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segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

"Sol do Mendigo" - Poema de Manuel da Fonseca


Alessandro Pomi (Italian Impressionist painter, 1890–1976)



Sol do Mendigo


Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o Sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...
Pela manhã acorda tonto de luz.
Vai ao povoado
e grita:
- Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o lado,
dorme, dorme...

E toda a noite o sol o cobre...


Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, 1940


Manuel da Fonseca
 
 
 Manuel da Fonseca, escritor português, vulto destacado do Neorrealismo, nasceu a 15 de outubro de 1911, em Santiago do Cacém, e morreu a 11 de março de 1993, em Lisboa.
Partiu ainda jovem para Lisboa para realizar estudos secundários, tendo desempenhado posteriormente na capital diversas atividades profissionais no comércio, na indústria e no jornalismo. 
Antes de colaborar em Novo Cancioneiro, com Planície, coleção onde se afirmariam algumas coordenadas da estética poética Neorrealista numa primeira fase, editou, em 1940, Rosa dos Ventos, obra pioneira do neorrealismo poético português, nascida do convívio com um grupo de jovens escritores, entre os quais Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Rodrigues Miguéis, Manuel Mendes e Armindo Rodrigues, unidos numa "obstinada recusa de ser feliz num mundo agressivamente infeliz, uma ânsia de dádiva total e o grande sonho de criar uma literatura nova, radicada na convicção de que, na luta imensa pela libertação do Homem, ela teria um papel estimável a desempenhar contra o egoísmo, os interesses mesquinhos, a conivência, a indiferença perante o crime, a glorificação de um mundo podre" (DIONÍSIO, Mário - prefácio a Obra Poética de Manuel da Fonseca, 1984, p. 21). 
Não existindo descontinuidade entre a poesia e a prosa de Manuel da Fonseca, nem entre ambas e o escritor, que as impregna de um cariz autobiográfico, alimentado por recordações da convivência com o homem alentejano, ficção e obra poética interpenetram-se na evocação de personagens, narrativas, romances, paisagens alentejanas. Mário Dionísio (id. pp. 32-33) vê na oposição cidade/vila, recorrente na obra de Manuel da Fonseca, a oposição entre o que é "apaixonado e violento, desgraçado e heroico, profundamente humano, grave, limpo" e o que é ridículo, repugnante, mesquinho, "de ambição medíocre, de preconceitos míseros, que desvirtuam e lentamente asfixiam uma imagem ideal de vida que, na poesia de Manuel da Fonseca, quase sempre se identifica com tudo o que a infância e a adolescência têm de ingénuo e generoso e transparente e que a vida embacia, adultera e destrói." 
Autor de uma obra ancorada na realidade e eivada de um apontado regionalismo, a escrita de Manuel da Fonseca ultrapassa a contingência histórica de que nasceu, por um enaltecimento da vida, compreendida como intrinsecamente livre das imposições, frustrações, mentiras e condicionamentos impostos pela sociedade, ânsia de libertação, simbolizada, por exemplo, na repressão sexual imposta a algumas figuras femininas ou na admiração de figuras marginais como o "maltês" ou o vagabundo. 
Cerromaior (1943), O Fogo e as Cinzas (1951) e Seara de Vento (1958) são algumas das suas obras mais emblemáticas. (daqui)
 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

"Viajar" - Poema de Alves Redol


Alessandro Pomi (Italian Impressionist painter, 1890–1976)



Viajar



Queres viajar, Maria Flor?

Viajar é correr mundo,
voar mais alto que os pássaros
ou pisar o chão da Terra
ou as ondas do Mar Alto…
É ver bichos
de muitas cores e feitios,
montanhas,
rios,
e ribeiros
e pessoas
e lugares…
Conhecer e descobrir,
inventar e duvidar,
sabendo cada vez mais,
sem nunca pensar que basta
o mundo que se conhece.
E alargá-lo com amor
dentro de nós e dos outros.


Alves Redol
, "Uma Flor Chamada Maria", 1969
 

Alessandro Pomi (Italian Impressionist painter, 1890–1976)


"Sonho com uma revolução sem ideologia, onde o destino do ser humano, seu direito a comer, a trabalhar, a amar, a viver a vida plenamente não seja condicionado ao conceito expresso e imposto por uma ideologia seja ela qual for. Um sonho absurdo? Não possuímos direito maior e mais inalienável do que o direito ao sonho. O único que nenhum ditador pode reduzir ou exterminar."
 

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Dois poemas do homem e sua escolha - Moacyr Félix


Alessandro Pomi (Italian Impressionist painter, 1890–1976), "Cenacolo", 1931 (Immagini del silenzio)
 
 

Dois poemas do homem e sua escolha 

"Revenir serait une chute écrasante."
Paul Éluard
I

Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora ... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência - ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...

