado, Madrid.


Cruzar a Margem


Estrela do crepúsculo e da noite,
E um claro chamamento por mim!
Que da margem não me chegue pranto
Quando eu partir para o mar,

Que a maré pareça adormecida
Cheia de mais para sons e espumas
Quando quem saiu das funduras sem fim
De novo a casa regressar.

Sino do crepúsculo e da noitinha
E depois dele apenas as trevas!
Não haja qualquer tristeza da despedida
Quando eu embarcar;

Embora das nossas raias de Tempo e Lugar
Para longe possa a maré levar-me
Espero encontrar o meu Piloto cara a cara
Quando eu a margem cruzar.


Alfred Tennyson
(Tradução de Helena Barbas)



Joachim Patinir,
 "Passage du Styx", détail: 'Charon conduisant sa barque'.

 
 
Joachim Patinir,
 "Passage du Styx", détail: 'L'enfer'.

 
 
Joachim Patinir, 
"Passage du Styx", détail: 'Les limbes'. 
 

 
Joachim Patinir, "Passage du Styx",  détail: 'Le paradis'.

Crossing the Bar
(Original)


Sunset and evening star,
And one clear call for me!
And may there be no moaning of the bar,
When I put out to sea,

But such a tide as moving seems asleep,
Too full for sound and foam,
When that which drew from out the boundless deep
Turns again home.

Twilight and evening bell,
And after that the dark!
And may there be no sadness of farewell,
When I embark;

For tho' from out our bourne of Time and Place
The flood may bear me far,
I hope to see my Pilot face to face
When I have crost the bar.


Alfred Tennyson

["Crossing the Bar" is an 1889 elegiac poem by Alfred, Lord Tennyson. The narrator uses an extended metaphor to compare death with crossing the "sandbar" between the river of life, with its outgoing "flood", and the ocean that lies beyond death, the "boundless deep", to which we return.] (daqui)

 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

"O Narciso" - Poema de Miguel Torga


Dirck van Baburen (Dutch painter, c. 1595–1624), 
 "Narcissus Gazing at His Reflection", Private collection.


O Narciso

 
O desenho impreciso
De cada rosto humano, refletido!
Mas, o velho Narciso
Continua fiel e debruçado
Sobre o ribeiro...
Porque há de ver-se inteiro
Quem todo se deseja revelado?

Devorador da vida lhe chamaram,
A ele, artista, sábio e pensador,
Que denodadamente se procura!

À movediça e trágica tortura
De velar dia e noite a líquida corrente
Que dilui a verdade,
Quiseram-lhe juntar a permanente
Ironia
Desse labéu de pérfida maldade
Que turva mais ainda a imagem fugidia...
 
 
Miguel Torga, Cântico do homem, 1950.
Poesia Completa (Dom Quixote, 2000), p. 388.
 

"Narcissus at the Spring" by Jan Roos (Flemish artist, 1591–1638)
depicts Narcissus gazing at his own reflection.


Narciso
 
Narciso era filho de Cefísio, rei da Fócida, e da ninfa Liríope, que era filha do Oceano e de Tétis, sua mulher. Quando já era jovem, era tão formoso, que todas as ninfas o amavam e desejavam, sem que ele se deixasse prender por nenhuma delas. A ninfa Eco, filha do Ar e da Terra, que vivia nas margens do Rio Cefísio, não tendo conseguido seduzi-lo, morreu de amor.
Tirésias, adivinho famoso, preveniu os familiares de Narciso de que este só viveria enquanto não chegasse a contemplar a sua imagem. E um dia, de regresso de uma longa caçada, sentou-se à beira de uma fonte para beber e refrescar-se e viu-se no espelho da água. Ficou tão enamorado de si próprio, que morreu extasiado.
Foi metamorfoseado em flor, à qual foi dado o seu nome. (daqui)
 
 
Jan Cossiers (Flemish painter and draughtsman, 1600–1671),
Narcissus, 17th century, Museo del Prado.
 

"O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido
em que se libertou do seu ego."

Albert Einstein (Nobel de Física, 1921)
 
 
Gerard van Kuijl (Dutch Golden Age painter, 1604–1673),
Narcissus, c. 1645. John and Mable Ringling Museum of Art. 
 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

"Letra para uma valsa romântica" - Poema de Manuel Bandeira

 

John William Waterhouse (English painter, 1849–1917),
Gather Ye Rosebuds While Ye May, 1908


Letra para uma valsa romântica


A tarde agoniza
Ao santo acalanto
Da noturna brisa.
E eu, que também morro,
Morro sem consolo,
Se não vens, Elisa!

