Adélia Prado é uma das escritoras mais aclamadas da literatura
brasileira desde sua estreia, em 1976, com o livro de poemas Bagagem.
Esse título carrega, em especial, o sentido de sua herança cultural, sua
bagagem de vida. Afinal, à época, Adélia já tinha quarenta anos, idade
pouco usual para estrear em literatura, era professora, graduada em
Filosofia, casada e mãe de cinco filhos em Divinópolis, interior de
Minas Gerais, onde nasceu no dia 13 de dezembro de 1935, filha do
ferroviário João e da dona de casa Ana.
Adélia Prado publicou oito livros de poesia: Bagagem (1976), O coração
disparado (1978), Terra de Santa Cruz (1981), O pelicano (1987), A faca
no peito (1988), Oráculos de maio (1999), A duração do dia (2010) e
Miserere (2013), além de nove livros em prosa: os romances Solte os
cachorros (1979) – primeiramente catalogado como livro de contos –,
Cacos para um vitral (1980), Os componentes da banda (1984), O homem da
mão seca (1994) e Manuscritos de Felipa (1999); as crónicas reunidas em
Filandras (2001), publicadas anteriormente no jornal O Tempo; a novela
Quero minha mãe (2005); e as histórias infantis Quando eu era pequena
(2006) e Carmela vai à escola (2011).
Carlos Drummond de Andrade foi quem impulsionou o lançamento de Adélia
Prado, no Rio de Janeiro, pela editora Imago. O poeta recebeu o
manuscrito da autora, confiado ao crítico mineiro Affonso Romano de
Sant’Anna, e publicou um texto muito elogioso em sua coluna no Jornal do
Brasil, eis um trecho: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz
poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus”
(Drummond, 2015).
Dois meses após o lançamento do livro, a escritora Olga Savary publicou
uma resenha atestando o seguinte: “acho que Bagagem [...] vai dar o que
falar. Há muito não aparece poesia tão vigorosa, telúrica, intensa, com
tanta garra e força primitiva, tão seiva, sangue, suor e sexualidade”
(2000). Com efeito, longe da agitação das capitais, a poesia de Adélia,
imbuída de um tom narrativo, encena o quotidiano de pessoas comuns em
constante tensão com o passado – “Você conversa com uma tia, num
quarto./ Ela frisa a saia com a unha do polegar e exclama:/ ‘Assim
também, Deus me livre’./ De repente acontece o tempo se mostrando,/
espesso como antes se podia fendê-lo aos oito anos” (Prado, 2015).
Já o crítico Antonio Hohlfeldt situou a aparição da poeta como causadora
de certo desconforto entre alguns críticos, sobretudo por Adélia
representar a figura da mulher de uma maneira que “quebra,
aparentemente, toda a dicção libertária, feminina e feminista, então
vigente. [...] Não fazia experimentalismos formais, insistia numa poesia
de ideias” (2000). Nos anos 1970, a poesia brasileira estava dividida:
“[...] de um lado, os variados experimentalismos formais a partir do
Concretismo e do Tropicalismo, desde os anos 1950 e, de outro, a busca a
partir da década seguinte, [...] da retomada da poesia
político-ideológica” (Hohlfeldt, 2000). No entanto, a poesia de Adélia
não se apresenta filiada a nenhuma dessas vertentes, e nem por isso sua
poesia se quer reacionária, pois segundo Augusto Massi, a poesia voltava
a se debruçar sobre temas excluídos, como o sonho e o erotismo. Nesse
sentido, “Adélia representava um último desdobramento do modernismo,
cujas linhas de força convergem para a retomada do quotidiano, da
oralidade, da cultura popular e para o desejo de encurtar o caminho até o
leitor, trazendo a linguagem poética para o centro da vida” (Massi,
2015).