II

Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto ...


do livro "O pão e o Vinho", 1959.


Alessandro Pomi (Italian Impressionist painter, 1890–1976), "Amici"

"Todo o homem que é um homem a sério tem de aprender a ficar sozinho no meio de todos, a pensar sozinho por todos - e, se necessário, contra todos." 

Romain Rolland, em Clérambault (novel), 1920




Romain Rolland, 1915

Romain Rolland foi um escritor francês, nascido a 29 de janeiro de 1866, em Clamency, e falecido a 30 de dezembro de 1944, em Vézelay, vítima de tuberculose. Foi laureado com o Prémio Nobel em 1915.
Doutorou-se em Arte em 1895, foi professor de História da Arte na École Normale de Paris e professor de História da Música na Sorbonne. Para além da sua atividade docente, foi um reconhecido crítico de música. Estreou-se na escrita em 1897 com a peça Saint-Louis, que, juntamente com Aërt (1898) e Le Triomphe de la Raison (1899), fez parte da trilogia Les Tragedies de la Foi (1909). Em 1910 retirou-se do ensino para se dedicar inteiramente à escrita.
Na sua obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista. Escreveu peças de teatro, biografias (Vie de Beethoven, 1903; Mahatma Ganghi, 1924), um manifesto pacifista (Au-dessus de la mêlée, 1915) e dois ciclos romanescos: Jean-Christophe (10 vols., 1904-1912), "roman-fleuve" (segundo as palavras do autor) consagrado a um músico genial, e L'Âme enchantée (7 vols., 1922-1934). Em 1923, fundou a revista Europe. (Daqui)

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

"Deus escreve direito" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Alessandro Pomi (Italian impressionist painter, 1890–1976),
Allo specchio (In the mirror), 1960
 

Deus escreve direito



Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha reta
Por isso em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol, tua luz, teu alimento.
 

Sophia de Mello Breyner Andresen,
do livro "O Búzio de Cós e outros Poemas" (1997)
Editorial Caminho, Lisboa


Alessandro Pomi (Italian impressionist painter, 1890–1976)


Instante

 
Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
Antologia (1975). Círculo de Poesia (2ª. edição).
Lisboa: Moraes Editores
 

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

"Saber" - Poema de Ana Hatherly


Alessandro Pomi (Italian, 1890–1976), Impressionist painter
[He was a pupil of Ettore Tito at the Academy of Belle Arti in Venice
 and then he completed his studies in Munich and Rome.]



Saber


saber
é saber saber-te
sabermo-nos unir

unirmo-nos
é conhecermo-nos
sabermos ser

por fim sermos
é sabermos
sabermo-nos

conhecermos
a surda áspide


Ana Hatherly
,
in "Um Calculador de Improbabilidades"
 
 
 
Alessandro Pomi, Sulla Spiaggia, 1920, Olio su cartone, 48,5×68,5 cm, Collezione privata

"De cada vez que respiro sei que alternadamente perco e recupero o meu corpo. Depois penso que é na preia-mar da respiração que o meu corpo se forma, nesse intervalo. (Quando as pessoas dormem ou estão no cinema, por exemplo, o ar do recinto fica alternadamente cheio e vazio de corpos!) Respirar o corpo para fora inspirar o corpo para dentro. Eis como a ginástica é uma forma de vampirismo. Penso nisto quando estou na praia olhando um homem deslizar numa prancha de surf por uma onda fora. De repente desequilibra-se e cai. Tudo o que é profundo se revela à superfície." 

Ana Hatherly, in 463 Tisanas, Quimera, 2006

 

 
Alessandro Pomi, In laguna, 1953, Olio su tavola, 49,2×37 cm, 
Collezione privata 


"Não medir a altura do sonho. Não medir a distância de um sorriso. Quando a espuma das ondas chega à areia qualquer coisa de irreversível acontece."

Ana Hatherly, in Tisanas

 
 
Alessandro Pomi, Sera a Fusina, 1924-1928, Olio su compensato 
 
 
"Keats disse que uma coisa bela é uma alegria eterna. Hoje a beleza é a voz sufocada de uma perdida sabedoria." 

Ana Hatherly, in Tisanas 
 
 
Alessandro Pomi, Autorretrato, S/d
 
 
"Não é verdade que só o autor se apaixona pela obra. Também a obra se apaixona pelo seu autor. Na verdade é mesmo por isso que o autor se apaixona por ela."
 
Ana Hatherly, in Tisanas