Ai nem te humaniza
O pranto que tanto
Nas faces desliza
Do amante que pede
Suplicantemente
Teu amor, Elisa!

Ri, desdenha, pisa!
Meu canto, no entanto,
Mais te diviniza,
Mulher diferente,
Tão indiferente,
Desumana Elisa! 


Manuel Bandeira
,
in "Belo belo", 1948



John William Waterhouse, Circe, 1911


As artes da feitiçaria, incluídas nas esotéricas, remontam a tempos imemoriais, sendo os bruxos e feiticeiros arquétipos de grande importância em praticamente todas as civilizações e culturas mundiais. 
 
A magia é tradicionalmente dividida em "branca" e "negra", sendo costume incluir a feitiçaria nesta última (apesar de esta divisão nem sempre ser linear, como adiante se verá). De aí que os feiticeiros sejam enigmáticos, operem na obscuridade, e por estas razões lhes tenham sido atribuídos muitos males e catástrofes ocorridos ao longo da História. Ao serem antissociais, tornaram-se naturalmente os elementos mais indicados para arcarem com a culpa de calamidades da Natureza, doenças, mortes, epidemias, males morais e afins. Os feiticeiros socorriam-se de um conjunto de sortilégios, técnicas e instrumentos para manipular a energia psíquica do Homem e as manifestações da Natureza, sendo este poder, que os seres humanos normalmente não possuem, o que os tornava tão temidos.

A tradição tornou inesquecíveis figuras relevantes em culturas como a grega, em que a beleza mascarava os dons de feitiçaria que possuíam Medeia, Melissa, Alcina e Circe, por exemplo. A deusa Hécate era, na Grécia, a protetora das feiticeiras, uma vez que simbolizava o percurso para além da morte. As bruxas ou feiticeiras podiam ser boas ou más, como transparece nos romances da Idade Média, em que os cavaleiros e heróis das histórias eram protegidos por mulheres misteriosas (como Morgana e Melusina, por exemplo) que derrubavam os obstáculos que para um mero mortal eram intransponíveis.

Os feitiços mais comuns e mais encomendados aos feiticeiros eram os de amor e os de malefício, sendo que os feiticeiros conheciam uma quantidade muito maior de sortilégios que usavam também em seu benefício. São bastantes as representações dos atos de magia, em que aparecem o círculo mágico onde se desenrola a ação, os símbolos arcanos, os recipientes com venenos e poções, fórmulas mágicas e gestos rituais, assim como objetos, plantas e animais simbólicos.

No âmbito da feitiçaria, encontra-se também a invocação de espíritos de pessoas já falecidas, como acontece no episódio da Bíblia em que o rei Saúl ordena à bruxa de Endor que convoque a alma do profeta Samuel para saber como decorreria a batalha que iria travar contra os Filisteus.

A feitiçaria é um dos temas mais recorrentes em quase todas as mitologias, como acontece, por exemplo, na maia: uma das lendas desta mitologia faz referência a uma deusa feiticeira chamada Malinal-Xóchitl, cujos obscuros poderes fizeram com que o seu irmão Huitzilopochtli a abandonasse; ela decidiu então criar com o seu povo a cidade feiticeira de Malinalco. Mas a história de feitiçaria que mais impacto teve nesta cultura foi a do feiticeiro Tezcatlipoca, irmão do deus supremo Quetzalcoátl, que colocou um espelho de obsidiana perante Quetzalcoátl para que este visse que o seu carácter bondoso era apenas uma máscara. O desgosto que lhe causou o que viu no espelho fez com que Quetzalcoátl se embebedasse com pulque, tivesse relações com a sua própria irmã e, no dia seguinte, ao dar-se conta do que fizera, tivesse desaparecido em direção ao Oriente, deixando o seu povo na expectativa do retorno. Esta lenda acabou por ter consequências na prática, visto que a conquista do México foi grandemente facilitada por grande parte das tribos Maias considerarem Hernán Cortés uma encarnação de Quetzalcoátl.
(daqui)
 
 
John William Waterhouse, Circe Invidiosa, 1892
Art Gallery of South Australia, 


"A maldade bebe a maior parte do veneno que produz.
"

Séneca
[Filósofo e escritor romano, c. 4 a.C. – 65 d.C.]
 
