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domingo, 17 de novembro de 2019

"Maria Lisboa" - Poema de David Mourão-Ferreira


Luís Dourdil, Varinas


Maria Lisboa



É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.

Em vez de corvos no xaile,
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira,
e nas velas o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa. 


David Mourão-Ferreira,
In Obra Poética


Mariza - Maria Lisboa

Composição / Music by: David Mourão-Ferreira / Alain Oulman 


sábado, 12 de outubro de 2013

"Barco Negro" - Poema de David Mourão-Ferreira



Frederik Sødring (Danish landscape painter, 1809–1862), 'The Chalk Cliffs at Møn', 1831. 



Barco Negro


De manhã temendo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia,
mas logo os teus olhos disseram que não
e o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
e o teu barco negro dançava na luz;
vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
Dizem as velhas da praia que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor
me diz que estás sempre comigo. 

No vento que lança areia nos vidros;
na água que canta, no fogo mortiço;
no calor do leito, nos bancos vazios;
dentro do meu peito estás sempre comigo.


David Mourão-Ferreira


Barco Negro - Mariza (Concerto em Lisboa)


sábado, 24 de dezembro de 2011

"Há palavras que nos beijam"- Poema de Alexandre O’Neill




Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas Inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.




Mariza - Há palavras que nos beijam


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

"Poema à Mãe" - Eugénio de Andrade



Robert Duncan (American artist, b. 1952) 


Poema à Mãe 


No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
Era uma vez uma princesa 
no meio de um laranjal... 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 


in "Os Amantes Sem Dinheiro"


Rui Veloso e Mariza - Não queiras saber de mim

  

 
 
Não queiras saber de mim


Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate 
Pior do que eu não há 
Fico fora de combate 
Como se chegasse ao fim 
Fico abaixo do tapete 
Afundado no serrim 

Não queiras saber de mim 
Porque eu estou que não me entendo 
Dança tu que eu fico assim 
Hoje não me recomendo 

Mas tu pões esse vestido 
E voas até ao topo 
E fumas do meu cigarro 
E bebes do meu copo 
Mas nem isso faz sentido 
Só agrava o meu estado 
Quanto mais brilha a tua luz 
Mais eu fico apagado 

Dança tu que eu fico assim 
Porque eu estou que não me entendo 
Não queiras saber de mim 
Hoje não me recomendo 

Amanhã eu sei já passa 
Mas agora estou assim 
Hoje perdi toda a graça 
Não queiras saber de mim 




Rui Veloso / Luz Casal - Inesperadamente

  

terça-feira, 25 de outubro de 2011

"Floriram por engano as rosas bravas" - Poema de Camilo Pessanha


Rosas


Floriram por engano as rosas bravas


Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze — quanta flor! —, do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?


Camilo Pessanha, in Clepsidra, 
Lisboa: Relógio d'Água, 1995
 

Mariza - Rosa Branca 


"Imaginar o homem como um ser pacífico é completamente impossível. O homem é o único animal que tortura os seus semelhantes, razão pela qual não merecemos muito respeito como espécie." - José Saramago, in Agência Efe, Dezembro 2006
 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"Poema da malta das naus" - António Gedeão



Simon Glücklich (Austrian painter, 1863–1943), 'Boy with sailing boat'.
Oil on canvas, Private collection.


Poema da malta das naus


Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo,
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pelo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
Com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres. 

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores. 

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal. 
 

António Gedeão
,
in 'Teatro do Mundo', 1958



Mariza - Barco Negro



“Os ventos que às vezes tiram algo que amamos, são os mesmos que nos trazem algo que aprendemos a amar. Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado e sim, aprender a amar o que nos foi dado. Pois tudo aquilo que é realmente nosso, nunca se vai para sempre.” — Bob Marley 
 

[Bob Marley (Nine Mile, 6 de fevereiro de 1945 — Miami, 11 de maio de 1981), foi um cantor, guitarrista e compositor jamaicano, o mais conhecido músico de reggae de todos os tempos, famoso por popularizar o género. Grande parte do seu trabalho lidava com os problemas dos pobres e oprimidos.]