A propósito, já em seu livro de estreia, a escritora nos apresenta
direta e indiretamente certas filiações: Carlos Drummond, Manuel
Bandeira, Fernando Pessoa, São João da Cruz, Santa Tereza D’Ávila,
Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Jorge de Lima, além de
Guimarães Rosa e de seu livro sagrado, reverenciados nestes versos de
Bagagem: “Porque tudo que invento já foi dito/ nos dois livros que eu
li:/ as escrituras de Deus,/ as escrituras de João./ Tudo é Bíblias.
Tudo é Grande Sertão” (2015).
Paralelamente a sua poesia, Adélia sempre publicou narrativas. A
primeira delas é Solte os cachorros, título que remete à expressão
popular brasileira “soltar os cachorros”, que significa falar o que bem
entender com seu interlocutor de maneira reativa. A voz dessa narrativa
tecida em fragmentos soa como o desabafo de uma mulher madura: “Quem dá o
grito primal paga caro o analista, quem dá o grito vai preso, quem
escreve feito eu esgota o zumbido de seu ouvido, mata um a um os marimbondos, com agulha fina, nos olhos. Não posso ver trouxa frouxa, amarro até ficar dura.” (Prado, 2006).
Em prosa, Adélia Prado mantém os temas recorrentes de sua poesia: a vida
provinciana, a família e a religiosidade. Sua maneira de abordar os
pensamentos dos personagens é extremamente pessoal, embora nos remeta a
Clarice Lispector, sobretudo pelo uso da metalinguagem, recurso em que a
própria linguagem é utilizada como tema e conteúdo. Em
Manuscritos de
Felipa, Adélia homenageia essa escritora através das confabulações da
protagonista:
“Estou cheia de amor, por isso não excluo esta palavra
excrescente, armário maior que o cómodo. Agora imitei a Lispector. Meu
aperto é que urge ser eu mesma, não posso ficar imitando, ainda que
enquanto humanos somos um só, senão como ia entender livro dela que
parece tudo, menos livro?” (1999). De passagem, vale dizer que Clarice
esteve presente no lançamento de
Bagagem, cerca de um ano antes de seu
falecimento.
Um ponto de grande destaque na trajetória de Adélia Prado foi o monólogo
Dona Doida: um interlúdio, encenado, em 1987, por
Fernanda Montenegro, a
atriz mais consagrada do Brasil. O espetáculo foi organizado em blocos
por
Naum de Souza, “nos quais se apresenta perfeitamente o ser que está
dentro da poesia de Adélia”. Esse espetáculo é emblemático pelo facto de
lançar luz a um dos pontos mais significativos de sua literatura: seu
caráter dramático, litúrgico e oral, como bem enfatizado por
Fernanda
Montenegro:
“Há poetas que devem ser lidos em silêncio, ou melhor, todos
os poetas devem ser lidos em silêncio. Mas alguns são muito vigorosos
quando verbalizados, ditos em voz alta” (Montenegro, p. 13). Por isso,
ao longo de sua vida literária, Adélia disseminou sua palavra ao ler
seus poemas em centenas de eventos pelo país, mantendo sua tradição pela
liturgia, pelo culto e canto. Gravou os registos
O escritor por ele
mesmo: Adélia Prado (1999), pelo Instituto Moreira Salles, em K7, e os
CDs
O tom de Adélia (2000) e
O sempre amor (2003), pelo selo Karmin, de
Belo Horizonte.
Independentemente da forma empregada por Adélia, seus assuntos são
sempre os mesmos. Em entrevista, ela foi categórica:
“Nunca vou falar de
outra coisa a não ser morte, amor e Deus. Só me ocupo disso. Considero
que nesta trindade cabem o Afeganistão, as torres gémeas, a política, a
velhice, a mística, a raiva, o medo, o humano, enfim” (Prado, 2001). No
entanto, a cada título da autora esses temas são encenados por outras
vozes que estabelecem novos diálogos com a tradição, a cultura popular e
com sua própria obra.
(Daqui)