 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

"Orfeu Rebelde" - Poema de Miguel Torga



Nicolas Poussin (Leading painter of the classical French Baroque style, 1594–1665),
 

Orfeu Rebelde


Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam os rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.


Miguel Torga
(1907–1995)


  
Frederic Leighton (British Victorian painter, draughtsman, and sculptor, 1830–1896),
Orpheus and Eurydice, 1864, Leighton House Museum.


Orfeu e Eurídice


Grande herói da Trácia, Orfeu era conhecido não pelas suas qualidades de guerreiro, mas pelas suas qualidades musicais. Filho de Apolo e da musa Calíope, recebeu do pai uma lira como presente e aprendeu a tocar com tanta dedicação e beleza, que ninguém conseguia ficar indiferente ao encanto da sua música. Tanto os seres humanos como os animais, e diz-se que até as árvores e os rochedos, se rendiam ao seu fascínio.

Orfeu amava apaixonadamente a ninfa Eurídice. No dia do casamento de ambos, esteve presente Himeneu para abençoar a união, mas o fumo da sua tocha fez lacrimejar os noivos, o que não trouxe augúrios favoráveis. Pouco tempo depois, Eurídice passeava com as ninfas, quando foi surpreendida pelo pastor Aristeu, que, ao vê-la, se apaixonou perdidamente e tentou conquistá-la. Na sua fuga, Eurídice pisou uma cobra e morreu da mordedura que esta lhe fez no pé.

Orfeu, inconsolável, tocou e cantou aos homens e aos deuses, mas nada conseguiu. Decidiu, então, descer ao reino dos mortos para conseguir recuperar Eurídice. Perante o trono de Hades e Perséfone, Orfeu cantou o seu desgosto e o seu amor dizendo que, se não lhe devolvessem Eurídice, ele próprio ficaria ali com ela, no reino dos mortos. Todos os fantasmas que o ouviam choravam e Hades e Perséfone ficaram tão comovidos que lhe devolveram Eurídice. Mas com uma condição: Orfeu poderia levar Eurídice, mas não poderia olhá-la antes de terem alcançado o mundo superior.

Caminhando na frente, Orfeu, que estava quase a chegar aos portões de Hades, com receio de ter sido enganado por Hades, virou-se para trás para confirmar se Eurídice o seguia. Esta, com os olhos cheios de lágrimas, foi levada para o mundo dos mortos, por uma força irreversível. Orfeu tentou alcançá-la, mas sem êxito.

Profundamente triste, Orfeu ficou na margem do rio, durante sete dias, sem comer nem dormir, suplicando a volta de Eurídice. Depois, vagueou triste e solitário pelo mundo, sem nunca mais querer saber de mulher alguma e repelindo todas aquelas que o tentavam seduzir, até que um dia, as mulheres da Trácia, enfurecidas pelo seu desprezo, o mataram. O seu corpo foi atirado ao rio Ebro e levado até à ilha de Lesbos, onde, durante muito tempo, a cabeça de Orfeu, presa numa rocha, proferia oráculos. A sua lira foi colocada num templo de Lesbos.

Outra lenda diz que as musas enterraram Orfeu, em Limetra, num túmulo onde o rouxinol canta mais suavemente do que em qualquer outra parte da Grécia e a lira do jovem apaixonado foi colocada por Zeus entre as estrelas. Orfeu encontrou por fim Eurídice e, abraçando-a, nunca mais deixou de contemplá-la. (daqui)

sexta-feira, 19 de abril de 2019

"Narciso" - Poema de José Régio



Caravaggio (Italian painter, 1571–1610), 'Narcissus', 1597–99,
Galleria Nazionale d'Arte Antica, Rome


Narciso


Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
... Lá no fundo do poço em que me espelho!


José Régio, in 'Biografia', 1929 
 
 

domingo, 11 de junho de 2017

“Eros e Psique” - Poema de Fernando Pessoa


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905), 
'The Abduction of Psyche', c. 1895


Eros e Psique


Conta a lena que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
 

Fernando Pessoa, Poesias 
 

François Gérard (French painter, 1770–1837), 'Cupid and Psyche', 1798,
also known as 'Psyche Receiving Cupid's First Kiss'. 


"A única anormalidade é a incapacidade de amar."



Jacques-Louis David, 'Cupid and Psyche', 1817


Eros e Psique

William-Adolphe Bouguereau, 'Cupido' (Love on the look out), 1890
 
 
Eros, o deus grego do amor e do desejo, conhecido na mitologia romana como Cupido, é filho de Afrodite e de um dos prováveis deuses: Ares, ou Hermes, ou Zeus. Sendo o mais jovem dos deuses, Eros é geralmente representado como uma criança alada, com arco e flecha, pronto a disparar sobre o coração de deuses e de mortais, suscitando-lhes o desejo e o amor. As flechas eram de dois tipos: as douradas, de penas de pomba, que suscitavam o amor, e as flechas de chumbo, com penas de coruja, que causavam a indiferença. Frequentemente com os olhos vendados para simbolizar a cegueira do amor, Eros tornava-se perigoso para os demais, pois disparava setas em todas as direções, chegando mesmo a atingir a própria mãe, que o castigava retirando-lhe as asas e o arco. 
Uma das lendas mais conhecidas do deus do Amor é a aventura amorosa com Psique, nome que em grego significa alma. 


 Jacques-Louis David, 'Psyché Abandonné', 1795, huile sur toile,
 collection particulière


Psique era uma princesa de uma beleza tão exultante que fazia ciúmes à própria Afrodite. Esta deusa deu instruções ao filho, Eros, para punir a audácia da princesa, fazendo com que esta se apaixonasse pelo homem mais feio do mundo, e Eros obedeceu. O pai da jovem, verificando que Psique era a única das suas três filhas que ainda não tinha casado, resolveu consultar o oráculo. Este revelou-lhe que deveria preparar Psique como para uma cerimónia nupcial e, em seguida, abandoná-la numa montanha junto de um rochedo, onde um monstro, seu futuro marido, a iria buscar. Assim se passou e, enquanto aguardava resignada a sua triste sorte, Psique foi recolhida pelos braços de Zéfiro, que a levou para um lindo palácio. Psique estava quase a adormecer, quando um ser misterioso apareceu na escuridão do seu quarto e lhe disse que era o marido a quem ela estava destinada. Era o belo Eros que desempenhava o papel de marido, tentando desta forma executar o castigo que Afrodite pedira, mas, ao ver Psique, apaixonou-se imediatamente por ela. Antes de desaparecer, pouco antes do amanhecer, Eros obrigou Psique a jurar que nunca tentaria ver o seu rosto. 

Com o passar do tempo, Psique apaixonou-se pelo ser misterioso até que um dia, ao visitar as irmãs, invejosas da sua felicidade, foi instigada a ver o rosto do seu marido. Então, curiosa, Psique resolveu seguir o conselho das irmãs. Assim, enquanto o marido estava a dormir silenciosamente, Psique acendeu uma vela e, em vez do monstro, encontrou o belíssimo Eros. Aproximando-se para o ver melhor, deixou cair uma gota de cera no ombro do deus. Eros acordou e, furioso, reprimiu-a pela sua curiosidade e pela quebra da promessa que lhe tinha feito e retirou-se. Ao mesmo tempo, desapareceu o palácio e Psique encontrou-se, de novo, na montanha, onde, desgostosa, tentou suicidar-se, atirando-se a um rio, mas as águas levaram-na de volta às margens. A partir de então, vagueou pelo mundo à procura do seu amor, e, perseguida pela ira de Afrodite, foi sujeita a muitos perigos que conseguiu vencer devido a uma misteriosa proteção. Finalmente, Eros, impressionado pelo arrependimento de Psique e pela fidelidade do seu amor, implorou a Zeus que deixasse Psique juntar-se a ele. Zeus concedeu a imortalidade a Psique, Afrodite esqueceu os seus ciúmes e o casamento foi celebrado, no Olimpo, com grandes festejos. 


Jacques-Louis David, 'Cupid and Psyche in the nuptial bower', oil, 1792–93


Nos vasos gregos antigos, Psique é representada com corpo de pássaro ecabeça humana ou como uma borboleta. Uma obra de arte que popularizou o mito de Eros e Psique é a obra escultórica de Antonio Canova (1757-1822), na qual "Psique é reanimada pelo beijo de Eros", e que se encontra no Louvre, em Paris (França). (daqui)



Antonio Canova (Escultor italiano, 1757–1822), 'Psique é reanimada pelo beijo de Eros',
versão do Louvre.


"O amor nunca morre de morte natural. Ele morre porque nós não sabemos como renovar a sua fonte. 
Morre de cegueira e dos erros e das traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, 
das devastações, da falta de brilho."

Anaïs Nin